UOL Notícias Internacional
 

22/04/2006

Xiitas indicam linha-dura para premiê do Iraque

The New York Times
Richard A. Oppel Jr.*

Em Bagdá, Iraque
Na sexta-feira (21/04), os líderes xiitas escolheram Jawad Al Maliki, um de seus líderes mais conservadores, enérgicos e sem papas na língua, para o cargo de primeiro-ministro, abrindo a porta para que ele se torne o líder do primeiro governo de mandato pleno desde a queda de Saddam Hussein.

Apesar de suas dúvidas iniciais, os líderes curdos e árabes sunitas disseram que pretendem apoiar Al Maliki, 56 anos, um duro negociador e aliado do primeiro-ministro de saída, Ibrahim Al Jaafari. A decisão do primeiro-ministro na quinta-feira de abrir mão do cargo colocou fim a um impasse político de dois meses, que agravou a instabilidade do Iraque e contribuiu para um aumento dos assassinatos sectários em todo o país.

Apesar dos líderes árabes sunitas terem expressados apoio a Al Maliki na sexta-feira, ele tem apoiado políticas severas que visavam manter ex-simpatizantes do regime de Saddam Hussein longe do poder. Ele tem lutado por uma desbaathificação, um programa para remover ex-membros do Partido Baath de cargos importantes no Iraque pós-invasão.

E, diferente de líderes iraquianos mais moderados que buscaram atrair os rebeldes para o processo político, Al Maliki tem defendido propostas dirigidas à insurreição predominantemente sunita, pedindo pena de morte não apenas para os que cometerem assassinato, mas para todos que tenham, como ele disse no ano passado, "financiado, propagado, encoberto, apoiado ou fornecido abrigo para terroristas, independente de seu grau de envolvimento".

Se a Assembléia Nacional iraquiana conseguir concordar com outros importantes líderes do governo, Al Maliki, um alto membro do Partido Islâmico Dawa que fugiu para o Irã e depois para a Síria após ser ameaçado de morte pelo governo de Saddam, será requisitado a formar um Gabinete. Vários líderes políticos-chaves disseram em entrevistas na noite de sexta-feira que chegaram a um acordo quanto aos cargos que primeiro devem ser aprovados --incluindo o presidente do país e o presidente da Assembléia.

Eles disseram que o atual presidente, Jalal Talabani, um curdo, manterá seu cargo, enquanto um importante líder sunita, Mahmoud Mashhadani, deverá se tornar o presidente da Assembléia apesar das preocupações de alguns curdos e xiitas, que queriam alguém mais moderado.

Se os legisladores conseguirem realizar formalmente a seleção na sessão de sábado da Assembléia, isto marcará uma virada no processo político em comparação há poucos dias, quando Al Jaafari, com o apoio do clérigo xiita agitador Muqtada Al Sadr, se recusava a abrir mão de seu cargo apesar da crescente pressão de sunitas, curdos, alguns xiitas e dos Estados Unidos.

Mesmo assim, disputas políticas mais difíceis ainda ocorrerão antes que um novo governo seja formado. Al Maliki terá que formar um Gabinete que incluirá autoridades responsáveis por ministérios poderosos, como os do Interior, Defesa, Finanças e Petróleo.

Para os sunitas, talvez a questão mais divisora seja o Ministério do Interior, que inclui a polícia e que atualmente é comandado por um xiita linha-dura com laços estreitos com o Irã. Os sunitas dizem que homens em uniformes da polícia são responsáveis por grande parte das torturas e assassinatos sectários, onde homens são presos e seus cadáveres são encontrados dias depois --às vezes com buracos perfurados em suas cabeças e membros.

"Hoje foi um dia positivo, mas haverá dias difíceis à frente, especialmente em relação à seleção de ministros", disse Zalmay Khalilzad, o embaixador americano em Bagdá, em uma entrevista. Ele disse ter dito a Al Maliki, na sexta-feira, da importância de ministros independentes e da necessidade da eliminação das milícias das forças de segurança iraquianas, assim como da redução do programa apoiado pelos xiitas que proíbe ex-baathistas de assumirem muitos cargos em instituições e no governo iraquiano.

"Eu me encontrei com ele hoje por um longo período e ele foi bastante positivo", disse Khalilzad.

Nascido em 1950 em Hindiya, entre as cidades de Karbala e Hilla, Al Maliki foi educado no Curdistão iraquiano e então se exilou primeiro para o Irã, depois que Saddam jurou que eliminaria os líderes do Partido Islâmico Dawa. Enquanto Al Jaafari trocou o Irã pela Grã-Bretanha, Al Maliki viajou posteriormente para a Síria e voltou ao Iraque após a invasão americana, três anos atrás.

"Ele é muito próximo de Jaafari", disse o atual presidente da Assembléia, Adnan Pachachi. "Ele é conhecido por suas posições duras em questões como baathistas e terrorismo. Ele é um orador elegante e muito enérgico na apresentação de seus pontos de vista."

Em Washington, um funcionário do Departamento de Estado envolvido no Iraque, que falou sob a condição de anonimato porque ainda não houve nenhuma declaração oficial, disse que Al Maliki trouxe "várias adições" ao governo, em parte por ter um pequeno histórico público e por ser capaz de unir o novo governo.

"Isto significa que o Cubo Mágico do Iraque já foi quase solucionado", disse o funcionário do Departamento de Estado. "Ele é uma figura atraente, mas não por suas qualidades pessoais. O fato de seu retrospecto ser quase nulo é visto como um ponto positivo se puder ajudar a formar um governo."

Um diplomata ocidental em Bagdá disse que uma grande diferença em relação a Al Jaafari, que também é membro do Dawa, é que Al Maliki parece "competente".

"A impressão geral que se tem dele a partir de sua experiência e retrospecto é a de um líder forte e que será capaz de realizar um trabalho melhor", disse o diplomata. "Jaafari foi testado e demonstrou que não era capaz de ser um líder eficaz, mas Maliki é um líder forte e de mente forte."

O diplomata também disse que os líderes sunitas tiraram algum conforto do conhecimento de que Al Maliki tem menos laços com o Irã do que alguns líderes xiitas, incluindo seu principal rival para o cargo de primeiro-ministro, Ali Al Adeeb, cujo pai é iraniano.

No início deste ano Al Jaafari conquistou com pequena margem de votos dentro da aliança xiita o direito de continuar como primeiro-ministro, após as eleições parlamentares de dezembro. Mas outros partidos políticos se opuseram, o acusando de uma liderança fraca e ineficaz e da incapacidade de lidar com as crescentes tensões sectárias e com a insurreição. Após resistir à pressão para deixar o cargo, Al Jaafari repentinamente mudou de opinião na quinta-feira e concordou em deixar a aliança xiita escolher outro indicado para primeiro-ministro.

Há apenas dois dias, as autoridades curdas e alguns líderes árabes sunitas expressaram uma preferência por Al Adeeb, o outro candidato a primeiro-ministro, descrevendo Al Maliki como sectário e inflexível demais para conquistar amplo apoio entre os blocos políticos.

Mas na tarde de sexta-feira ficou claro que Al Maliki sairia como o indicado da aliança, que controla quase metade das cadeiras da Assembléia. Após todos os sete partidos da aliança xiita terem votado na noite de sexta-feira, Al Maliki tinha obtido o apoio de todos exceto do Partido Fadilah, disse Hammam Hamoudi, um alto membro da aliança xiita. Entre os que apoiaram estava Al Sadr, que teme apoiar políticos com laços estreitos com Teerã.

A necessidade de evitar outra batalha em torno do cargo de primeiro-ministro e a esperança de que um novo governo poderá ajudar a estabilizar o país parecem ter sido fatores significativos na decisão dos líderes curdos e árabes sunitas de apoiar Al Maliki.

"Nós não temos muitas opções e queremos conduzir o processo político adiante", disse Tariq Al Hashemi, líder da Frente do Consenso Iraquiano, o maior grupo árabe sunita. "Nós cooperaremos com ele e nós o apoiaremos amanhã."

Em uma entrevista na noite de sexta-feira, Mahmoud Othman, um alto membro da aliança política curda, disse sobre Al Maliki: "Nós não temos objeção a ele e lhe desejamos sucesso". Ele também disse que os curdos apoiarão Mashhadani. No dia anterior, Othman descreveu Mashhadani como um "extremista" inadequado para se tornar presidente da assembléia.

As facções políticas em disputa poderiam levantar objeções a qualquer indicado, explicou Othman, mas agora "não há tempo" para isto por causa da condição atual do Iraque. "Isto precisa seguir em frente, de forma que não temos objeção."

Além de Al Maliki, Talabani e Mashhadani, quatro outros líderes fariam parte de um consenso esboçado entre os grandes blocos políticos. Os dois vice-presidentes deverão ser Hashemi e Adel Abdul Mahdi, um xiita que perdeu por pouco o cargo de primeiro-ministro para Jaafari no início deste ano. Outro líder xiita, Khalid Al Attiya, e um curdo, Aref Tayfour, também deverão se tornar vice-presidentes da Assembléia.

Em uma entrevista na sexta-feira, Mashhadani, o candidato sunita para presidente da Assembléia, disse ter telefonado tanto para Talabani quanto para Abdul Aziz Al Hakim, um alto líder xiita, e foi informado por ambos que eles aprovavam sua indicação para a presidência da assembléia.

Nascido em 1948, Mashhadani se formou em medicina em Bagdá em 1972 e serviu no Exército Iraquiano, chegando à patente de major antes de ser afastado em 1981 por oposição à guerra entre o Irã e o Iraque. Ele foi posteriormente preso pelas forças de Saddam, mas foi libertado em 2002.

* Colaborou Steve R. Weisman, em Washington. Conservador Jawad Al Maliki substitui Al Jaafari, considerado fraco George El Khouri Andolfato

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