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21/04/2006

Estados Unidos reprimem contratação de imigrantes ilegais

The New York Times
Eric Lipton

em Washington
A detenção na quarta-feira de mais de 1.100 imigrantes ilegais empregados de uma companhia fornecedora de paletes de transporte com sede em Houston, assim como de sete dos seus gerentes, representou o início da mais agressiva operação federal de repressão aos patrões, disse na quinta-feira (20/04) o secretário de Segurança Interna, Michael Chertoff.

Descrevendo a contratação de milhões de trabalhadores ilegais em alguns casos como uma forma de crime organizado, Chertoff disse que o governo procuraria combater esta prática com técnicas similares àquelas usada para desmantelar a Máfia.

"Nós assinalamos essas organizações, usamos operações de inteligência para definir a amplitude de suas ações, e depois utilizamos todos os instrumentos de que dispomos - seja o aparato de repressão ao crime ou as leis de imigração - para garantirmos a ação mais dura possível, a fim de quebramos a espinha dorsal desses grupos", disse Chertoff em uma entrevista coletiva à imprensa. A coletiva ocorreu apenas alguns dias antes de o Senado voltar a se reunir e, talvez, reiniciar um debate sobre uma ampla reforma das leis de imigração. No início deste mês, o Senado fracassou nos seus esforços no sentido de desenvolver uma proposta que teria proporcionado à maioria dos imigrantes ilegais uma chance de se tornarem cidadãos, intensificando, ao mesmo tempo, as iniciativas para o patrulhamento das fronteiras e as deportações. E, nas últimas semanas, centenas de milhares de imigrantes e seus apoiadores realizaram manifestações em resposta a uma lei aprovada na Câmara em dezembro que apressaria o processo de deportação, tornaria mais rigorosa a segurança nas fronteiras e criminalizaria os imigrantes ilegais.

Na última quarta-feira, autoridades federais detiveram 1.187 imigrantes ilegais empregados em 26 Estados pela IFCO Systems North America, uma subsidiária de uma companhia com sede na Holanda, que fornece contêineres de plástico e paletes de madeira, usados para o transporte de uma variedade de produtos, desde frutas até computadores.

Dentre os 1.187 trabalhadores detidos, 275 já foram deportados para o México. Os outros estão sendo processados para que sejam deportados, embora muitos possam ser libertados mediante pagamento de fiança.

Autoridades do Departamento de Segurança Interna disseram que os supervisores da companhia contrataram imigrantes, mesmo sabendo que estes eram ilegais, forneceram a alguns deles moradia e transporte entre a casa e o trabalho, e chegaram até mesmo a pagar um agente que atuava secretamente para obterem documentos de identidade fraudulentos.

Uma análise da folha de pagamento da companhia, que possui 5.800 funcionários, revelou que um pouco mais da metade deles possuía números do Social Security inválidos, pertencentes a pessoas mortas ou que não correspondiam aos nomes constantes nos arquivos.

A investigação teve início em fevereiro de 2005, quando agentes receberam uma denúncia de que trabalhadores da IFCO em Guilderland, Estado de Nova York, foram vistos rasgando formulários federais de verificação de emprego para fins tributários, e a seguir um gerente da empresa explicou que eles eram imigrantes ilegais que não pretendiam obter devoluções do imposto de renda.

Nenhum alto executivo da companhia foi detido, mas as autoridades formalizaram acusações criminais contra sete gerentes de baixo escalão e um capataz. Os supervisores, de Nova York, Texas, Ohio e Massachusetts foram acusados de conspiração para transportar, abrigar e induzir imigrantes ilegais a virem para os Estados Unidos, acusações que implicam em penas de até dez anos de prisão.

Chertoff deixou claro que a investigação está em andamento e que outras acusações serão feitas, deixando aberta a possibilidade de uma ação contra a companhia. No ano passado, a Wal-Mart pagou uma multa de US$ 11 milhões, após ter sido acusada de contratar conscientemente imigrantes ilegais que trabalhavam como limpadores de pisos por intermédio de uma empreiteira independente. A multa superou a somatória de todas as multas administrativas aplicadas nos oito anos anteriores.

Uma porta-voz da IFCO Systems, cujas vendas totais no mundo, no ano passado, foram de US$ 576 milhões, e cuja lista de clientes inclui companhias como a Dell, os supermercados Winn Dixie e as lojas Target, não respondeu às mensagens deixadas na sua secretária-eletrônica ou no seu telefone celular.

Como parte de uma campanha contra as contratações ilegais, Chertoff e Julie L. Myers, secretária assistente da Agência de Imigração e Alfândega, pretendem contratar mais 171 agentes para fiscalizarem os locais de trabalho. Atualmente existem cerca de 325 desses agentes. Eles também solicitaram ao Congresso a autoridade legal para obter acesso rotineiro aos registros de Social Security a fim de identificarem as companhias nas quais grandes números de novos empregados apresentam números falsificados.

Além disso, o departamento está adicionando 20 equipes especiais de investigadores, para contar com um total de 52, a fim de procurar cerca de 590 mil imigrantes que ignoraram a ordem para partir e que permanecem no país. O departamento também está trabalhando em conjunto como autoridades estaduais e municipais para tentar identificar e, se possível, deportar vários dos cerca de 630 mil indivíduos nascidos no exterior que foram presos por terem cometido crimes.

Segundo o departamento foram formalizadas 127 sentenças criminais no ano passado - comparadas a 46 no ano anterior - contra patrões que contrataram conscientemente imigrantes ilegais.

Bill Bernstein, vice-diretor do Mosaic Family Services, um grupo sem fins lucrativos em Dallas que trabalha com famílias de refugiados e imigrantes, disse que simplesmente deter os trabalhadores que podem estar aqui ilegalmente não é uma solução para o problema da imigração.

"Existe um motivo pelo qual essas pessoas estão fazendo tal trabalho:
existem muitas tarefas neste país que os norte-americanos não querem fazer", disse ele.

Bernstein disse que o momento em que as prisões foram anunciadas provavelmente não se tratou de uma coincidência. "A razão pela qual isto está sendo feito agora é o desejo de projetar uma imagem politicamente boa", acusa ele. "O governo quer deixar claro que possui um lado repressor, assim como um lado anistiador".

Michael W. Cutler, ex-agente federal de imigração e membro do Centro de Estudos de Imigração, um grupo de pesquisas que apóia leis de imigração mais rígidas, disse que a blitz patrocinada por Chertoff teve mais um efeito no campo das relações públicas do que no dos efeitos concretos.

"Tudo o que eles estão fazendo é lacrar as janelas de um prédio que está condenado", disse ele.

Segundo Cutler, mesmo com agentes adicionais, o departamento ainda contará com pouquíssimas leis para reprimir a imigração ilegal.

Exceto por um pequeno programa piloto, Chertoff admitiu que o governo não apresentou uma nada no sentido de possibilitar que os grande empregadores verifiquem rapidamente a situação dos seus funcionários com respeito às leis de imigração. Isso torna difícil responsabilizar os patrões quando os empregados apresentam documentos que parecem legítimos.

"Temos que admitir, a partir de tudo isso, que precisamos fornecer aos empregadores as ferramentas necessárias para que eles verifiquem se a situação dos seus funcionários é legal", disse Chertoff. Danilo Fonseca

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