UOL Notícias Internacional
 

03/05/2006

Taleban aumenta ataques no sul do Afeganistão enquanto EUA se retiram

The New York Times
Carlotta Gall

em Tirin Kot, Afeganistão
Apoiado em uma campanha de inverno de atentados a bomba suicidas e assassinatos, assim como no conhecimento de que as tropas americanas estão partindo, o Taleban parece estar movendo sua insurreição para uma nova fase, inundando as áreas rurais do sul do Afeganistão com armas e homens.

A cada primavera, com a chegada do tempo mais quente, a temporada de combate parece começar aqui, mas a escala da presença dos militantes e seu descaramento têm alarmado os afegãos e as autoridades estrangeiras bem mais do que nos anos anteriores.

"O Taleban e a Al Qaeda estão por toda parte", disse um lojista, Haji Saifullah, ao comandante das forças americanas no Afeganistão, o general de exército Karl Eikenberry, enquanto ele caminhava pelo mercado desta cidade para conversar com as pessoas. "Está tudo bem na cidade, mas se você sair para fora dela, eles estão em toda parte e as pessoas têm que apoiá-los. Elas não têm escolha."

O fato das tropas americanas estarem saindo do sul do Afeganistão nos próximos meses e transferindo suas funções para a força de paz da Otan, que tem declarado repetidas vezes que sua função não será combater os terroristas, tem dado um estímulo aos rebeldes e aumentado os temores entre os afegãos.

Eikenberry apelou por paciência e apoio. "Não tem sido dada atenção suficiente ao Uruzgan", ele disse em um discurso para os anciãos da província de Uruzgan, reunidos na casa do governador em Tirin Kot, a capital provincial. "Eu acho que os líderes, o governo afegão e a comunidade internacional reconhecem isto. Há uma reforma a caminho e neste ano vocês a verão."

A chegada de um grande número de talebans às aldeias, cheios de dinheiro e armas, tem sido um duro golpe na confiança da população no governo afegão, já minado pela falta de progresso visível e pela frustração com líderes corruptos e ineficazes.

A pequena cidade com apenas uma rua está no coração do território do Taleban e a mensagem dos habitantes é desoladora.

Uruzgan, a província onde o presidente Hamid Karzai reuniu seu apoio inicial contra o Taleban nos meses após os ataques de 11 de setembro, está agora, quatro anos depois, novamente nas mãos dos militantes islâmicos e a capital provincial está próxima de cair, reconheceram oficiais americanos e autoridades locais. Um recente relatório de um membro da missão da ONU no Afeganistão, mostrado ao "The New York Times", detalhava temores semelhantes.

O novo governador, Maulavi Abdul Hakim Munib, 35 anos, que assumiu o cargo há cerca de um mês, controla apenas uma "bolha" ao redor de Tirin Kot, disse um oficial militar americano. O restante da província está tão tomada por rebeldes que todos os distritos apresentam cor alaranjada ou vermelha para indicar isto nos mapas militares da base americana próxima.

Uruzgan sempre foi problemática, mas o mapa marca uma deterioração em
relação ao ano passado, quando pelo menos um distrito central apresentava cor verde, disse o oficial.

"A situação da segurança não é boa", disse Munib para Eikenberry e um grupo de ministros do Gabinete, na reunião com os anciãos tribais. "O número de talebans e inimigos é muitas vezes maior do que o número de policiais e de soldados do Exército Nacional Afegão nesta província", ele disse.

Uruzgan não é a única província à beira de sair do controle. Neste ano,
Helmand e Kandahar ao sul estão ainda mais infestadas de militantes, à
medida que grandes grupos do Taleban estão cruzando o interior, intimidando aldeões, promovendo emboscadas a veículos e buscando luta contra as forças afegãs e da coalizão. Os rebeldes também têm o controle de partes das províncias de Zabul, Ghazni e Paktita, a sudeste, e têm aumentado o número de emboscadas na principal estrada entre Cabul e Kandahar.

O governo Bush está alarmado, segundo um oficial ocidental de inteligência próximo do governo. Ele disse que apesar de altos membros do governo considerarem a situação no Iraque não tão ruim quanto retratada pela imprensa, no Afeganistão a situação está pior do que geralmente é retratada.

Ao ser perguntado sobre o aumento da atividade do Taleban no sul do
Afeganistão, o porta-voz do Pentágono, Bryan Whitman, disse: "Nós temos
visto a atividade do Taleban flutuar de tempos em tempos".

A força da Otan liderada pela Grã-Bretanha que está tomando o lugar das
tropas americanas no sul "conta com forças bem equipadas e plenamente
preparadas para operar neste ambiente desafiador e para lidar com quaisquer ameaças", ele acrescentou.

Ele notou que os Estados Unidos continuarão sendo os maiores contribuintes de soldados no Afeganistão e continuarão a ser os principais responsáveis pelas operações de contraterrorismo e treinamento das unidades do exército afegão, mesmo com a Otan assumindo no sul.

Em um dos mais sérios desdobramentos, cerca de 200 talebans penetraram no distrito de Panjwai, a apenas 20 minutos de carro da capital do sul,
Kandahar, a cidade natal de Karzai. As forças da polícia e da coalizão os enfrentaram há duas semanas, mas os talebans retornaram, caminhando
abertamente nas aldeias com suas armas, se sentando sob as árvores e comendo amoras, segundo um morador do distrito de Panjwai.

O morador, que pediu para que seu nome não fosse citado por medo de
represálias, disse que o Taleban está exigindo comida, abrigo e o tributo islâmico, o Zakat, dos aldeões. O descaramento deles e o fracasso da coalizão liderada pelos Estados Unidos em detê-los está mudando a opinião pública.

Pela primeira vez o governo afegão enviou 500 homens do recém-treinado
Exército Nacional Afegão para a província negligenciada. A força policial oficial de Uruzgan conta com 347 homens, com 45 dispostos em cada um dos cinco distritos, mas um número bem menor de fato comparece para trabalhar. Os oficiais americanos estimaram o número de talebans armados na província entre 300 e 1.000 homens. O governador estimou que havia 300 rebeldes armados em cada distrito.

O Taleban está alertando as pessoas para esperarem mais ataques, disse o lojista, Haji Saifullah, para Eikenberry. "Durante o dia as pessoas, a polícia e o exército estão ao lado do governo, mas durante a noite, as
pessoas, a polícia e o exército estão todos ao lado do Taleban e da Al
Qaeda", ele disse.

Outro homem, Rahmatullah, disse ao general que seu irmão tinha sido preso por soldados americanos e que batidas e buscas nas casas fizeram os jovens fugirem para as colinas para se juntarem aos militantes. "Liberte meu irmão e os anciãos tribais persuadirão os jovens a voltarem para casa e parar de lutar", ele disse.

"A taxa de desemprego é muito alta e as pessoas em Uruzgan são muito pobres", disse o mulá Hamdullah, o chefe eleito do conselho provincial. "Os homens jovens vão ao país vizinho para trabalhar, recebem 10 mil rúpias paquistanesas por mês (US$ 175) e são enviados de volta para cá para realizar atividades destrutivas", ele disse.

Inseguras quanto à força e compromisso de combate das forças da Otan que estão chegando -com contingentes britânicos, canadenses, holandeses e australianos- as autoridades provinciais afegãs, que estão na linha de frente do fogo do Taleban, têm exigido que Karzai lhes forneça centenas de mais policiais e armas.

Os governadores de Uruzgan e Kandahar disseram em entrevistas que fizeram lobby junto ao presidente por uma força de 200 policiais em cada distrito -quatro vezes os números atuais- e fornecer mais recursos para equipá-las e supri-las apropriadamente.

Em uma recente revisão de estratégia, Karzai concordou em aumentar a
presença do governo na províncias da linha de frente, disse seu chefe de gabinete, Jawed Ludin. "Nós estamos ouvindo cada vez mais isto, de que há apenas 40 policiais por distrito, e metade deles estão protegendo o chefe do distrito como guarda-costas, e a outra metade está fora de serviço", ele disse. "Os distritos podem ser melhor equipados."

O vice-ministro do Interior, Abdul Malik Siddiqi, disse no encontro que o governo tinha um plano para enviar entre 200 e 250 policiais para cada distrito de Uruzgan, além de encontrar recursos para equipá-los e pagar seus salários.

Eikenberry expressou cautela com a idéia, alertando que não há policiais treinados suficientes para serem enviados para a área e, mais importante, há uma falta de bons líderes para controlar estas forças policiais.

Uruzgan tem sofrido de uma persistente presença do Taleban e seu terreno complicado torna a segurança e o governo extremamente difícil, assim como negligenciado pelo governo central, ele disse. Não houve reforma da polícia e treinamento aqui, nem presença do Exército Nacional Afegão e virtualmente nenhum desenvolvimento, ele disse. Nos últimos quatro anos apenas duas escolas foram construídas em toda a província, e há apenas uma escola para meninas, que fica na capital.

Eikenberry está esperando mudar as coisas neste ano com novos e melhores líderes locais. "Agora nós vemos muitas das condições mudando", ele disse, em uma entrevista na cabine do avião militar C130 a caminho de Uruzgan. Substituir o governador, os chefes de polícia e inteligência, deverá permitir uma reforma e um melhor governo, ele disse. Cerca de 500 homens do exército nacional foram dispostos na província e a polícia deve receber melhores recursos.

As esperanças estão depositadas em Maulavi Munib, um homem religioso e
instruído do leste do Afeganistão, que foi vice-ministro de assuntos tribais do governo do Taleban. Ele está começando da estaca zero já que o ex-governador vendeu todos os seus veículos, incluindo os veículos da
polícia, assim como todas as armas e munição que a província dispunha.

O passado de Munib traz uma complicação adicional, já que ele permanece
listado pelo comitê de sanções do Conselho de Segurança da ONU como um
membro procurado da liderança do Taleban, o que tecnicamente impede qualquer governo de fornecer assistência financeira, técnica e militar à sua província.

O governo afegão já requisitou formalmente que ele e três outros ex-membros do Taleban, incluindo dois membros do novo Parlamento do Afeganistão, sejam removidos da lista, um processo que exige a concordância de todos os membros do Conselho de Segurança, mas as autoridades afegãs disseram que a Rússia se opõe à proposta. George El Khouri Andolfato

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