UOL Notícias Internacional
 

22/04/2006

Assustada com as incertezas e devastada pelo furacão, Nova Orleans vai às urnas

The New York Times
Adam Nossiter

Em Nova Orleans
Na semana passada, a Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês) alugou quatro ônibus em Houston, esperando enchê-los com eleitores de Nova Orleans que retornam à Louisiana para votar antecipadamente na eleição para a prefeitura da cidade. Mas somente seis pessoas apareceram, e vários ônibus fizeram o percurso vazios. Este pareceu um mau sinal quanto à participação negra na eleição.

Michael Stravato/The New York Times 
Outdoor de Ray Nagin em Houston, onde ainda estão muitos moradores de Nova Orleans

Por outro lado, na Louisiana 20 mil moradores já depositaram os seus votos nas urnas, um número sem precedentes, mais de dez vezes superior ao normal. Muitos destes moradores provavelmente foram evacuados dos bairros negros após o furacão Katrina. O que parece ser um conjunto de fatos contraditórios na verdade ajuda a explicar por que a eleição deste sábado (22/04) foi uma das mais misteriosas na história da região, tão repleta de incertezas que os analistas vêm evitando há semanas dar palpites quanto ao resultado eleitoral.

Ninguém sabe quantos eleitores votarão aqui no sábado, ou se a maioria deles será composta de negros --como ocorreu durante toda uma geração em eleições anteriores-- ou de brancos. Ninguém sabe exatamente quanta gente há na cidade. Um prefeito branco poderá ser eleito pela primeira vez em 30 anos --ou talvez não.

"Não conhecemos a composição racial do eleitorado", afirma Susan Howell, cientista política da Universidade de Nova Orleans. "Não sabemos qual é a composição racial da população evacuada".

Essas questões relativas à raça provavelmente vão determinar quais serão os dois candidatos a emergir da eleição de sábado para disputar a prefeitura em um segundo turno, em 20 de maio, caso nenhum candidato obtenha a maioria dos votos.

Apesar de toda a confusão, está claro quais são os três principais candidatos: C. Ray Nagin, o atual prefeito; o vice-governador Mitch Landrieu; e Ron Forman, um empresário local. Os dois últimos candidatos são brancos, e se eles forem os vencedores no sábado, isso representaria uma significante reviravolta na estrutura de poder da cidade.

Cerca de 200 mil dos 290 mil eleitores registrados da cidade podem estar residindo fora de Nova Orleans. A maioria deles provavelmente é negra, assim como eram negros dois terços dos 20 mil que já votaram, segundo as estimativas da Secretaria de Estado. A baixa participação indica a Howell que a maior parte dos eleitores evacuados não votará na eleição. Não tendo conseguido postergar a eleição por meio de uma ação na Justiça, vários grupos de defensores dos direitos civis protestaram durantes semanas, afirmando que o incômodo processo de votação para os eleitores ausentes prejudicará os eleitores negros pobres.

Milhares de moradores poderão comparecer aqui no sábado, ou talvez não. Para muitos que não comparecerem, o ritual normal de votação foi modificado: menos de um terço dos 256 postos de votação normais estará operando. Enquanto isso, autoridades estaduais instalaram grandes outdoors por toda a cidade explicando aos eleitores onde comparecer caso não saibam ao certo qual é a sua seção eleitoral. De uma maneira inusitada, o secretário de Estado de da Louisiana foi até Baton Rouge para assumir pessoalmente o controle sobre as eleições.

Provavelmente haverá confusão no sábado, como aliás tem havido durante toda uma temporada eleitoral que parece girar em torno da preocupação generalizada na cidade, que é saber se Nova Orleans terá um futuro.

Assim, para muitos aqui, a votação de sábado para prefeito é mais do que simplesmente uma eleição. No centro e nos subúrbios, nos bairros de negros e de brancos, os moradores daqui dizem que jamais depositarão nas urnas um voto tão significante.

"Esta é a eleição mais importante da história da cidade", afirma Wayne Gillette, um advogado branco, em frente à sua casa em Gentilly. "Para a cidade, isto diz respeito à direção que será tomada".

Heather Wright, um joalheiro branco que mora no bairro Faubourg Marigny, opina: "O novo prefeito, quem quer que seja ele, terá o potencial de mudar radicalmente a cidade. Possivelmente mudando as escolas e acabando com a corrupção".

Com a recuperação dos estragos causados pelo furacão Katrina ainda muito lenta, um clima político de indecisão, e sem um único dólar sequer entregue para o trabalho de reconstrução, os eleitores estão aguardando por alguma pista --qualquer pista-- sobre o que virá a seguir.

Com uma campanha tímida atrás de si, os eleitores frustrados de Nova Orleans aguardam pelos sinais de que o passado problemático da cidade não será repetido no futuro, e por um líder que possa retirá-los deste lamaçal. Nenhum candidato confrontou aquela que segundo muitos é a questão central: determinar se alguns bairros que foram inundados devem ou não ser reconstruídos. Invariavelmente, os eleitores entrevistados nesta semana --especialmente os brancos-- disseram estar procurando alguém que tome uma posição, e que rompa com o passado.

"Alguém tem que ter peito para se levantar e dizer: 'Não, você não pode reconstruir a sua casa aqui'. Alguém precisa estabelecer um limite", afirmou Russel Lawson, no Bar Markey's, em Bywater, em uma tarde úmida nesta semana. "Estamos aguardando por alguém que demonstre alguma liderança", diz ele. "Contamos com a oportunidade de reconstruir a cidade, criando algo bem melhor do que aquilo que tínhamos antes".

Mas não existe um consenso quanto ao que deveria ser este novo projeto, assim como há uma grande divisão referente às opiniões sobre o cataclismo --quem atuou bem, e quem agiu mal-- e ao período que a ele se seguiu.

Nagin perdeu grande parte da sua popularidade desde a tempestade, e sem uma grande onda de apoio por parte dos eleitores negros, que nunca foram os seus mais entusiasmados apoiadores, ele poderá ser nocauteado na eleição deste sábado. Forman tem apresentado um bom desempenho, especialmente entre os eleitores brancos que querem uma mudança na prefeitura, e Landrieu espera tirar vantagem do seu sobrenome politicamente tradicional e que já foi popular em outras eleições.

As variáveis desconhecidas com relação a esta campanha pela prefeitura aumentaram a incerteza generalizada na cidade. "Muita gente está muito deprimida e irritada, mais do que se pode observar", afirma Charles Myles, um pedreiro negro, em frente ao trailer que atualmente é a sua moradia, no bairro de Gentilly, um dos que apresenta maior integração racial na cidade. Atrás de si estão as ruínas da sua casa, inundada por mais de dois metros de água durante o Katrina.

"Demorará muito até que nos recuperemos", prevê Myles. "Precisamos de um prefeito que possa garantir que todos façam o que devem fazer, de alguém que esteja ao lado de Bush".

A linha divisória é a racial. A maioria dos eleitores negros está apoiando Nagin. Eles se mostram incomodados com o escárnio dirigido atualmente ao prefeito pelos seus antigos apoiadores brancos. Os ataques dirigidos a Nagin, que foi criticado por muitos brancos devido à sua indecisão, à mudança de posições e à recusa em admitir que alguns bairros podem ser demasiadamente vulneráveis para serem reconstruídos, estão sendo interpretados pelo eleitorado negro como agressões pessoais.

Um reduto de eleitorado negro parece estar desaparecendo com a mudança demográfica na cidade, e Nagin é tido como a única defesa contra isso.

"Não conheço ninguém mais a não ser Nagin", afirma Clark Joiner, um trabalhador negro da construção civil no bairro de Marigny. "Ele não fez nada de errado. Nagin possui um pequeno plano. As pessoas só precisam deixar que ele aja".

"Nagin fez tudo o que podia", garante o bispo B.L. Goss Sr., em um dos antigos bairros negros à margem do rio. "Ele não poderia ter feito mais do que fez. Deixem que ele permaneça no cargo, e finalize o que estava fazendo".

Mas outros, preocupados com quantidade de lixo, com as casas destruídas, e com os negócios à beira do colapso, não vêem as coisas dessa forma. "Tudo que enxergo é indecisão por parte de Nagin", critica Lance Wesa, um joalheiro branco de French Quarter. Ele poderá ser obrigado a fechar a sua loja durante o verão.

"Este é um momento terrível para a cidade", lamenta Paul Poche, que é branco, enquanto rega os seus lírios e íris em Bywater. "Temos que atuar juntos, e ver o que podemos construir a partir das ruínas. Se a ajuda vier, ela virá de alguma outra parte. Porque este local está destroçado". Tensão racial emerge durante a campanha da eleição para prefeito Danilo Fonseca

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