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29/04/2006

Sangue até os olhos, e gostando

The New York Times
Alex Williams
Quando era criança, Chris Zelez não era como outras meninas. Sim, ela também tinha um amigo imaginário. O seu, entretanto, não se chamava Jill ou Susan, mas Freddy Krueger, inspirado no assassino de dedos de lâmina em "A Hora do Pesadelo". Quando chegou à adolescência, decorou seu quarto com cartazes de Leatherface, o vilão de "O Massacre da Serra Elétrica".

Então, se havia uma mulher pronta para apreciar o novo subgênero em expansão de filmes de terror ultra violentos, era Zelez, hoje com 20 anos e editora de uma produtora de vídeos em Charlotte, Carolina do Norte. Duas semanas atrás ela correu para comprar no dia do lançamento o DVD de "Hostel", sucesso no qual europeus mais velhos atacam estudantes americanos com ferramentas elétricas. Em 2004, ficou na fila para ver a estréia à meia noite do igualmente sangrento "Jogos Mortais".

"Muitas estão chegando agora. Gostamos das mesmas coisas que os meninos", disse Zelez das fãs do gênero, que está ajudando a reanimar as bilheterias neste ano depois de um 2005 lúgubre.

Zelez não gosta do clichê de que as mulheres só vão ver filmes de medo como desculpa para abraçar os namorados. "Tenho amigas que adoram violência gratuita, sangue e pessoas partidas em pedaços", disse ela.

Está certa sobre uma coisa: o número de jovens mulheres comprando ingressos para a nova onda sangrenta de filmes de terror é impressionante, surpreendendo até executivos de Hollywood. "Jogos Mortais II", no qual um sádico prende as vítimas em uma casa e envenena-as com gás, atraiu mais mulheres do que homens com menos de 25 anos - faixa etária alvo para filmes de terror.

O estúdio por trás da série "Jogos Mortais", Lionsgate, disse que 32% dos bilhetes para "Jogos Mortais II" foram vendidos para mulheres com menos de 25, comparados com 28% para homens da mesma idade. Em outra pesquisa do estúdio, mais de dois terços das meninas adolescentes se identificaram como fãs de filmes de terror, comparadas com cerca de apenas metade dos rapazes (que preferiam comédias).

Apesar das espectadoras estarem há muito associadas com um tipo de filmes de terror mais etéreo e sutilmente assustador, como os filmes de Drácula dos anos 30 e "O Chamado" mais recentemente, em geral Hollywood acredita que as meninas "não querem ficar enojadas", disse Marc Weinstock, vice-presidente executivo de marketing da Sony Pictures Entertainment.

Mas aparentemente sim. A pesquisa da Sony na saída de "Silent Hill" indicou que as mulheres eram quase metade do público. O filme de terror sangrento baseia-se em um videogame e foi o título que mais arrecadou no país no último final de semana.

"Vou ver a que ponto eles chegam com o nojento e o sangrento; a história é irrelevante", disse Helen Gauh, 21, estudante da Faculdade Comunitária de Manhattan que outro dia foi ao AMC Loews Lincolns Square na Rua 68 Oeste para ver "Silent Hill".

O interesse das jovens em terror está ligado em parte à evolução do gênero.Hoje, muitos desses filmes são mais mentais, além de mais nojentos. Desde os tempos dos filmes de matadores do final dos anos 70, os papéis das mulheres evoluíram de vítimas adolescentes semi-nuas e histéricas para personagens mais complexos e satisfatórios -protetoras da família, lutadoras ou às vezes assassinas.

Uma geração de moças foi criada com a firme crença de que pode fazer qualquer coisa, desde vencer um campeonato de skate até se tornar presidente da escola. Assistir filmes cheios de sangue é mais um setor que se sentem à vontade para entrar. "Faz-me sentir rebelde entre as meninas", disse Gauh.

Para ela, o ciclo de tensão e alívio que acompanha o terror no cinema gera uma espécie de êxtase de jogador. "Não é que eu me mutile", disse ela, "Mas é uma onda poderosa quando você supera alguma dor."

A extrema violência dos novos filmes de horror, sintetizada em "Hostel" e sua seqüência, "Hostel 2", tornou-se uma questão de guerra de braço entre alguns críticos de filmes, a começar pela divulgação de "Jogos Mortais" em Outubro de 2004. "Jogos Mortais" e sua seqüência arrecadaram US$ 250 milhões (em torno de R$ 550 milhões) no mundo todo e "Jogos Mortais III" está em produção. Dos 25 filmes que mais ganharam neste ano, quase um quarto são de terror. David Edelstein, crítico da New York Magazine, igualou alguns com "pornografia de tortura".

"Haute Tension", por exemplo, é um filme francês sangrento sobre um assassino de capa que mata uma família que está numa casa de campo. Atraiu um público de 28% e 24% de homens mulheres com menos de 25 anos em sua estréia nos EUA no verão passado.

Ao menos "Haute Tension" tinha personagens femininos fortes em papéis importantes.

Mas em "Hostel" as mulheres, quando aparecem em geral estão sem a parte de cima. Ainda assim, atraiu tantas jovens do sexo feminino quanto do sexo masculino -32% contra 36%.

"Imaginava-se que quanto mais sangrento o filme, menor seria o número de mulheres", disse Tim Palen, presidente de marketing da Lionsgate. "Mas isso absolutamente não acontece."

Ele acrescentou que mesmo quando se chega na "cartilagem", as mulheres estão lá.

Nem sempre foi assim.

John Carpenter, que ajudou a começar a última onda de filme de matadores com "Halloween" em 1978, disse que os estúdios daquele tempo não tinham dados demográficos sofisticados para um gênero que considerava mais adequado para drive-ins. Mas o público alvo eram jovens do sexo masculino. "Antigamente, isso era a cultura dos rapazes", disse Carpenter. "Por alguma razão, mudou com o tempo."

Enquanto algumas feministas tentaram encontrar um subtexto positivo para o fato de as personagens principais nesses filmes, como o papel de Jamie Lee Curtis em "Halloween", em geral triunfarem -ou ao menos sobreviverem- Carpenter disse que as meninas funcionam praticamente como iscas.

"O distribuidor sugeriu: 'Vamos fazer um filme sobre um matador que ataca babás'. Realmente não tinha nada além disso", disse Carpenter sobre "Halloween".

Por outro lado, personagens femininos nos atuais filmes de abatedores tendem a ser mais tri-dimensionais e dinâmicos. "Haute Tension", por exemplo, explora o limite entre a amizade e uma atração erótica entre suas duas personagens principais.

Nos filmes modernos, "as mulheres não são tão objetos quanto nos antigos", nos quais as heroínas eram "claramente discriminadas", disse Sierra Pasquale, 21, estudante do Hunter College.

"Muitos dos meus amigos ficam surpresos quando vou ver esses filmes", acrescentou Pasquale. "Porque em geral são os homens que cometem os assassinatos, então eles vêem como uma situação dominadora. Mas algumas vezes são as mulheres que resolvem o mistério, então parecemos mais espertas no final. É: 'Há há, não morremos, você morreu.'"

Apesar de os estúdios estarem escrevendo personagens femininos mais interessantes, freqüentemente fazem pouco para adequar seu marketing às mulheres. Palen da Lionsgate disse que o estúdio inicialmente estava preocupado que o teor masculino do primeiro "Jogos Mortais", sobre dois homens atormentados por um matador em série chamado Jigsaw, ia afastar as mulheres. Então o estúdio fez um anúncio alternativo para a televisão sobre a mulher do protagonista, um papel coadjuvante, no qual ela tenta proteger a filha do casal.

"Era uma dinâmica interessante, uma mãe ursa protegendo seu filhote e
pensamos: 'Será ótimo para as mulheres'", disse Palen. Mas as elas não reagiram aos anúncios nos testes, então o estúdio ficou com a campanha original montada em torno do sangue e terror. Números substanciais de mulheres viram o filme.

"É a adrenalina", disse Sarah Stark, gerente de teatro em Lima, Ohio, explicando seu interesse antigo por filmes sangrentos. Para ela, filmes de terror violentos são quase um teste de resistência pessoal, um pouco como descer uma corredeira -o puro terror que limpa a mente e parece reduzir tudo na vida a um único momento de excitação.

Os cenários baratos e efeitos especiais dos filmes de matadores tradicionais em geral foram substituídos por uma estética artística. Sarah Morris, 23, pesquisadora de uma agência de fotografia em Washington, disse apreciar como os filmes de assassinos em série eram "muito mais bem feitos hoje", ao mesmo tempo fantasticamente simples e super assustadores. "Você está preso em um porão com baratas no chão e está sujo", disse ela. "Sinto-me suja quando assisto. Gosto disso nos filmes."

A teoria que prevalece entre os professores entrevistados é que quanto maior a complexidade emocional dos filmes de terror, mais atraentes são para as mulheres. Em "Jogos Mortais", o assassino, que tem uma doença fatal, constrói armadilhas psicológicas elaboradas em um esforço distorcido para levar suas vítimas a apreciarem suas vidas.

Ou talvez o apelo seja mais visceral. Apesar de críticos como Roger Ebert terem criticado os primeiros filmes de matadores como um contragolpe no feminismo, alguns dos novos filmes são um tipo diferente de fantasia de vingança. A vítima primária em "Jogos Mortais" é um marido safado. As principais vítimas de "Hostel" são rapazes cheios de testosterona e cerveja em uma república estudantil. "Eu adorei como as mulheres usavam seus corpos para enganar", disse Zelez, referindo-se às mulheres em "Hostel" que parecem ser brinquedos sexuais para as vítima, mas de fato atraem os homens para suas mortes. E afirmou: Como mulheres, "usamos nossos corpos e conseguimos o que queremos. E elas definitivamente conseguiram o que queriam." Deborah Weinberg

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