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28/04/2006

Acompanhando tendências de assassinos e vítimas

The New York Times
Jo Craven McGinty

em Nova York
O mais velho assassino tinha 88 anos; matou sua mulher. A mais jovem tinha 9; esfaqueou seu amigo. Mais que o dobro de assassinatos por mulheres foram de seu cônjuges ou amantes. Mas quando o romance termina, apenas os homens mataram suas ex. O dia mais mortífero foi 10 de julho de 2004, quando oito pessoas morreram em diferentes homicídios.

Cinco no ano mataram um chefe; 10 mataram colegas. Os homens preferiram armas de fogo, enquanto mulheres e meninas usaram tanto facas quanto pistolas. O bairro com mais homicídios foi o Brooklyn; o dia foi o sábado. E quase um terço de todos os casos não foi resolvido.

No final de cada ano, o Departamento de Polícia de Nova York informa o número de assassinatos -houve 540 em 2005. Em geral, fala-se muito de como esse número caiu nos últimos anos -para totais nunca vistos desde o início dos anos 60. No entanto, fora resumir as tendências, a polícia passa pouco tempo compilando detalhes individuais.

O New York Times obteve o registro básico de cada assassinato na cidade nos últimos três anos. Apesar de ser uma leitura inquietante, os números podem apontar tendências, ocasionalmente resolver mistérios e responder algumas perguntas de quem mata e quem é morto nos cinco bairros.

De 2003 a 2005, foram cometidos 1.662 assassinatos em Nova York. Não há nenhuma informação, além da ocasional descrição física, para os casos não resolvidos.

O sexo masculino foi responsável por 93% dos assassinatos; em dois terços dos casos, usaram revólveres; suas vítimas em geral também eram do sexo masculino; em mais de metade dos casos, o assassino e a vítima se conheciam.

A polícia disse que estava interessada em descobrir padrões. "Estamos procurando coisas com implicações operacionais -hora do dia, dia da semana- para ver se podemos empregar agentes nas horas certas e em números suficientes", disse Michael J. Farrell, vice-comissário de iniciativas estratégicas.

Em mais de três quartos dos assassinatos, atacante e atacado tinham a mesma raça. De acordo com Farrell, freqüentemente tinham outra coisa em comum: mais de 90% dos assassinos tinham ficha na polícia; e dos que acabaram mortos, mais da metade tinha histórico criminal.

"Se o nova-iorquino comum tem medo com ser morto em um crime ao acaso, a probabilidade de isso acontecer é realmente remota", disse Farrell. "Se você está longe da vida de crime, seu risco é irrisório."

Criminologistas confirmam.

"As pessoas ficarão chocadas de saber como é seguro viver em Nova York", disse Andrew Karmen, professor de sociologia da John Jay College de Justiça Criminal. "Vítimas e criminosos em geral vêm da mesma origem.
Freqüentemente, alvos jovens têm assassinos jovens. Muitas vezes, a vítima e o assassino se conheciam."

Mas os eventos podem divergir da norma.

Ao menos um quarto dos assassinatos nestes três anos foram cometidos por estranhos. A maior parte foi resultado de uma briga. Atualmente, o índice de homicídios de estranhos é quase o dobro de do que há 50 anos, quando, de acordo com um estudo clássico de Marvin Wolfgang, criminologista, cerca de 14% dos assassinatos eram cometidos por estranhos.

"O homicídio era visto como um fenômeno de conhecidos, com incidentes relativamente raros envolvendo estranhos. Ainda é um evento caracteristicamente entre conhecidos", disse Steven F. Messner, especialista em homicídio e professor de sociologia da Universidade Estadual de Nova York em Albany.

Depois de quatro anos como comandante do esquadrão de homicídio do Norte do Brooklyn, o tenente John Cornicello disse que tinha começado a embaralhar os assassinatos nesta seção do bairro. Ainda assim, descreveu de memória os detalhes de muitos: do bom samaritano morto por sua Lincoln Navigator, depois de oferecer uma carona a um grupo de pessoas com o carro enguiçado. O assassino em série de "40 calibres" que matou mas não roubou quatro lojistas porque achava que eram do Oriente Médio.

"Cada vez mais, eles parecem ser resultado de estupidez", disse Cornicello. "Pegue por exemplo o Matador da Batata Frita."

Em um caso recente, um cliente de uma lanchonete KFC ficou incensado quando não recebeu sua porção de batatas junto com sua galinha frita. Depois de exigir um reembolso e uma porção de batata frita, ele confrontou o caixa com quem tinha argumentado e matou-o a facadas.

Entre as vítimas da cidade, a mais velha tinha 91 anos; morreu em um assalto. Brancos e asiáticos, que raramente assassinaram, também raramente foram mortos: juntos tiveram 75 ou menos vítimas por ano. A maior parte dos homicídios ocorreu do lado de fora. A hora mais fatal foi entre 1h e 2h da manhã. Um número pequeno, mas desconcertante de crianças estava entre as vítimas, inclusive 21 bebês e 32 crianças entre 1 e 10 anos, a maior parte delas assassinadas por um parente.

De acordo com Karmen, 10 é a idade mais segura. "Você está velho demais para sofrer abusos ou ser negligenciado como criança, mas não velho o suficiente para estar nas ruas", disse ele.

Um grupo de assassinatos interessante, apesar de incomum, que entrou para a contabilidade da polícia nestes anos envolveu meia dúzia de vítimas que morreram de ferimentos sofridos em crimes cometidos um ou mais anos antes.Esfaqueados, baleados, surrados ou queimados, sobreviveram o suficiente para serem contados como vítimas de assassinato em outro ano.

Sessenta e nove vítimas entram nessa descrição.

Em alguns casos, os ferimentos tinham sido sofridos décadas antes. Quando ocorrem essas mortes, o médico-legista alerta a polícia, de acordo com o sargento Edward Yee, da unidade de análise de c rimes do Departamento de Polícia, e esta a acrescenta as vítimas ao total daquele ano.

Por exemplo, 21 mortes contabilizadas como assassinatos em 2005 resultaram de ferimentos ocorridos em anos anteriores. A mais antiga tinha ocorrido em um tiroteio em 1975, quando um homem atacou seu irmão em uma briga doméstica. Essa categoria elevou o número de mortos do ano para 540, ainda assim o menor registrado pela cidade em quatro décadas. No entanto, apenas 519 assassinatos realmente foram cometidos no ano passado.

O declínio recente no número de homicídios parece ainda mais impressionante quando subtraímos essas mortes adiadas. Para gerar o total de assassinatos anual, a polícia não distingue mortes frescas ou adiadas.

"Ninguém faz isso", disse Farrell referindo-se a outros departamentos de polícia.

Na cidade, 40% dos assassinatos ocorreram no Brooklyn. A 75ª jurisdição, com 90, foi a que mais registrou assassinatos, mas houve pontos quentes espalhados pela cidade. Nas jurisdições 73, 79 e 83, por exemplo, e 44 e 46 no Bronx. A 32ª jurisdição no Harlem também pode ser perigosa.

Ninguém sabe explicar ao certo a recente queda no número total de homicídios, mas muitos criminologistas acreditam que fatores sociais podem explicar porque e onde a maior parte dos assassinatos continua ocorrendo.

"O problema do crime e da violência está enraizado em condições do bairro -altas taxas de pobreza, tensão familiar, escolas decadentes, falta de oportunidades de lazer, recrutamento ativo por gangues de rua, mercados de droga", disse Karmen. "Pessoas forçadas a viver nestas condições têm um risco maior de serem vítimas da violência."

A política em geral não se impressiona com essas teorias, assim como os detalhes em torno das mortes.

"O crime é concentrado", disse Farrell. "Quem sabe por que? Estamos vendo o que podemos aferir."

Os quase um terço de homicídios ainda não resolvidos criam uma das maiores categorias de assassinato. Em geral, 50 a 55% dos assassinatos são resolvidos no mesmo ano no qual o crime é cometido, de acordo com Paul Browne, vice-comissário de polícia em Nova York.

A polícia libera um número adicional de assassinatos de anos anteriores, e chega a um índice anual total de cerca de 70%. Isso é mais do que a média nacional, que é mais próxima de 62%, de acordo com estatísticas do FBI.

Em Nova York, várias coisas podem contribuir para os números de casos em aberto, de acordo com a polícia e criminologistas. Um número significativo pode ser de assassinatos de estranhos, que são particularmente difíceis de resolver. Coletar as declarações das vítimas por si só pode levar meses. E algumas vezes os detetives podem não ter a pessoa certa com quem falar.

"O grande segredo do trabalho de detetive", disse Cornicello, "é que você tem que encontrar outra pessoa para dizer o que aconteceu". Deborah Weinberg

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