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25/04/2006

Irã rejeita ONU e EUA em negociações nucleares

The New York Times
David E. Sanger e Nazila Fathi

em Washington
O Irã disse para a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) que não responderá perguntas sobre um segundo programa secreto de enriquecimento de urânio, cuja existência foi revelada pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad no início deste mês, segundo diplomatas europeus e americanos.

Os diplomatas disseram que o Irã também se recusou a responder perguntas sobre outros elementos de seu programa nuclear, nos quais os inspetores internacionais se concentraram por poderem indicar um programa para produção de armas nucleares. Os diplomatas se recusaram a ser identificados devido às negociações entre o Irã e o Ocidente continuarem delicadas.

Separadamente, Ahmadinejad disse que não via necessidade do Irã realizar negociações com os Estados Unidos sobre o Iraque, agora que um novo governo foi formado, declarando em uma rara coletiva de imprensa que com a formação de um governo, "a ocupação deve partir e permitir ao povo iraquiano governar seu país".

Reunidas, as ações parecem mostrar uma determinação iraniana de seguir em frente em um confronto com o Ocidente quando o Conselho de Segurança da ONU se reunir, provavelmente na próxima semana, para debater seus próximos passos.

A decisão do Irã de não responder às perguntas da AIEA foi transmitida a Mohammed ElBaradei, o diretor geral da agência de monitoramento nuclear, na semana passada. Na sexta-feira, ElBaradei enviará um relatório sobre o Irã para o Conselho de Segurança da ONU. Em conseqüência, disseram os diplomatas, ElBaradei decidiu cancelar uma viagem de altos funcionários da agência ao Irã, marcada para o final da semana passada, uma viagem que visava responder o máximo de dúvidas possível antes da entrega do relatório.

Diplomatas envolvidos no tenso diálogo com o Irã disseram que, salvo uma mudança de último minuto, o relatório de ElBaradei declarará, no que uma autoridade européia chamou de "uma série de atenuações", que o Irã não fez nada para responder as perguntas que o Conselho de Segurança deu, no mês passado, 30 dias para o país responder. Algumas das perguntas mais importantes envolvia uma tecnologia avançada, chamada centrífuga P-2, para enriquecimento de urânio. Inspetores internacionais acreditam que o Irã obteve projetos para a P-2 do engenheiro nuclear paquistanês Abdul Qadeer Khan nos anos 90. O Irã negou por muito tempo estar fazendo uso da tecnologia, até que Ahmadinejad declarou há 10 dias que o país estava "realizando pesquisa" com a P-2, que ele disse que poderia aumentar em quatro vezes a quantidade de urânio que o país é capaz de enriquecer.

A declaração de Ahmadinejad pegou tanto os inspetores quanto as autoridades americanas de surpresa. Mas eles fizeram uso das declarações dele sobre os programas do Irã para apresentar perguntas sobre se o país possui um conjunto separado de instalações nucleares, além do centro gigante para enriquecimento em Natanz, que o país não revelou anteriormente. ElBaradei foi informado, quando visitou Teerã há duas semanas, que o país tentaria responder as perguntas sobre o programa P-2, seus negócios com Khan nos anos 80 e 90 e uma série de outras questões.

Os inspetores de ElBaradei também apresentaram outras perguntas, muitas delas relacionadas às suspeitas de que o Irã estava pesquisando ou desenvolvendo formas de produzir ogivas ou seus sistemas de entrega -o que o Irã negou. Até o momento, o Irã tem respondido poucas perguntas sobre um documento de Teerã, aparentemente obtido junto à rede de Khan, que mostra como moldar urânio em metal em duas esferas. O metal nesta forma pode ser usado para criar um artefato nuclear básico.

Os relatórios da AIEA mostram que também há dúvidas sobre o enriquecimento de plutônio e o "Projeto Sal Verde", que parecem sugerir a existência do que a agência chamou de "interligações administrativas" entre os programas de enriquecimento de urânio, altos explosivos e desenvolvimento de mísseis do Irã.

Se o Irã continuar se recusando a responder às perguntas, ele poderá reforçar o argumento americano de que o Conselho de Segurança deve agir segundo o Artigo Sete da carta da ONU, o que poderá abrir o caminho para sanções. A secretária de Estado, Condoleezza Rice, falando em Shannon, Irlanda, disse na segunda-feira que a credibilidade do Conselho de Segurança estará em dúvida caso não adote medidas claras contra o Irã.

Mas China e Rússia têm expressado profundas reservas em relação à quaisquer medidas que visem coagir o Irã, e Ahmadinejad sugeriu vagamente na segunda-feira, como já fez antes, que considerará tirar seu país do Tratado de Não-Proliferação Nuclear caso sua participação não mais atenda aos interesses do país. A Coréia do Norte fez o mesmo em 1993, expulsando todos os inspetores, que nunca mais retornaram.

"Nossa atual política é de trabalhar seguindo as diretrizes do Tratado de Não-Proliferação e da AIEA, mas se sentirmos que não há benefício disto para nós, nós reveremos nossa política. Nós temos que ver quais são os benefícios de cooperar com a AIEA após 30 anos", ele disse.

Ahmadinejad rejeitou o prazo da ONU desta sexta-feira para que o Irã suspenda seu programa nuclear. Ele afastou as ameaças de sanções econômicas, dizendo que as sanções prejudicarão mais os países ocidentais do que o Irã.

Ele também rejeitou uma proposta de Moscou de enriquecer urânio em solo russo. A proposta visava diminuir a preocupação internacional com o programa nuclear do Irã. Apesar de algumas autoridades iranianas terem rejeitado a proposta no passado, outras sugeriram que o Irã poderia aceitá-la sob certas condições.

"Isto foi há seis meses", disse Ahmadinejad. "A Rússia enriquece urânio e nós também", ele disse, insistindo que o Irã não abrirá mão do enriquecimento.

"Vocês devem saber que o programa nuclear é cem vezes mais valioso para os iranianos do que a nacionalização do petróleo", ele disse, se referindo à nacionalização do petróleo em 1953, algo pelo qual os iranianos nutrem forte sentimento. "Nós agora dominamos o ciclo nuclear e queremos defender nosso direito", ele acrescentou.

Mas há sinais de dissensão dentro de seu governo. O ex-negociador nuclear chefe, Hassan Rowhani, pediu ao governo durante um discurso na quinta-feira para que retomasse as negociações com a Europa em torno do programa nuclear do país, informou o jornal "Shargh". Rowhani, que ainda é membro do Conselho Supremo de Segurança Nacional, alertou que o Irã não deve se considerar independente do mundo exterior.

A declaração de Ahmadinejad de que o Irã não se reunirá com os Estados Unidos para tratar do Iraque entra em choque com o que outra importante autoridade iraniana, Ali Larijani, anunciou no mês passado. O ministro das Relações Exteriores, Manouchehr Mottaki, disse aos repórteres na semana passada, após uma reunião com membros do Parlamento, que o diálogo com os Estados Unidos ainda estava "na agenda do Irã", informou a agência de notícias estudantil "ISNA".

O embaixador americano no Iraque, Zalmay Khalilzad, reiterou na segunda-feira que os Estados Unidos estão preparados para discutir com os líderes iranianos a situação no Iraque, tão logo um novo governo iraquiano seja formado. George El Khouri Andolfato

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