UOL Notícias Internacional
 

06/05/2006

Maior facção de rebeldes de Darfur assina pacto de paz com Sudão

The New York Times
Lydia Polgreen e Joel Brinkley

em cartum, no Sudão
Após uma sessão de negociação frenética que durou a noite toda, o governo sudanês e o maior grupo rebelde de Darfur assinaram um difícil acordo de paz na sexta-feira (05/5), para pôr fim a três anos de sofrimento e derramamento de sangue em Darfur. No entanto, dois grupos rebeldes menores raivosamente objetaram, deixando aberta a possibilidade de ameaçarem o acordo.

Pouco antes da cerimônia de assinatura, Abdul Wahid Mohammed Nur, líder de um desses grupos menores, irritou-se e deixou a sala de conferência em Abuja, Nigéria, acompanhado de seus seguidores. Quando chegou ao lado de fora, parou e criticou o acordo.

Mas na noite de sexta-feira, cerca de 15 comandantes e outros líderes do grupo de Nur submeteram uma carta dizendo que discordavam dele e cumpririam o acordo.

Os desdobramentos impressionantes aconteceram no final de uma semana de ameaças dos líderes rebeldes, que lançaram objeções até o último minuto, dizendo que o acordo não satisfazia suas demandas.

Mais de duas dúzias de chefes de Estado e outros líderes da África, Europa e Oriente Médio se reuniram para as negociações em Abuja.
Juntos, eles aplicaram forte pressão sobre os rebeldes para que cedessem. Os porta-vozes dos rebeldes disseram que a pressão surtiu efeito.

"Estamos reafirmando que a luta termina agora em Darfur", disse Mani Arko Minawi, líder do grupo rebelde que assinou o acordo. Estima-se que Minawi controla cerca de 75% das forças rebeldes em Darfur. "Vamos avançar com a paz e vamos ser sérios", acrescentou.

Sob os termos do acordo, deve ser iniciado um cessar fogo em sete dias.
Milícias do governo e forças rebeldes devem se desarmar e se retirar para trás das linhas de cessar fogo. Nos próximos meses, o governo sudanês deve estabelecer um fundo de compensação para as vítimas da carnificina, que tomou mais de 200.000 vidas e deslocou milhões de pessoas de suas casas.

Neste verão, haverá uma conferência internacional para levantar fundos para a reconstrução de Darfur. Além disso, cerca de 5.000 soldados rebeldes devem entrar para a polícia e o exército sudanês, e os líderes rebeldes poderão participar do governo -inclusive no cargo de assistente do presidente, o quarto mais alto no governo sudanês.

Robert B. Zoellick, subsecretário de Estado americano que guiou as partes para obter esta vitória parcial, cuidadosamente aplaudiu o acordo, mas também admitiu que o fracasso em conseguir um apoio unificado "é uma realidade e impõe perigos".

Nur, o líder rebelde que deixou a sala irritado, controla uma facção menor mas significativa do mesmo grupo de Minawi: o Exército da Liberação do Sudão. Nur era o único líder do grupo, até uma espécie de golpe no último outono. Agora Minawi e Nur mal se falam.

Enquanto presidia a cerimônia de assinatura em Abuja, Olusegun Obasanjo, presidente da Nigéria, disse que Minawi não só era "um bom soldado, mas também um bom estadista." Por contraste, pouco antes de assinar, Obasanjo andou até Nur, colocou o braço em seu ombro e sussurrou algo em seu ouvido.

Nur respondeu com sua saída tempestuosa da sala.

Do lado de fora, Nur disse que Obasanjo havia perguntado: "Wahid, estamos aqui para assinar, não para discutir. Você está pronto para assinar?" Nur então começou uma declaração apaixonada na qual reclamou que o acordo não desarmava rápido o suficiente a milícia patrocinada pelo governo que aterrorizou Darfur, chamada de janjaweed. Zoellick, entretanto, salientou durante as negociações que o acordo requer que a janjaweed se desarme e se retire antes dos rebeldes.

"Estou aqui e vou continuar aqui pela paz", disse Nur. "Não há garantias de que este acordo possa assegurar isso. É por isso que peço à comunidade internacional, à União Africana, aos EUA e a Zoellick pessoalmente, que eu quero o fim disso. Quero que isso termine por meu povo. Mas a resposta não está neste acordo que eles querem que eu assine. É fraco demais."

Zoellick chamou Nur de "mercuriano, para ser educado". Mas ele também observou que o movimento de Nur "é dominante em algumas áreas" de Darfur.

O terceiro grupo rebelde, o Movimento de Justiça e Igualdade, um grupo islâmico, não estava presente na cerimônia. Seus seguidores são poucos, mas compromissados. Zoellick disse amargamente que seus líderes são "indiferente à necessidade de paz". Alguns deles moram na Europa, mas a União Africana estima que tenha cerca de 500 ou 600 combatentes em Darfur. O movimento tem laços com Hassan Al-Turabi, radical religioso que convidou Osama Bin Laden ao Sudão.

O grupo propôs mudanças radicais ao acordo de paz, a maior parte das quais não foi aceita. Pouco antes da madrugada, antes do acordo ser alcançado, Ahmed Tugod, seu principal negociador, disse: "Decidimos não assiná-lo".

Nenhuma das pessoas do movimento ofereceu comentários desde então.
Zoellick observou que "estava muito claro que parte dos movimentos não tinham lido" o acordo de 85 páginas "ou internalizado seu conteúdo."
Os dois grupos menores têm a capacidade de atrapalhar o acordo e continuar lutando. No entanto, nenhum disse especificamente que pretende fazê-lo agora. "Ainda há muita desconfiança e medo, ainda há muito perigo em terra", disse Zoellick.

O conflito em Darfur começou no início de 2003, quando rebeldes, frustrados com o domínio árabe em sua região, atacaram um posto do governo. Este respondeu armando milícias locais, que lutaram contra os rebeldes fazendo uso de táticas brutais, inclusive estupro, pilhagem e assassinato, de acordo com grupos de direitos humanos e o Departamento de Estado.

Com o acordo, entretanto, os rebeldes ganham maior representação, enquanto o governo procura pôr fim a uma guerra que manchou sua reputação internacional.

Para conquistar as partes durante as negociações, Zoellick leu alto a carta que o presidente Bush tinha enviado a ele na qual prometera que "os EUA vão apoiar fortemente a implementação do acordo de paz" e vão "responsabilizar" qualquer grupo que o viole.

Saifaldin Haroun, porta-voz da facção de Minawi, disse: "Não acho que possamos ter outra oportunidade como esta, se perdermos esta chance", acrescentando, "nosso povo sofreu demais. Estamos perdendo famílias, amigos, irmãos nesta guerra não justificada."

Adbulrahman Zuma, porta-voz da delegação sudanesa, disse que o governo não está feliz com a falta de um acordo unificado, mas acrescentou:
"Definitivamente, a paz não pode esperar muito." Se os outros grupos não assinarem, acrescentou, "certamente vamos prosseguir".

Nos últimos dias, as duas facções do Exército de Liberação do Sudão vêm combatendo no norte de Darfur, lutando por domínio territorial antes do acordo de paz, disseram diplomatas e grupos de assistência.

"O ELS, em alguns casos, agiu muito mal nesses combates", disse um
diplomata ocidental em Cartum, em condição de anonimato. "Há sinais de comportamento igual ao da janjaweed, como usar o estupro como arma."
Jan Pronk, principal representante da ONU no Sudão, criticou o ELS no início da semana por ataques e ameaças a membros de grupos de assistência humanitária.

Apesar de o acordo incluir o grupo rebelde armado mais poderoso, não necessariamente representa o povo de Darfur, disse John Prendergast, do International Crisis Group, que tenta impedir um conflito armado. Nur representa os Fur, a maior tribo em Darfur, uma região cujo nome significa "terra dos Fur".

"A preponderância do sentimento político darfuriano não está representada na mesa, significando que os agentes para implementação do acordo serão poucos e espaçados", disse Prendergast na sexta-feira.

Mas Denis Sassou-Nguesso, diretor da União Africana, ofereceu uma nota mais esperançosa: "O trem da paz partiu, e esperamos que os outros vagões nos sigam. Esperamos que, antes da próxima estação, eles queiram se unir a nós, então diminuiremos a velocidade para eles nos alcançarem." Deborah Weinberg

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