UOL Notícias Internacional
 

26/04/2006

Um Prius em cada canto

The New York Times
Maureen Dowd
Demorou mais de cinco anos, mas George W. Bush finalmente fez um discurso de concessão a Al Gore.

Ele concedeu que os Estados Unidos precisam conservar, comprando mais automóveis híbridos e desenvolvendo novas fontes de energia.

Na terça-feira (25/04), procurando acalmar os membros mais nervosos do seu partido e o país com relação à explosão dos preços da gasolina, o presidente exibiu até um pouco daquela aparência de militante ambientalista de olhos esbugalhados, exaltando as virtudes dos combustíveis alternativos derivados de óleo de fritura, açúcar, capim, cavacos de madeira, óleo de soja e milho.

Douglas Healey/The New York Times - 31.mar.2006 
Modelo de teste do Prius, da Toyota, que funciona com energia elétrica, citado na coluna

Mas ele acabou se recompondo. "Vocês precisam reconhecer que há limites para a quantidade de milho que pode ser usada para a fabricação de etanol", disse ele, defronte a um mural bucólico. "Afinal, precisamos comer um pouco desse milho".

Seria possível colocar em funcionamento uma frota de veículos utilitários esportivos beberrões com a energia que W. (apelido colocado em Bush por certos críticos do seu governo) gastou para falar sobre combustível. Seria mais provável que Bill Clinton reprimisse as redes de fast food do que W. e Dick Cheney atacarem as grandes companhias petrolíferas.

Até mesmo a geralmente apoiadora página editorial do "Wall Street Journal" atacou os republicanos por terem colocado "Chuck Schumer e Nancy Pelosi, com suas perucas assustadoras", para gritar contra a ganância corporativa e a manipulação do mercado.

A grande medida tomada por W. consistiu em intensificar ligeiramente uma investigação federal sobre a manipulação de preços por parte das companhias petrolíferas, algo que vem ocorrendo desde o furacão Katrina. "É uma grande idéia", disse o líder democrata, senador Harry Reid. "Tão boa que nós aprovamos uma lei no ano passado pedindo exatamente isto".

A manipulação dos preços pode explicar por que a gasolina subiu de, digamos, US$ 2,70 o galão (3,78 litros) para US$ 2,90, mas não explica necessariamente por que aumentou de US$ 1,40 para US$ 2,70. Talvez isso tenha sido causado pela demanda chinesa e indiana, pelos mercados assustados com as ameaças do Irã, pela convulsão social na Nigéria, pela sugestão da Venezuela de nacionalizar a sua indústria petrolífera e pelo fato de o Pentágono ter bagunçado a restauração da infraestrutura iraquiana.

Os preços da gasolina podem estar prejudicando os cidadãos comuns, mas os magnatas do petróleo que ajudaram a alçar o Garoto Rei e o Duke de Halliburton (Bush e Cheney) ao poder com doações generosas estão obtendo lucros recordes e bônus fantásticos.

Os homens do petróleo no Salão Oval, incompetentes de tantas outras maneiras, alcançaram brilhantemente um dos seus principais objetivos:
aumentar as fortunas da indústria do petróleo e das pessoas que a controlam.

Todas aquelas reuniões secretas das quais o vice-presidente participou em 2001, deixando que os barões da energia e do petróleo ajudassem a redigir a nossa política energética - uma política que exigia mais prospecção de petróleo e gás - funcionaram primorosamente. Durante todos os seus anos no governo, Cheney e os Bush jamais fizeram nada que desagradasse as companhias de petróleo, ou que tirasse os pés do norte-americanos do acelerador.

Conforme observou o deputado James Clyburn, democrata pela Carolina do Sul: "Os republicanos são o partido que possui as chaves dos banheiros executivos da Halliburton, da Exxon e das grandes corporações do petróleo".

Vejam por exemplo Lee Raymond, o recém-aposentado presidente e diretor-executivo da Exxon. No início deste mês, soubemos da sua surpreendente compensação secreta: ele ganhou mais de US$ 686 milhões de
1993 a 2005, segundo uma reportagem do "New York Times", que trouxe o
cálculo: "Isso significa US$ 144.573 por cada dia que ele passou liderando o 'tanque de Deus' na Exxon, conforme é conhecida a sala do presidente da companhia em Irving, no Texas".

O único barão do petróleo que não está lucrando atualmente é Saddam. Nós pegamos a bomba de gasolina em Bagdá e pagamos US$ 10 bilhões, mas até agora não obtivemos uma gota de combustível. Em vez de reduzir a nossa dependência do petróleo e pagar pela reconstrução do Iraque, a invasão atrapalhada e o subseqüente desentendimento com o Irã devido à questão nuclear deixaram até mesmo os republicanos procurando por automóveis Prius (carro híbrido e econômico fabricado pela Toyota).

A última vez em que W. começou a esfregar as mãos enquanto falava sobre o nosso vício em petróleo - no discurso sobre o Estado da União - o vice-presidente mostrou-se desdenhoso em relação à idéia de sacrifício posterior, e o secretário da Energia explicou as palavras do presidente, afirmando que elas não deveriam ser levadas ao pé da letra, e que a idéia de substituir o petróleo importado do Oriente Médio por combustíveis alternativos era "puramente um exemplo".

Mesmo se W. aparecer na televisão usando um casaco de malha cinza, será patentemente absurdo que os republicanos usem tal argumento, após nos venderem a idéia de que o nosso destino manifesto é dirigir carros gigantes até Wal-Marts gigantes e Targets gigantes para comprar mais sacolas gigantes de mercadorias. Agora eles pedem que nos espremamos em minúsculos carros elétricos e, enquanto isso, competem por gotas preciosas de petróleo com os chineses e indianos, que estão nadando em uma quantidade dos nossos dólares suficiente para se darem ao luxo de ter automóveis.

Os Estados Unidos poderiam ter começado a desenvolver combustíveis alternativos 30 anos atrás, caso Dick Cheney não tivesse contribuído para sabotar um plano ambicioso neste sentido na administração da Ford.

Quando esses caras conseguirem extrair gasolina de óleo de fritura, o aquecimento global já terá fritado todos nós. Danilo Fonseca

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