UOL Notícias Internacional
 

21/04/2006

Premier iraquiano diz que está disposto a deixar o cargo

The New York Times
Kirk Semple e Richard A. Oppel Jr.

em Bagdá, Iraque
Sob intensa pressão doméstica e americana, o primeiro-ministro Ibrahim Al Jaafari abandonou sua intenção de permanecer no cargo na quinta-feira, removendo um grande obstáculo para a formação de um novo governo durante um momento de crescente violência sectária.

Os líderes de cada uma das principais facções do Iraque, os árabes sunitas, árabes xiitas e curdos, saudaram publicamente a decisão, a chamando de um avanço.

"Eu acredito que teremos sucesso na formação do governo de unidade nacional que as pessoas estão esperando", disse Adnan Pachachi, o presidente do Parlamento, em uma coletiva de imprensa realizada no Centro de Convenções situado no interior da fortificada Zona Verde.

Mas apesar da capitulação de Al Jaafari de fato poder resolver o atual impasse, enormes desafios políticos aguardam os líderes enquanto disputam os altos postos remanescentes e enquanto o governo busca ressuscitar um moribundo setor civil e restaurar a confiança na liderança pública.

Além disso, os prováveis candidatos para substituir Al Jaafari carecem de estatura política, levantando dúvidas sobre se serão mais eficazes do que ele na liderança de um governo em dificuldades em um momento de crescente violência.

Políticos xiitas mencionaram nos últimos dias dois possíveis substitutos para Al Jaafari: Jawal Al Maliki, um membro sem papas na língua e altamente visível do Parlamento, e Ali Al Adeeb, um antigo membro do partido e assessor de Al Jaafari.

Al Jaafari conquistou o cargo em fevereiro por um único voto em uma votação entre líderes políticos xiitas, em parte devido ao apoio de Muqtada Al Sadr, o clérigo antiamericano que controla o maior bloco de cadeiras na aliança principal. Mas esta nomeação provocou um maremoto de oposição entre os árabes sunitas, curdos, políticos seculares e até mesmo alguns xiitas, que disseram que ele fracassou em melhorar os serviços ou conter a violência.

Os líderes do bloco xiita, a Aliança Iraquiana Unida, se reuniu durante todo o dia para escolher novos candidatos; como o maior bloco no Parlamento, a aliança tem o direito constitucional de nomear o primeiro-ministro. Os membros disseram que uma reunião de todos os eleitos -130 deputados- foi convocada para sábado, assim como uma reunião do Parlamento composto por 275 membros.

O presidente Jalal Talabani, um curdo, sugeriu em uma coletiva de imprensa conjunta com outros líderes que os blocos de oposição não se oporão ao próximo indicado dos xiitas.

Não ficou claro na quinta-feira o motivo para Al Jaafari ter cedido, especialmente após ter prometido na quarta-feira em termos claros que não desistiria de sua indicação. Mas a pressão externa certamente teve um papel.

Ashraf Qazi, o principal emissário da ONU no Iraque, se reuniu na quarta-feira com o grão-aiatolá Ali Al Sistani, o mais influente clérigo xiita do país, para pressionar pela necessidade dos políticos xiitas resolverem o impasse em torno do primeiro-ministro.

Os xiitas também ficaram sob intensa pressão do governo americano para solução da disputa, incluindo uma visita da secretária de Estado, Condoleezza Rice, no início deste mês. As autoridades americanas fizeram lobby para que os xiitas substituíssem Al Jaafari devido ao seus laços estreitos com Al Sadr, que conta com a lealdade de uma milícia vasta e imprevisível, e seu relacionamento com o Irã, onde viveu por muitos anos no exílio.

Em uma carta para a aliança xiita, que foi lida em uma coletiva de imprensa por um funcionário do Partido Islâmico Dawa de Al Jaafari, o primeiro-ministro disse que estava deixando a questão da indicação para o bloco xiita. "Eu devolvo a escolha para vocês para que tomem a medida que considerarem apropriada", ele disse. A aliança pode optar por reafirmar sua indicação, mas líderes de todo o espectro político disseram que isto é altamente improvável.

Em um discurso para a nação televisionado no fim de noite, Al Jaafari disse que não queria impedir o progresso da aliança. "Eu não posso aceitar ser uma barreira ou parecer uma barreira", ele disse.

Algumas autoridades especularam que os xiitas podem ter cedido diante da ameaça dos blocos árabe sunita, curdo e independente de formarem uma coalizão maior para ter o direito de escolher um primeiro-ministro. Mas apesar de compartilhares a desaprovação por Al Jaafari, os curdos e árabes sunitas têm desentendimentos profundos que tornariam a possibilidade de uma aliança extraordinariamente difícil, incluindo a insistência dos curdos de tomar Kirkuk e remover os árabes que foram assentados lá sob Saddam Hussein.

Mahmoud Othman, um membro do Parlamento e alto membro da aliança política curda, disse que parece que a liderança clerical xiita em Najaf, particularmente Al Sistani, forçou a decisão de Al Jaafari.

"Jaafari resistiu enquanto pôde, mas ele chegou a um ponto onde não podia resistir mais devido à pressão que veio de Najaf", ele disse.

A possibilidade mais provável é a de que o bloco escolherá outro candidato do partido político de Al Jaafari, o Partido Islâmico Dawa, segundo Khalid Al Atiya, um membro independente do bloco. Vários dias atrás, os líderes xiitas concordaram que o Dawa poderia indicar um candidato se retirasse a candidatura de Al Jaafari.

Além de Al Maliki e Al Adeeb, Haider Al Abadi, um alto assessor de Al
Jaafari e um ex-ministro das telecomunicações sob o Conselho de Governo
Iraquiano, despontou como um candidato potencial na quinta-feira, após o anúncio de Al Jaafari.

Vários líderes políticos disseram que o candidato mais viável parece ser Al Adeeb, apesar de não ser tão conhecido quanto Al Maliki. "Eu não sei muito a respeito dele e muitas pessoas não sabem muito sobre ele", disse Pachachi, um árabe sunita secular.

Othman disse que Al Adeeb "parece mais aceitável para a maioria das pessoas".

Em uma coletiva de imprensa conjunta na quinta-feira, na qual estavam
presentes políticos proeminentes representando os blocos xiita, árabe
sunita, curdo e independente, o sentimento estava um pouco mais otimista do que no recente debate político.

"Nós achamos que esta é uma mudança notável na posição do dr. Jaafari para resolver esta crise e agora a bola está na quadra da Aliança Iraquiana Unida", disse Tariq Al Hashemi, o chefe do maior bloco sunita, a Frente do Consenso Iraquiano.

Mas longe dos microfones, os líderes políticos alertaram que outras disputas os esperam adiante, incluindo a briga por um candidato aceitável para ser o presidente da Assembléia Nacional.

A primeira ação do Parlamento em sua próxima sessão provavelmente será a escolha de seu presidente e seus dois vices; a aprovação exige a maioria absoluta. O posto deverá ir para um árabe sunita e, na quinta-feira, a Frente do Consenso Iraquiano votou pela indicação de Mahmoud Al Mashhadani para o cargo, disse o próprio em uma entrevista por telefone.

Mas dois importantes políticos curdos disseram em entrevistas na
quinta-feira que Al Mashhadani não é aceitável. "Nós somos contrários a ele. Nós o consideramos muito ideólogo e extremista", disse Othman. "Nós preferimos alguém mais moderado."

Al Mashhadani era considerado um candidato de compromisso pelos sunitas, que queriam indicar Al Hashemi. Mas os xiitas consideraram Al Hashemi sectário demais e ele deixou a disputa vários dias atrás.

Na coletiva de imprensa conjunta, Al Hashemi disse que sua disposição de desistir deve encorajar a aliança xiita a agir rapidamente. "Os candidatos devem contar com a concordância de todos os blocos políticos que venceram nas eleições, e por este motivo eu respondi", ele disse.

Após a escolha de seu presidente, o Parlamento deverá eleger o presidente iraquiano e dois vice-presidentes por uma votação de dois terços, segundo a Constituição. Talabani deverá manter seu cargo e as duas outras vagas irão para um árabe xiita e sunita. Al Mashhadani disse que o bloco sunita indicou Al Hashemi para uma das vice-presidências na quinta-feira. Adel Abdul Mahdi, o político xiita que perdeu para Al Jaafari na votação interna, deve ser o candidato xiita à vice-presidência.

Depois disto, o presidente terá 15 dias para pedir ao indicado a
primeiro-ministro para que forme um Gabinete, e o primeiro-ministro terá por sua vez 30 dias para nomear os membros. Cada candidato deve ser aprovado individualmente pela maioria absoluta do Parlamento.

Autoridades americanas e iraquianas disseram que esperam que a formação de um governo unificado reduza a violência sectária que tem crescido no Iraque e levado a um aumento de mortes de civis iraquianos, policiais e soldados no últimos meses.

Na quinta-feira, seis picapes carregando homens armados em uniformes de
camuflagem invadiram duas livrarias em Bagdá e seqüestraram seis pessoas, segundo um funcionário do Ministério do Interior. Sete corpos, todos vítimas de morte ao estilo execução, foram encontrados em vários locais na capital, disse o funcionário.

As forças de segurança americanas e iraquianas continuaram sendo atacadas na quinta-feira. Uma bomba improvisada explodiu perto de um comboio da polícia em Yarmouk, um bairro de Bagdá, matando um civil e ferindo quatro policiais, disse o funcionário do Ministério do Interior. Um comboio militar americano em Bagdá foi atacado por uma bomba caseira, ferindo dois soldados e danificando seriamente um tanque, segundo o funcionário.

Em Kirkuk, um comboio pertencente a uma companhia de eletricidade, que
viajava entre Kirkuk e Tikrit, foi emboscado por rebeldes que disparavam metralhadoras e granadas propelidas por foguete, matando cinco pessoas, todas estrangeiras, e ferindo três outras, disse um policial em Kirkuk.

Em Basra, um carro-bomba matou dois civis e feriu cinco outros, incluindo três policiais de trânsito e um guarda de fronteira, disse a polícia.

Abdul Razzaq Al Saiedi contribuiu com reportagem em Bagdá para este artigo e funcionários iraquianos do "The New York Times", em Kirkuk e Basra. George El Khouri Andolfato

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