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03/05/2006

EUA desenvolvem arma de raios laser para destruir satélites

The New York Times
William J. Broad
O governo Bush está procurando desenvolver uma poderosa arma de raios laser instalada no solo que usaria raios de luz concentrada para destruir satélites inimigos em órbita.

O projeto altamente secreto, e que foi parcialmente tornado público por meio de documentos orçamentários submetidos ao Congresso em fevereiro último, é parte de uma iniciativa ampla para o desenvolvimento de armas espaciais, tanto defensivas quanto ofensivas. Nenhum tratado ou legislação proíbe este tipo de projeto.

A pesquisa com raios laser foi descrita por funcionários federais que falaram somente sob a condição de que os seus nomes não fossem divulgados, tendo em vista a natureza sensível do assunto. Recentemente a Casa Branca procurou minimizar a questão das armas espaciais, temendo que ela pudesse se transformar em um problema em um ano eleitoral.

Na semana passada, republicanos e democratas de um subcomitê da Câmara para as Forças Armadas tomou a iniciativa unânime de reduzir as verbas de pesquisa para o projeto no orçamento do governo para o ano fiscal de 2007.

Embora os republicanos do subcomitê tenham se negado a discutir as razões dessa ação, assessores do Congresso informaram que ela reflete um consenso bipartidário quanto a uma movimentação cautelosa em relação aos armamentos espaciais, uma questão potencialmente controversa que ainda precisa ser bastante debatida.

O comitê completo deverá abordar o problema do orçamento nesta quarta-feira (03/05).

Esta pesquisa com raios laser é bem mais ambiciosa do que uma iniciativa anterior por parte do governo Clinton, quase uma década atrás, no sentido de testar um artefato anti-satélite a laser. A arma de raios laser se basearia em uma tecnologia ótica que utiliza sensores, computadores e espelhos flexíveis para compensar aquela turbulência atmosférica que parece fazer com que as estrelas pisquem. A arma basicamente reverteria esse processo, disparando raios concentrados de luz para cima com grande clareza e força.

Embora seja futurista e tecnicamente desafiador, o projeto da arma de raios laser é relativamente barato para os padrões do governo - o seu custo é de cerca de US$ 20 milhões em 2006, com um aumento planejado para aproximadamente US$ 30 milhões até 2011 -, em parte porque ainda não há nenhuma arma em processo de fabricação, e também porque o trabalho está sendo conduzido em uma base já existente, um observatório do governo, e que não é mais secreto, o Starfire, no deserto do Novo México.

Em entrevistas, oficiais militares defenderam a pesquisa com laser como sendo prudente, levando-se em conta a necessidade potencial de armas espaciais para a defesa dos satélites dos Estados Unidos contra ataques nos anos e décadas vindouros. "A Casa Branca deseja que implementemos a defesa espacial", disse um funcionário graduado do Pentágono que supervisiona vários programas espaciais, incluindo o da arma a laser. "Necessitamos dessa capacidade para protegermos os nossos equipamentos em órbita".

Mas alguns parlamentares democratas e outros especialistas criticam a pesquisa, alegando que ela se constitui em potencial combustível para alimentar uma corrida de armas anti-satélite que poderia no final das contas prejudicar mais os Estados Unidos do que os outros países, já que os norte-americanos dependem bastante dos satélites militares, que auxiliam a navegação, realizam operações de reconhecimento e alertam para ataques.

Em uma declaração no plenário, a deputada Loretta Sanchez, democrata pela Califórnia, uma integrante do subcomitê que se opõe ao desenvolvimento da arma de raios laser, agradeceu aos seus colegas republicanos por concordarem em conter um programa "que tem o potencial para militarizar o espaço".

Theresa Hitchens, diretora do Centro de Informações de Defesa, um grupo privado em Washington que acompanha programas militares, disse que a ação do subcomitê na semana passada se constituiu em uma significante ruptura com o governo. "Esta foi realmente a primeira vez em que vimos o Congresso liderado pelos republicanos admitir que tais questões exigem o escrutínio público", disse ela.

Em uma declaração, o órgão da Câmara, o Subcomitê das Forças Armadas sobre Forças Estratégicas, não fez referências a tais discordâncias quanto a políticas, afirmando simplesmente: "Nenhuma verba autorizada para este programa será usada para o desenvolvimento de tecnologias espaciais a laser com objetivos anti-satélite".

Não se sabe se o Congresso controlado pelos republicanos manterá a redução de fundos solicitados pela administração, imposta pelo subcomitê, ainda que o Comitê da Câmara das Forças Armadas apóie essa redução.

A Força Aérea procura realizar a pesquisa secreta há vários anos, mas discutiu o assunto com novos detalhes na sua solicitação de verbas de fevereiro. Os documentos declararam que para o ano fiscal de 2007, que terá início em outubro próximo, a pesquisa procurará "demonstrar a propagação totalmente compensada de raios laser até satélites de órbita baixa".

Os documentos citaram vários usos potenciais para a pesquisa com laser, sendo que o primeiro é como "armas anti-satélites".

Segundo os documentos, o objetivo geral da pesquisa é explorar tecnologias únicas para "armas de raios laser de alta energia", naquilo que os engenheiros chamam de uma prova de conceito. Anteriormente, o trabalho com laser se localizava em uma categoria orçamentária que financiava uma ampla variedade de projetos espaciais. Mas, para o novo ano fiscal, essa pesquisa passou a ser enquadrada na categoria "Tecnologia de Armas Avançadas".

Em entrevistas, funcionários do Pentágono disseram que a lógica para estas pesquisas bélicas remonta a uma diretriz presidencial de 1996 da administração Clinton que permite "a neutralização, se necessário, de sistemas e serviços espaciais utilizados com finalidades hostis".

Em 1997, as forças armadas dos Estados Unidos dispararam um raio laser a partir do solo, no Novo México, contra um satélite dos Estados Unidos, afirmando que a experiência foi um teste de vulnerabilidade de satélites. Especialistas federais disseram recentemente que o artefato a laser não tinha a capacidade de fazer compensação atmosférica e que o teste fracassou, já que o equipamento alvo não sofreu qualquer dano.

Pouca coisa mais foi feita até janeiro de 2001, quando uma comissão liderada por Donald H. Rumsfeld, à época o recém-nomeado secretário de Defesa, advertiu que as forças armadas dos Estados Unidos se deparavam com um potencial "Pearl Harbor" no espaço, e pediu a criação de um arsenal defensivo de armas espaciais.

A pesquisa Starfire faz parte daquela iniciativa.

Autoridades federais e especialistas privados dizem que o projeto anti-satélite se baseou em uma série de avanços de caráter não sigiloso que tornaram os pesquisadores do Starfire mundialmente famosos entre os astrônomos. As suas mais importantes linhas de trabalho não sigiloso se concentram no uso de pequenos equipamentos de raios laser para a criação de estrelas artificiais que funcionam como faróis para guiar o processo de compensação atmosférica.

Quando os astrônomos utilizam esse método, focalizam um pequeno feixe de raios laser em um ponto no céu próximo a uma estrela ou galáxia alvo, e a luz concentrada excita as moléculas de ar (ou, em grandes altitudes, os átomos de sódio na alta atmosfera), fazendo-as brilhar intensamente.

Distorções na imagem da estrela artificial, ao retornarem à Terra, são medidas continuamente e utilizadas para deformar o espelho flexível do telescópio e efetuar rápidas correções a fim de compensar a turbulência atmosférica. Isso torna mais nítidas as imagens, tanto a da estrela artificial quanto a do alvo astronômico.

Fotografias de caráter não sigiloso do Starfire em ação mostram um raio laser da espessura de um lápis sendo disparado do observatório no topo de uma colina em direção ao céu noturno.

Os pesquisadores do projeto Starfire estão agora investigando como utilizar estrelas guias e espelhos flexíveis em conjunto com poderosos equipamentos que poderiam disparar os seus feixes de raios laser em direção ao espaço para destruir satélites inimigos, segundo revelam os documentos orçamentários de autoridades federais e da Força Aérea.

"Esses são, de fato, indivíduos inteligentes e otimistas quanto a sua tecnologia", disse o funcionário graduado do Pentágono. "Queremos esse tipo de gente na nossa equipe".

Mas ele acrescentou que as potenciais aplicações bélicas do projeto, caso um dia sejam aprovadas, "estão anos e mais anos no futuro".

A pesquisa se concentra no maior telescópio do Starfire, que os documentos da Força Aérea chamam de "um diretor de raios que se enquadra na categoria de armamentos". O seu principal espelho, com 3,5 metros de diâmetro, é capaz de coletar a luz tênue das estrelas, ou, ao trabalhar de maneira oposta, de lançar poderosos feixes de raios laser para o céu.

Autoridades federais dizem que o projeto anti-satélite Starfire é derivado de uma das outras responsabilidades militares do complexo: a observação de satélites estrangeiros e a avaliação do risco potencial que eles representam para os Estados Unidos. Em 2000, o Laboratório de Pesquisas da Força Aérea, que administra o Starfire, anunciou que o grande telescópio do observatório, ao utilizar instrumentos óticos de adaptação, poderia identificar objetos em órbita, do tamanho de bolas de basquete, e a uma distância de 1.600 quilômetros.

Um outro aspecto do projeto anti-satélite é o uso de telescópios, instrumentos de adaptação ótica e raios laser fracos para rastrear e iluminar satélites. Isso é considerado um passo inicial para o desenvolvimento de um raio laser com potência suficiente para danificar um equipamento em órbita.

O coronel Gregory Vansuch, que fiscaliza a pesquisa com o Starfire para o Laboratório de Pesquisas da Força Aérea, disse em uma entrevista que o projeto utilizou raios laser fracos e o processo de compensação atmosférica para iluminar satélites "o tempo todo". Vansuch enfatizou que tais testes são sempre feitos com a permissão por escrito do dono do satélite.

Ele disse que cerca de uma vez por mês, o Starfire realiza experimentos que duram uma semana, durante os quais os satélites são iluminados até 20 vezes.

Embora o subcomitê da Câmara tenha recomendado a eliminação de todo o financiamento no ano que vem para a pesquisa com raios laser anti-satélite, o grupo reteve verbas para um outro projeto baseado na tecnologia de laser.

Assessores do Congresso disseram que o corte proposto no orçamento de US$21,4 milhões solicitado pela Força Aérea para tal trabalho eliminaria duas das três áreas de desenvolvimento, com uma redução total de US$ 6,5 milhões.

Pelo menos um grupo de interesse público tirou proveito dessa questão. Na semana passada, a Rede Global Contra Armas e Energia Nuclear no Espaço, instituição com sede em Brunswick, no Estado de Maine, comentou: "Se o Congresso tivesse aprovado o dinheiro para as pesquisas anti-satélite, a barreira contra armas no espaço teria sido destruída". Danilo Fonseca

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