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23/04/2006

Democratas criticam o aborto para vencer eleição

The New York Times
Robin Toner

Em Lancaster, Pensilvânia
Enquanto o Partido Democrata tenta buscar uma nova e menos polarizada política de aborto, buscando algum meio termo entre os defensores e oponentes dos direitos de aborto, não há melhor caso de estudo do que a disputa ao Senado no Estado da Pensilvânia. Muitos defensores dos direitos de aborto --às vezes de má vontade, às vezes guiados mais por suas mentes do que por seus corações-- estão apoiando Bob Casey Jr., um candidato democrata ao Senado que é contra os direitos de aborto.

Carmel Zucker/The New York Times - 15.abr.06 
Sioux Falls, em Dakota do Norte, que adotou dura legislação contra o aborto; os democratas buscam o eleitorado conservador para retomar controle de Câmara e Senado em novembro

O convite a um recente evento de Casey na Filadélfia, para levantar fundos para sua campanha para remoção do senador Rick Santorum, um republicano, talvez tenha capturado o sentimento. "Mulheres Progressistas Pragmáticas por Casey", ele declarava.

As nove mulheres democratas no Senado, incluindo algumas das maiores defensoras dos direitos de aborto, recentemente assinaram uma carta de apoio que adotava um tom semelhante, descrevendo a eleição de Casey como "crítica aos nossos esforços para recuperar a maioria no Senado federal".

O próprio Casey está enfatizando que, apesar de haver um "tremendo desacordo" em relação ao aborto, há também um amplo consenso do qual ele faz parte: reduzir o número de abortos reduzindo o número de gravidezes indesejadas, por meio de maior acesso a contraceptivos e planejamento familiar.

Outros líderes democratas têm feito apelos semelhantes a este "consenso de prevenção", incluindo, em um artigo de opinião nesta semana no "The Times Union" de Albany, Nova York, a senadora Hillary Rodham Clinton de Nova York, uma defensora dos direitos de aborto, e o senador Harry Reid de Nevada, o líder democrata, que descreve a si mesmo como pró-vida.

Os críticos desdenham estes esforços como mera pose política, um esforço para obscurecer a profunda divisão nas questões da moralidade e legalidade do aborto. Mas desde a eleição de 2004, muitos estrategistas democratas argumentam que o partido deve encontrar uma forma de sinalizar tolerância às opiniões contrárias nesta questão e ter sensibilidade diante de valores conflitantes.

Casey, o tesoureiro do Estado, um candidato experiente e filho de um ex-governador popular que também era contra o aborto, é um símbolo de tal estratégia de "grande tenda".

Os líderes nacionais do partido o recrutaram para esta campanha ao Senado, apesar de sua posição em relação ao aborto, porque acreditam que ele é potencialmente o candidato mais forte para enfrentar Santorum. Com ele, eles estabeleceram um teste de alto valor: será que o Partido Democrata, nacional e estadualmente, será capaz de mobilizar a base de direitos de aborto em apoio a um candidato de quem discorda?

Esta tensão entre princípio e pragmatismo é aparente por toda as paisagens do Partido Democrata neste ano, pesando em questões que incluem a guerra no Iraque e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Os estrategistas do partido estão tentando formar candidaturas vencedoras suficientes para assumir o controle da Câmara e do Senado, o que significa prestar atenção aos votos indefinidos no meio. Mas tal estratégia enfurece alguns na esquerda do partido, mais vocalmente na blogosfera, que argumenta que os tempos exigem mais do que um centrismo cuidadoso.

Casey, todos concordam, tem sido imensamente ajudado até o momento pela profunda animosidade entre os democratas e os defensores dos direitos de aborto em relação a Santorum, o republicano na liderança do Senado e ferrenho conservador social. Santorum tem sido um líder consistente na causa antiaborto no Senado.

"Nós não poderíamos tê-lo em mais alta conta", disse Douglas Johnson, o diretor legislativo do Comitê Nacional do Direito à Vida.

A senadora Barbara Boxer, democrata da Califórnia, que por muitos anos enfrentou Santorum em questões de aborto, disse que tem "argumentado" a favor de Casey "por todo o país", dizendo que seu apoio aos programas de controle da natalidade, contraceptivos de emergência e planejamento familiar internacional o tornam um "imenso progresso" em relação a Santorum. Ela também tem lembrado suas platéias, ela disse, de que a eleição de Casey ajudaria os democratas a conquistarem o controle do Senado.

"É uma escolha pragmática", ela disse. "E, a propósito, remover Santorum é uma vitória pró-escolha."

De forma semelhante, Hillary Clinton foi anfitriã de uma recepção para arrecadação de fundos para Casey em Chicago na semana passada, contribuindo com recursos para sua campanha desde o início. (Apesar de todos estes esforços, Santorum ainda conta com o dobro de recursos de Casey.)

Nem todos estão a bordo; ainda há raiva e resistência à candidatura de Casey entre alguns democratas, o que ferveu o debate democrático das primárias aqui na noite da última quarta-feira (19/04).

Alan Sandals, um advogado previdenciário que disputa a indicação democrata na eleição primária de 16 de maio, argumentou que os direitos de aborto estavam sitiados e que o partido não poderia recuar em sua defesa. Sandals foi recentemente endossado pela Organização Nacional das Mulheres (NOW). Chuck Pennacchio, outro candidato na eleição primária, tem atacado o establishment nacional do partido por apoiar Casey, contrariando o que Pennacchio afirma ser o que os democratas da Pensilvânia realmente querem.

Ambos os candidatos criticaram fortemente Casey na quarta-feira pelo seu endosso às nomeações de John G. Roberts Jr. e Samuel A. Alito Jr. à Suprema Corte. "Seja corajoso, Bob", aconselhou Sandals.

Em campanha, Casey é de muitas formas um democrata tradicional da escola econômica populista, falando sobre as dificuldades das famílias comuns, preocupadas com seus empregos, planos de saúde e custos de energia. Ele acusa Santorum de apoiar cegamente as políticas do governo Bush em detrimento da Pensilvânia, "votando por reduções de impostos para multimilionários, mesmo em tempos de guerra". Ele usa o tema clássico de tempos difíceis, declarando: "Eu digo que precisamos de uma nova direção".

Seu porta-voz disse que o aborto raramente é abordado, exceto pelos repórteres, apesar de ter sido usado para ataque por seus oponentes na primária em dois recentes debates. Em uma entrevista, Casey acentuou seu compromisso em reduzir as gravidezes indesejadas, o que ele afirmou diferir de Santorum. "E há toda uma série de questões relacionadas sobre como ajudar uma mãe e criança antes e após o nascimento, e o retrospecto dele neste campo é terrível", afirmou Casey.

Uma porta-voz de Santorum disse que o senador votou consistentemente em projetos de lei que incluíam planejamento familiar, e que "como questão de política pública, Santorum não é contrário ao controle da natalidade".

Favoritismo de Casey

John Brabender, um consultor de mídia da campanha de Santorum, argumentou que Casey está se colocando em uma caixa na questão, correndo o risco de alienar tanto os democratas conservadores quanto os republicanos suburbanos que apóiam os direitos de aborto. "Este desejo de ser todas as coisas para todo mundo o coloca na categoria de ambos os lados dizerem: "Ora, ele não é o que pensei que ele era".

Até o momento, nenhum dos rivais democratas de Casey atingiram dois dígitos nas recentes pesquisas sobre a eleição primária. Em uma recente pesquisa da Universidade Quinnipiac, os pesquisadores concluíram que a posição de Casey não estava tendo --pelo menos até o momento-- um grande efeito tanto na eleição primária democrata quanto na eleição geral.

A pesquisa apontou Casey com uma vantagem de 11 pontos percentuais sobre Santorum, 48% contra 37%. Dois terços dos eleitores disseram não saber qual era a posição de Casey em relação ao aborto. Mas apenas 15% dos eleitores, a maioria deles antiaborto, disseram que votariam contra um candidato com base apenas nesta questão.

Tal pesquisa foi conduzida entre 28 de março e 3 de abril, com entrevistas a 1.354 eleitores e apresentando margem de erro de 3 pontos percentuais para mais ou para menos.

Questão polarizadora

Mesmo para alguns dos mais ferrenhos defensores de direitos de aborto, o pragmatismo parece ser a palavra de ordem. Após duas grandes derrotas nas batalhas para indicação à Suprema Corte, uma nova onda de leis estaduais restritivas em Dakota do Sul e em outros lugares, e uma sensação de que Roe contra Wade, a decisão da Suprema Corte em 1973 que declarou o direito constitucional ao aborto, poderá estar ameaçada na próxima cadeira vaga, muitos dizem que não podem mais colocar em risco as chances dos democratas de retomar o Senado.

Kate Michelman, a ex-presidente da Naral Pro-Choice America, disse que considerou seriamente uma candidatura independente ao Senado, ultrajada pelo apoio de Casey à indicação de Alito. Mas ela desistiu, ela disse, porque não queria contribuir à reeleição de Santorum.

Quando ela discutiu seu argumento para não concorrer em um discurso recente perante uma reunião de simpatizantes da Planned Parenthood, na região central da Pensilvânia, eles a aplaudiram.

Alguns democratas notaram que seu partido sempre teve alguns oponentes dos direitos de aborto em suas fileiras. O pai de Casey, o ex-governador, brigou com o diretório nacional de seu partido por causa da questão do aborto no início dos anos 90. E ao longo dos anos, ambos os partidos no Congresso polarizaram a questão; quando o Senado votou em 2003 uma resolução apoiando a decisão Roe contra Wade, apenas cinco dos 48 democratas votaram contra, sendo que dois deles já se foram. Apenas nove republicanos votaram a favor.

Contra tal realidade política opressora, que mensagem Casey enviaria em caso de sucesso em novembro? Paul Begala, um antigo estrategista democrata e amigo da família Casey, disse que a ascensão de Casey sinalizaria que a oposição aos direitos de aborto não equivale a oposição aos direitos civis.

"Você pode ser um bom democrata e ser pró-vida? Sim", disse Begala.

Mas alguns líderes de direitos de aborto discordam. Kim Gandy, presidente do NOW, disse: "Não 'parece' direitos civis. São direitos civis". Gandy acrescentou que ela acredita que o recrutamento de Casey foi uma estratégia ruim, mas acrescentou: "O que me preocupa é que se vencerem apesar da estratégia ruim, eles pensarão que se trata de uma boa estratégia que deve ser reproduzida". Disputa ao Senado na Pensilvânia é teste para política pró-escolha George El Khouri Andolfato

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