UOL Notícias Internacional
 

05/05/2006

Cheney critica Rússia em direitos humanos e relações exteriores

The New York Times
Steven Lee Myers*

em Moscou
O vice-presidente Dick Cheney fez na quinta-feira a mais forte censura do governo Bush à Rússia até o momento. Ele disse que o governo russo "restringiu injusta e indevidamente" os direitos da população e sugeriu que buscou minar seus vizinhos e usar os vastos recursos de gás e petróleo do país como "ferramentas de intimidação e chantagem".

"Em muitas áreas da sociedade civil -da religião e imprensa aos grupos de defesa de direitos e partidos políticos- o governo tem restringido injusta e indevidamente os direitos de sua população", disse Cheney em um discurso para líderes europeus em Vilna, a capital da Lituânia. "Outras ações do governo russo foram contraproducentes e podem começar a afetar as relações com outros países."

Os comentários de Cheney, que funcionários em Washington disseram que foram altamente avaliados e portanto refletem o atual pensamento do governo sobre a Rússia, pareceram estabelecer novos marcadores para um relacionamento que tem se tornado tenso e poderá ficar ainda mais nos próximos meses.

Os comentários foram feitos no meio de um confronto internacional em torno dos programas nucleares do Irã, onde os Estados Unidos têm tentado obter a ajuda da Rússia para pressionar ou punir Teerã. As críticas de Cheney poderiam complicar tais esforços, mas também podem refletir uma crescente impaciência com a não disposição da Rússia de apoiar medidas mais fortes, incluindo sanções, contra os iranianos. Cheney não mencionou o Irã em seu discurso, que foi dedicado principalmente à uma celebração triunfante da expansão da democracia na Europa desde o final da Guerra Fria.

Um alto funcionário do governo disse que o discurso enfatizou o desejo da Casa Branca de continuar trabalhando com a Rússia em muitas áreas, incluindo o Irã, apesar de ter expressado suas preocupações. O funcionário pediu anonimato porque não queria ser visto como falando pelo vice-presidente.

Ao ser perguntado sobre o risco dos comentários alienarem o Kremlin em um momento crucial das negociações em torno do Irã no Conselho de Segurança da ONU, o funcionário disse em uma entrevista por telefone: "Nunca há um bom momento".

Os comentários de Cheney também representaram uma prévia daquele que parece que será um encontro tenso entre o presidente Bush e o presidente Vladimir V. Putin na reunião do Grupo dos 8, os principais países industrializados, que ocorrerá em São Petersburgo em julho.

Dmitri S. Peskov, um porta-voz do Kremlin, contestou os comentários de Cheney, os chamando de infundados e "completamente incompreensíveis". Ao mesmo tempo, ele desconsiderou a mensagem enviada por Cheney, dizendo que não atrapalhará nem o futuro encontro entre Bush e Putin e nem as relações de forma geral.

"As relações entre os dois presidentes são muito mais construtivas do que estas declarações", disse Peskov em uma entrevista por telefone. "E são mais orientadas para o futuro." De fato, os dois homens conversaram por telefone nesta segunda-feira e concordaram na necessidade de uma maior cooperação na questão iraniana, disse a Casa Branca.

Stephen Sestanovich, que serviu como um alto funcionário de política para a Rússia no governo Clinton, disse que o discurso provavelmente enfurecerá Putin e seu círculo de conselheiros, aumentando a tensão entre os países.

"Por mais que tentem soar notas esperançosas, as pessoas ao redor de Putin provavelmente dirão que isto é prova da hostilidade de Washington e dirão: 'Como eles ousam nos dizer para sermos mais democráticos?'" disse Sestanovich, atualmente um alto membro do Conselho de Relações Exteriores, com sede em Washington.

Apesar de Cheney ter sempre expressado maior ceticismo em relação à Rússia do que Bush, seus comentários ressaltam as diferenças cada vez maiores desde que Bush disse, em 2001, que olhou nos olhos de Putin e "teve uma idéia de sua alma". Atualmente em muitas áreas, raramente Estados Unidos e Rússia pareceram mais em conflito do que desde o fim da Guerra Fria.

As relações do governo Bush com a Rússia seguiram em grande parte o arco da presidência de Putin, da cooperação e proximidade pessoal após os ataques de 11 de setembro de 2001 até as crescentes preocupações com a centralização por Putin do controle político e econômico. O declínio teve início com a investida judicial contra a Yukos, então uma das maiores companhias de petróleo privadas do país, e continua até o que muitos em Washington consideram como um esforço do Kremlin de reafirmar sua autoridade nas antigas repúblicas soviéticas, como Ucrânia e Geórgia.

Na Europa, no Oriente Médio e na Ásia Central, os dois países, quando não seus líderes, parecem estar mais freqüentemente em lados opostos do que cooperando. Na Ucrânia, Putin ficou abertamente contra o presidente de inclinação Ocidental, Viktor A. Yushchenko, durante os protestos públicos de fraude eleitoral em 2004, que no final o levaram ao poder.

Em dezembro passado, no que foi visto como um esforço para desacreditar Yushchenko antes de eleições parlamentares cruciais, Moscou deixou brevemente de fornecer gás para a Ucrânia quando ela rejeitou o pedido russo para que pagasse os preços mundiais -cerca de quatro vezes o que vinha pagando.

"Nenhum interesse legítimo é servido quando petróleo e gás se tornam ferramentas de intimidação e chantagem, seja tanto pela manipulação da oferta quanto pelas tentativas de monopolizar o transporte", disse Cheney. "E ninguém pode justificar ações que minem a integridade territorial de um vizinho, ou interferir em movimentos democráticos."

O último comentário foi uma clara referência à Geórgia e à Moldávia, ambas ex-repúblicas soviéticas com enclaves separatistas não reconhecidos apoiados pela Rússia, assim como à Ucrânia. Cheney falou em uma conferência internacional em Vilna, que atraiu líderes de nove ex-repúblicas soviéticas ou Estados satélites do Pacto de Varsóvia ao longo da fronteira ocidental da Rússia, assim como dos Estados Unidos, União Européia e Otan. A Rússia não foi convidada, uma omissão que seu Ministério das Relações Exteriores foi rápido em apontar.

"Seria desejável que um país tão grande e influente quanto a Rússia estivesse lá não como assunto ou objeto de crítica, mas como um fator importante, positivo, na política internacional", disse o vice-ministro das Relações Exteriores, Gregory B. Karasin, durante uma coletiva de imprensa.

Cheney tem assumido rotineiramente um papel proeminente na manifestação da política do governo, mais notadamente após os ataques de 11 de setembro de 2001 e em relação à guerra no Iraque, mas geralmente em foros domésticos. Suas visitas ao exterior geralmente envolvem discussões de alto nível e é incomum para ele fazer um grande discurso público no exterior.

Grande parte do discurso do vice-presidente foi uma celebração do progresso democrático obtido por estes países desde que a influência soviética sobre a Europa começou a ruir em 1989. E Cheney soou bastante como um triunfante guerreiro da Guerra Fria. Ele citou o presidente Ronald Reagan, o papa João Paulo 2º e os líderes dissidentes do bloco soviético que se livraram da "estagnação da ditadura imperial".

Cheney não mencionou Putin nominalmente. E ele disse que a Rússia não estava "destinada a ser uma inimiga" e que "pode ser uma parceira estratégica e uma amiga confiável". Mas ele pediu que a Rússia siga o caminho adotado por ex-súditos no bloco soviético. Ele acrescentou que o encontro em São Petersburgo será uma oportunidade para Bush e outros líderes do G-8 defenderem tal argumento. "A Rússia tem uma escolha a fazer", ele disse.

O vice-presidente também reiterou a forte condenação do governo a Belarus, onde o presidente Alexander G. Lukashenko foi eleito para um terceiro mandato em uma votação denunciada como fraudulenta. Ele disse que tinha planejado se encontrar com o principal oponente de Lukashenko, Alexander Milinkevich, em Vilna, mas que a prisão de Milinkevich na semana passada impediu que isto acontecesse. Ele pediu por sua libertação.

"Não há lugar em uma Europa unida e livre para um regime desta espécie", ele disse, chamando o governo de Lukashenko de "a última ditadura na Europa".

A Rússia, por outro lado, tem elogiado a vitória de Lukashenko, mais
recentemente quando Putin se encontrou com o líder bielo-russo na semana passada.

O discurso de Cheney mal foi citado na mídia estatal da Rússia, mas mesmo assim provocou uma enxurrada de críticas aqui.

"Os Estados Unidos têm que lidar com uma Rússia absolutamente diferente
hoje -uma Rússia que restaurou sua soberania real em muitas áreas", disse Andrei A. Kokoshin, um membro da Câmara baixa do Parlamento, para a agência de notícias "Interfax".

Seus comentários refletiram uma visão cada vez mais confiante aqui quanto ao status da Rússia. É uma visão que exigiu que o governo Bush calibrasse suas críticas às reversões dos avanços democráticos com a consciência de que o crescente poderio econômico da Rússia, alimentado em grande parte pelo petróleo e gás, a torna uma jogadora indispensável.

Mas Sestanovich disse que o discurso marcou uma espécie de momento decisivo, dizendo que "definitivamente reflete uma redução das expectativas do relacionamento com Moscou. O fato do vice-presidente ter dito que a Rússia pode ser um parceiro estratégico já implica que ela não é".

*Thom Shanker contribuiu com reportagem em Washington. George El Khouri Andolfato

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