UOL Notícias Internacional
 

29/04/2006

AIEA anuncia que Teerã está enriquecendo combustível nuclear

The New York Times
Elaine Sciolino*

em Viena, Áustria
O Irã reduziu drasticamente a cooperação com os inspetores nucleares nos últimos meses, enquanto acelerava o seu programa de enriquecimento nuclear, anunciou na sexta-feira (28/04) a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

O fato de o Irã não ter atendido ao prazo estabelecido pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) para cancelar todo o seu programa de enriquecimento de combustível nuclear até a sexta-feira praticamente garante que haverá uma longa disputa dentro do conselho em torno da questão de como conter as ambições nucleares iranianas.

Utilizando um tom sombrio inusual em um relatório de oito páginas solicitado pelo conselho, a agência nuclear também narrou a sua crescente dificuldade para monitorar as atividades iranianas, e a recusa do Irã em responder a perguntas sobre vínculos suspeitos entre o seu programa nuclear civil e o militar.

Pela primeira vez, a agência anunciou que o Irã começou de fato a enriquecer urânio em pequena escala, confirmando assim as alegações de Teerã.

O Irã frisou imediatamente que resistirá a todas as pressões externas. O país repetiu as suas demandas de que o mundo reconheça que os iranianos têm o direito legal de enriquecer urânio segundo os termos do Tratado de Não Proliferação Nuclear, e de dar início a qualquer negociação a partir de tal reconhecimento.

"Os fatos no campo de discussão mudaram", afirmou, em uma entrevista em Viena, Gholamreza Aghazadeh, presidente da Organização de Energia Atômica do Irã. Ele disse que o enriquecimento de urânio é "irreversível", rejeitando novamente a exigência do Conselho de Segurança de que o Irã pare de enriquecer urânio na sua instalação piloto em Natanz.

Em Washington, o presidente Bush disse: "A intransigência do governo iraniano não é aceitável". Mas ele também acrescentou rapidamente que "a diplomacia está só começando", em uma tentativa de afastar os temores entre os seus aliados de que os Estados Unidos estejam usando o debate no Conselho de Segurança como um prelúdio para ordenar um ataque militar contra as instalações iranianas.

Outras autoridades norte-americanas descreveram uma abordagem gradual, afirmando que planejam solicitar ao Conselho de Segurança, já na semana que vem, que exija que o Irã cancele o enriquecimento nuclear de acordo com o Capítulo 7 da Carta da ONU, que torna as resoluções obrigatórias segundo a lei internacional, e abre caminho para sanções ou até mesmo ações militares.

De fato, o Reino Unido imediatamente se comprometeu a apresentar uma resolução na semana que vem solicitando uma ordem obrigatória para que o Irã pare de enriquecer urânio.

Tal proposta deverá acelerar o debate, já que a Rússia e a China relutam em utilizar o Capítulo 7, cujo cumprimento pode ser imposto por meio de sanções ou ações militares.

"Todos nós sabemos a que o Capítulo 7 diz respeito", disse Wang Guangya, embaixador da China nas Nações Unidas. "Tudo o que queremos é uma solução diplomática. Portanto, eu acredito que se envolvermos o Capítulo 7 nesta questão, ela se tornará mais complicada".

Autoridades norte-americanas disseram na sexta-feira que os iranianos cometeram um erro de cálculo ao desafiarem os inspetores, e disseram que procurarão impor sanções mesmo sem a aprovação do conselho.

"O que eles fizeram foi criar uma coalizão contra si", afirmou R. Nicholas Burns, o subsecretário de Estado que liderou as negociações diplomáticas do governo norte-americano. "Os iranianos forçaram uma dinâmica segundo a qual terá que ser tomada alguma ação contra eles, seja no âmbito do conselho de segurança, ou fora dele, por nações que pensam de forma similar à nossa".

Ele disse que tal esforço se focalizará em negar ao Irã equipamento militar convencional e tecnologia de uso duplo, que pode ser utilizada para projetos nucleares e não nucleares, e em cortar os empréstimos internacionais a Teerã.

Bush se referiu à existência de um programa de armas nucleares no Irã como se isto fosse um fato comprovado. Mas a Rússia e a China argumentaram que, como não há evidências concretas de que o Irã esteja engajado em um programa de armamentos - evidências estas que a agência atômica diz estar sendo impedida de procurar -, esta não é uma questão de guerra e paz para o Conselho de Segurança.

Embora o Irã, o segundo maior produtor da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), tenha dito que não pretende promover uma redução das exportações como arma política, o preço do barril de petróleo ultrapassou os US$ 72 na sexta-feira após a divulgação do relatório da agência, antes de se estabilizar em cerca de US$ 71,88.

Os líderes iranianos parecem encorajados, ao invés de amedrontados, pelas últimas ameaças de medidas punitivas.

"Aqueles que desejam impedir que o Irã obtenha o seu direito devem saber que não damos a menor bola para tais resoluções", assegurou o presidente Mahmoud Ahmadinejad a uma multidão em Khorramdareh na sexta-feira.

Os iranianos expressaram confiança em que a comunidade internacional se encontra muito dividida para impor qualquer punição significativa, e mesmo que o faça, eles acreditam que o Irã está preparado para arcar com as conseqüências.

A agência nuclear conseguiu fazer com que o Irã revelasse gradativamente fragmentos do seu programa nuclear. Mas desta vez Teerã só deu passos mínimos - e, para o Ocidente, insuficientes - no sentido de cooperar com a agência.

"Após mais de três anos de esforços da agência no sentido de buscar transparência sobre todos os aspectos do programa nuclear iraniano, as lacunas de conhecimento existentes continuam a ser um motivo de preocupação", disse o relato da AIEA. "Qualquer progresso nesse sentido exige total transparência e a cooperação ativa do Irã".

O relatório citou um caso após o outro nos quais o Irã nada fez durante o prazo de 30 dias no sentido de fornecer informações que pudessem esclarecer se a sua atividade nuclear se destina a fins civis, conforme alegam as autoridades iranianas.

A agência, por exemplo, solicitou repetidamente ao Irã no decorrer dos últimos três anos que respondesse a certas perguntas, fornecesse documentos e franqueasse acessos, no que diz respeito a uma ampla gama de questões, como forma de garantir que o país não conta com um programa secreto de armamentos.

Desde fevereiro, quando a diretoria da agência, composta de 35 países, decidiu remeter o caso ao Conselho de Segurança, o Irã reduziu drasticamente a sua cooperação, suspendendo as visitas voluntárias a certos locais relacionados a atividades nucleares que não estão discriminados nas cláusulas do tratado assinado por Teerã.

"Continua havendo lacunas no conhecimento da agência sobre a amplitude do programa de centrífugas do Irã", disse o relatório. "Com a informação de que dispomos, não podemos avançar mais", afirmou uma autoridade aos repórteres, referindo-se aos dossiês sobre as centrífugas. "Estamos paralisados".

A autoridade apresentou uma lista de outras áreas nas quais o Irã desprezou as solicitações de informações por parte da agência, afirmando: "Não mantivemos nenhuma discussão a respeito dessas áreas no último mês". Ele acrescentou que tal tática de cooperação mínima tornou extremamente difícil para a agência verificar se o Irã possui programas nucleares secretos e não declarados.

De fato, o relatório se referiu a lacunas de informações que deixaram a agência "incapaz de fazer progressos nos seus esforços para apresentar garantias quanto à ausência de material nuclear não declarado e atividades nucleares no Irã".

A agência também não obteve uma explicação sobre o surpreendente anúncio feito por Ahmadinejad neste mês de que o Irã está realizando pesquisas sobre a fabricação de combustível atômico por meio do método de centrífugas P-2, uma tecnologia que os iranianos tinham declarado anteriormente que havia sido abandonada.

Em vez de fornecer informações e franquear acessos no que diz respeito a uma série de questões, em uma carta endereçada à AIEA, entregue na tarde da última quinta-feira, o Irã disse que apresentaria à agência um cronograma para cooperação em três semanas. "Mas isso somente se o dossiê nuclear do Irã permanecer, integralmente, dentro da estrutura da AIEA, e sob as suas salvaguardas", exigiu Teerã.

A carta foi interpretada por alguns funcionários da agência como uma ameaça velada de que o Irã poderia abandonar completamente o Tratado de Não Proliferação Nuclear, e como uma evidência de que Teerã está procurando ganhar tempo, seja para testar a determinação das outras nações, seja para tentar retomar as negociações - mas somente segundo as suas próprias condições.

Aghazadeh, que é também vice-presidente e ex-ministro do Petróleo, enfatizou a necessidade de mais tempo para conversações, afirmando: "Estamos dispostos a negociar a respeito dos temores do mundo, e da remoção de ambigüidades quanto à natureza e à magnitude do nosso programa nuclear".

O relatório da agência confirmou que o Irã completou um sistema de 164 centrífugas para enriquecimento de urânio na sua instalação em Natanz em março, acrescentando que outros dois sistemas, do mesmo tamanho, estavam em construção no local.

O relatório disse ainda que a agência obteve amostras em Natanz no início deste mês que "tendem a confirmar" o grau de enriquecimento de 3,6% declarado pelo Irã - o teor necessário para a produção de eletricidade.

O urânio necessita ter um grau de pureza de cerca de 90% para ser usado na fabricação de bombas, e são necessárias milhares de centrífugas para um programa de armamentos nucleares. Apesar disso, o programa iraniano preocupa os especialistas em questões nucleares.

Apesar dos relatos de que o Irã encontrou problemas para fazer com que as suas centrífugas funcionassem, a autoridade que discutiu o relatório
afirmou: "O que é relevante é que eles conseguiram montar o primeiro conjunto de 164 centrífugas em cascata e mantê-lo funcionando, conseguindo produzir urânio com baixo teor de enriquecimento. Até onde sabemos, as 164 centrífugas continuam girando".

O relatório disse ainda que o Irã pode ter recebido plutônio, que pode ser utilizado para produzir eletricidade ou armas atômicas, de uma fonte secreta.

*Contribuíram para este artigo David E. Sanger, em Washington, William J. Broad, em Nova York e Nazila Fathi, em Teerã. Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,03
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,09
    68.714,66
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host