UOL Notícias Internacional
 

30/04/2006

Eco da Guerra Fria

The New York Times
David E. Sanger, em Washington e
Elaine Sciolino, em Viena
O Irã e os Estados Unidos começaram a revelar novas estratégias em sua disputa nuclear que parecem fadadas a provocar uma escalada no confronto entre os países, enquanto buscam manipular a seu favor um relatório altamente crítico que retrata um programa nuclear em pleno andamento e crescente sigilo.

De muitas formas, o que transcorreu nos últimos três dias lembra o logro e malabarismo político da Guerra Fria, mas com algumas peculiaridades novas para uma era nuclear muito diferente. E, assim como nos primeiros dias da Guerra Fria, ambos os lados têm tentado reescrever as regras enquanto o jogo está em andamento, usando todas as ferramentas disponíveis -das ameaças americanas de sanções às ameaças iranianas de suspensão da venda de petróleo.

O Irã, segundo a Agência Internacional de Energia Nuclear (AIEA), tem sido bem-sucedido em afastar gradualmente os inspetores da agência, cada vez mais lhes negando acesso a instalações cruciais e se recusando firmemente a responder perguntas sobre as ligações suspeitas entre o programa nuclear civil do Irã e seu programa nuclear.

Apesar de o Irã negar qualquer esforço clandestino para construir uma arma nuclear, o país está claramente seguindo o manual diplomático de um país que a tem -a Coréia do Norte- ao ponto de se gabar, e talvez exagerar, sua proeza nuclear em um esforço para convencer o Ocidente de que seu programa agora é impossível de ser detido.

O presidente da Organização de Energia Atômica do Irã, Gholamreza Aghazadeh, e outras autoridades iranianas descreviam o enriquecimento de urânio de seu país como "irreversível" na sexta-feira. Eles disseram que os Estados Unidos simplesmente devem aceitar isto como fato -assim como atualmente aceitam abertamente que o Paquistão e a Índia nunca abrirão mão de sua tecnologia nuclear. No sábado, o inflamado presidente do país, Mahmoud Ahmadinejad, disse que abrir mão do enriquecimento "é nossa linha vermelha, e nós nunca a cruzaremos", segundo a televisão estatal iraniana.

Em Washington, altos funcionários do governo Bush adotaram uma posição no extremo oposto. Nas palavras de Robert Joseph, o alto funcionário do Departamento de Estado para proliferação, o governo está determinado a assegurar que "nenhuma centrífuga gire" no Irã. Em entrevistas nos dois últimos dias, as autoridades descreveram um plano para obter medidas executáveis nos pedidos do Conselho de Segurança da ONU para que o Irã deixe de enriquecer urânio. O que tem incomodado os russos, os chineses e até alguns países europeus é o fato de estarem insistindo para agir segundo o Capítulo 7 da carta da ONU, que abre caminho para um posterior uso de sanções ou força militar.

Mas esta ainda não é uma disputa entre potências nucleares -ninguém acredita que o Irã já tenha uma bomba e estimativas da inteligência dizem que isto ainda levará de cinco a dez anos, presumindo que não haja um esforço clandestino que ninguém tenha detectado.

Em vez disso, é um esforço dos Estados Unidos e de alguns outros países de reescrever as regras nucleares, declarando que mesmo se o Irã tenha legalmente, segundo o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, o direito de enriquecer urânio para fins civis, Ahmadinejad, que tem falado em destruir Israel e restaurar o Irã como a maior potência do Oriente Médio, não é digno de confiança para isto. Ao ludibriar a agência nuclear sobre suas atividades, disseram Bush e as autoridades britânicas, francesas e alemãs, o Irã abriu mão de quaisquer direitos que desfrutava segundo o tratado.

Mas Bush reconheceu tacitamente que a credibilidade dos Estados Unidos foi profundamente manchada pelos fracassos de inteligência no Iraque, e na sexta-feira tentou apaziguar as preocupações de que está seguindo pelo mesmo caminho que usou para dar base legal à invasão que ordenou há 37 meses. "Há uma diferença entre os dois países", ele alertou aos repórteres no Jardim das Rosas, enquanto seus aliados em relação ao Irã falam diariamente das semelhanças entre os dois paises.

E pela primeira vez, o governo declarou publicamente, como fez no caso do Iraque, que se o Conselho de Segurança não agir, Bush organizará "nações de pensamento semelhante" para iniciar a imposição de uma punição.

"Nós não admitiremos chegar a um ponto em que o Irã venha a se tornar uma potência de armas nucleares", disse R. Nicholas Burns, que está chefiando as negociações diplomáticas para a secretária de Estado, Condoleezza Rice. Ele insistiu que o Irã está equivocado se acha que o governo Bush permitirá que suas atividades nucleares prossigam -como aconteceu na Coréia do Norte nos últimos três anos- enquanto as negociações se arrastam à beira do colapso.

"A diferença nas duas situações é que no Irã você tem um Estado situado na área mais volátil do mundo, que é o principal banco central das ações terroristas, e isto torna a ameaça geral mais urgente", disse Burns. "Eles não podem contar com uma comunidade internacional dividida e complacente."

Mas as estratégias apenas endureceram a posição do outro lado.

As ameaças episódicas de Washington -dos vagos comentários do presidente de que "todas as opções" estão na mesa caso a diplomacia falhe ao aumento da discussão pública sobre se Bush e os israelenses optarão no final por um ataque militar- até o momento tem fracassado.

Os iranianos têm respondido com suas próprias ameaças, cientes de que mesmo o espectro de um confronto agita os mercados de petróleo e elevam os preços a novos patamares, enriquecendo o Irã e aumentando a dor para Bush e para os consumidores americanos.

Mas os iranianos, disseram especialistas da Agência Internacional de Energia Atômica e daqui de Washington, podem ter exagerado sua posição.

Apesar de insistirem que suas atuais atividades estão dentro de suas obrigações segundo o tratado, eles ignoraram o parecer da AIEA de que Teerã escondeu algumas de suas atividades por duas décadas. E o relatório de sexta-feira acusa o Irã de continuar escondendo informação vital.

Mas esta disputa envolve mais do que apenas transparência; ela envolve o orgulho nacional e a insistência do Irã de auto-suficiência e independência. Isto pode ajudar a explicar o motivo do Irã ter celebrado o enriquecimento com dançarinos em trajes tradicionais, que desfilaram em televisão nacional enquanto seguravam uma pequena caixa que diziam conter os frutos de seus esforços atômicos.

O relatório dos inspetores confirmou que o Irã teve sucesso em enriquecer o urânio em um nível baixo, mas que necessitaria de um processamento mais significativo -e bem mais equipamento- para produzir combustível para uma bomba. Fabricar uma ogiva exigiria tempo e detecção de risco.

"O verdadeiro combate aqui não é sobre terem ou não um programa de armas, é sobre se podem criar uma opção de armas nucleares", disse Gary Samore, que chefiou os esforços de não-proliferação no governo Clinton e continua a estudar o programa iraniano, falando em uma entrevista no início deste ano. "E isto é um jogo de fumaça e espelhos, convencer a todos que eles têm tal capacidade."

Isto é o que mais preocupa as autoridades do governo Bush. Funcionários que lidam com estratégia nuclear notam que atualmente se presume que a Coréia do Norte disponha de algo entre várias e 10 armas nucleares -apesar dos norte-coreanos nunca terem realizado um teste nuclear.

"Nós achamos que os iranianos olharam para os coreanos e aprenderam uma lição", disse um alto funcionário, que não falou on the record na questão de estratégia nuclear.

Seria uma abordagem muito diferente da adotada pelos russos no final dos anos 40, ou pelos chineses no início dos anos 60, ou pelos indianos e paquistaneses no final dos anos 90, que promoveram explosões nucleares para provar sua capacidade. E dada a habilidade limitada dos inspetores da AIEA de examinar as instalações suspeitas, disseram funcionários daqui e de Viena, não haveria forma de verificar, ou rejeitar, as alegações iranianas.

Devido ao risco do Irã poder de fato chegar a uma bomba, Bush adotou a posição de que o Irã deve abrir mão de tudo. Na sexta-feira, ele disse: "Os iranianos não devem ter uma arma nuclear, a capacidade de fazer uma arma nuclear ou o conhecimento de como fazer uma arma nuclear".

Os russos e os chineses consideram isto irreal; um alto funcionário russo disse que é hora de uma nova abordagem, uma de "détente" com o Irã, empregando outro termo da Guerra Fria.

E em Viena, o diretor geral da agência atômica, Mohamed ElBaradei, deixou claro em conversas com diplomatas que o pragmatismo ditará no final que o Irã será autorizado a alguma forma limitada de enriquecimento, monitorado constantemente por sua agência.

Mas há o temor -aqui e em Viena- de que a AIEA está vendo apenas parte do programa e que as respostas evasivas às perguntas da agência visam esconder um programa clandestino, em algum ponto sob o deserto. E como o Irã restringe o acesso dos inspetores, será mais difícil saber com que o Irã mais se parece: com o programa muito real paquistanês que os iranianos compraram há um década, ou com a miragem nuclear no Iraque. Irã e EUA revelam estratégias na disputa nuclear que parecem fadadas a provocar uma escalada no confronto entre os países George El Khouri Andolfato

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