UOL Notícias Internacional
 

29/04/2006

Novo Nepal: na encruzilhada

The New York Times
Tilak P. Pokharel e Somini Sengupta*

em Katmandu, Nepal
Quando o Parlamento se reuniu aqui na sexta-feira pela primeira vez em quatro anos, o novo primeiro-ministro sinalizou mudanças momentosas na política nepalesa, em um momento que a história poderá muito bem recordar como uma encruzilhada entre guerra e paz.

O novo líder, Girija Prasad Koirala, aos 84 anos o estadista mais velho na política nepalesa, estava doente demais para participar da cerimônia de posse de um cargo de primeiro-ministro que assumirá pela quinta vez, disseram seus companheiros de partido, o Congresso Nepalês.

Tyler Hicks/The New York Times 
Manifestantes pró-democracia encaram policiais em manifestação na capital Katmandu

Mas em uma carta apresentada ao Parlamento e repleta de promessas, ele pareceu estender a mão aos rebeldes maoístas, prometendo convidá-los para conversações, anunciou um cessar-fogo em resposta ao anúncio dos rebeldes na quarta-feira de três meses de cessar-fogo unilateral, e disse que realizará eleições para uma nova Constituição que decidirá o destino da monarquia, a principal exigência dos rebeldes.

No domingo, o Parlamento debaterá estas questões, que estavam incluídas no acordo assinado no ano passado pelos maoístas e pelos partidos políticos do Nepal.

Tais promessas não são nada menos que surpreendentes, considerando a antipatia que Koirala nutria pelos rebeldes. Cinco anos atrás, em seu quarto mandato como primeiro-ministro, Koirala ordenou que o Exército Real Nepalês atacasse a insurreição maoísta que fervia nas montanhas. Os altos oficiais do exército, desacostumados com qualquer coisa além do papel cerimonial e a responder apenas ao rei do Nepal, se recusaram.

Agora, após três semanas de desordeiros protestos de rua na capital e da concessão do rei Gyanendra de abrir mão do poder absoluto do Estado, Koirala e o novo governo que formará quando o Parlamento retomar as atividades no domingo enfrentarão vários desafios. O exército que antes desafiou as instruções de Koirala permanece sob comando do Palácio Narayanhiti. Seu chefe de gabinete prometeu cooperar com um novo governo, mas permanece a dúvida sobre se os soldados em terra de fato respeitarão o cessar-fogo e seguirão as ordens de um governo interino que poderá incluir os maoístas.

E há os maoístas. O novo governo enfrenta a escolha de adotar uma linha-dura contra os rebeldes ou tratá-los como parceiros no esforço para forçar o rei a recuar. A guerra maoísta já custou 13 mil vidas ao longo de 10 anos.

Até agora, os maoístas ofereceram promessas mas pouca prova real de que começarão a seguir as regras da democracia parlamentar. Não se sabe se eles se submeterão visando deter poder no novo governo -uma "democracia burguesa" segundo eles. Igualmente incerto é se conseguirão conter seus próprios soldados, estimulados por uma década de luta por um governo comunista de um só partido.

Os Estados Unidos, entre os maiores críticos dos maoístas, disseram que antes que eleições para uma assembléia constituinte possam ser realizadas, os rebeldes precisam se desarmar. Os maoístas se recusaram a fazê-lo, mas concordaram em isolar suas tropas sob supervisão internacional caso o Exército Real Nepalês faça o mesmo. Os maoístas também querem que suas forças, o Exército de Libertação do Povo, se torne parte de um novo exército nacional. O comando do exército não comentou tal exigência.

Como restringir as forças maoístas armadas durante o referendo de uma nova Constituição continua sendo um dos desafios mais espinhosos para o novo governo e os governos estrangeiros que o apóiam.

A outra questão crucial é se o referendo da nova Constituição será "incondicional", como insistem os maoístas, permitindo que os cidadãos nepaleses tenham a palavra final sobre se querem uma monarquia ou não.

Gyanendra, que assumiu controle completo do Estado há quase 15 meses, no que disse ter sido um esforço para derrotar a rebelião maoísta, cedeu bem mais do que inicialmente desejava. É provável que ele busque preservar ao menos o papel cerimonial da monarquia. As vozes mais altas nos protestos de rua pediam a cabeça do rei. "Queimem a coroa", era uma dos slogans favoritos nas manifestações. De fato, entre os jovens do Nepal, um forte lobby tem pedido por uma república democrática, sem rei. Esta também era uma das principais exigências dos maoístas, apesar de terem prometido aceitar os resultados do voto popular quanto ao futuro da monarquia.

O referendo da Constituição faz parte de um acordo de 12 pontos assinado no ano passado pelos partidos políticos do Nepal e os rebeldes. Tal acordo também inclui a promessa dos maoístas de colocar suas tropas sob supervisão internacional durante as eleições para formação de um governo interino que incluirá representação maoísta. Tal acordo representou um recuo em relação à meta original dos maoístas de estabelecer um Estado comunista com partido único.

Na sexta-feira, Koirala recordou o acordo em sua declaração ao Parlamento. "Eu sou o único responsável perante todas as pessoas e os sete partidos", ele escreveu, "e meu primeiro compromisso é implementar o roteiro e o entendimento de 12 pontos apresentados pelos sete partidos".

*Reportagem de Tilak P. Pokharel em Katmandu; Somini Sengupta em Nova Déli George El Khouri Andolfato

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