UOL Notícias Internacional
 

05/05/2006

Com o aumento nos preços da energia, a democracia decai

The New York Times
Thomas L. Friedman
Caso você ainda não tenha percebido, todos os sujeitos maus ricos em petróleo parecem estar apreciando atualmente uma ótima fase.

O Irã, coberto de dinheiro de petróleo, levanta o nariz para as demandas da ONU que desista de suas aventuras nucleares e ameaça varrer Israel do mapa diariamente.

O presidente Vladimir Putin, da Rússia, coberto de dinheiro de petróleo, prende seus opositores e se aproxima dos inimigos dos EUA no exterior, como o Irã e o Hamas. O Sudão, coberto de dinheiro de petróleo, ignora os pedidos mundiais para que interrompa seu genocídio em Darfur.

O presidente da Venezuela, Hugo Chavez, coberto em dinheiro de petróleo, regularmente manda pastar os EUA e seus opositores internos.

E a Nigéria, Uzbequistão, Angola, Arábia Saudita, Chade e Síria, todos cobertos com dinheiro do petróleo ou gás, estão confortavelmente recuando até de medidas tímidas iniciais de democratização.

Há um padrão nisso tudo. Muitas pessoas assumiram que, com a queda do muro de Berlim, íamos ver uma onda irrefreável de eleições e mercados livres lentamente se espalhar pelo mundo. Por uma década essa onda pareceu real e poderosa, de fato.

Mas na medida em que o preço do petróleo passou da faixa entre US$ 20 e US$ 40 por barril para uma faixa entre US$ 40 e US$ 70, surgiu uma onda contrária muito negativa.

Estados que eu chamaria de "petrolistas" -com o PIB altamente dependentes do petróleo ou gás e com instituições fracas ou governos francamente autoritários- começaram a se afirmar e estão enfraquecendo, ao menos por enquanto, a tendência de democratização global.

Há muito os economistas nos ensinaram sobre os efeitos negativos que um excesso de recursos naturais pode ter na reforma política e econômica de um país: a chamada "maldição do recurso." Mas, no que diz respeito ao petróleo, parece que podemos levar esse argumento mais longe: parece haver uma correlação específica entre o preço do petróleo e o ritmo da liberdade.

Chamo de "Primeira Lei da Petropolítica" a que afirma o seguinte: o preço do petróleo e o ritmo da liberdade sempre se movem em direções opostas em Estados petrolistas.

De acordo com a Primeira Lei da Petropolítica, quanto mais alto o preço do petróleo cru mundial, mais erosão no direito à liberdade de expressão, imprensa livre, eleições livres, liberdade de assembléia, transparência governamental, independência do judiciário e a liberdade de formar partidos políticos independentes e organizações não governamentais. Tal erosão não ocorre em democracias saudáveis com petróleo.

Por outro lado, de acordo com a Primeira Lei da Petropolítica, quanto mais baixo o preço do petróleo, mais os países petrolistas são forçados a avançar na direção de uma política mais transparente. Eles buscam maior sensibilidade às vozes de oposição, maior abertura a uma gama de interações com o mundo externo e concentram-se mais em fomentar a capacidade de seus cidadãos, homens e mulheres, de competir, iniciar novas empresas e atrair investimentos externos. (Para uma elaboração deste argumento, veja a edição atual da revista Foreign Policy, www.foreignpolicy.com).

Sim, muitos fatores estão envolvidos na formulação da política de um país.

Mas será uma coincidência que, quando o petróleo estava entre US$ 20 e US$ 40 o barril, o Irã pedia um "diálogo de civilizações" e, quando chegou a US$ 70, o país passou a pedir a destruição de Israel?

Quando o barril estava entre US$ 20 e US$ 40, tínhamos "Putin I".
Naquela época, em 2001, o presidente Bush olhou Putin nos olhos e disse que teve "uma vislumbre de sua alma". Se Bush tentasse ver a alma de Putin hoje -a alma de "Putin II", o Putin do barril de petróleo de US$ 70- ele veria a enorme empresa russa de energia Gazpron. O regime de Putin engoliu a Gazprom, junto com uma variedade de instituições e veículos da mídia que antes eram independentes.

Apesar desses petro-autoritários cada vez mais audaciosos não representarem o tipo de ameaça estratégica ou ideológica que o comunismo impunha ao Ocidente, seu impacto na política global é ainda bastante corrosivo. Alguns dos piores regimes atuais têm mais petrodólares que nunca para fazer coisas ruins por um longo tempo -e muitos países decentes e democráticos têm que se ajoelhar a eles para conseguir petróleo e gás.

Dada a relação inversa entre o preço do petróleo e o ritmo da liberdade em Estados petrolistas, qualquer estratégia americana para promover a democracia nesses países está fadada a fracassar, a não ser que inclua um plano para encontrar alternativas ao petróleo e a abaixar o preço global do cru.

O preço do petróleo agora deveria ser uma preocupação diária da Secretaria de Estado, não só da pasta da energia. Hoje, você não pode ser um idealista eficaz em promover a democracia sem também ser um ambientalista eficaz, consciente da energia. Deborah Weinberg

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