UOL Notícias Internacional
 

06/05/2006

Diretor da CIA renuncia após 18 meses

The New York Times
Mark Mazzetti e Scott Shane*

em Washington
Na sexta-feira, Porter J. Goss renunciou sob pressão ao cargo de diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), colocando fim a uma tempestuosa passagem de 18 meses pela agência de espionagem, marcada por queda da moral nas fileiras da agência e disputas territoriais dentro do governo.

Funcionários do governo disseram que o presidente Bush nomeará um sucessor para Goss na segunda-feira, com o principal candidato sendo o general Michael V. Hayden da Força Aérea. Hayden é o vice de John D. Negroponte, o diretor nacional de inteligência.

Enquanto Negroponte lutava para reformar as operações de inteligência, seu gabinete repetidamente entrava em choque com Goss e seu pessoal na CIA.

Hayden recebeu críticas elogiosas da Casa Branca e do Congresso nos seis anos que serviu como diretor da Agência de Segurança Nacional (NSA), mas recentemente passou a ser criticado após a revelação do papel da NSA nos grampos domésticos. A decisão de nomear Hayden como diretor da CIA poderá levar seu papel na supervisão dos grampos a se transformar no foco das audiências de confirmação no Senado.

Goss, 67 anos, um ex-deputado republicano que foi funcionário da agência de inteligência no exterior nos anos 60, assumiu a agência enquanto ela ainda cambaleava de dois grandes fracassos, os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 e os levantamentos pré-guerra errados das armas iraquianas.

Em seu período relativamente breve no comando, a agência foi abalada pela saída de muitos veteranos que se irritaram com o que descreveram como uma liderança excessivamente política de Goss.

Aparecendo ao lado de Goss no Escritório Oval, Bush descreveu sua passagem como um período de transição, um que viu a agência perder seu status como a principal agência de espionagem do país.

Ex-funcionários de inteligência disseram que a saída foi apressada devido a uma recente levantamento da Junta Consultiva de Inteligência Estrangeira do Presidente, que revelou que atuais e ex-membros da agência nutriam profundas críticas à liderança de Goss. Em particular, a junta descobriu que Goss estava resistindo aos esforços para tornar o recrutamento de espiões no exterior o principal foco da agência, disseram os funcionários.

A saída de Goss também ocorre em meio a uma investigação das atividades do diretor executivo da agência, Kyle Foggo, um antigo funcionário da agência que Goss promoveu a um alto cargo. O inspetor geral da agência está examinando a ligação de Foggo com Brent R. Wilkes, um antigo amigo e empreiteiro militar que está envolvido no escândalo do ex-deputado Randy Cunninghan, de San Diego.

Um funcionário da Casa Branca disse que a saída de Goss foi discutida por várias semanas entre Goss e Negroponte e que Bush tinha pleno conhecimento das discussões.

O presidente "estava satisfeito" com a liderança de Goss, disse o
funcionário, acrescentando que a agência tinha "passado por um período
tumultuado de mudança e ele era a pessoa que tinha que implementar tal
mudança, de forma que isto o torna uma figura decisiva".

A renúncia é o mais recente golpe no governo, que enfrenta um baixo índice de aprovação e está no meio de uma reformulação de pessoal ordenada por Joshua B. Bolten, o novo chefe de Gabinete da Casa Branca.

Bush e Goss ficaram sentados lado a lado no Escritório Oval, na sexta-feira, para anunciar a saída. Cada um ofereceu um elogio ao outro. Goss disse que a agência que ele liderou está "bem equilibrada, navegando bem".

"Eu acredito honestamente que melhoramos dramaticamente", ele disse.

Bush descreveu Goss como tendo "liderado habilmente", acrescentando: "Ele implementou um plano de cinco anos para aumentar o número de analistas e agentes, que ajudará a tornar este país um lugar mais seguro e nos ajudar a vencer a guerra contra o terror".

Em uma declaração aos funcionários da agência, Goss chamou a agência de "o padrão ouro" da comunidade de inteligência e disse que estava orgulhoso do que sua equipe de administração realizou.

"Quando eu cheguei à CIA em setembro de 2004, eu queria realizar algumas coisas bem específicas e conseguimos grandes avanços em todas as frentes", dizia a declaração.

Ele citou grandes aumentos no recrutamento e em novas tecnologias para
ajudar os analistas a decifrarem inteligência bruta.

Um amigo e ex-colega de Goss disse que o cargo e as constantes críticas que vieram com ele tiveram um ônus.

"Era como assistir um amigo sofrendo", disse o amigo, que insistiu no
anonimato. "Eu acho que foi muito difícil para ele."

Entre os funcionários que partiram logo após a chegada de Goss, após
entrarem em choque com ele e sua equipe, estavam John E. McLaughlin, que foi diretor em exercício; A.B. Krongard, que foi diretor executivo, o terceiro na hierarquia; e Stephen R. Kappes e Michael Sulick, que ocuparam os dois maiores cargos na diretoria de operações, a responsável pela espionagem humana.

Na sexta-feira, importantes legisladores fizeram uma análise morna do
retrospecto de Goss. "O diretor Goss assumiu o comando da comunidade de
inteligência em um momento muito difícil, após os fracassos da inteligência associados a 11 de setembro e às armas de destruição em massa do Iraque", disse o senador Pat Roberts, republicano do Kansas, que é presidente do Comitê de Inteligência do Senado, em uma declaração. "Porter fez algumas melhorias significativas na CIA, mas eu acho que mesmo ele diria que ainda resta muito a fazer."

Alguns importantes democratas foram bem mais críticos, acusando Goss de
provocar a saída da maioria dos veteranos experientes da agência e
destruindo o moral.

"No último ano e meio, mais de 30 anos de experiência ou foram expulsos ou partiram por frustração", disse a deputada Jane Harman da Califórnia, a líder da bancada democrata no Comitê de Inteligência da Câmara. "Isto deixou a agência em queda livre."

As pessoas entrevistadas para este artigo incluíam defensores e críticos de Goss, incluindo algumas diretamente envolvidas na administração e supervisão da inteligência. Para algumas foi concedido anonimato para que pudessem falar livremente sobre a renúncia de Goss.

Um ex-funcionário da agência disse que Goss esperava preservar o papel
tradicional da agência como principal fonte de análise de inteligência do governo, assim como seu centro de espionagem humana, apesar do principal papel de análise agora ser exercido pelo escritório de Negroponte. O prestígio da CIA sofreu múltiplos golpes nos últimos anos, a começar pelo fracasso em detectar os ataques de 11 de setembro, seguido pelos levantamentos falhos do status das armas químicas, biológicas e nucleares de Saddam Hussein.

Foram estas falhas que, em parte, provocaram a renúncia em 2004 do
antecessor de Goss, George J. Tenet.

Goss começou na agência quando ela estava prestes a perder sua condição de principal agência de espionagem. A comissão bipartidária que investigou os ataques de 11 de setembro recomendou a criação de um posto de nível de Gabinete para assumir o controle das várias agências de inteligência e substituir o diretor da CIA como principal conselheiro do presidente em inteligência.

O Congresso aceitou a recomendação e, em abril do ano passado, Negroponte foi nomeado como primeiro diretor nacional de inteligência. Negroponte, não o diretor da CIA, agora dá ao presidente seu relatório matinal de inteligência e se senta à mesa nas reuniões de Gabinete.

Goss, que serviu como deputado da Flórida por longa data, estava
considerando a aposentadoria no final de 2004 quando o Bush e o
vice-presidente Dick Cheney o pressionaram para que assumisse a agência por recomendação de Tenet.

A agência foi amplamente vista como estando em desacordo com o governo em torno da guerra no Iraque e a Casa Branca deu a Goss ordem para encerrar o que considerava uma campanha de vazamentos para a imprensa por parte de membros da agência contrários às políticas do governo.

Mas os vazamentos continuaram, e nos últimos meses Goss lançou um intenso esforço para encontrar quem foi o responsável por uma série de noticiários que revelavam detalhes sobre programas altamente confidenciais.

A repressão, que incluiu submeter altos funcionários a testes de polígrafo, levou à demissão no mês passado de Mary O. McCarthy, uma veterana que estava trabalhando escritório do inspetor geral da agência.

*Elisabeth Bumiller, David S. Cloud e James Risen contribuíram com reportagem para este artigo. George El Khouri Andolfato

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