UOL Notícias Internacional
 

25/04/2006

No festival de Tribeca, muita realidade, pouca frivolidade

The New York Times
Stephen Holden

em Nova York
O que aconteceu com a noção do cinema como a Grande Escapada?
Nas próximas duas semanas, quando o quinto festival anual de cinema de Tribeca consumir Nova York, talvez uma descrição mais apta do ambiente cinematográfico expressado em TriBeCa seja Sem Saída.

Do filme de abertura de segunda-feira (24/4) à noite, "United 93" a "The Road to Guantanamo" (a estrada para Guantánamo) e "The War Tapes" (as fitas da guerra) a bruta realidade constitui a marca artística de um festival obcecado com a história e eventos atuais e curtos em histórias de amor e comédias frívolas. Como nos últimos anos, a maior parte da diversão tradicional do cinema é abrigada pelo Festival da Família, uma de suas 12 subdivisões; neste ano, o entretenimento para a família inclui a mais recente versão de "Lassie".

Ruby Washington/The New York Times - 20.abr.06 
Com o Empire State ao fundo, homem limpa letreiro do cinema sede do festival de Tribeca

Os eventos mais espalhafatosos do festival, as estréias dos melodramas cheios de efeitos de Hollywood "Mission: Impossible III" (Missão Impossível III, dia 3 de maio) e "Poseidon" (dia 6 de maio), também podem ser chamados de escapistas, apesar de seus temas de espionagem e desastre no mar. Mas na sombra desse brilho está uma massa de filmes, muitos gravados em vídeo digital ou com câmeras na mão, nos quais a realidade é o tema. Uma imersão no festival deste ano pode ser descrita como um curso intensivo de compaixão, sofrimento e revolta. E poderia ser diferente, um festival nascido das cinzas de 11 de setembro?

Como é impossível um crítico julgar a qualidade do festival em sua impressionante amplitude, concentrei a maior parte de meus esforços na competição de filmes narrativos internacionais, fazendo visitas à competição internacional de documentários e vendo vários títulos em categorias não competitivas.

Nesta, um dos melhores (na subdivisão Holofote, que mostra estréias de trabalhos recentes de diretores internacionais famosos) está o mais recente de Claude Chabrol, "Comedy of Power". O filme mais forte em anos deste grande diretor francês, é uma visão divertidamente cínica dos executivos de alto nível na França; inclui um desempenho sensacional de Isabelle Huppert, como magistrada que abusa de sua autoridade enquanto descobre um escândalo corporativo suculento.

Em uma veia mais sentimental, "Driving Lessons" de Jeremy Brock (na seção de descoberta de novos diretores) apresenta Julie Walters ("Billy Elliot", "O Despertar de Rita") como uma atriz mais velha e excêntrica, mentora pouco ortodoxa que libera a adolescente sensível (Rupert Grint) das amarras de sua mãe sufocante (Laura Linney), contratando-o como motorista (sem carteira).

Mas o teste ácido da credibilidade de qualquer festival com cinéfilos sérios são as competições. TriBeCa tem cinco, inclusive duas para filmes sobre Nova York e uma de curtas. Os filmes de narrativa na competição deste ano são no mínimo artisticamente respeitáveis. Alguns são memoráveis, apesar de eu não ter visto nenhuma obra-prima.

O festival, em busca de qualidade, vai para lugares fora de moda e escondidos. A comédia de humor negro "Two Players From The Bench" contempla as conseqüências das guerras dos Bálcãs, um assunto que em grande parte saiu do radar de consciência política internacional, mas cujas contradições ainda oferecem um potencial infinito para humor macabro. O filme argentino "Blessed by Fire" vai ainda mais longe (em lugar e tempo) e explora os efeitos traumáticos dos soldados argentinos que lutaram contra os britânicos (e perderam) nas Ilhas Malvinas em 1982.

A escassez de filmes egípcios no circuito do festival é razão suficiente para assistir "The Yacoubian Buiding", uma produção de 165 minutos ambientada em grande parte em um prédio de escritórios que simboliza a Cairo moderna. O filme questiona tabus egípcios abordando temas contemporâneos que incluem corrupção, fundamentalismo e homossexualidade. Em "Brasília 18%", um médico-legista distinto é convidado pela capital administrativa do Brasil para confirmar a identidade de uma bela assessora do Congresso encontrada morta e vê-se usado em uma conspiração política que se estende para os mais altos níveis do governo.

Um dos filmes mais fracos na competição de narrativa é "Backstage". Apesar da boa atuação, o astro pop francês egoísta e o fã enlouquecido que invade seu círculo não convencem. O competidor mais exigente, (pretensiosamente chamado de "o primeiro filme quantum") "The Mist in the Palm Trees", é uma biografia quase documentário de um fotógrafo e cientista espanhol fictício que ajudou a desenvolver a bomba atômica. Contado com fotos antigas e reportagens, o filme é uma meditação abstrata e temperamental sobre o relacionamento misterioso entre fotografia e memória.

A natureza esotérica da competição de narrativa ilustra suas forças e
problemas: o festival fica esmagado entre os festivais Sundance e Cannes e imediatamente após a série de Novos Diretores e Novos Filmes da Sociedade de Cinema do Lincoln Center e do Museu de Arte Moderna, que já levaram grande parte dos melhores trabalhos do Sundance. Assim, Tribeca tem que cavar mais fundo para obter sua programação. Essa busca por qualidade, porém, leva-o a para as margens da indústria, onde sempre há descobertas esperando.

Essa é uma razão que o Tribeca ainda está nos primeiros estágios de se tornar um mercado internacional onde distribuidores famintos competem pelos melhores filmes. Nenhum dos dois vencedores do ano passado de melhor filme narrativo, "Stole Life" e "The Green Hat", ambos bons filmes chineses, conseguiram um distribuidor americano.

Se os principais diretores europeus favorecem festivais europeus, especialmente Cannes, o resto do mundo, especialmente a América Latina, Ásia, Europa Oriental e Oriente Médio, está maduro esperando ser colhido. No longo prazo, há suficiente material para todos. E como o festival de Tribeca é em Nova York, a maior maçã cultural de todas, deve conquistar mais espaço diante da competição.

Os sinais de sua influência crescente nas competições são mais aparentes nas inscrições em inglês deste ano. O melhor dos filmes americanos que pude ver, a sátira aguda e engraçada de Jane Kasdan "The TV Set", apresenta um desempenho merecedor de prêmio de Sigourney Weaver como executiva de rede que sabota um programa piloto de durante sua filmagem.

O papel lembra o dragão de Faye Dunaway em "Network", mas o personagem de Weaver camufla sua vontade de ferro por trás de uma doçura agradável, em um retrato excepcionalmente sagaz. Não é perfeito que em uma convenção sua personagem se gaba do sucesso da nova série da rede, um lixo chamado "Slut Wars" (guerras de vagabundas)?

"Choking Man", um aperitivo delicioso de Stev Barron, diretor de "Teenage Mutant Ninja Turtles" é o retrato de um lavador de pratos dolorosamente tímido do Equador em uma lanchonete no Queens, apaixonado por uma bela garçonete asiática. No papel do dono do estabelecimento, durão mas de bom coração, está Mandy Patinkin. Toques de animação realista mágica refletem a origem de Barron como diretor inovador de vídeos musicais ("Take on Me", do grupo A-ha).

Do Reino Unido vem a comédia astuta e dissimulada de Brian Cook, "Color Me Kubrick", na qual um perfeitamente escolhido John Malkovich encarna Alan Conway, o camaleônico enganador britânico que viveu na Inglaterra nos anos 90 fingindo ser Stanley Kubrick. Mudando de sotaque e guarda roupa, dizia que seu cartão tinha sido roubado e conseguiu enganar audaciosamente seus alvos ingênuos.

Mas mais do que qualquer ficção no festival, minhas memórias mais inesquecíveis vêm de dois documentários sobre a guerra no Iraque e seu impacto nas vidas dos que a estão travando. "Home Front" (na seção de descoberta de novos diretores) acompanha a reabilitação de Jeremy Feldbusch, soldado de uma pequena cidade no oeste de Pensilvânia que perdeu a visão e alguma função cerebral quando um estilhaço de bomba alojou-se em seu lobo frontal.

O filme é um retrato não só de Feldbusch, mas também da sociedade rural determinadamente pró-guerra (que lembra o mundo de "O Franco Atirador") ao qual ele volta para se tornar dedicado ativista em prol dos veteranos. Neste filme apolítico e não sentimental, Jeremy surge como herói, assim como a classe operária a sua volta. Independentemente de como a pessoa vê a guerra no Iraque, são homens e mulheres de caráter e coragem sólidos.

Um filme ainda mais envolvente, "War Tapes" de Deborah Scranton (competindo como documentário internacional), acompanha três soldados da Guarda Nacional de New Hampshire, que receberam câmeras de vídeo antes de deixarem seus lares na Nova Inglaterra para um serviço de um ano na linha de frente no Iraque. Seus vídeos e comentários arrebatadores - algumas vezes aos gritos sob fogo - fornecem o mais forte sabor da experiência da guerra no Iraque do que qualquer outro filme que eu me lembre.

Enquanto estavam no exterior, a diretora freqüentemente comunicava-se com os soldados por mensagens instantâneas e filmava o dia a dia das mulheres que ficaram para trás: mãe, mulher e namorada. É fascinante observar como o cinismo sobre a guerra não prejudica o patriotismo profundo dos homens que assumem que seu objetivo não é o estabelecimento da democracia no Oriente Médio, mas a aquisição de petróleo e dinheiro. Quando voltam em triunfo, dois estão sofrendo de sinais de estresse pós-traumático que relutam em tratar.

Você nunca esquecerá esses três -sargento Steve Pink, Zack Bazzi e soldado Mike Moriarty- ou seus entes queridos. São a base do que somos como nação. Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,68
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,44
    64.861,92
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host