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28/04/2006

Estudo sugere método genético para combater a malária

The New York Times
Donald G. McNeil Jr.
Muitos mosquitos parecem matar naturalmente os parasitas da malária que ingerem, e pode ser possível explorar esta característica genética para combater a doença, de acordo com um estudo que será publicado na próxima sexta-feira.

"Os pesquisadores sonham há muito tempo em inserir um gene antimalária em mosquitos, mas este estudo sugere pela primeira vez que isto pode não ser necessário porque a maioria dos mosquitos é resistente à malária, e aqueles que são susceptíveis à doença são a exceção", afirmou Kenneth D. Vernick, microbiólogo da Universidade de Minnesota e principal autor do estudo.

"O estudo, que será publicado no periódico 'Science', é um grande passo à frente para a compreensão da genética dos mosquitos", afirmou Allan Schapira, coordenador do programa de combate à malária da Organização Mundial de Saúde (OMC). Dyann F. Wirth, diretor do programa de malária da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard, disse que o estudo "é um ótimo trabalho".

A descoberta modifica o terreno da guerra contra a malária, doença que mata mais de um milhão de pessoas por ano, a maioria delas crianças e mulheres grávidas. Neste campo de batalha em movimento, parasitas e mosquitos mutantes acabam adquirindo imunidade contra novas drogas ou pesticidas criados para destruí-los.

A resistência natural em mosquitos ao parasita Plasmodium falciparum se constitui em uma boa notícia para os pesquisadores que estudam a malária, porque em tese é mais fácil fortalecer um gene já existente do que implantar um outro pertencente a uma espécie diversa. O estudo também revelou que a resistência se concentra em uma pequena parte de um cromossomo, em vez de em locais diversos, o que torna a manipulação genética mais fácil.

No entanto, ainda que um mosquito "melhor" possa ser criado em laboratório, a idéia de soltar insetos geneticamente manipulados no meio-ambiente para que estes suguem sangue humano está cercada de perigos políticos. Após os lobbies feitos por grupos ambientalistas, alguns países africanos atualmente recusam auxílio alimentar que contenha milho geneticamente modificado, e são céticos em relação a sementes geneticamente modificadas que podem conferir resistência das plantações às secas.

Como uma alternativa, Vernick sugere que um fungo do solo que devora insetos, cujos poderes para matar mosquitos foi descrito por cientistas britânicos, poderia ser usado para atacar os insetos mais suscetíveis à malária em um enxame, eliminando-os da reserva genética da espécie.

Schapira disse que a idéia é "interessante", mas advertiu que anos de testes poderão ser necessários para determinar se ela é prática e segura.

O fungo, o Beauveria bassiana, é inócuo para os seres humanos, e foi aprovado para o uso contra afídios. Ele cresce sobre os insetos que pousam nas superfícies que foram pulverizadas com os seus esporos.

Há muito se sabe que menos de 10% de qualquer enxame de mosquitos no meio-ambiente transmitirá a malária. A idéia prevalecente era a de que isso se devia simplesmente ao acaso: uma fêmea de mosquito precisaria primeiro picar um humano suficientemente azarado para já estar infectado. A seguir os parasitas levariam cerca de 14 dias para se desenvolver nos intestinos do inseto e migrarem para as suas glândulas salivares, de onde passariam para a próxima vítima de picadas. Os mosquitos vivem pouco, e uma fêmea geralmente só é contagiosa durante os seus últimos dias de vida.

Este estudo deixa claro que a genética também exerce um papel neste processo, e que os mosquitos não são apenas uma espécie de seringas de inoculação dos parasitas da malária.

Segundo Vernick e Wirth, os parasitas Plasmodium prejudicam os mosquitos. Eles danificam os tecidos salivares, tornam o vôo dos insetos menos vigoroso e fazem com que estes coloquem menos ovos. Além disso, a fim de obter uma vantagem sobre os seus hospedeiros, podem deprimir o seu sistema imunológico.

"O mosquito não deseja ser infectado, de forma que ele respondeu com este mecanismo muito poderoso", explicou Vernick, referindo-se àquilo que chama de "ilha de resistência" no genoma do mosquito.

De uma maneira bem diferente, o fungo também debilita os mosquitos. Os insetos atacados pelo fungo voam mal e picam menos, e muitos morrem em 14 dias. Por motivos desconhecidos, ele enfraquece os mosquitos portadores do Plasmodium mais do que os mosquitos que não têm o parasita, afirmou Vernick.

Assim, segundo o pesquisador, se uma variedade do fungo forte o suficiente para eliminar mosquitos velhos, fracos e contaminados pela malária pudesse ser desenvolvida, isto poderia "desequilibrar a balança". Tal agente suprimiria os mosquitos suscetíveis à malária sem criar estímulos a mutações em todos os mosquitos, evitando que toda a população dos insetos evoluísse para uma forma resistente ao fungo, conforme ocorreu no caso do DDT, que criou uma pressão para que os mosquitos desenvolvessem resistência ao pesticida.

Para o estudo, cientistas da Universidade de Minnesota, da Universidade de Bamako, em Mali, do Centro de Pesquisas de Câncer Fred Hutchinson, em Seattle, e da Universidade Princeton coletaram vários mosquitos Anopheles gambiae - a espécie que tem maior potencial para disseminar a malária na África - em vilarejos de Mali.

Eles deixaram que cada mosquito produzisse uma geração de filhotes, e a seguir permitiram que sugassem sangue infectado com a malária (retirado do morador de uma vila, mas fornecido aos insetos através de uma membrana plástica). Uma semana depois, eles dissecaram os mosquitos para identificar onde os parasitas cresciam. Os pesquisadores ficaram surpresos ao constatar que 22% dos mosquitos não portavam parasitas, e que muitos outros tinham apenas um número pequeno do Plasmodium. A seguir, eles compararam os genomas do mosquito e se concentraram no gene denominado APL1. Quando desabilitaram este gene, os cientistas descobriram que os parasitas passaram a se desenvolver bem. Danilo Fonseca

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