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20/04/2006

Arquidiocese de Boston divulga arquivos e revela detalhes sobre abusos sexuais

The New York Times
Pam Belluck

em Boston
A Arquidiocese Católica de Boston divulgou os seus arquivos na quarta-feira (19/04), revelando aquilo que os especialistas e autoridades da Igreja afirmam ser a mais detalhada contabilidade já disponibilizada por qualquer diocese.

Os arquivos mostram que a arquidiocese tem um déficit de US$ 46 milhões, o maior já apresentado por uma diocese, segundo dois especialistas nacionais em finanças da Igreja.

A arquidiocese pagou mais de US$ 150 milhões em indenizações legais
relacionadas a acusações de abusos sexuais cometidos por padres.
Funcionários da arquidiocese disseram que planejam reduzir parte do déficit extinguindo 50 cargos administrativos, consolidando departamentos, reduzindo o número de secretários de gabinete e, o mais provável, vendendo mais bens e cortando programas.

O cardeal Sean P. O'Malley e outras autoridades deixaram claro que esperam também que a franqueza explícita nos relatórios inspire os fiéis a aumentarem as doações, que sofreram uma redução de vários milhões de dólares desde o início da crise dos abusos sexuais, em 2002.

"Creio que é bastante óbvio que a nossa situação é urgente e crítica", disse O'Malley em uma entrevista coletiva à imprensa. "A hemorragia que está ocorrendo na forma do déficit resultante dos gastos é algo com o qual precisamos lidar urgentemente".

O'Malley, que distribuirá panfletos sobre as finanças em cada paróquia,
disse: "Espero que, como resultado do relatório, divulgado poucas semanas antes da principal iniciativa anual da arquidiocese para arrecadação de verbas, as pessoas compreendam qual é o estado das nossas finanças, e como estamos usando o dinheiro, e tomara que desejem nos ajudar a dar continuidade à missão da Igreja".

O cardeal afirmou que um fator-chave para resgatar a confiança dos
paroquianos foi a divulgação das informações sobre os custos da crise dos abusos sexuais e as fontes do dinheiro utilizado para pagar as indenizações.

Embora membros da arquidiocese tenham reiterado que os acervos das paróquias e as doações não seriam utilizados para o pagamento de indenizações às vítimas dos abusos, alguns paroquianos permanecem céticos. Eles também não confiam nas promessas de que o dinheiro obtido com o fechamento de 62 das 357 paróquias na arquidiocese não financiará os acordos de indenizações.

A nova informação foi divulgada com o intuito de acabar com tais
preocupações. Os arquivos revelaram que até 30 de junho de 2005, um total de US$ 150,8 milhões foi gasto com a crise dos abusos sexuais, incluindo US$ 127,4 milhões em indenizações, US$ 8,8 milhões em aconselhamentos e programas de prevenção e US$ 8,3 milhões em custos legais e profissionais relacionados aos acordos judiciais.

Dessa cifra, US$ 68,8 milhões foram obtidos com a venda da residência do arcebispo e de outros prédios administrativos, e o restante com seguros e a venda de outras propriedades não relacionadas às paróquias que foram fechadas.

"Houve muita discussão a respeito das finanças da arquidiocese, e surgiram várias dúvidas e questões quanto a isso", afirmou O'Malley. "Não estamos tentando esconder nada da população. Não estamos procurando enganá-la. O que estamos tentando fazer é usar os recursos limitados dos quais dispomos para cumprir a missão da Igreja, e queremos que as pessoas participem deste projeto".

O cardeal e os líderes leigos dos comitês que ele designou para examinar as finanças e propor investimentos caracterizaram a situação como séria, mas não irreversível. Eles disseram que a causa dos problemas não reside, por si, nos acordos para indenização, mas sim no declínio das doações como resultado da crise dos abusos sexuais, nos fundos de pensão prejudicados pelo declínio dos preços das ações, nos custos cada vez mais altos dos planos de saúde para os padres e na dispendiosa manutenção de antigos prédios das paróquias.

"Estamos em uma difícil posição financeira", disse John H. McCarthy, um
contador que liderou o comitê que preparou os relatórios. Os arquivos cobrem o período de 1º de julho de 2003 a 30 de junho de 2005. Ele disse que a maior dívida é referente a US$ 135 milhões em pensões para os clérigos, destituídas de fundos.

James F. O'Connor, um banqueiro que liderou a organização e o comitê de
revisão de gerenciamento, disse que a gerência da arquidiocese precisa
passar por "uma reforma substancial" e afirmou que espera que a Igreja possa obter um orçamento equilibrado em 18 meses.

Charles Zech, professor de economia da Universidade Villanova, disse que este pode ser um cenário excessivamente otimista.

"Para mim, 18 meses soa como um período relativamente curto", observou Zech. "Um déficit operacional de US$ 46 milhões é muito alto, até mesmo para uma diocese grande como a de Boston".

Francis J. Butler, presidente da organização Fundações e Doadores
Interessados em Atividades Católicas, disse acreditar que esse déficit é maior do que o de qualquer outra diocese.

"Se eles restaurarem a confiança dos doadores comuns nas suas políticas, ficarei otimista quanto à possibilidade de que sejam capazes de resolver esse problema", afirmou Butler.

Butler e Zech disseram ter ficado impressionados com a magnitude da abertura dos arquivos, que incluiu não só a divulgação das operações centrais, mas também daquelas de 43 entidades afiliadas, como escolas e instituições de caridade católicas. Danilo Fonseca

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