UOL Notícias Internacional
 

29/04/2006

A teoria do laptop de US$ 100

The New York Times
Joe Nocera
Costumava ser fácil zombar de Nicholas Negroponte. O diretor-fundador do Laboratório de Mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) - e durante vários anos ilustre colunista da revista "Wired", que ele também ajudou a criar - era um daqueles indivíduos que faziam declarações tão drásticas que beiravam o grandioso. O "Financial Times" certa vez o descreveu como "o principal ciberevangelista do mundo", que gostava de profetizar que a Internet "geraria a paz mundial, destruiria as barreiras comerciais e promoveria a democracia". O seu livro de 1995, "Being Digital" ("A Vida Digital"), consolidou a sua reputação como o Bernard-Henri Levy da digerati (a elite digital): mesmo quando estava certo, as pessoas expressavam incredulidade.

Porém, no final da década de 1990, Negroponte passou a moderar a grandiosidade da sua retórica. Ele abandonou a sua coluna na "Wired" em 1998, e em 2000 deixou o cargo de diretor do Laboratório de Mídia, embora tenha permanecido no MIT. E, um ano e meio atrás, tirou uma licença da universidade para fazer algo que não seria de se esperar de um homem de 63 anos que ganhou a vida durante tanto tempo analisando questões de grande magnitude. Ele decidiu arregaçar as mangas e criar um novo computador.

Mas, não se tratava de um simples computador. Negroponte e os cerca de dez técnicos que se juntaram a ele estão tentando projetar - e produzir em massa - um computador que custará meros US$ 100, um preço tão reduzido que os governos de nações em desenvolvimento comprarão o produto em grande quantidade, e os fornecerão a crianças que vivem nas áreas mais pobres e remotas do Terceiro Mundo. Ele espera que algum dia haja centenas de milhões de tais máquinas no planeta, revolucionando a forma como as crianças aprendem. E, à medida que as crianças pobres obtiverem o conhecimento que sempre esteve fora do seu alcance, elas ajudarão a elevar os padrões de vida em todo o globo.

No momento, a organização sem fins lucrativos de Negroponte, One Laptop per Child (Um Laptop por Criança), está testando protótipos, arrecadando verbas e conversando com governos. Ela planeja iniciar suas atividades em sete países, com um milhão de laptops por país. A Advanced Micro Devices está criando o microprocessador para o laptop, e a Quanta Computer concordou em fabricá-lo. Negroponte espera que o laptop esteja em fase de produção até março de 2007, com um preço inicial de US$ 135, que cairá para até US$ 50 até 2010. A idéia pode ser considerada realista ou não, mas o fato é que aquilo que Negroponte está procurando fazer é ao mesmo tempo muito difícil e muito bom.

Seria de se imaginar que todo mundo estivesse de pé, aplaudindo a iniciativa. E, em certos locais, é isso o que acontece. "É um esforço inspirador, e um passo muito importante a ser dado", afirmou Calestous Juma, que leciona desenvolvimento internacional na Escola de Governo John F. Kennedy, da Universidade Harvard.

Mas nem todos são tão lisonjeiros. Desta vez, porém, aqueles que zombam de Negroponte fazem parte do grupo de pessoas mais importantes do setor tecnológico. Bill Gates, por exemplo. Quando lhe perguntaram sobre o laptop de US$ 100 no mês passado, o presidente da Microsoft respondeu: "Nossa! Seria melhor conseguir um computador decente, no qual o usuário fosse de fato capaz de ler os textos, e que não o obrigasse a girar a manivela da máquina e digitar o teclado ao mesmo tempo". Craig R. Barrett, presidente da Intel, chamou tal máquina de "uma engenhoca de US$ 100". Neste mês, Negroponte contra-atacou em uma exposição de comércio em Boston.

Embora todos agora estejam procurando arrefecer os ânimos, o atrito remete a algumas questões subjacentes sérias. Do que um computador necessita para que seja realmente útil? O que faz mais sentido quando se trata de levar computadores e conexão com a Internet às áreas pobres do mundo? E qual seria a melhor maneira de os computadores ajudarem as crianças a aprender?

Primeiramente, deixemos de lado a parte mais grosseira da disputa. O sistema operacional para o laptop de US$ 100 é uma versão de Linux, o software gratuito de fonte aberta. E, sim, a Microsoft preferiria que ele funcionasse com o Windows. "Creio que seria útil ter o Windows rodando nessa máquina", admitiu Craig Mundie, um dos três diretores técnicos da Microsoft. Ele argumenta que como o Windows está instalado na maior parte dos computadores do mundo, existe um "ecossistema" Windows que inclui dezenas de milhões de pessoas que sabem como operar máquinas Windows, consertá-las e usá-las como ferramentas didáticas (não seria também possível que a Microsoft estivesse preocupada com a possibilidade de que a inserção de 100 milhões de máquinas Linux no mundo viesse a representar uma ameaça à hegemonia do Windows?
Mundie não se dispôs a tecer comentários sobre tal possibilidade).

No entanto, Negroponte é capaz de adotar um tom abertamente evangélico ao falar sobre o software de fonte aberta. Não só o sistema operacional, mas todos os softwares da máquina seriam de fonte aberta, porque Negroponte acredita que as pessoas seriam capazes de analisar os programas e melhorá-los, e que isso só seria possível com códigos de fonte aberta. E ele também não está falando apenas de programadores profissionais. "Acreditamos que as crianças deverão ser capazes de entrar na máquina e criar o seu próprio código", afirma ele.

Negroponte acredita que até mesmo crianças analfabetas serão capazes de usar a máquina praticamente no momento em que a retirarem da caixa - e que, no momento certo, elas a adaptarão aos seus próprios desejos e necessidades.

Segundo a ótica da Microsoft/Intel aquilo que Negroponte está propondo é implausível - os diretores das duas companhias acham que crianças que nunca lidaram com computadores simplesmente não contarão com as habilidades para serem capazes de fazer muita coisa com uma dessas máquinas sem contarem com algum treinamento profissional.

E isso conduz à segunda área da disputa. Por trás do laptop de US$ 100 existem algumas teorias radicais de aprendizagem, há muito defendidas por Seymour Papert, um ex-professor do MIT e colega próximo de Negroponte.

Papert é um crítico dos currículos modernos, e um dos principais defensores dos computadores para que, de fato, se aprenda fazendo. "O computador é uma maneira de tornar o ensino menos formal e abstrato, fazendo com que ele consista mais em uma experiência".

De certa forma, o laptop de US$ 100 é um fator de promoção das idéias de Papert. Talvez uma vila que obtenha 50 laptops conte com um bom professor - mas talvez não. Segundo a visão de Papert, isso não deveria importar muito.

Ele acredita que, com o software correto, a própria máquina ajudaria as crianças a transcender as limitações dos seus professores e do meio em que vivem.

Mas essa é uma idéia que muita gente tem dificuldade em aceitar. "Quando você pergunta quem criará os programas, eles respondem, 'as crianças'", diz Michael Gartenberg, analista da Jupiter Research. "Você pergunta quem consertará as máquinas. Eles respondem: 'As crianças'. Quem criará os currículos? 'As crianças'. Algumas partes deste processo exigirão a supervisão de adultos".

O terceiro elemento a gerar polêmicas diz respeito àquilo de que um computador realmente necessita para que seja útil. O laptop de US$ 100 contará com muitos recursos típicos daquilo que consideramos como sendo um computador moderno, incluindo programa de processamento de texto, Wi-Fi e outros. Ele terá realmente algum tipo de manivela - ou talvez um pedal - para a geração de energia; de que outra forma poderia funcionar em locais desprovidos de energia elétrica? A máquina contará com uma tela de dupla finalidade, que permitirá que as crianças a usem como dispositivo de livro eletrônico ou como um computador normal. E ele poderá ser conectado com outros laptops de US$ 100, de forma que se uma vila carecer de acesso à Internet, as 50 ou 100 crianças poderão pelo menos se comunicar entre si.

Mas ele não será "completo", conforme o atual significado deste termo.
Segundo o argumento da Microsoft/Intel, até mesmo crianças pobres querem computadores reais que façam tudo aquilo que um computador tradicional faz.

No entanto, a equipe do The One Laptop per Child acredita que a maioria dos recursos existentes nos computadores atuais não passa de inutilidades.

Papert ficou furioso quando mencionei que Barret, da Intel, chamou o laptop de US$ 100 de engenhoca. "Isso é uma piada", disse ele. "Para a maioria das pessoas no mundo trata-se de um computador melhor do que o que eles estão vendendo, porque não está saturado com todo o lixo que eles inserem nas suas máquinas".

Os computadores modernos também custam bem mais que US$ 100, e é esse o motivo pelo qual os grandes fabricantes de computadores têm geralmente argumentado que faz mais sentido criar quiosques de Internet, ou cibercafés, onde as pessoas possam compartilhar o uso das máquinas. Já Negroponte e Papert insistem em dizer que, pelo menos para fins de aprendizado, é extremamente importante que as crianças usem os seus próprios computadores, e que possam usar as máquinas a qualquer momento.

Tenho que admitir que acho este último argumento bastante persuasivo. É claro que eu não vivo no mundo em desenvolvimento - mas nenhuma das partes envolvidas nesta discussão vive também no terceiro mundo. E é isso o que acaba tornando esta refrega ao mesmo tempo tão deprimente e tão tola.

Acontece que há várias tentativas em andamento no sentido de se levar computadores e a Internet às regiões pobres do mundo. A Advanced Micro Devices possui um programa chamado 50x15 - segundo tal programa, a empresa espera que 50% do mundo estejam conectados à Internet até 2015.
A Microsoft possui vários programas. E também a Intel. Na semana que vem, em uma grande conferência em Austin, no Texas, as duas companhias, juntamente com a Dell, apresentarão um novo notebook de baixo custo que as três empresas esperam que seja adequado - e desejável - no mundo em desenvolvimento.

Mas quem sabe se essa será a solução para o problema? E é nisto que reside a real questão. Ninguém sabe ao certo, neste momento, o que funcionará ou não.

O esforço de Negroponte é importante por ser tão diferente - ele não está amarrado à moderna infraestrutura empresarial da informática. Mas isto poderia facilmente se constituir em uma desvantagem incapacitante.

Só existe uma maneira de descobrir: construir a máquina, começar a distribuí-la e ver o que acontece. Por ora, a única coisa que os críticos deveriam estar dizendo a Negroponte é "boa sorte". Danilo Fonseca

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