UOL Notícias Internacional
 

19/04/2006

Apetite da China por petróleo é prioridade na agenda dos EUA

The New York Times
David E. Sanger

em Washington
A competição pelo acesso ao petróleo está ocupando lugar de destaque na agenda relativa à visita do presidente Hu Jintao à Casa Branca nesta semana.
O presidente Bush afirmou que uma das razões para a elevação do preço do petróleo é a demanda chinesa pelo produto, e Washington advertiu Pequim para que não tente "engessar" os suprimentos globais.

Com o barril de petróleo custando mais de US$ 70 e os motoristas norte-americanos pagando US$ 3 por galão de gasolina (o equivalente a cerca de R$ 1,65 por litro), as autoridades do governo dizem que não há como evitar o assunto na reunião da próxima quinta-feira no Salão Oval da Casa Branca, ao contrário do que ocorreu na visita de Bush a Pequim no outono passado, quando o assunto foi colocado de lado.

O apetite da China por petróleo também afeta a posição do país com relação ao Irã, cuja crescente confrontação com os Estados Unidos devido à questão dos programas nucleares já desestabilizou os mercados de petróleo. A China investiu pesadamente no Irã, e como membro permanente do Conselho de Segurança, a sua posição quanto à questão das sanções é crucial.

Enquanto Hu pousava em Seattle na terça-feira (18/04), negociadores chineses e norte-americanos já debatiam uma proposta para que os dois presidentes anunciassem um estudo conjunto sobre as necessidades energéticas de ambas as nações como forma de evitar conflitos nas próximas décadas, à medida que o rápido aumento da necessidade da China de obtenção de energia importada puder colidir com as necessidades de Estados Unidos, Europa e Japão.

Em 2004 a China usou cerca de 6,5 milhões de barris diários de petróleo e superou o Japão como o segundo maior usuário de produtos derivados do petróleo. O maior usuário, os Estados Unidos, consomem cerca de 20 milhões de barris diariamente.

O foco do governo norte-americano na busca de mais petróleo por parte da China foi sinalizado quando a administração publicou uma Estratégia de Segurança Nacional revisada no mês passado, e aprovada por Bush, que continha um novo tópico importante a respeito da China.

"Os líderes daquele país estão expandindo o comércio, mas agem como se, de alguma forma, pudessem "engessar" os suprimentos de energia no mundo, ou dirigir os mercados, em vez de abri-los, como se fossem capazes de seguir um mercantilismo emprestado de uma era desacreditada", criticou o documento.

O mercantilismo foi uma doutrina pós-feudal para aquisição de harmonia econômica nacional por meio do protecionismo, do comércio internacional e das exportações, mas as autoridades norte-americanas têm utilizado o termo repetidamente para descrever a China, assim como o usaram na década de 1980 para definir a abordagem do Japão com relação ao comércio global.

No caso da China, o termo está sendo cada vez mais usado para pintar um quadro de uma versão do século 21 do Grande Jogo, a manobra do século 19 para a obtenção da supremacia na Ásia Central. Segundo este quadro, a busca de petróleo por parte da China se mistura ao seu desejo de garantir uma maior influência na África, na América Latina e no Oriente Médio.

"Eles estão comprando reservas de longo prazo onde quer que sejam capazes de encontrá-las, incluindo em lugares inóspitos como o Sudão, o Irã e Burma, onde nós não compramos", explica Michael J. Green, professor da Universidade Georgetown que dirigiu a política relativa à China no Conselho de Segurança Nacional até o final do ano passado. "Eles alegam que a iniciativa é benigna, já que ela não interfere com os assuntos internos das outras nações. E nós afirmamos que isso não tem nada de benigno, porque tais ações financiam o mau comportamento desses regimes".

A discussão pública teve início em setembro do ano passado, quando o vice-secretário de Estado, Robert B. Zoellick, solicitou à China que se tornasse uma "acionista responsável" no cenário mundial. Ele sugeriu que a China repensasse a sua política de aquisição de petróleo de Burma ou do Sudão simplesmente porque o produto está disponível nestes países.

"O envolvimento da China com países problemáticos indica, na melhor das hipóteses, uma falta de visão no que diz respeito às conseqüências, e na pior das hipóteses algo de mais nefasto", afirmou Zoellick à época.

Não obstante, as autoridades chinesas afirmaram ter apreciado grande parte desse comentário porque ele sugeriu uma igualdade entre a China, como potência emergente, e os Estados Unidos, como potência consolidada. Até o momento, no entanto, as autoridades chinesas não responderam à solicitação de Washington para que repensassem essa política.

Em uma entrevista na terça-feira, Zoellick disse que não teve a intenção de sugerir que o governo Hu estaria deliberadamente tentando canalizar o petróleo dos mercados mundiais para a China, mas sim que a enorme burocracia chinesa do setor de energia está seguindo essa rota em uma resposta aos comandos para que mantenha a economia crescendo.

Durante a visita de Hu, ele disse: "Estamos procurando fazer com que eles abandonem uma perspectiva estreita e reconheçam que juntos precisamos expandir as fontes de energia, incluindo aquelas alternativas ao gás e ao petróleo, e aumentar a eficiência".

A questão provavelmente assumirá contornos particulares em relação ao Irã. A Sinopec, a gigantesca empresa petrolífera estatal chinesa, assinou um contrato de US$ 70 bilhões com os iranianos em novembro de 2004 para explorar o campo petrolífero de Yadavaran. O Departamento de Energia dos Estados Unidos acredita que este campo poderá produzir até 300 mil barris diários.

As autoridades afirmam que o interesse da China em garantir que esse investimento se mantenha saudável é um dos motivos pelo qual o país se recusou a apoiar sanções contra o Irã devido ao fato de este país ter desafiado o Conselho de Segurança da ONU no que diz respeito ao programa de enriquecimento de urânio conduzido por Teerã.

Uma autoridade graduada do governo norte-americano, falando aos repórteres na Casa Branca na última segunda-feira, sob a condição de que o seu nome não fosse publicado, afirmou: "Creio que os chineses começaram a perceber que precisamos nos manter firmes quanto à questão do programa nuclear iraniano".

Mas duas outras autoridades disseram ter dúvidas com relação a isso, e afirmaram que as preocupações da China a respeito dos seus suprimentos de petróleo se constituíram em um dos motivos para que o presidente Bush rejeitasse quaisquer sanções contra o Irã que tivesse como alvo o setor petrolífero iraniano.

"Fazer com que os chineses lidem com a questão do Irã será um dos maiores testes para determinar se faremos progressos nesta área", afirmou uma das autoridades, que está se preparando para a reunião entre Hu e Bush no Salão Oval.

Especialistas externos advertem que essa competição pode estar sendo exagerada.

"Sinto que há uma diversidade de visões sobre esta questão entre os chineses com os quais conversei, e alguns deles estão questionando essa política mercantilista", afirmou Elizabeth C. Economy, do Conselho de Relações Exteriores, e autora do livro "The River Runs Black" (literalmente, "O Rio Corre Negro"), um estudo do impacto ambiental do crescimento da China.

"Se a China está determinada a continuar crescendo nesse ritmo, eles precisarão adotar formas bem mais eficientes de usar a energia", disse ela, ressaltando um ponto que Bush tem frisado repetidamente nas últimas semanas.

Bates Gill, especialista em questões chinesas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington, alertou recentemente: "Os Estados Unidos vêm tendendo, até o momento, a exagerar excessivamente a questão da energia em meio à nossa sempre desesperada procura por um outro grande competidor com o qual possamos comprar uma briga".

Com vastas reservas de carvão, a China importa apenas cerca de 12% da sua energia, observou Gill. O país está expandindo rapidamente a sua utilização de energia nuclear, embora a maior parte dos especialistas acredite que o país não seja capaz de atingir as suas metas de construção de novas usinas.

Os assessores de Bush retrucam, no entanto, que o crescimento do mercado automobilístico chinês está causando uma disparada da importação de petróleo. O Departamento de Energia calcula que a demanda da China mais do que dobrará até 2025, chegando a 14,2 milhões de barris por dia. Mais de dois terços desse petróleo serão importados, estimou o departamento no ano passado. Atualmente os Estados Unidos importam cerca de 60% dos 20 milhões de barris de petróleo consumidos diariamente.

Tais números fizeram com que a Casa Branca encomendasse um estudo no ano passado sobre os efeitos políticos potenciais desse aumento da demanda.

Green, que deixou o Conselho de Segurança Nacional em dezembro, relembra uma visita de uma autoridade chinesa graduada que tentou explicar que a China estaria apenas procurando firmar contratos empresariais, e não tentando influenciar os países com os quais tem feito negócios.

"Ele usou o exemplo do Sudão e disse: 'Vejam bem, não nos importamos com assuntos internos como genocídio. Só nos preocupamos com o petróleo, porque precisamos desse recurso'".

"E eu retruquei: 'Olha, isso é mercantilismo'. E o tradutor chinês teve problemas para traduzir 'mercantilismo'. Eles tiveram uma grande discussão sobre este termo, e nós percebemos isso. E eles também discutiram bastante se, ao usar a palavra 'mercantilismo', eu estava me referindo a algo de bom ou de ruim", conta Green. Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host