UOL Notícias Internacional
 

24/04/2006

Machos respondem ao chamado da natureza

The New York Times
Alexandra Wolfe

Em Amherst, Virgínia
"Fomos derrubados!" gritou Reggie Bennett, 41, totalmente camuflado, aos quatro rapazes atrás dele. "Nosso avião caiu. Vamos para o esconderijo!"

Um atrás do outro eles obedeceram a seu sinal para prosseguir, escondendo-se atrás das árvores, navegando pelos arbustos, apressando o passo enquanto ouviam ameaças: "Estou vendo você, soldado! Você se acha esperto, mas vou colocar você em uma gaiola para você não sair!" eles fizeram uma pausa em um riacho seco, Bennett na traseira. "Fiquem em silêncio. Há minas terrestres, B-52 e crateras de areia em toda a nossa volta", advertiu. "É assim uma zona de guerra."

Ele foi interrompido por uma ligação no celular. "Você vai para minha caixa postal", disse, vendo o número que chamava. "Estou fugindo agora!" No entanto, não estava recebendo um telefonema no meio de uma batalha em Fallujah, Iraque. Estava dando seu curso de fuga para alunos universitários que tinham preferido fugir de tiros simulados e explosões na Escola de Sobrevivência Selvagem de Mountain Shepherd a participar das bebedeiras e competições na praia de Cancun, México, e Fort Lauderdale, Flórida.

Esse tipo de escola de sobrevivência na natureza, em que os alunos aprendem noções de liderança e trabalho em equipe, fazendo fogueiras e abdicando de comida, existe há décadas. Mas o curso de Bennett é um dos poucos novos pelo país que oferecem um desafio mais extremo.

Por tarifas que variam de algumas centenas de dólares por um curso de dois dias até alguns milhares por aventuras que podem durar até quatro semanas, os clientes podem ser perseguidos por agressores de mentira, sobreviver a quedas de avião hipotéticas e caçar guerrilheiros.

Os cursos de sobrevivência são oferecidos para ambos os sexos, mas em geral são cheios de homens.

Apesar de parecer que o desejo de usar uniforme, cobrir o rosto de graxa e subsistir de refeições em pacote resulta de alguma curiosidade ou identificação com os soldados no Iraque, as pessoas que trabalham nas escolas de sobrevivência dizem que a guerra tem pouco a ver com o interesse nas aulas.

"Eles querem fingir que estão em 'Lost'", disse Bennett, referindo-se ao seriado de sucesso da ABC sobre um grupo de sobreviventes da queda de um avião tentando sobreviver em uma ilha remota. "Eles assistem a esses programas e pensam: 'Isso parece bem legal.'"

Ex-instrutor de sobrevivência, camuflagem, resistência e fuga da Força Aérea, Bennett começou o curso Hidden Pursuit (Perseguição Oculta) no ano passado depois que os alunos, que vão desde radiologistas aposentados até executivos do Google, pediram um desafio mais extremo. Agora, é uma de suas aulas mais concorridas.

Michelle Barnes, vice-presidente de marketing da Outdoor Industry Association, disse que o interesse pelas escolas de sobrevivência atingiu um pico quando "Survivor" tornou-se uma série de sucesso, em 2000. (Como os cursos não precisam de licença do governo, não há estatísticas oficiais).

Depois, o interesse estabilizou-se, mas o sucesso de "Lost" voltou a animar o setor, e as escolas estão criando experiências cada vez mais extremas e radicais, disse ela. "É o marketing do consumo. As pessoas assistem programas de televisão que mostram aventuras de sobrevivência extrema, então as escolas estão tentando acrescentar esse viés a sua programação."

Escondidos debaixo de galhos de árvores retorcidos em Virgínia, Bennett e companhia chegaram a um "abrigo" temporário, onde podiam aplicar a maquiagem de camuflagem. "Primeiro verifiquem suas condições médicas --cuidem dos sangramentos maiores", comandou aos soldados, que acenaram veementemente, apesar de nenhum parecer ter um arranhão. "Agora restauramos os fluidos e aplicamos a camuflagem."

"Isso é super legal!" exclamou Garrett Foster, 23, aluno de engenharia.
Logo os homens estavam esfregando faixas verdes, marrons e pretas pelo rosto e pescoço, fazendo pausas ocasionais para que um deles pudesse tirar uma foto.

"Esta é a parte mais divertida", disse Justin Hightower, estudante de ciências políticas em Oklahoma, que disse ter entrado para o curso porque acampar tornou-se "monótono".

"E a parte dos fogos ontem?" perguntou Bennett.

"Foi legal, mas quero ver você explodir um inimigo!" disse David Brush, outro estudante.

"Sim", disse Bennett com seu sotaque sulista, "somos homens fazendo coisas de homem".

O propósito de cursos de sobrevivência tradicionais em geral é dar confiança, ensinar noções de liderança e trabalho em equipe e deixar os participantes mais à vontade na natureza. As novas classes, entretanto, oferecem um elemento adicional de fantasia, que permite que os alunos enfrentem dificuldades simuladas que provavelmente nunca encontrarão novamente, como sobreviver a um acidente de avião no meio de um deserto e viver dos restos do avião quase obliterado por três dias.

Esse pesadelo tornado realidade será oferecido pela primeira vez neste verão pela Escola de Sobrevivência Selvagem de Boulder, Colorado. Josh Bernstein, 35, presidente e diretor executivo da empresa, disse que o Curso de Resgate e Sobrevivência de 72 horas foi criado para "dar um fator radical adicional" a seus produtos tradicionais.

Bernstein disse que seus cursos, que tendem a ser freqüentados por profissionais comuns e não por aventureiros radicais, vêm compensar as vidas monótonas. "É fácil profissionais de escritório sentirem que não enfrentaram seus fantasmas", disse ele em Manhattan, onde também tem uma casa. "Você quer poder provar a si mesmo, em algum nível, que tem fibra para vencer os desafios."

Tom Brown Jr., que dirige a Escola de Rastreador Tom Brown Jr. em Waretown, Nova Jersey, disse que quer que seus alunos levem o aprendizado para suas vidas suburbanas. Neste ano, ele acrescentou dois cursos novos: o Caminho do Lobo, no qual os alunos aprendem a luta do lobo (similar à arte marcial de ninjitsu), e o Escoteiro Urbano, que ensina os alunos a aplicarem técnicas de rastreamento dos índios americanos e técnicas de dissimulação em ambientes urbanos e suburbanos.

No Caminho do Lobo, os alunos são vendados e devem caminhar por um tronco acima de um lago, levando uma lança para brigar com um oponente. "Tudo se traduz facilmente na cidade", disse Brown. "Se você é atacado na cidade, pode usar as mesmas técnicas, como se fosse um boxeador treinado."

Em sua aula de Escoteiro Urbano, Brown usa instalações de treinamento da Swat no departamento de polícia local para ensinar aos alunos táticas de evasão e sobrevivência. Há alguns anos, disse ele, um casal que fez seu curso usou o que aprendeu para eliminar um ponto de drogas em seu bairro.

"Tudo o que fizeram foi se camuflar e esconder por trás das lixeiras e tirar fotos", disse ele, "que entregaram anonimamente à polícia".

Joe Cary, ex-corretor de títulos que mora em Los Angeles, fez um dos cursos na última primavera e inscreveu-se para outro neste outono. "Tinha que fazer. Era um instinto masculino que precisava ser realizado."

Cary disse que agora tinha confiança que se sairia "bem se entrasse em um local duvidoso". Sucesso de "Lost" aumenta procura por cursos de sobrevivência Deborah Weinberg

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