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05/05/2006

Custo estimado do memorial do World Trade Center sobe para US$ 1 bilhão

The New York Times
Charles V. Bagli e David W. Dunlap
O custo projetado para a construção do Memorial World Trade Center no "marco zero" - nome pelo qual ficou conhecido o lugar no qual ficavam as torres - aumentou para quase US$ 1 bilhão, segundo a estimativa mais fidedigna até o momento.

As autoridades encarregadas da reconstrução admitem que a nova estimativa de preço é impressionante - "além da razão", nas palavras de um dos membros da diretoria da Fundação Memorial World Trade Center -, e que isto certamente implicará em uma outra batalha desgastante quanto ao projeto de construção na área de 65 mil metros quadrados, com pedidos de diminuição de custo, de redução da magnitude do projeto ou até mesmo de recomeço de todo o trabalho a partir do zero.

A fundação, que planejava dar início à construção em março, já discutiu discretamente com algumas famílias das vítimas a possibilidade de transferir partes importantes do memorial das bases das torres gêmeas para o nível do solo.

Poucos anos atrás, os problemas enfrentados pelo memorial, a principal peça espiritual do projeto, teriam sido inimagináveis. O complexo subterrâneo, com lagos, cascatas e galerias, foi produto de uma competição arquitetônica mundial que envolveu 5.201 projetos e inspirou uma enorme paixão popular.

Acreditava-se que ele estaria imune às controvérsias que cercaram a reconstrução comercial do local, com a sua conclusão garantida pelo fluxo de boa vontade e dinheiro. Mas a arrecadação de verbas diminuiu, sendo que apenas US$ 130 milhões foram arrecadados a partir de contribuições privadas. E muitos doadores notáveis ainda não contribuíram.

A nova estimativa, de US$ 972 milhões, faria desse o mais caro memorial já construído nos Estados Unidos. E essa cifra não inclui os US$ 80 milhões para um centro de visitantes financiado pelo Estado de Nova York. Ele certamente gerará comparações desfavoráveis com o Memorial Nacional da Segunda Guerra Mundial, em Washington, inaugurado em 2004; o Memorial Nacional de Oklahoma City, de US$ 29 milhões, inaugurado em 2000; ou o Memorial dos Veteranos do Vietnã, em Washington, de US$ 7 milhões, inaugurado em 1982.

O próprio World Trade Center custou US$ 1 bilhão na década de 1970, o equivalente a cerca de US$ 3,7 bilhões em dólares atuais, ajustados para a inflação. Mas tudo no marco zero tem um preço grandioso, do centro de revista de veículos, no valor de US$ 478 milhões, ao terminal de metrô PATH (sigla em inglês de Autoridade Portuária Trans-Hudson), cujo custo será de US$ 2,2 bilhões.

A última estimativa foi obtida a partir de um volumoso relatório feito pela Bovis Lend Lease, a firma de gerenciamento de construção contratada pela fundação para fazer uma análise rigorosa dos valores projetados com base nas previsões de custos de mão-de-obra e preços de mercado do aço e do concreto, que têm aumentado rapidamente nos últimos meses.

O relatório inclui despesas não discriminadas anteriormente, como um seguro de US$ 25 milhões, US$ 22 milhões para o projeto e a construção de um museu, assim como outros US$ 22 milhões para a construção de um pavilhão de entrada para o museu subterrâneo. A fundação começou a dar conhecimento sobre a situação a autoridades na Prefeitura da Cidade de Nova York, no gabinete do governador George E. Pataki e na Autoridade Portuária de Nova York e Nova Jersey, que é a proprietária do terreno. Uma pessoa que participou das reuniões sobre o memorial forneceu ao "New York Times" uma cópia de um memorando confidencial da fundação, datado de 2 de maio, que sumariza as conclusões da Bovis.

Mesmo antes do anúncio oficial da estimativa de um bilhão de dólares, o prefeito Michael R. Bloomberg disse na quinta-feira (04/05) que conversou tanto com Pataki quanto com o governador Jon S. Corzine, de Nova Jersey, sobre a escalada dos custos.

"Os dois governadores e eu achamos que US$ 500 milhões é a cifra com a qual teremos que aprender a lidar", afirmou Bloomberg. "Queremos construir o memorial, mas precisamos entender que existem demandas conflitantes nesta cidade".

John P. Cahill, assessor-chefe de Pataki, que está supervisionando a reconstrução no marco zero, declarou na quinta-feira: "Continuamos comprometidos com a criação de um memorial proeminente, poderoso e tocante, do qual a nossa nação possa sentir orgulho. As gerações que estão por vir enxergarão nele um tributo. No entanto, temos que garantir que o projeto seja financeiramente factível, e ao mesmo tempo consistente com a visão original".

Segundo o relatório, o custo estimado apenas do memorial e do museu a ele vinculado é de US$ 672 milhões, o que significa um aumento de 36% em relação aos US$ 494 milhões previstos quatro meses atrás. Além disso, as últimas projeções incluem US$ 71,5 milhões para um sistema de resfriamento subterrâneo, contra os US$ 41,5 milhões estimados para este equipamento há quatro meses.

A Bovis também identificou a necessidade de US$ 300 milhões para as preparações e obras de infraestrutura no local - quase o triplo da estimativa de US$ 110 milhões feita pela fundação, pela Lower Manhattan Development Corporation e pela Autoridade Portuária -, que seriam necessárias antes do início da construção. A firma sustenta que a Autoridade Portuária precisa fornecer "um local no qual as obras possam ser feitas" e deve arcar com esses custos.

A Autoridade Portuária deverá contestar tal afirmativa. No mês passado, ela concordou em fornecer US$ 100 milhões para o memorial, com base em estimativas anteriores, como parte de uma grande modificação nos planos no sentido de se construir quatro grandes prédios de escritórios no local. Ao mesmo tempo, a instituição assumiu a responsabilidade financeira pela problemática Torre da Liberdade, no valor de US$ 2 bilhões. Na quinta-feira, algumas autoridades estaduais e executivos da Autoridade Portuária expressaram dúvidas quanto à validade do salto abrupto dos custos referente à infraestrutura, mas disseram que não desejam anunciar isso publicamente até serem oficialmente informados sobre a análise.

O debate que se seguirá quanto às mudanças dos custos e potenciais desenhos arquitetônicos poderá mais uma vez gerar a possibilidade de que a Autoridade Portuária assuma da fundação a responsabilidade pela construção do memorial. No início do segundo semestre do ano passado, tanto Pataki quanto Bloomberg pareciam endossar esta idéia. Na semana passada, autoridades estaduais expressaram falta de confiança na capacidade da fundação de construir o complexo do memorial.

A questão se complica devido àquilo que algumas autoridades vêem como um esforço débil da fundação no sentido de arrecadar doações, mais de quatro anos após o 11 de setembro. Além dos US$ 130 milhões que a fundação diz já ter arrecadado, a Lower Manhattan Development Corporation colaborou com US$ 200 milhões, que, somados aos US$ 100 milhões da Autoridade Portuária, perfariam um total de US$ 430 milhões.

A fundação ainda não explicou como lidará com a despesa anual de administrar o memorial e o museu, que poderia chegar a quase US$ 60 milhões.

Funcionários da fundação atribuíram a estimativa anterior, US$ 494 milhões, à Lower Manhattan Development Corporation, mas Stefan Pryor, o presidente da corporação, afirmou: "Em ambas as ocasiões, as duas agências trabalharam juntas".

No início deste ano, a fundação solicitou empreiteiras para construir a base para o complexo. Peter M. Lehrer, um consultor de construção que trabalha para a fundação, e Roland W. Betts, ex-diretor da LMDC, ficaram alarmados ao constatarem que os orçamentos propostos variaram de US$ 29 milhões a US$ 61 milhões, sendo de duas a quatro vezes mais altos do que o esperado.

A seguir a fundação cancelou o contrato e solicitou à Bovis que fizesse uma nova análise de custos do projeto inteiro. Essa análise está resumida no memorando confidencial, que também menciona modificações no desenho arquitetônico que expressam melhor a complexidade do projeto e os aumentos na sua magnitude.

Sabendo que o custo do complexo estava se tornando politicamente impalatável, o comitê executivo da fundação se reuniu em 18 de abril com representantes de alguns grupos de famílias das vítimas, incluindo Anthony Gardner, um líder da Coalizão das Famílias do 11 de setembro, que entrou com um processo na justiça no sentido de sustar o projeto do memorial; assim como Edith Lutnick, Patricia Riley e Sally Regenhard. Em uma tentativa de reduzir os custos e acalmar os críticos, os executivos sugeriram uma ampla série de mudanças no desenho do projeto, de acordo com três pessoas que participaram da reunião.

Segundo o atual projeto, os nomes das vítimas seriam inscritos dez metros abaixo do nível da rua, em uma mureta nas galerias que circundariam lagos subterrâneos construídos nas bases das torres gêmeas. As autoridades alegam que a eliminação das galerias e a transferência das inscrições dos nomes para o nível da rua economizariam dinheiro, resolveriam algumas questões de segurança e talvez acalmassem os oponentes.

"Sempre deixamos claro para a fundação e a LMDC que não apoiamos o memorial segundo o projeto atual", disse Gardner na quinta-feira, embora tenha se recusado a discutir a reunião de 18 de abril.

Mas os que apóiam o atual projeto fizeram objeções àquilo que eles dizem ser uma grande revisão com o objetivo de satisfazer alguns críticos. "Não creio que seja apropriado cancelar tudo e começar da estaca zero", disse Jeff H. Galloway, membro da Diretoria Comunitária 1, em Lower Manhattan. "O desenho do memorial não foi elaborado de forma aleatória. Ele é o resultado de um processo criterioso e surpreendentemente inclusivo".

Monica Iken, integrante da diretoria da fundação e defensora do desenho original criado por Michael Arad e Peter Walker, expressou sua consternação ante aquilo que chamou de "falha de liderança".

"A arrecadação de fundos não teria sido um problema caso o memorial e o museu fossem uma prioridade desde o princípio, algo que nunca foram", criticou ela. "Se o desenho original não tivesse sido tratado como um brinquedo, talvez não estivéssemos enfrentando estes problemas". Danilo Fonseca

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