UOL Notícias Internacional
 

21/04/2006

Apesar da repressão, protestos crescem no Nepal

The New York Times
Somini Sengupta*

em Katmandu, Nepal
O governo real lutou para impedir uma onda de protestos pró-democracia na quinta-feira (20/4). Mesmo assim, ela rompeu como um carnaval em alguns lugares e com violência em outros. Enquanto isso, emissários do aliado mais vital do Nepal, a Índia, reuniram-se com o rei Gyanendra em um esforço para resolver o impasse político crescente.

As manifestações, que o governo tentou reprimir com um toque de recolher rígido de 18 horas, reuniram dezenas de milhares de manifestantes em comícios grandes e pequenos em torno do centro da cidade altamente fortificado.

O evento mais mortífero foi ao meio dia, no bairro de Kalanki, onde forças de segurança atiraram contra os manifestantes, matando três pessoas e ferindo até 100, de acordo com funcionários de dois hospitais da cidade onde os feridos foram atendidos. Dois dos mortos parecem ter sido baleados na cabeça, segundo um funcionário do hospital.

O confronto ocorreu no 15º dia de protestos promovidos pela coalizão dos sete maiores partidos políticos do Nepal, exigindo a restauração do governo parlamentar. Durante os protestos, homens e mulheres reuniram-se em torno de rádios portáteis antecipando a notícia do palácio que poderia evitar a crise, mas que não veio.

Enquanto manifestações violentas inquietavam o país, o rei reiterou seu pedido por diálogo com os partidos políticos. Estes, enquanto isso, prometeram continuar a agitação até que ele restaurasse o parlamento, suspendido no início do ano passado, e abdicasse do controle do governo.

"Somos um povo do século 21", gritou Prakash Muni Dahal, 60, professor que violou o toque de recolher para unir-se às multidões nas ruas. "Vamos dominar nosso país."

Em torno dele, manifestantes barulhentos em um bairro chamado Chabahil queimaram um retrato do rei e clamaram por sua queda. "Gyaney!" gritaram, usando o diminutivo de seu nome, o que era impensável aqui no último reinado hindu. "Enforquem-no!"

Depois de uma reunião com o rei na quinta-feira de manhã, Karan Singh, filho de um ex-marajá e parente por casamento da família real nepalesa, sugeriu que um acordo era iminente.

"Agora a bola está na quadra do rei", disse o enviado especial do governo indiano em sua volta a Nova Déli, de acordo com a Reuters. "Tenho esperança que muito em breve ele fará algum tipo de anúncio que ajudará a aliviar a situação consideravelmente."

O governo pareceu fazer esforços para impedir qualquer um de ver, ouvir, cheirar ou chegar perto demais do descontentamento popular.

Representantes do Escritório do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU em Katmandu disseram ter sido impedidos de fazer o monitoramento de rotina das manifestações. O escritório chamou as restrições de "clara violação" de seu acordo com o governo.

Jornalistas não receberam licença para transitar pela cidade durante o toque de recolher. A polícia, porém, preocupada com os manifestantes, ignorou o requerimento do passe em alguns locais.

Nenhum diplomata estrangeiro ou membro do Comitê Internacional da Cruz Vermelha pôde mover-se livremente pelas ruas. Havia menos ambulâncias do que de costume na quinta-feira, apesar do grande número de incidentes registrados.

"Isso mostra que o governo está realmente com medo", disse Sudarshan Rimal, 27, funcionário de um restaurante, atrás do portão de sua casa, enquanto policiais e soldados vigiavam os dois lados da rua Ring, que circunda o centro da cidade. "Não era necessário impor um toque de recolher de 18 horas. As pessoas estão fazendo um movimento pacífico."

À noite o governo anunciou que ia estender o toque de recolher por outras sete horas.

O Nepal teve uma experiência espasmódica com a democracia desde que realizou eleições parlamentares em 1990. Em 2002, com uma insurgência maoísta nas montanhas e políticos lutando entre si em Katmandu, o primeiro-ministro eleito dissolveu o parlamento, e as eleições foram adiadas. Vários primeiros-ministros foram nomeados e demitidos pelo rei. O último foi deposto em fevereiro de 2005, quando Gyanendra assumiu o controle total e prometeu pôr fim à insurgência.

Estima-se que 13.000 nepaleses foram mortos no conflito, a maior parte durante o mandato de cinco anos de Gyanendra. Em uma virada política astuta, maoístas e partidos políticos uniram-se em um esforço para derrubar o controle do governo pelo rei. Os rebeldes deram suas bênçãos aos protestos das últimas duas semanas.

Os protestos prejudicaram a vida na capital. Há pouco combustível, os preços dos vegetais deram um salto e o movimento de caminhões para Katmandu está congelado há duas semanas. Ruas de vários bairros estão cobertas de tijolos, e o mau cheiro de pneus recém queimados -e às vezes carros inteiros- permeia o ar.

Um dentista disse que não pôde ir ao consultório em duas semanas. Um professor universitário disse que não pôde dar aulas. Turistas na quinta-feira tiveram que levar suas malas pelas ruas, esperando um ônibus turístico que os levasse ao aeroporto.

A quinta-feira começou com uma calma estranha. O toque de recolher deixou lojas fechadas, pessoas dentro de casa e policiais e soldados guardando as ruas. Muitos cães passeavam livremente pelas ruas cobertas de lixo.

Em um subúrbio, Gongabu, ouvia-se apenas corvos e galos até que, lentamente, em torno do meio dia, pequenos grupos de manifestantes marcharam por ruas estreitas, gritando lemas de democracia e empunhando bandeiras. Forças de segurança rapidamente expulsaram uma equipe de jornalistas estrangeiros. A polícia correu para selar as vielas que se enchiam de manifestantes.

No leste, uma multidão bem maior, de 50.000 a 70.000 pessoas, segundo estimativas, dirigia-se para a altamente policiada rua Ring, batendo palmas, cantando e batucando em garrafas de água vazias. Dos telhados e janelas abertas vieram aplausos e ocasionalmente água para refrescar a multidão.

O ambiente no bairro de Chabahil parecia mais de festa feliz do que de confronto raivoso. A multidão foi se aproximando da linha de polícia. Um boneco representando o rei foi incendiado. Alguns policiais riram.

"Ele quer todo o poder", disse o professor desiludido Yam Khatri, 41, sobre o rei. Khatri foi um dos que acreditaram que a tomada de poder pelo rei traria paz, mas disse que estava errado. "Ele não parece se preocupar com as pessoas", concluiu.

Os homens do rei não foram tão controlados em Kalanki, no oeste. Em torno do meio dia, com o início dos protestos, forças de segurança apontaram seus rifles e atiraram por cima das cabeças dos manifestantes. Então, em circunstâncias ainda obscuras, um manifestante foi morto em um telhado. Um jornalista nepalês que viu o incidente disse que um superintendente de polícia tinha mirado nos manifestantes e começou a atirar, matando o homem no telhado.

Quando o corpo foi levado embora em uma minivan que servia de ambulância, as pessoas na multidão expressaram revolta, gritando e depois jogando tijolos dos telhados contra a polícia, em rápida retaliação. A polícia lançou os tijolos de volta, atirou com tiros de borracha e usou gás lacrimogêneo. O confronto continuou por horas noite adentro.

A Sociedade da Cruz Vermelha do Nepal disse que atendeu 293 feridos em Katmandu na quinta-feira.

* Tilak P. Pokharel e Tomas van Houtryve contribuíram para este artigo Deborah Weinberg

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