UOL Notícias Internacional
 

02/05/2006

Imigrantes promovem protestos por todos os Estados Unidos

The New York Times
Randal C. Archibold

em Los Angeles
Centenas de milhares de imigrantes e seus defensores deixaram o trabalho, escola e as compras na segunda-feira, marchando em dezenas de cidades de costa a costa. As manifestações não pararam o país como planejado por alguns organizadores, mas sinalizaram a determinação daqueles a favor do relaxamento das leis do país sobre imigração ilegal.

Originalmente rotulado como um boicote econômico nacional sob a bandeira de "Dia Sem um Imigrante", o dia evoluiu em uma ampla série de protestos que visavam influenciar o debate no Congresso sobre as propostas que concederiam status legal a todos ou quase todos os cerca de 11 milhões de imigrantes ilegais no país.

Os manifestantes, misturando imigrantes ilegais, legais e cidadãos americanos, eram na maioria latinos, mas diferente de manifestações semelhantes nos últimos dois meses, um grande número de pessoas de outras etnias se juntou e apoiou muitos dos eventos. Em alguns casos, os comícios adotaram um tom mais amplo de ação social, com defensores dos direitos dos gays, oponentes da guerra no Iraque e outros sem participação direta no debate da imigração tomando as ruas.

"Eu acho justo falar em nome daqueles que não podem falar por conta própria", disse Aimee Hernandez, 28 anos, uma das cerca de 400 mil pessoas que foram às ruas em Chicago, uma das maiores manifestações. "Eu acho que somos pessoas demais para que você possa nos mandar de volta. Como você ignorará estas pessoas?"

Mas entre aqueles que defendem controles mais rígidos sobre a imigração ilegal, os protestos pouco impressionaram.

"Isto só resultará em um dia sem trânsito nas vias expressas, um dia de
folga para as crianças na escola e um dia de folga para outros no trabalho", disse Jim Gilchrist, o fundador dos Minutemen, um grupo voluntário que patrulha a fronteira entre México e Estados Unidos, em uma entrevista.

"Mas quando a regra da lei é ditada por uma turba de ilegais tomando as
ruas, especialmente sob uma bandeira estrangeira, então isto significa que a nação não é governada pela regra da lei. É um governo das turbas", disse Gilchrist.

Apesar do boicote, uma idéia nascida dois meses atrás entre um pequeno grupo de defensores dos imigrantes aqui em Los Angeles, não ter paralisado o país, ele foi fortemente sentido em vários locais, particularmente naqueles com grandes concentrações de latinos.

Lojas e restaurantes em Los Angeles, Chicago e Nova York ficaram fechados porque os trabalhadores não compareceram ou como demonstração de solidariedade para com os manifestantes. Escolas em várias cidades
informaram um número elevado de faltas -no colégio Benito Juarez, em Pilsen, uma comunidade predominantemente latina em Chicago, apenas 17% dos estudantes compareceram às aulas- apesar dos administradores e alguns dos organizadores do protesto terem pedido aos estudantes para que permanecessem na escola.

Alface, tomate e uvas não foram colhidos em campos na Califórnia e Arizona, que contribuem com mais da metade da produção do país, já que grande parte dos produtores deram folga aos trabalhadores. Os caminhoneiros que transportam 70% dos bens em portos em Los Angeles e Long Beach, o mais movimentados do país, não trabalharam.

Frigoríficos, incluindo Tyson e Cargill, fecharam suas fábricas no
Meio-Oeste e no Oeste, que empregam mais 20 mil pessoas, enquanto os amplos mercados de flores e de produtos hortifrutigranjeiros no centro de Los Angeles permaneciam estranhamente vazios.

Israel Banuelos, 23 anos, e mais de 50 de seus colegas não foram trabalhar, com a concordância de má vontade de seu empregador, uma fábrica de tinta industrial em Hollister, Califórnia.

"Nós devíamos trabalhar", disse Banuelos. "Mas queríamos a empresa fechada. Nosso chefe não gostou disto do ponto de vista financeiro."

O impacto econômico disto tudo é difícil de calcular, apesar de economistas acharem que a paralisação terá pouco impacto de longo prazo, e em grandes partes do país a vida prosseguiu sem diferença perceptível. Mas os manifestantes em várias cidades, muitos vestidos de branco e acenando bandeiras americanas em resposta às queixas de que manifestações anteriores exibiam bandeiras latino-americanas demais, declararam vitória, enquanto as multidões entoando cantos fechavam as ruas.

Grande parte da ira dos manifestantes era direcionada a um projeto de lei aprovado pela Câmara, que aumentaria a segurança na fronteira e tornaria crime um imigrante ilegal estar no país ou ajudar um. Os manifestantes em geral defendiam o plano do Senado, que tem sinais de apoio do presidente Bush, que incluiria mais proteção na fronteira, mas ofereceria a muitos trabalhadores ilegais um caminho para a cidadania.

Ainda assim, a divisão entre os defensores em torno do valor e eficácia do boicote resultou em algumas cidades, incluindo Los Angeles e San Diego, na promoção de duas manifestações de tamanho considerável, uma organizada pelos autores do boicote e outra por pessoas neutras ou opostas a ele.

Tal divisão ocorreu por todo o país. Apesar de muitos empresários terem
alertado os funcionários contra tirar o dia de folga, muitos outros buscaram negociar folgas e outras formas para registrar o sentimento dos trabalhadores.

Os hotéis-cassino de Las Vegas informaram terem sido pouco afetados, em
parte porque os proprietários dos grande hotéis e cassinos anunciaram em uma coletiva de imprensa, na semana passada, seu apoio aos trabalhadores imigrantes e por hoje mais de 40 cassinos terem montado mesas em refeitórios de funcionários para que os trabalhadores assinassem petições pró-imigração.

Os líderes do Culinary Union 226, o maior sindicato do setor hoteleiro da cidade, que representa 50 mil trabalhadores, do quais 40% são latinos, também pediu aos membros que trabalhassem.

Pequenas empresas de lá e de outros locais sentiram o impacto. Javier
Barajas disse que fechou os quatro restaurantes mexicanos da família em Las Vegas, porque seus funcionários o alertaram que não compareceriam, o que lhe custou mais de US$ 60 mil em receita perdida.

"Eu não posso demitir todo mundo por causa disto, mas eu gostaria que
tivessem outra forma de se expressar", disse Barajas, ele mesmo um
ex-imigrante ilegal mexicano que acabou se tornando um cidadão americano. "São as pequenas empresas que são mais prejudicadas por isto."

Mas para muitos imigrantes, foi apenas mais um dia de trabalho.

Em um Home Depot em Hollywood, Califórnia, os trabalhadores lotavam como sempre as entradas do estacionamento, à procura de trabalho. Um lava-rápido no bairro Echo Park de Los Angeles estava agitado com funcionários passando aspirador, lavando e secando carros, enquanto as pessoas faziam fila nos mercados, apesar de alguns terem registrado um menor movimento.

"Eu estava pensando em não comprar nada, mas então precisei", disse Alex Sanchez, 28 anos, um operário de construção que estava comprando abacate, pimenta e cerveja.

O boicote nasceu de uma idéia apresentada por um pequeno grupo de defensores dos imigrantes em Los Angeles, inspirados pelo movimento dos trabalhadores rurais dos anos 60, liderado por Cesar Chavez e Bert Corona. Por meio da Internet e da mídia voltada aos imigrantes, eles desenvolveram e mobilizaram uma rede de organizadores sindicais, grupos de direitos dos imigrantes e outros para espalhar a idéia e planejar os eventos ligados ao boicote. Os organizadores de Los Angeles disseram que cerca de 70 cidades realizaram atividades ligadas ao boicote.

O dia promoveu toda forma de manifestação de apoio. Uma rede de lojas de departamento ofereceu espaço para que advogados dessem orientação legal aos imigrantes; o humorista Paul Rodriguez apareceu no Laugh Factory, um clube de humor, em Hollywood para promover seu dia de atendimento de saúde aos trabalhadores imigrantes.

Em Chicago, havia solidariedade na diversidade. Os latinos receberam o apoio de imigrantes de origem polonesa, irlandesa, asiática e africana, assim como de muçulmanos, enquanto seguiram do centro histórico de Chicago, passando pela Junta de Comércio e se espalharam pelo Grant Park, à margem do Lago Michigan.

Jerry Jablonski, 30 anos, disse que veio da Polônia para Chicago há seis anos, primeiro voando para o México e depois cruzando a fronteira, e que agora trabalha no setor de construção.

"A Polônia é meu antigo país", ele disse, acenando uma bandeira polonesa e uma americana. "Este é meu novo país. Eu posso fazer tudo acontecer aqui." George El Khouri Andolfato

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