UOL Notícias Internacional
 

03/05/2006

Indústria do petróleo: um fracasso de comunicação?

The New York Times
Kate Phillips e Julie Bosman*

em Washington
Em novembro passado, os líderes republicanos no Senado estenderam um privilégio incomum a cinco dos maiores executivos do petróleo do país. Para impedir o que poderia parecer como "um desfile de presos algemados", os executivos entraram em uma sala de audiência do Senado longe da agitação das câmeras de televisão e fotógrafos, que foram brevemente afastados do local.

Além disso, os executivos não foram obrigados a prestar juramento, evitando a imagem infame criada quando executivos das companhias de tabaco fizeram fila, levantaram a mão direita e então declararam em uníssono perante uma comissão do Senado que cigarros não provocavam vício.

Mas com o aumento dos preços da gasolina nas últimas semanas, para mais de US$ 3 o galão, a indústria não está recebendo mais a mesma cortesia. Não apenas os executivos da Exxon Mobil, Chevron, ConocoPhilips, BP e Royal Dutch/Shell foram compelidos a voltar ao Capitólio em março -desta vez para depor sob juramento- como também enfrentaram ataques cada vez mais fortes de legisladores de ambos os partidos.

O senador John McCain, republicano do Arizona, repreendeu na semana passada as grandes companhias de petróleo por seus lucros: "Tirando os cultos satânicos, estas pessoas têm as piores relações públicas do mundo".

Mas não por falta de tentativa. Em sua mais recente contra-ofensiva a este tipo de satanização, as grandes companhias de petróleo e seus grandes grupos comerciais têm aumentado suas próprias campanhas, gastando milhões de dólares em propagandas de televisão, rádio e jornal na esperança de conter a reação negativa.

O esforço de relações públicas, somado a uma imensa rede de lobby aqui em Washington, é voltado tanto para os consumidores quanto aos legisladores, que estão se juntando ao coro cada vez mais alto de vozes pedindo algumas idéias anteriormente consideradas heréticas no Capitólio, como imposto sobre lucros excessivos e o fim de alguns dos subsídios e outros incentivos fiscais fornecidos pelo Congresso ao setor no ano passado, em seu pacote de energia.

A indústria já pode reivindicar um sucesso inicial, com os interesses das grandes empresas rapidamente persuadindo a liderança do Senado a abandonar uma medida que aumentaria os impostos sobre os estoques, não apenas das companhias de petróleo, mas de todas as outras indústrias também. Mas esta foi apenas a primeira batalha naquela que as empresas de energia agora esperam que será uma longa e dolorosa guerra.

Como o general Ulysses S. Grant, as companhias de petróleo certamente estão preparadas para lutar durante todo o verão. Apenas no ano passado, as 10 maiores companhias de petróleo gastaram mais de US$ 30 milhões em seus batalhões de lobby.

E recentemente convocaram poder de fogo adicional, alistando figuras conhecidas de Washington como Michael K. Deaver, um ex-funcionário do governo Reagan, e o ex-senador J. Bennett Johnston da Louisiana, o arquiteto do pacote de redução de royalties na exploração do Golfo nos anos 90, que agora está manchando a imagem de uma indústria inundada por bilhões de dólares de lucros adicionais.

"Nós não podemos ser mais a fortaleza da América", disse Red Cavaney, o presidente do Instituto Americano do Petróleo. "Eu acho que nós, como as outras indústrias, temos demorado a entender a necessidade de comunicarmos o que estamos fazendo ao público e aos formadores de opinião."

Por sua vez, o instituto do petróleo contratou a Blue Worldwide, a divisão de publicidade da Edelman Public Relations e do Hawthorn Group. À medida que os lucros da indústria petrolífera crescem, ela deu início a uma campanha de anúncios de página inteira nos jornais, obteve dezenas de artigos de opinião e produziu comerciais de rádio e televisão em um esforço para explicar o motivo dos preços da gasolina terem subido tanto.

A campanha tem custado ao instituto mais de US$ 20 milhões nos últimos meses.

A entidade setorial, juntamente com outras que representam as refinarias e os produtores independentes, desenvolveu um conjunto de argumentos: as forças impessoais da demanda que superam a oferta, particularmente com a expansão industrial da China adicionando uma nova força à economia global; os lucros da indústria do petróleo não estão fora dos padrões de outras grandes indústrias; as companhias de petróleo ocidentais dispõem de apenas uma parcela limitada do mercado de óleo cru, que atualmente é dominado pela Opep e outros países produtores de petróleo.

Muitos citam um estudo federal para tentar provar que um imposto sobre
lucros excessivos reduziria a produção e empregos.

Mas apesar de certamente haver uma boa quantidade de pose política por parte dos que estão atacando a indústria, as companhias de petróleo também descobriram que menos legisladores estão dispostos a dar ouvido aos seus argumentos. O senador John Cornyn, republicano do Texas e ferrenho defensor dos interesses do petróleo de seu Estado, disse que a reputação da indústria de fato despencou.

Cornyn reconheceu que a indústria poderá ter que abrir mão de alguns
subsídios ou incentivos que não mais parecem necessários diante dos "lucros extraordinariamente altos".

"Eu não sei ao certo o que podem fazer a respeito", disse Cornyn sobre a imagem da indústria.

Em vez disso, "eu acho que eles precisam contar sua história, que tem a ver com a quantidade de dinheiro que de fato investem para desenvolver oferta adicional", que é a melhor forma da indústria poder ajudar a baixar os preços.

Uma figura que está se transformando no novo rosto público da indústria é Rex W. Tillerson, que assumiu como executivo-chefe da Exxon no início do ano. Enquanto seu antecessor, Lee R. Raymond, era mais conhecido por sua atitude desdenhosa em relação à opinião pública, Tillerson tem tentado tratar da "enorme mudança" que a indústria tem enfrentado ao lidar com o mercado global de energia.

"É importante que o consumidor americano entenda os fundamentos do que está acontecendo", disse Tillerson em uma breve entrevista na terça-feira, entre as aparições em fóruns de políticas públicas daqui, reuniões com líderes republicanos e uma entrevista planejada para o programa "Today", da rede de TV NBC, de quarta-feira. "A ponto de podermos explicar isto em termos que as pessoas possam entender, eu espero que isto seja de ajuda."

Em outra frente, os produtores independentes de petróleo e gás natural, que estão concentrados nos Estados do Texas, Louisiana e Oklahoma, esperam que sua imagem local e contatos populares ajudem a conter a febre.

"A indústria de petróleo e gás natural é muito incompreendida pelo público e, pelo que vimos na semana passada, pelo Congresso", disse Jeff Eshelman, vice-presidente de assuntos públicos da Independent Petroleum Association of America, a associação nacional dos produtores independentes que faz lobby em nome de seus 5 mil produtores grandes e pequenos de petróleo e gás natural. "Os esforços do Congresso têm sido realmente mal direcionados: eles não fizeram nada para reduzir os preços da gasolina, não fizeram nada para aumentar os estoques."

Mas representantes da indústria e do comércio reconhecem que os legisladores não estão com bom humor no momento para contemplar soluções de longo prazo para a situação atual da energia.

Republicanos como o senador Charles E. Grassley, republicano de Iowa e
presidente do Comitê Financeiro, e Max Baucus, democrata de Montana e líder da bancada do partido, exigiram recentemente que as 15 maiores companhias de petróleo apresentem suas declarações de imposto. Grassley pediu para que parte dos lucros do petróleo seja usado para ajudar a financiar o programa de aquecimento para lares de baixa renda, uma idéia rejeitada pela indústria.

O senador Arlen Specter, republicano da Pensilvânia, se juntou aos seus
pares democratas, os senadores Byron L. Dorgan, de Dakota do Norte, e
Christopher Dodd, de Connecticut, na pressão pela aprovação de um imposto sobre os lucros do setor.

Johnston, o ex-senador que agora representa a indústria, disse que espera reduzir tal pressão os recordando do passado. "Eu tive um dos mais caros aprendizados sobre energia que os americanos podem ter, caro porque cometemos muitos erros com combustíveis sintéticos, lucros excessivos", ele disse. "Eu já vi todos estes erros serem cometidos, de forma que tal experiência é muito boa."

Tanto representantes da indústria quanto autoridades do Congresso reconhecem a força dos preços da gasolina nas urnas. A indústria do petróleo é uma poderosa doadora de campanha, com mais de US$ 1 milhão sendo doados para candidatos federais nos últimos 15 meses pelos 10 maiores comitês de ação política da indústria de energia, em grande parte aos republicanos, segundo a PoliticalMoneyLine, um site na Internet que compila dados financeiros.

"Este é um ano eleitoral e nossa organização possui um comitê de ação
política", disse Eshelman. "Nós estamos transformando em uma de nossas
prioridades levantar fundos para o comitê de ação política e estaremos
envolvidos nas próximas eleições."

O dinheiro fala alto, é claro, mas os lobistas do setor também estão fazendo hora extra para tentar persuadir os legisladores a não fazerem um julgamento apressado.

"Eu nunca vi tamanha confusão em toda a minha vida", disse William Kovacs, o vice-presidente para meio ambiente, tecnologia e assuntos regulatórios da Câmara de Comércio dos Estados Unidos. "Eles todos estão esperando que se jogarem bastante coisa contra a parede, algo vai acabar grudando. Nós não deveríamos estar fazendo política de energia no meio de uma crise."

Apesar de todo seu esforço para ajudar a indústria, Johnston admite se
sentir um pouco ambivalente em relação a todo o clima de circo em torno dos preços do petróleo.

"Eu acho que é um grande tema para os democratas e eu sou um democrata", ele disse. "Assim, eu espero que eles vençam."

Ainda assim, ele acrescentou: "Eu estou do lado de muitos democratas que sentem o oposto, mas olhe, alguns de nós concordam, outros discordam. O que há de novo?"

*reportagem de Kate Phillips em Washington; Julie Bosman, em Nova York; Jad Mouwad contribuiu para este artigo com reportagem em Washington. George El Khouri Andolfato

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