UOL Notícias Internacional
 

03/05/2006

Um sonho no final do mundo

The New York Times
Edward Albee*
Será possível alcançar a Ilha de Páscoa sem viajar por muitas e muitas milhas? Nem pensar. Se você mora em Nova York voará até Santiago do Chile - durante 11 horas e meia. Depois descansará um dia para depois pegar outro jato, num vôo de cinco horas sobre o Pacífico até chegar ao seu destino. (E só há vôos saindo de Santiago duas vezes por semana.) A viagem poderá ser encurtada em uma hora se você vive na Nova Zelândia, mas isso não adianta muito.

A ilha é uma pequena mancha de lava no Pacífico Sul que, claro, também pode ser atingida de barco. Foi assim que os polinésios chegaram por lá no ano 700 DC, mas é uma longuíssima viagem marítima. De qualquer jeito é uma longuíssima viagem saindo de qualquer parte, mas será que vale a pena? Como dizem em algumas regiões do meio-oeste americano - "Pode apostar!"

Eu mesmo levei 50 anos para chegar lá, contando desde a primeira vez que eu ouvi falar do lugar. Nem sei se na época havia alguma maneira mais ou menos razoável de chegar lá (saindo de qualquer lugar do mundo), mas a ilha estava na minha lista de interesses, junto com o Egito, os sítios das culturas asteca e maia, Ayutthaya (a antiga capital do Sião, saqueada pelos burmeses no século 18), as cidades romanas de Sabratha e Leptis Magna na costa da Líbia e outros destinos essenciais. Agora que a Líbia nos abriu as portas e disponibilizou a arte pré-histórica pintada e entalhada nos Rochedos de Fezzan, irei lá, depois de ter visitado todos os outros pontos já almejados.

Bem antes de o filme "Planeta dos Macacos" nos mostrar a Estátua da Liberdade semi-enterrada na areia, eu já sentia a necessidade de vivenciar culturas que floresceram, entraram em decadência e depois desapareceram. Além de suas maravilhas estéticas, provavelmente elas nos proporcionam fábulas com algum teor de advertência.

Por que demorei tanto a ir para a Ilha de Páscoa, mesmo depois de a ilha ter se tornado um destino viável? Bem, primeiro as pessoas olhavam para mim como se eu fosse louco: "Você vai para onde!?" "Está brincando!" "Só para ver umas duas estátuas!?" Depois com o passar do tempo eu fui ficando cada vez mais ocupado, e aí coloquei a Ilha de Páscoa na minha lista de "algum dia", junto com o Deserto de Gobi e a Antártida (eu sei que essa já ficou mais fácil de alcançar).

Com a chegada do meu aniversário de 78 anos (parecendo que acontecia apenas três meses depois dos meus 77), me ocorreu que seria melhor me apressar, a menos que quisesse fazer de São Pedro o meu agente de viagens. Encontrei um amigo arquiteto disposto a viajar comigo - tudo combinado, aí nós fomos. Valeu a pena? Como eu disse há alguns parágrafos, "Pode apostar!"

Meus cinco dias na Ilha de Páscoa foram um dos pontos altos da minha vida de viajante. Eu recomendo a experiência completa a qualquer um que esteja disposto, já que uma viagem mais rápida (mesmo se pudesse ser organizada) seria um tremendo desperdício. Alguns transatlânticos aparecem de vez em quando. Um deles - percorrendo uma volta ao mundo com passageiros japoneses - ficou dois dias enquanto eu estava por lá, permitindo a saída dos turistas em pequenos grupos para uma visita de seis horas. Mal deu tempo para eles fotografarem a si mesmos fotografando as maravilhas do lugar.

A Ilha de Páscoa (com cerca de 13 por 19 quilômetros) foi formada há milhares de anos por três imensos vulcões em erupções vindas do fundo do oceano. Essas erupções - e outras menores - formaram a ilha que, com a exceção de uma área menor adequada para habitação e agricultura, é pura lava sob uma fina camada de solo estéril. A maior parte da ilha é salpicada de pedras, com uma costa recortada por rochedos. Por toda a superfície da ilha também se encontram 800 estátuas gigantescas e espantosas, com quase sete metros de altura cada uma. Apenas um número relativamente pequeno delas está em posição ereta, em posição original, mas muitas outras podem ser vistas e visitadas, meio enterradas ou inclinadas.

A experiência é semelhante a se visitar uma terra de ficção que nunca antes imaginamos.

A ilha foi colonizada por polinésios que chegaram do leste - provavelmente por volta do ano 700 DC; pelo menos essas são as mais recentes estimativas. Na época, um grupo de exploradores seguiu na direção nordeste e acabou encontrando as Ilhas Havaianas (que, claro, não estavam habitadas), enquanto o outro grupo pegou a direção sudeste e foi dar numa ilha desabitada mas coberta por imensas palmeiras, resolvendo batizá-la de Rapa Nui (mais tarde foi rebatizada de Ilha de Páscoa pelo capitão de um navio holandês, que chegou por lá num domingo de Páscoa em 1722). Esses dois grupos viajaram em embarcações semelhantes a canoas - talvez catamarãs, com dois cascos - levando pequenos animais, aves para abate, grãos e tubérculos. A chegada na Ilha de Páscoa foi complicada porque em toda a ilha há apenas duas pequenas praias apropriadas para desembarque. Mas eles conseguiram, e outras expedições trouxeram novos colonizadores, sendo que na época ninguém conseguiu mais sair da Ilha de Páscoa. Não havia volta para casa.

O livro essencial de Shawn McLaughlin, "The Complete Guide to Easter Island" (Easter Island Foundation, 2004), aborda com riqueza de detalhes a colonização, o crescimento e o subsequente quase que completo esvaziamento populacional da ilha. Também narra o tratamento vergonhoso imposto pelos exploradores europeus aos nativos nos séculos 18 e 19, além da autodestruição da cultura promovida pelos próprios ilhéus antes mesmo das invasões européias. É uma história triste, e você deve conhecê-la antes de ir para lá. O livro descreve em termos claros e específicos a construção, o deslocamento e a instalação das estátuas (os moais) e os grandes altares cerimoniais (ahu) existentes na ilha. Você irá precisar mesmo desse livro de viagens.

Cinco dias é o período mínimo que você deverá permanecer na ilha, somente para começar a vivenciar seus tesouros extraordinários (sem falar da paisagem bela e selvagem - às vezes uma paisagem lunar). Há vários tipos de tours disponíveis, mas eu recomendo que você explore a ilha por conta própria - tendo feito o seu dever de casa, obviamente. Você deve alugar um utilitário com tração nas quatro rodas e explorar a ilha toda conforme a sua disposição. Mas eu decididamente recomendo que você não visite logo a imensa pedreira vulcânica onde as grandes figuras foram esculpidas. Primeiro observe-as de longe. Conheça a pedreira talvez lá pelo quarto dia.

Em seu primeiro dia você realmente deve visitar o pequeno porém instrutivo museu antropológico, que fica perto da vila de Hanga Roa, onde você ficará hospedado. Perto de lá fica o primeiro conjunto de estátuas que você deve visitar, o complexo de Tahai. Serve como uma boa introdução às maravilhas que virão mais para frente. Aproveite bem, sem pressa. Absorva tudo o que há por lá. E tudo o que você olhar deverá fazê-lo pelo menos duas vezes, de preferência em horários diferentes, já que as estátuas se transformam em experiências diferentes conforme a luz diferente. E tenha certeza de que irá observá-las de todos os ângulos - porque as desajeitadas partes traseiras dessas criaturas de pedra são tão comoventes quanto as dianteiras.

Os três conjuntos essenciais de estátuas são Ahu Akivi - para mim o mais belo da ilha, com sete figuras gigantescas fitando a paisagem com poder e serenidade; Ahu Tongariki, com 15 figuras gigantescas olhando para a pedreira onde foram formadas, e Ahu Nau Nau, situada na agradável praia chamada Anakena. Esses três conjuntos devem ser visitados, mas há tantos outros sítios arqueológicos interessantes que você poderia aproveitar umas duas semanas por lá.

Já que a ilha é tão pequena nós demos um jeito de passar a hora do almoço todos os dias em Anakena, onde há boa comida (atum grelhado e frango com batatas), ainda dando tempo para visitar um sítio pela manhã e outro no final da tarde. Uma estrada pavimentada vai da vila de Hanga Roa até a praia de Anakena, sendo que estradas de terra vicinais vão para onde você quiser. Há centenas de cavalos selvagens pela ilha, a maioria vivendo em famílias, muitas vezes dividindo as estradas com você mas hábeis em ocupar os acostamentos. Vimos poucas vacas e alguns pássaros, mas não houve sinais das 70 mil ovelhas que já superpovoaram a ilha. Na vila de Hanga Roa há muitos cavalos selvagens; eles são muito amigáveis.

Dizem que por lá há escorpiões e aranhas viúvas negras - essas estariam em gramados mais altos. Eu não vi nada disso, com os olhos bem atentos, mas de qualquer forma calças compridas e botas são a indumentária mais recomendada.

As pedreiras onde as estátuas foram formadas se situam nos dois vulcões que você deve visitar, o Rano Raraku e o Rano Kau. A vista (tanto das margens internas quanto das margens externas desses vulcões) é espetacular. Cada um deles abriga um lago de grandes dimensões. A pedreira em Rano Raraku está na direção sul voltada para o mar, e a encosta do vulcão está cheia de estátuas desajeitadas e abandonadas ao longo da colina; mais acima há umas estátuas semi-acabadas que ainda estão esculpidas na pedra original. E há mais atrações dentro da cratera. A vista da margem dessa pedreira é espetacular.

Tão espetacular quanto a vista do alto do Rano Kau - o outro vulcão que eu mencionei. O lago interior desse aqui é bem grande, e a vista da margem dele (onde estão os petróglifos ou gravuras rupestres) em direção ao oceano é sensacional. Mas cuidado com o vento, que pode ser violento por lá. Tive a impressão que se eu não tomasse cuidado perigava despencar dos rochedos em direção ao mar, ainda bem que me cuidei. Além dos petróglifos você também vai encontrar a antiquíssima vila de Orongo - com suas casas de pedra arredondadas de um milênio atrás.

Agora alguns assuntos de ordem prática. A vila principal - Hanga Roa - não é grande e pode ser facilmente atravessada a pé. Há por lá uns 10 ou 12 hotéis (incluindo uns dois relativamente caros, que ficam meio afastados e que não me impressionaram). O melhor deles é o Hotel O'Tai, com belos jardins, quartos confortáveis, uma piscina, um bom café da manhã, funcionários agradáveis e preços razoáveis. Caminhando cinco minutos a partir desse hotel eu encontrei o que considerei o melhor restaurante na ilha, La Taverne du Pecheur (precisa fazer reservas). Fecha aos domingos, mas você pode ser capaz de convencer Raul, que parece ser o administrador do Hotel Orongo (na vila), a cozinhar para vocês. As pessoas que vivem na Ilha de Páscoa são bem simpáticas e freqüentemente bem bonitas também.

Os melhores meses para visitar a Ilha de Páscoa vão de outubro até meados de março, com as temperaturas variando entre 25 e 30 graus. Chuvas rápidas no começo da manhã são bem frequentes.

Já que você irá passar um dia em Santiago tanto antes quanto depois de visitar a Ilha de Páscoa, há algumas boas pedidas para experimentar por lá. Há o extraordinário Museu Pré-Colombiano no centro da cidade, com peças impressionantes de várias culturas, que vão do centro do México a Patagônia.

E não muito longe desse museu está o maravilhoso Mercado Central, com sua grande estrutura metálica abrigando grandes mercados de peixe como também restaurantes de frutos do mar. Se você nunca experimentou pequenos filhotes de enguia, do tamanho de uma unha, preparados ao azeite e alho (que eu experimentei pela primeira vez em Madrid)...bem, simplesmente esqueça que você está comendo enguias e tenha uma maravilhosa refeição. Santiago em si é meio suja mas é o que você poderia esperar depois de quase 20 anos de ditadura militar, agora felizmente encerrada. O Santiago Crown Plaza Hotel é bem central e confortável.

Mas não perca tempo! Você está lá por causa da Ilha de Páscoa.

Ei fiquei chocado, logo depois que eu voltei, quando eu soube de um projeto de cassino para a ilha. Todos nós sabemos que jogo e apostas trazem o crime, e também sabemos que eles beneficiam muito mais seus proprietários ausentes que a população do local. E os que já estiveram por lá sabem que eventuais benefícios que poderiam ser agregados à população seriam neutralizados pelo teor de corrupção presente em empreendimentos desse gênero. Todos os que apreciam a Ilha de Páscoa como eu fariam bem se escrevessem para o governo chileno protestando contra essa infeliz iniciativa. Mas em vez disso é capaz de você querer ir logo para a Ilha de Páscoa. Como eu já disse, não perca tempo.

Permitam-me citar um trecho desse livro essencial do McLaughlin sobre a Ilha de Páscoa, onde ele descreve bem o que se pode viver por lá.

"O que realmente faz da Ilha de Páscoa um lugar único entre os lugares mais antigos do mundo é a maneira como foi preservado o ciclo de vida do ritual Neolítico. A maioria dos grandes sítios da antigüidade, como Pompéia ou Machu Picchu, estão congelados no tempo ou então simbolizam a manifestação final de uma cultura, o seu zênite. Já na Ilha de Páscoa você pode observar o nascimento, a vida e a morte de uma cultura antiga - tanto um ventre de moai na pedreira das estátuas quanto um retumbante triunfo do moai em seus pedestais e a solene (alguns poderão dizer vergonhosa) decadência dos moai, ali desterrados, surdos, mudos e cegos, expostos na lava vulcânica de onde eles vieram."

Para muitas pessoas a Ilha de Páscoa será uma experiência única na vida - tanto em termos literais quanto em termos figurados. Mas eu ainda planejo voltar, e mais de uma vez. E quero trazer amigos especiais comigo, pessoas que irão apreciar de verdade essa experiência. Quero observar o êxtase nos olhos de quem irá conviver com tantas maravilhas.

*Edward Albee é o dramaturgo vencedor três vezes do prêmio Pulitzer, autor de peças como "Três Mulheres Altas", " Quem tem medo de Virginia Woolf?" e "The Goat, or, Who Is Sylvia?" Marcelo Godoy

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