UOL Notícias Internacional
 

06/05/2006

Multinacionais do petróleo perdem poder para países produtores

The New York Times
Jad Mouawad
Para muitos norte-americanos, a Exxon Mobil ou a Chevron parecem superpoderosas, embolsando lucros recordes à medida que os custos da energia disparam.

Mas em muitos países os elevados preços do petróleo estão também tornando a vida consideravelmente mais difícil para as grandes companhias petrolíferas.

Preços substancialmente mais elevados fizeram com que o poder fosse transferido para os países produtores de petróleo, conforme alguns governos procuravam obter uma maior parcela das riquezas. Como resultado, ainda que as companhias petrolíferas ocidentais expandam a sua área de atuação por meio de aquisições e projetos multibilionários, uma ressurgência de políticas nacionalistas está minando a influência dessas empresas.

"Temos presenciado um retorno de um estilo nacionalista referente aos recursos energéticos típico da década de 1970, que acompanha a onda de preços altos", afirma Daniel Yergin, presidente da Cambridge Energy Research Associates, uma empresa de consultoria. "Durante períodos de preços baixos, os governos anseiam por abrir as portas aos seus recursos. Mas quando o preço sobe, são eles que ditam as regras do jogo".

Essa tendência poderá gerar menos investimentos por parte das companhias petrolíferas ocidentais, menor produção e, com as reservas mais limitadas, preços ainda mais elevados nos postos de gasolina.

Até o momento, o deslocamento deste eixo de poder assumiu várias nuances e tonalidades. Na Bolívia e na Rússia, os governos assumiram o controle direto sobre os seus campos de petróleo e gás; na Venezuela e no Reino Unido, eles elevaram as taxas; e na Nigéria e no Cazaquistão concederam um tratamento altamente preferencial às companhias estatais.

Na semana passada, a Bolívia anunciou que passaria a embolsar 82% das suas vendas de gás, em vez de menos de 18%, conforme vinha fazendo. Na Venezuela, o governo recentemente expropriou 32 pequenos campos de petróleo explorados por companhias estrangeiras, e aumentou as taxas de exploração cobradas destas companhias de 56,6% para 83%. O congresso no Equador recentemente aprovou uma lei que cria uma taxa de royalty de 50% sobre os campos existentes.

Até mesmo o governo britânico modificou o regime fiscal no Mar do Norte no início do ano, elevando as taxas em dez pontos percentuais, para um total de 50%. E se as discussões no Congresso norte-americano sobre a queda de arrecadação fiscal forem um indicador, o mesmo pode valer - pelo menos em um grau limitado - nos Estados Unidos.

Apesar de toda a sua riqueza, as companhias petrolíferas globais têm percorrido uma longa rota de declínio, perdendo terreno progressivamente para os interesses nacionais do petróleo em todo o mundo. Atualmente, com os custos mais elevados, retornos menores e aumento da competição, a pressão está aumentando ainda mais, deixando os executivos ansiosos quanto ao futuro da indústria.

"As companhias de petróleo estão se sentido estranguladas", diz Yergin.

A produção de petróleo da Exxon, de 2,5 milhões de barris diários, por exemplo, responde por menos de 3% da produção diária mundial. As sete principais companhias petrolíferas internacionais - Exxon, BP, Royal Dutch Shell, Total, Chevron, ConocoPhillips e Eni - controlam menos de 5% das reservas globais. A maioria delas está tendo dificuldades para encontrar petróleo suficiente para repor a quantidade de derivados que vendem diariamente.

É claro que as grandes companhias de petróleo possuem patrimônios substanciais. Elas geram lucros enormes, contam com suas próprias técnicas de ponta de exploração e instrumentos de produção e desenvolveram estratégias financeiras e gerenciais. Além disso, possuem uma longa história de adaptação a ambientes hostis, tanto naturais quanto políticos.

Ainda assim, a última tendência no setor petrolífero contrasta vivamente com o período anterior de uma década marcado por privatizações, que teve início após a queda do Muro de Berlim. Hoje em dia, para a indústria, aquelas parecem ser memórias distantes de uma época na qual executivos do setor petrolífero de Houston a Londres perambulavam pela Sibéria ou pelos Andes, pelo Mar Cáspio ou pelo Golfo da Guiné, em busca de novos campos para exploração e oportunidades de lucros fáceis.

Duas décadas de baixos preços de petróleo e de reservas abundantes significaram que as companhias ocidentais foram presenteadas com condições favoráveis por governos que estavam ávidos, e muitas vezes ansiosos, para aumentar a produção, elevar as receitas e repor as reservas monetárias nacionais.

Mas os tempos mudaram. Enquanto isso, é claro, os preços da energia dispararam.

"É bastante natural que durante um período de preços elevados o fenômeno do nacionalismo em relação aos recursos energéticos retorne", explica Leonardo Maugeri, executivo da Eni, a gigantesca companhia petrolífera italiana. "Isso é um subproduto dos preços altos. Em períodos como este os produtores acreditam que detêm o controle, e eles provavelmente estão certos. Assim, eles impõem taxas mais altas, ou tomam medidas piores", disse ele em uma entrevista por telefone de Roma.

Essa tendência é particularmente pronunciada na Venezuela. Lá, o governo está cogitando reformular as regras para investimentos no cinturão do Orenoco, no qual se localiza o grosso das reservas petrolíferas do país. As companhias de petróleo investiram mais de US$ 17 bilhões na Venezuela, na expectativa de que as reservas venezuelanas pudessem se equipar àquelas da Arábia Saudita. O petróleo pesado possui quantidades maiores de enxofre e exige um refino mais complexo.

A Venezuela já aumentou os royalties de 1% para 16,6% nos quatro principais projetos petrolíferos do país, e está planejando elevar as taxas de 34% para 50%. Ela também quer que a Petroleos de Venezuela, mais conhecida como Pdvsa, aumente a sua participação acionária naqueles projetos de cerca de 40% para aproximadamente 60%.

"Várias companhias estão dispostas a participar porque as reservas venezuelanas são enormes, mas a Venezuela está assumindo um grande risco", adverte Patrick Esteruelas, analista do Grupo Eurasia, uma empresa de consultoria especializada em análise de riscos políticos, com sede em Nova York.

Realmente, na maioria dos casos nos quais os governos nacionalizaram as suas indústrias petrolíferas na década de 1970, ou adotaram políticas fiscais mais rígidas em um período mais recente, a produção despencou. Hoje em dia o Irã está longe do seu pico de produção, assim como a Líbia e o Iraque. E até o ano passado a Arábia Saudita não havia aumentado a sua capacidade de produção durante mais de três décadas. Mais recentemente, a Venezuela e a Rússia experimentaram estagnação ou queda de produção.

"Na década de 1990 houve o inverso do que temos hoje: havia competição pelo capital, e não pelas reservas", explica Michelle Billig, diretora de risco político do PIRA Energy Group, uma empresa de consultoria de Nova York. "Agora esse poder de barganha foi invertido".

"Isso afeta totalmente o cenário da oferta para o futuro", diz ela. "O mundo está dependendo do crescimento continuado da produção. Se houver menos incentivo para o aumento da produção, haverá cada vez mais arrocho no mercado".

Derek Butter, que dirige o grupo de análise corporativa da Wood Mackenzie, uma empresa de consultoria com sede em Edimburgo, na Escócia, disse que vários projetos petrolíferos que estão sendo agora renegociados foram elaborados quando o preço do barril de petróleo era de aproximadamente US$ 15. Não havia um mecanismo que determinasse como os governos e as companhias petrolíferas dividiriam os lucros maiores. Segundo ele, àquela época ninguém podia antever que o preço do barril de petróleo chegaria a US$ 75.

A posição de poder das companhias foi consideravelmente minada no decorrer dos anos, e a maioria delas têm pouca escolha, a não ser se conformar com a nova conjuntura. No seu apogeu, após a Segunda Guerra Mundial, as chamadas Sete Irmãs dominavam o mercado mundial de petróleo. Em troca, elas forneciam um estipêndio aos países anfitriões, como Líbia, Irã, Iraque ou Arábia Saudita, e determinavam os preços do petróleo para o mundo. Mas depois veio a reação. Os produtores de petróleo do Oriente Médio e da América Latina se organizaram a partir de 1960, com a criação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Eles exigiram um maior quinhão das receitas obtidas com o petróleo e um preço mais elevado para o produto. Finalmente, na década de 1970, eles colocaram as companhias estrangeiras para fora.

Atualmente, as companhias petrolíferas ocidentais contam com acesso integral a países que detêm 6% das reservas conhecidas de petróleo, especialmente na América do Norte e na Europa, segundo a PFC Energy, uma empresa de consultoria com sede em Washington. Elas são também capazes de investir em nações que possuem 11% de reservas adicionais por meio de joint ventures ou de contratos de compartilhamento de produção. O restante do mundo está fechado para elas.

Paolo Scaroni, diretor-executivo da Eni, chama isso de "o paradoxo da abundância". "As companhias petrolíferas internacionais contam com abundantes fluxos de capital, mas as suas oportunidades de reinvestir esse capital estão severamente limitadas", disse Scaroni durante uma conferência em Londres no início deste ano.

Falando em um painel de discussão promovido pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington, na última segunda-feira, Rex W. Tillerson, presidente da Exxon Mobil, disse que as companhias petrolíferas ocidentais podem ajudar a aumentar a produção porque contam com capacidade tecnológica única.

"O maior desafio para nós, sob uma perspectiva geopolítica, é simplesmente obtermos acesso aos campos de produção", acrescentou Tillerson, tocando no dilema enfrentado pela indústria. "E alguns países estão mais dispostos e abertos que outros para permitir que a indústria explore os seus recursos".

Ao mesmo tempo, as companhias petrolíferas estão enfrentando um crescimento da competição de novos rivais, como as companhias estatais chinesas e indianas, assim como a grande quantidade de companhias nacionais de petróleo dotadas de grande experiência, como a Petrobras, do Brasil, ou a Petronas, da Malásia. Isso gerou uma corrida por recursos em todo o mundo e a custos mais elevados. Líbia e Angola, por exemplo, viram recentemente as companhias de petróleo fazer ofertas recordes por novos blocos de exploração.

"Existe muita arrogância por parte das companhias internacionais de petróleo, que acreditam ser capazes de fornecer algo que ninguém mais teria condições de oferecer", afirma Valerie Marcel, analista de energia da Chathan House, em Londres, cujo livro, "Oil Titans: National Oil Companies in the Middle East" ("Os Titãs do Petróleo: As Companhias Nacionais de Petróleo no Oriente Médio") será lançado no final deste mês. "Mas elas não são mais as únicas a fazer parte desse jogo". Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,03
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,09
    68.714,66
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host