UOL Notícias Internacional
 

24/04/2006

Fazer ensaio erótico vira mania de universitários

The New York Times
Jodi Rudoren

Em Nova York
Examinando provas de contato de uma seção de fotos de modelos nuas, Charlotte Rutherfurd e os seus colegas editores, todos também estudantes, procuram selecionar uma fotografia para a seção "Hot Girls Reading Books" ("Garotas Sensuais Lendo Livros"), que será publicada na edição de primavera da revista pela qual são responsáveis, a "Vita Excolatur".

Tony Cenicola/The New York Times - 21.abr.06 
Revistas sobre sexualidade das universidades Harvard, Yale, Boston e de Chicago, de cima para baixo
Uma das poses parece mais sonolenta do que sexy. A modelo, estudante de políticas públicas, está deitada de costas, e lê uma brochura. Uma outra foto mal revela qualquer detalhe além do livro "The Craft of Research" ("A Arte da Pesquisa"). A imagem do corpo da estudante ficou saturada. Ela parece assustada, e não transmite exatamente uma impressão de sensualidade.

É este o desafio --e, até certo ponto, o propósito-- de se publicar uma revista para adultos na Universidade de Chicago, um campus conhecido pelo seu rigor intelectual, e não pela sua libido, e no qual, segundo uma popular camiseta "A diversão morre".

"Somos o campus feio, mas, com os diabos, somos sexy!", declara Rutherfurd, 21, que cursa o primeiro ano na universidade e é a editora-chefe da "Vita Excolatur". "Isto é típico da Universidade de Chicago. Não temos nenhuma Miss Janeiro. O que temos uma garota sensual --e ela está lendo um livro!".

A "Vita Excolatur", um termo em latim que significa algo como "vida enriquecida", é uma rara publicação de conteúdo erótico cheia de extensas notas de rodapé. Mas, em meio a densos tratados sobre relações inter-raciais e sexualidade há referências a que música deve acompanhar um menu de atividades libidinosas.

Explorando a fronteira entre pornografia e arte, a "Vita Excolatur" integra um conjunto de revistas sobre sexo que emergiu nos campi elitizados desde que a "Squirm", da Faculdade Vassar, quebrou este tabu em 1999. A mais recente destas publicações fez a sua estréia no último Dia dos Namorados e retirou o seu nome da Sex Week at Yale (Semana do Sexo em Yale), um festival bianual no qual são exibidos painéis e organizadas festas.

A "H Bomb", da Universidade Harvard, também traz as ocasionais notas de rodapé, mas mostra muito mais pele do que a "Vita Excolatur" e a "Sex Week at Yale: The Magazine".

Kenneth Dickerman/The New York Times - 21.abr.06 
Cinema é cenário da sessão de fotos da Vita Excolatur, revista da Universidade de Chicago

Além destas, há também a "Boink", que foi fundada por um aluno da Universidade de Boston, juntamente com um fotógrafo profissional. A "Boink" se orgulha de ser pornográfica, definindo-se na Internet como "o guia universitário para o conhecimento carnal".

"Não estamos tentando abordar essa questão de maneira intelectualizada", afirma Christopher Anderson, 39, o fotógrafo. "Creio ser meio tolo o fato de haver elementos na sociedade que desejam identificar o sexo como algo sujo ou como um tabu. O que a nossa publicação faz é divulgar a mensagem de que isso é algo de bom".

Desde a sua edição inaugural, em outubro de 2004, a "Vita Excolatur" tem se constituído em um desafio constante para uma universidade que procura equilibrar os ideais de liberdade acadêmica com o seu papel de instituição que exerce uma certa função paternal.

A revista, que funciona basicamente com verbas arrecadadas com atividades estudantis (o seu orçamento é de cerca de US$ 6.000 por ano), tem permissão para mostrar imagens de nu frontal, mas não ereções ou transas, segundo um acordo feito com a administração. As suas páginas são revisadas três vezes por administradores antes da publicação, e os estudantes que atuam como modelos precisam assinar autorizações antes de tirar a roupa.

Esses modelos examinam as fotos um a última vez, um momento no qual muitos retrocedem, desistindo do contrato. Os editores que vendem a revista no campus precisam checar os documentos de quem compra, para garantir que os leitores tenham pelo menos 18 anos de idade. E Rutherfurd está desesperada para criar um website a fim de expandir o alcance da revista --e também aumentar a verba arrecadada--, mas até o momento a universidade não a tem encorajado a dar tal passo.

"Temos trabalhado com eles para garantir que os editores, e nós, como universidade, abordemos racionalmente quaisquer dúvidas existentes quanto à segurança dos estudantes", explica William Michel, um dos dirigentes da instituição.

"Se um aluno ou aluna decide ter a sua foto publicada desta forma, dependendo das suas futuras opções relativas à carreira e a outras atividades nas quais queiram se engajar, isto pode ter implicações futuras".

A "Squirm" e a "H Bomb" também receberam dinheiro dos seus diretórios estudantis, mas as suas respectivas instituições, a Faculdade Vassar e a Universidade Harvard, adotaram uma postura de não interferência, sem censura ou exigências com relação às publicações. Judith Kidd, diretora do departamento de vida e atividades estudantis, disse que o burburinho gerado pelo lançamento da "H Bomb" fez com que ela modificasse os procedimentos relativos à criação de organizações estudantes, de forma que a diretoria da universidade tivesse mais tempo para examinar as inscrições.

A "Boink" se deparou com uma oposição mais agressiva: a Universidade de Boston não fornece nenhum dinheiro à revista, não reconhece a editoria como um grupo estudantil e proibiu as vendas em uma livraria próxima ao lado do campus. Alecia Oleyourryk, que se graduou pela Universidade de Boston em 2005, e que é editora da "Boink", disse que quando a revista foi lançada, cerca de metade da equipe editorial e dos modelos era composta de estudantes, mas que agora esta proporção é de cerca de um terço.

Antes do lançamento da revista, em fevereiro de 2005, Kenneth Elmore, diretora de questões estudantis, divulgou a seguinte declaração: "A universidade não endossa, e tampouco vê com bons olhos, a possível publicação da 'Boink', e não identifica nessa publicação um fator positivo para a comunidade universitária, devido à nossa preocupação para com a abordagem séria de questões como a de saúde sexual e relacionamento, bem como outros assuntos correlatos".

Com instruções relativas à prática do sexo oral, colunas com conselhos sobre como esconder camisinhas em casa durante as férias de primavera, e ensaios sobre trabalhos como dançarinas eróticas nas férias de verão, as revistas nem sempre são enfatizadas como pontos fortes nos currículos dos estudantes, nem são enviadas para as casas dos alunos para que os pais dêem uma lida nelas.

"A minha mãe disse que estava muito orgulhosa de mim. Já o meu pai jogou a revista fora", conta Rutherfurd. "A minha mãe afirmou que estava orgulhosa de uma forma um pouco estranha".

Ming Vanderberg, aluna do primeiro ano na Universidade Harvard e presidente da "H Bomb" disse: "Os meus pais sempre desejam me encorajar a fazer o que quer que eu queira". Mas ela observou: "Eles ficam felizes, contanto que eu não me meta realmente com esse tipo de coisa".

A questão dos pais ajudou a nortear o conteúdo da nova revista da Universidade Yale, que é publicada por uma companhia que vende produtos afrodisíacos e eróticos. A sua foto mais explícita é a que ilustra a capa, mostrando uma aluna usando apenas uma calcinha vermelha com a inscrição "Yale".

A modelo está de costas para a câmera, de modo que só é possível ver parte da silhueta de um dos seus seios. "Se formos capazes de justificar tal coisa para as nossas mães nos mínimos detalhes, saberemos que estamos seguindo a rota correta", diz Dain Lewis, aluno do primeiro ano e diretor da "Sex Week".

Mas o que a revista carece em termos de fotos de nus é compensado por artigos que falam sobre como escolher a camisinha correta e domar o parceiro ou a parceira muito selvagem. "Eu não me sentiria inteiramente confortável se a minha mãe lesse tais coisas", confessa Lewis.

Segundo membros das diretorias, não houve reclamações dos pais de alunos das universidades de Chicago ou Harvard. Mas Tynan Kelly, um rapaz de 18 anos que cursa o primeiro ano na Universidade de Chicago e que apareceu na capa da edição de outono da "Vita Excolatur", não falou aos pais sobre a sua experiência como modelo. "Porém, me certifiquei de que todos os meus amigos soubessem", acrescenta Kelly. Ele e outros modelos, que não são pagos por esse trabalho, dizem que o fato de posarem para a "Vita Excolatur" lhes conferiu uma espécie de "rótulo sexual" no campus. E Rutherfurd afirma que dificilmente teve problemas para recrutar estudantes para as sessões de fotografia.

Mas Emma Bernstein, fotógrafa da "Vita Excolatur" e de outras publicações universitárias, diz que foi olhada de maneira estranha por muita gente após ter feito um trabalho com temática sadomasoquista.

"Tive que ficar me explicando em festas", conta ela. "As pessoas viram o meu nome associado ao trabalho, e a forma como me percebiam sofreu uma mudança". Bernstein, aluna do primeiro ano, diz que gostou de trabalhar para a "Vita Excolatur". "Essa é a revista mais lida, a mais criativa e aquela que proporciona a maior liberdade artística", justifica a fotógrafa.

Os estudantes editores, os administradores e os especialistas em sexualidade adolescente vêem as revistas explícitas como a conseqüência inevitável de uma cultura de mídia obcecada pelo sexo na qual muitas feministas estão adotando uma abordagem "sexual positiva", que encara a pornografia como uma expressão, e não como exploração.

Poucos anos atrás, colunistas especializados em questões sexuais surgiram aos montes nos jornais universitários, em instituições como a Universidade Yale, a Universidade do Kansas, a Universidade da Califórnia e a Universidade Berkeley, falando sobre assuntos que eram considerados tabus, como orgasmos simulados e posições favoritas. As novas publicações fizeram com que essa tendência avançasse alguns passos mais, e trazem advertências nas capas, avisando que o material é impróprio para menores de idade.

Kidd, de Harvard, opina: "Os jovens de hoje têm a cabeça bem mais aberta com relação à sexualidade. Eu não diria que eles são mais sofisticados quanto a isso do que qualquer outra pessoa foi, mas sim que parecem ver a questão com maior naturalidade, e que falam mais sobre o assunto".

Os estudantes de hoje se acostumaram a ver as costas nuas de Jimmy Smits na série "NYPD Blue" e dançarinas seminuas na MTV. As revistas tradicionais como "Maxim" publicam imagens cada vez mais ousadas, enquanto estudantes de segundo grau expõem as suas almas e alguma coisa mais no MySpace.com [comunidade online de relacionamentos, como o UOL K e o Orkut]. E os vídeos "Girls Gone Wild" parecem ser, cada vez mais, um entretenimento moderado.

"Para mim, é como se as comportas tivessem sido abertas", afirma Natalie Krinsky, que escreveu na coluna Sex in the Elm City, no jornal "The Yale Daily News" antes de se graduar em 2004, e que recentemente se mudou para Los Angeles para adaptar o seu livro "Chloe Does Yale" para o cinema. "Quando você tem 18 anos, sempre procura ousar um pouco mais, e procurar sair impune".

Robin Sawyer, que dá aulas de sexualidade humana na Universidade de Maryland há duas décadas, descreve um movimento pendular de distanciamento em relação à correção política que vigorou na década de 1990, e da repressão causada por tal tendência.

Pamela Paul, autora do livro de 2005 "Pornified: How Pornography Is Transforming Our Lives, Our Relationships and Our Families" ("Pornografado: Como a Pornografia está Tranformando as Nossas Vidas, os Nossos Relacionamentos e as Nossas Famílias"), disse que as revistas de sexo são a representação de uma guinada de 180 graus nas atitudes das estudantes universitárias com relação à pornografia em apenas 15 anos, desde que ela freqüentou a Universidade Brown.

"Atualmente a pornografia está na moda, e não é um motivo de preocupação nos campi universitários", diz Paul.

"As estudantes universitárias realmente adotaram a maneira como a indústria da pornografia modificou a abordagem do seu material --agora se trata de um entretenimento legal, sexy, sem riscos, em segundo a mentalidade vigente, as mulheres deveriam realmente dedicar-se a praticá-lo-- e a nova perspectiva acadêmica sobre a pornografia --enquanto formos donos da nossa própria sexualidade, e a escolha for nossa, então, tudo bem, isso significa mais poder para nós".

Ela descreve essa tendência como "patética".

Kidd imagina o que aconteceria se um modelo da "H Bomb" concorresse algum dia ao governo da Califórnia. "Os estudantes de maneira geral não costumam pensar no impacto que aquilo que fazem hoje terá mais tarde sobre as suas vidas", diz ela.

Kidd, é claro, não faz parte do público alvo (embora ela dê uma olhada nas páginas juntamente com outros administradores para verificar quais estudantes conhece).

Os leitores são a menor das preocupações dessas revistas.

A "Boink" vende 20 mil cópias a US$ 7,95 cada, a maioria delas longe do campus da Universidade de Boston. A "H Bomb" imprime 10 mil exemplares; 2.500 são distribuídos gratuitamente aos estudantes, e o restante é vendido a US$ 5 cada. Até mesmo a pequena tiragem de 700 exemplares da "Vita Excolatur" (vendidos a US$ 2) faz dela a publicação estudantil mais lida no campus. E as 25 mil cópias da "Sex Week at Yale" são distribuídas gratuitamente em 18 campi por todo o país.

A "Boink", que também vende bonés, camisetas e quadros, assinou um contrato neste ano para a edição de um livro, que deve ser lançado em setembro de 2007. A "H Bomb" pode seguir tal exemplo.

"Tendo em vista o sucesso feito pelo livro de ensaios do jornal de Harvard em 1999, achamos que seria divertido publicar um livro escrito pelos estudantes de graduação da universidade narrando como perderam a virgindade", diz Katharina Cieplak-von Baldegg, 22, estudante do último ano e editora da "H Bomb". Ela acrescentou que o título do livro é "The Hardest Part Is Getting In" ("A Parte Mais Difícil É Entrar").

Na Universidade de Chicago, uma sessão de idéias da "Vita Excolatur" mistura o acadêmico e o erótico. Alguém propôs um tema de film noir com o detetive e a garota na mesa do escritório.

Kelly, o modelo, sugeriu o título "Robert Mapplerthorne conhece o Macho Internacional". "Algo realmente gay", diz ele. "Muitos corpos, poucas faces. E também muito sensual".

Bernstein, a fotógrafa, sugeriu "a sexualidade das ruivas", inspirado no Reino Unido vitoriano do final do século 19. "Algo em Jackson Park, antes da queda das folhas", disse ela. "Ruivas, pálidas, quase doentes. Quase mortas, mas eu garanto que seria algo sexy".

A última edição traz uma pesquisa online feita com os estudantes --mais de um entre cada quatro entrevistados disse ter traído o namorado ou a namorada. A pesquisa revela que, desde a perda da virgindade, com uma média de idade de 17 anos, a maioria teve cerca de quatro parceiros.

Além disso, a edição traz um ensaio fotográfico chamado "Classroom Fantasies" ("Fantasias de Sala de Aula"), mostrando estudantes concentrados nos seus livros enquanto os colegas fazem sexo em volta deles.

Um dos modelos usa uma camiseta da Universidade de Chicago com os dizeres sobre a morte da diversão. Outros estão realmente fazendo os deveres de casa durante a sessão de fotografias. "Realmente", garante Bernstein. Revistas de sexo são moda em universidades top norte-americanas Danilo Fonseca

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