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07/05/2006

Encontrando conforto (e novos amigos) no ouro

The New York Times
Landon Thomas Jr.
Em Sharon, Connecticut
Este é um esplêndido dia de primavera no interior de Connecticut, e James E. Sinclair, que talvez seja o mais conhecido especulador da sua era, está sentando diante do seu monitor que traz as variações dos índices financeiros, contemplando a ascensão do preço do ouro no gráfico.

O sol, entrando pelas janelas de sacada, ressalta a cor dourada que pode ser encontrada por toda parte no escritório da casa de Sinclair: nas moedas próximas ao seu computador, no seu volumoso relógio Rolex, nos anéis em três dos seus dedos, e nas costuras da sua camisa adornada com monogramas.

Alan S. Orling/The New York Times 
O investidor James E. Sinclair em sua na cidade de Sharon, Connecticut, cheio de ouro

"Eu adoro ouro, ok?", diz ele, com a tonalidade da voz aumentando devido à empolgação. "O ouro me deixou rico. Ele é ótimo. Pode ser trocado por outras coisas. Ouro é dinheiro".

No seu aparelho de televisão, que está sintonizado na CNBC, surgem notícias sobre um ataque terrorista no Egito, o aumento do preço do petróleo e a tendência de venda do dólar, que está se aproximando do seu valor mais baixo em um ano em relação ao euro.

Com a onça (28,691 gramas) do ouro sendo vendida a US$ 683,80 (cerca de R$ 1.400), o patamar mais alto em 25 anos, este é um bom momento para se tornar um fã deste metal como Sinclair, especialmente se, como ele, o indivíduo for o dono de uma companhia de exploração de ouro (a sua fica na Tanzânia), e se foi comprador quando o preço do metal despencou para US$ 250 (cerca de R$ 515) a onça em 2001. Agora, Wall Street, tradicionalmente retardatária quando se trata de investimentos envolvendo o ouro, embarcou no expresso dourado de Sinclair.

Bancos de investimentos como o J.P. Morgan e o Goldman Sachs estão realizando pesquisas agressivas, os investidores são grandes compradores por meio dos fundos hedge e exchange-traded (fundos de investimento em índice com cotas negociadas em bolsa ou mercado de balcão organizado). E os bancos de investimentos têm se aglomerado neste mercado, especialmente na semana passada.

Para Sinclair, que usufruiu do último mercado favorável do ouro até o seu pico, em 1980, a disparada do preço do seu amado metal está enviando sinais claros que o remetem de volta à década de 1970, quando a inflação, um dólar fraco e a alta do petróleo motivada pelos problemas no Oriente Médio fizeram com que a onça do ouro chegasse a US$ 875 (cerca de R$ 1.800), ou mais de US$ 1.800 (cerca de R$ 3.700) levando-se em conta a inflação. A sua atual meta de preço não está tão longe daquele valor: US$ 1.650 (cerca de R$ 3.400) a onça, assumindo que a situação fique realmente ruim.

"O ouro é um barômetro das ações comuns de um país, e neste momento o metal está farejando debilidade no gerenciamento dos Estados Unidos como um negócio", afirma Sinclair, 65, republicano convicto, que votou duas vezes no presidente Bush. "O Irã está se tornando uma potência nuclear. O presidente do Federal Reserve é um fantoche controlado pela Casa Branca, e não se pode falar de um dólar forte quando a nossa moeda está rumando para o sul".

Durante mais de duas décadas, o lamento apocalíptico de Sinclair e outros entusiastas do ouro foram em grande parte desprezados, já que os Estados Unidos experimentavam --com a exceção de alguns soluços esporádicos-- 25 anos de mercado favorável para uma série de ativos, como títulos e ações, imóveis e obras de arte.

Sustentados por um fluxo contínuo de liquidez, esses ativos continuaram na sua ascensão vigorosa, mesmo quando indicadores cruciais da saúde econômica dos Estados Unidos - os déficits de orçamento e de conta corrente --pioravam cada vez mais. Mas agora, quando o ouro se aproxima dos US$ 700 (cerca de R$ 1.440), os investidores dedicados ao metal estão realmente prestando atenção nos fatos.

Apesar do seu fervor, os apaixonados pelo ouro tendem a ser pequenos investidores. A disparada recente do ouro foi movimentada por outros protagonistas, incluindo os dos setores de fundos hedge e exchange-traded.

Para esses investidores o ouro não é um estilo de vida, e sim uma proteção contra a inflação, e uma medida prudente de diversificação durante um período cada vez mais preocupante. A extensão desta nova onda de investimento de capital em ouro determinará se a recente alta é apenas mais uma anomalia ou o início da segunda grande disparada do ouro, pela qual os aficionados vêm esperando desde que os preços do metal desmoronaram há 25 anos.

É claro que muitos investidores dizem que, tendo em vista a recente alta acentuada do ouro, uma correção não seria algo de se surpreender. Segundo eles, isso é uma outra bolha de ativos, a mais recente moda no setor de investimentos. Mas para Sinclair e um pequeno grupo formado de outros indivíduos voluntariamente exilados de Wall Street, a recente alta do ouro é apenas uma recompensa pela sua inabalável, para não dizer mística, devoção ao ouro como investimento, adorno, meio de troca e, acima de tudo, reduto moral em um mar corruptor de papel-moeda, crédito e aquilo que eles vêem como instrumentos financeiros insidiosos.

Sinclair, que na década de 1970 tinha a sua própria firma de negócios, ficou famoso por vender 900 mil onças (25,8 toneladas) de ouro a um preço médio de US$ 810 (cerca de R$ 1.670) a onça no início de 1980. Isso foi quando o metal chegava ao apogeu de uma fase favorável de dez anos, que começou em 1971, quando o presidente Richard M. Nixon acabou de uma vez por todas com o vínculo entre o dólar e o ouro.

Além de ter vendido a sua reserva, Sinclair vendeu também a sua firma, embolsou o seu lucro líquido de US$ 18 milhões (cerca de R$ 37 milhões) e se isolou aqui, no interior de Connecticut, onde construiu o seu Shangri-La particular. Esta é, de fato, como Sinclair gosta de chamá-la, "a casa que o ouro construiu".

Nas proximidades de Sharon, uma pequena cidade no sopé das montanhas Berkeshire, a vasta propriedade de 153 mil metros quadrados inclui uma piscina interna, estande de tiro, cavalariças e uma garagem especialmente equipada que costumava abrigar a sua coleção de carros de corrida. É muita propriedade para um homem solitário - a sua mulher de 40 anos morreu em um acidente de carro na Índia dois anos atrás. Agora, ele usa o seu site (jsmineset.com), livros, palestras em DVD e desenhos para fazer proselitismo sobre as virtudes do ouro e as depredações promovidas pelos diretores de bancos centrais.

"Esta será a minha última grande bonança", disse ele, referindo-se à atual disparada do preço do ouro. "Todo mundo adora estar certo".

Na Espanha, o povo chama a obsessão de certas pessoas que cavam grandes buracos no chão em busca de ouro de "mal de piedra", ou doença da pedra. Esta talvez seja uma forma de descrever a condição que afeta Sinclair e os outros investidores convictos no ouro.

Com um fanatismo de missionários e uma queda pelas teorias da conspiração, os amantes do ouro podem parecer um pouco aflitos. Eles também coletam e divulgam notícias curiosas. Uma delas é que o dólar sofreu uma desvalorização de 98% desde 1913, quando foi estabelecido o Sistema Federal de Reserva. Uma outra é a afirmativa feita pelo Instituto Americano de Pesquisa Econômica, um obscuro centro de pesquisas em Barrington, Massachusetts, de que, desde 1945, a inflação devorou US$ 15,8 trilhões (cerca de R$ 32,5 trilhões) das cadernetas de poupança dos cidadãos norte-americanos.

Ambas as alegações ressaltam a idéia central desse grupo: a de que uma moeda não vinculada ao ouro perde o valor quando os bancos centrais imprimem dinheiro e os governos gastam livremente. Talvez Alan Greenspan, que antes de ter sido presidente do Federal Reserve era muito bem visto nos círculos dos investidores no ouro, tenha entendido esta questão melhor do que ninguém. "Na ausência do padrão-ouro, não há forma de proteger as poupanças do confisco provocado pela inflação", escreveu ele em 1966, quando era um consultor econômico. "O ouro é um obstáculo a esse processo insidioso".

A grande explosão de liquidez que ocorreu sob Greenspan fez dele um traidor aos olhos da multidão dos adoradores do ouro. Mas o seu sucessor, Ben S. Bernanke, ou "Helicóptero Ben", como o chamam, inflama ainda mais os ânimos.

Para o grupo, a alusão feita por Bernanke, antes de se tornar presidente do FED, a um helicóptero despejando dinheiro sobre uma economia em recessão confirmou os temores mais profundos de que um sistema monetário não ancorado no ouro é essencialmente inflacionário, para não dizer francamente imoral.

Ao mesmo tempo, os economistas clássicos afirmam que um retorno ao padrão-ouro e a retomada das diretrizes restritivas características daquele padrão seria algo não só infactível, mas também deflacionário. Os amantes do ouro podem chorar, e podem estar certos quanto ao impacto debilitante da inflação, mas também é verdade que o mesmo aumento dos preços, auxiliado pelo grande boom de liquidez, tornou vários deles milionários, já que as casas que eles compraram por menos de US$ 100 mil (cerca de R$ 206 mil) na década de 1960 valem hoje milhões de dólares.

Assim como Sinclair, William J. Murphy III também é um refugiado de Wall Street. Após um ano de frugalidades, em 1968, como coletor de verbas para o New England Patriots, ele deu início a uma carreira de corretor de ativos, trabalhando para inúmeras firmas, incluindo a Shearson e a Drexel Burnham.

Convencido de que o preço do ouro estava sendo suprimido por uma aliança maligna entre os bancos centrais e os principais bancos de investimentos, ele formou o Comitê de Ação Anti-Truste do Ouro (Gata, na sigla em inglês), que procura publicar fatos e afirmações que apóiem a sua teoria de que as reservas de ouro nos bancos centrais são significantemente superestimadas.

O comitê se constitui em grande parte em um espetáculo de um único indivíduo: Murphy, usando o seu conjunto de moletom, sentado em frente ao computador na sua casa em um subúrbio de Dallas. Com os seus modos agitados e as suas teorias sobre o metal, ele é geralmente tido como um fronteiriço do movimento dos adoradores do ouro.

De fato, a sua tese central --de que a Goldman Sachs e outros bancos conspiraram para manter um teto para o preço do ouro por meio de pequenas vendas a fim de apoiar a política governamental de um dólar forte, especialmente quando um ex-sócio da Goldman, Robert E. Rubin, foi secretário do Tesouro no final da década passada-- é delirante.

Com o preço do ouro em alta, Murphy está convencido de que a Goldman Sachs, o J.P. Morgan e outros estão comprando freneticamente agora a fim de obter uma compensação pelo ouro que venderam a preços baixos no decorrer dos anos.

A Goldman Sachs e o J.P. Morgan não quiseram fazer comentários sobre as suas posições ou estratégias relativas ao comércio do ouro.

"Que dia!", disse Murphy na semana passada, quando o ouro ultrapassou os US$ 670 (cerca de R$ 1.380). A Goldman Sachs e o J.P. Morgan foram grandes compradores naquele dia na Comex, a divisão da Bolsa de Valores de Nova York nos quais os contratos referentes ao ouro são negociados. Entusiasmado com a situação, Murphy
afirmou: "Esses caras são pequenos, e eles estão em pânico, com medo de perderem os seus cargos. Eles estão suando frio, e acham que isso é algo que não poderia acontecer a tamanhos cavalheiros".

Existe um cerne de verdade naquilo que Murphy diz. Os bancos centrais têm sido vendedores agressivos de ouro, especialmente no final da década passada, quando o metal caiu para valores extremamente baixos. Mas a maioria dos economistas diz que não existe nenhuma grande conspiração envolvida nisso, e que há apenas uma tentativa feita em um momento impróprio no sentido de fazer transferências para ativos mais rentáveis, como títulos.

Quanto aos bancos de investimentos, eles são vendedores e compradores de qualquer bem a qualquer momento. Mas também é verdade que eles estiveram longe de ser defensores entusiasmados do ouro como um investimento, especialmente quando as bolsas de valores eram as rainhas supremas. Até mesmo agora, quando emitiram relatórios positivos sobre o metal, as suas metas de preço parecem estar estranhamente fora de sincronia com a subida incessante.

A previsão da Goldman para o preço da onça de ouro até o final do ano é de US$ 625 (cerca de R$ 1.300). A do J.P. Morgan, que está sendo atualmente reavaliada, é de US$ 560 (cerca de R$ 1.150). E a do Morgan Stanley é de US$ 550 (cerca de R$ 1.175).

Comparado a Murphy e sua empolgação juvenil, James Turk fala com um ar grave, consistente com o seu histórico como banqueiro comercial no Chase Manhattan. Mas as suas idéias sobre o ouro como a suprema reserva de valor em um mundo financeiro à beira do colapso não são menos doutrinárias.

De fato, Turk estabeleceu o seu próprio sistema de pagamento online, o GoldMoney.com, por meio do qual ele e os seus colegas aficionados do ouro podem desfrutar da emoção de comprar bens e serviços com o metal, e não dinheiro.

De certa forma, esse é um exercício simbólico. Embora o sistema de pagamento seja lastreado por US$ 100 milhões (cerca de R$ 206 milhões) em ouro, nenhum comerciante aceitou barras do metal como pagamento, embora Turk espere que isso ocorra no futuro. Mais do que tudo, o site demonstra o seu desdém pelo dólar e todas as outras modalidades de papel-moeda - uma atitude derivada daquilo que ouviu dos pais, que passaram pela hecatombe que foi a hiperinflação na Áustria na década de 1920.

"Não é o ouro que está subindo; é o dólar que está abaixando", disse Turk por telefone da Austrália, onde fez um discurso em uma conferência sobre investimentos. Segundo ele, o ouro manteve o seu valor de forma bem mais sólida do que o dólar em relação a outros produtos de mercado, como o petróleo.

Com o petróleo atingindo novos recordes de preço --o barril permaneceu em torno de US$ 70 (cerca de R$ 144) durante semanas--, Turk prevê um retorno à década de 1970, quando a inflação alta e um Oriente Médio volátil empurraram o ouro para o seu apogeu. "Se neste ano chegarmos perto dos US$ 850 (cerca de R$ 1.750), é provável que o preço do ouro atinja patamares de quatro dígitos em 2007", afirmou.

Ouro a quatro dígitos --uma onça valendo US$ 1.000 (cerca de R$ 2.060) ou mais-- é, para os adoradores do ouro, o equivalente a uma visita do Messias.

Mas, considerando-se o número crescente de fundos hedge que se inclinam para o metal, o investimento no ouro consiste mais em uma empreitada mercenária do que em uma virtude.

A China e a Índia estão comprando mais ouro. O Irã está se tornando mais belicoso no seu posicionamento com relação ao Ocidente. E, o mais importante, a liquidez está sofrendo uma grande transferência das ações para os bens.

"Se eu acho que o ouro é Deus? Não", afirma Monty Guild, diretor da Guild Investment Management, um hedge fund em Malibu, na Califórnia. "Sou um oportunista do ouro. Quando o metal está com o preço bom, gosto dele. Quando preço está ruim, mantenho distância. O ouro mostrou um bom desempenho durante as guerras, e nós acreditamos que haverá mais guerras".

E para aqueles que não estão ligados no ouro, ou em outros investimentos em alta, a sensação pode ser de solidão. William H. Miller III, gerente do Legg Mason Value Trust, de US$ 19 bilhões (cerca de R$ 39 bilhões), que fez parte do índice Standard & Poor 500 por 15 anos consecutivos, não possui ouro no seu fundo. Ele acredita que as expectativas inflacionárias e os próprios preços permanecem tranqüilos, e que o ouro - assim como o petróleo, os mercados emergentes e as ações, antes dele - se tornou a mais recente onda de investimentos, propelida para cima por uma onda de hot money, um termo utilizado para designar o capital especulativo.

"O ouro certamente parece um investimento vantajoso, visto daqui", disse Miller, cujo fundo está atualmente procurando se encaixar no índice deste ano do S&P 500. "É fácil ganhar dinheiro quando se segue uma tendência. Mas se o indivíduo temer que o fim esteja próximo, a última coisa que desejará é ouro, devido a todo o hot money disponível". Investir no metal, que está valorizado, tem gerado bons lucros Danilo Fonseca

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