UOL Notícias Internacional
 

25/04/2006

Debate da imigração revela face do interior

The New York Times
Randal C. Archibold

em Liberal, Kansas
O comício pró-imigração realizado aqui há duas semanas não foi o maior nem o mais sofisticado, considerando as dezenas de milhares de pessoas que marcharam em locais como Washington, Los Angeles e Nova York.

Ele foi convocado em apenas poucos dias, divulgado por boca a boca e por cartazes escritos às pressas colocados nas lojas. As pessoas faziam piquenique ou circulavam enquanto as crianças brincavam e ambulantes vendiam sorvete. Eles cantavam "Si, se puede" -sim, nós podemos- mas não arriscaram mais slogans do que aquele.

David Bowser/The New York Times 
Apolinar Oropeza vende sorvete em Liberal; cidade mobilizou-se contra lei de imigração

Mas o comparecimento de cerca de 800 pessoas nesta pequena cidade reflete o ativismo em torno do debate da imigração, que já chegou a tranqüilas áreas rurais no interior dos Estados Unidos, onde a população latina cresceu nos últimos anos mas a oposição à imigração ilegal permanece profundamente enraizada.

"Nós nunca fomos unidos assim, todos nós latinos", disse Jose Torres, um funcionário de um frigorífico que esteve presente. "Nós estamos aqui, não vamos partir e é preciso que as pessoas saibam disto."

Os principais elementos do debate nacional estão aqui, apenas um tanto escondidos sob a superfície: o relacionamento mutuamente dependente de empregadores e trabalhadores imigrantes, os benefícios e reveses financeiros que o afluxo traz para a economia e a questão incômoda sobre quem é legal e quanto isto importa.

Há muito tempo há latinos no sudoeste do Kansas, um local imerso em cultura americana. Uma das cidades, Dodge City, ainda promove a lenda de Wyatt Earp. Liberal celebra um festival anual de panqueca e alega para os turistas ser a cidade natal de Dorothy, de "O Mágico de Oz", completa com uma estrada de tijolos amarelos.

Os trabalhadores mexicanos começaram a chegar há mais de um século para ajudar a construir as ferrovias e alguns de seus descendentes aqui permaneceram. Mas as marchas ressaltam o outro mundo paralelo dos trabalhadores mexicanos recém-chegados, que vivem na pobreza em estacionamentos de trailer e trabalhando na pouco glamourosa indústria frigorífica.

Com o crescimento da indústria frigorífica, aqui no início dos anos 80, vieram ondas de imigrantes. Ganhando US$ 10 por hora, o trabalho sujo, exaustivo, repetitivo e às vezes perigoso de abater bovinos e processar sua carne em bifes e carne de hambúrguer era um bênção em comparação aos trabalhos no México, El Salvador e outros lugares na América Latina.

Em 2000, a parcela de latinos da população desta cidade de 20 mil habitantes tinha passado para 43%, em comparação a 10% em 1980, espelhando o crescimento por todo o sudoeste do Kansas.

"Eles passaram a ocupar trabalhos importantes na comunidade e as pessoas de nosso mundo respeitam quem trabalha duro", disse Donald D. Stull, um antropólogo da Universidade do Kansas que tem estudado as mudanças demográficas por toda a região.

Liberal recebeu seu nome, segundo a história, da generosidade de seu fundador, S.S. Rogers, que dava água para os colonos que por lá passavam. Este espírito de boas-vindas está presente em um muitas das cidades do campo e persiste em parte até hoje.

Mesmo assim, muitas pessoas que não são latinas aqui se ofendem com o acenar de bandeiras estrangeiras -durante uma manifestação aqui, algumas picapes cheias de jovens brancos passaram ostentando bandeiras americanas- e se irritam em ouvir tanto espanhol falado nas ruas.

Em uma pesquisa Survey USA realizada no início deste mês para o jornal "The Wichita Eagle" e para a rede de TV KWCH, quase três quartos dos 500 adultos entrevistados no Estado responderam "sim" quando perguntados se os Estados Unidos deviam encontrar e deportar todos os imigrantes ilegais.

Mesmo aqui, há o reconhecimento, mesmo que de má vontade, de que a maioria dos imigrantes veio para trabalhar e, diferente das cidades agrícolas moribundas, têm ajudado a manter Liberal e outras cidades vivas. Mas as queixas de pressão sobre os serviços públicos e escolas lotadas também estão crescendo.

"Nós nem sempre olhamos para isto como crescimento e progresso só porque estamos obtendo crescimento e progresso, pelo fato das pessoas de renda mais baixa estarem drenando os serviços públicos", disse Sally Cauble, uma antiga moradora que está concorrendo ao conselho educacional estadual.

A marca dos latinos em Liberal vai além das escolas. Padarias, bancas de pratos mexicanos, rádio em língua espanhola e outros negócios voltados para eles brotaram ao longo dos anos; na Pancake Boulevard, a rua principal daqui pontilhada de restaurantes fast food e motéis baratos, o restaurante El Amigo Chavez é vizinho do KFC e a atendente do McDonald's aceitava pedidos em espanhol enquanto um grupo de homens brancos mais velhos cortejavam à mesa.

"Eles trabalham duro e não causam muita encrenca, então acho que é bom para estas partes", disse Fred Sanders, um dos homens no McDonald's, um ex-morador de Liberal que estava fazendo uma visita.

É uma crença comum, apesar de difícil de provar, de que muitos dos recém-chegados são ilegais, mas esta cidade geralmente adota uma posição "eu não pergunto, você não diz". Por muitos anos, era melhor não saber -o trabalho que precisavam que fosse feito estava sendo feito.

Todavia, a repressão nacional do Departamento de Segurança Interna aos imigrantes ilegais e aqueles que os empregam têm causado agitação por aqui, já que muitos acreditam que os frigoríficos, apesar das garantias dos executivos de que os documentos de identidade são checados, empregam alguns trabalhadores com permissões de trabalho e cartões do seguro social falsos.

A liderança política do Estado está dividida em como lidar com o problema dos imigrantes ilegais. No mês passado, os legisladores estaduais rejeitaram uma proposta para encerrar os descontos nas mensalidade escolares para os filhos de imigrantes ilegais, uma proposta que a governadora, Kathleen Sebelius, uma democrata, tinha criticado.

O senador Sam Brownback, um republicano, rompeu com os demais conservadores para defender um artigo no projeto do Senado, que permitiria um programa de trabalhadores convidados que colocaria os imigrantes ilegais no caminho da cidadania. Isto o colocou em companhia de importantes líderes da agricultura e da indústria daqui.

O outro senador do Estado, Pat Roberts, também um republicano, enfatizou uma repressão na fronteira para impedir a entrada dos imigrantes. E o deputado federal da região, Jerry Moran, um republicano, votou em dezembro na Câmara um projeto que, além de reforçar a segurança na fronteira, tornaria crime ser imigrante ilegal ou ajudar um.

Diante de um cenário político incerto, alguns latinos vêem uma oportunidade. Nos últimos meses, uma geração de antigos trabalhadores e seus parentes, alguns dos quais já tendo progredido para trabalhos melhor remunerados, aberto empresas e criado famílias aqui, aproveitaram o debate da imigração para aumentar o poder político dos latinos.

"Eu fui a uma reunião em Topeka e eles disseram: 'O quê, há latinos no sudoeste do Kansas?'" disse Concha Aragon, uma zeladora em Ulysses que está organizando uma divisão do grupo de defesa, Hispanos Unidos, na área. "Eu disse que sim e que estávamos nos mobilizando."

A geração mais jovem, especialmente os filhos de imigrantes, que corresponde a quase dois terços das matriculas em escolas públicas no momento, também está começando a ser mais assertiva.

Kasmine Hidalgo, 25 anos, cujo pai veio para cá anos atrás para trabalhar em um frigorífico, o National Beef, lembrou de um momento embaraçoso quando um repórter de rádio local a abordou durante uma manifestação ocorrida aqui, em 10 de abril.

"Ele me perguntou se eu era mexicana ou americana?" disse Hidalgo. "Eu
disse: 'Sou mexicana-americana. Eu nasci aqui'. As pessoas não têm consciência de que muitos de nós nasceram aqui. Nós precisamos de mais líderes políticos e talvez este seja um passo neste sentido."

Como em grande parte do país, grande parte da atenção atualmente está voltada para o 1º de maio, quando grupos imigrantes em muitos Estados estão ameaçando fazer uma paralisação no trabalho. Os organizadores aqui estão discutindo a possibilidade de aderir ao boicote, mas alguns líderes religiosos são contrários e alguns trabalhadores não querem intimidar seus chefes nas fábricas. O National Beef, que opera frigoríficos aqui e em Dodge City, emitiu um carta antes da manifestação de 10 de abril em apoio à causa da reforma da lei de imigração, mas ao mesmo tempo desencorajando os funcionários a faltarem ao trabalho.

Recém-saída de seu turno no frigorífico, Adela Torres estava sentada à mesa da cozinha de sua casa em Liberal, em um bairro de casas pequenas e lares móveis.

"Nós temos que manter isto ativo, para reivindicar nossos direitos", disse Torres. "Nós apenas estamos decidindo como." George El Khouri Andolfato

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