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08/05/2006

Obras de artistas negros da época do apartheid retornam à África do Sul

The New York Times
Michael Wines
Em Pretória, África do Sul
Em 1975, uma diplomata australiana branca chamada Diane Johnstone convidou Michael Maapola, um artista sul-africano negro, para ir até o apartamento dela em Pretória para mostrar os trabalhos do pintor a alguns convidados.

Alguns dias depois, Johnstone foi despejada e seu apartamento saqueado. Mas pior foi o que aconteceu a Maapola, um artista sul-africano negro, cujas ilustrações de espancamentos promovidos pela polícia e cenas da prisão registraram o horror do apartheid no seu apogeu.

João Silva/The New York Times 
O artista sul-africano Mike Maapola trabalha em nova obra na cidade de Hammarskraal

Durante anos ele foi assediado. Em 1988 foi preso. Em 1989 um radical incendiou o seu estúdio em Hammanskraal, uma cidade ao norte de Pretória. Anos de pintura e escultura viraram fumaça.

Portanto, foi importante o fato de uma seleção de desenhos de Maapola da era do apartheid ter sido exibida em Pretória em 2004, e em Johannesburgo em 2005.

"Achei que essas obras tinham desaparecido para sempre", disse Maapola, em seu estúdio em Hammanskraal, referindo-se ao seu trabalho daquela época. Agora, com 57 anos, ele é um artista reconhecido.

Parte dos seus trabalhos sobreviveu devido a Johnstone e estrangeiros que pensavam como ela. Décadas atrás, eles compraram os trabalhos de Maapola e de outros artistas negros que não podiam exibir as suas obras. Agora, em um rompante inusual e bem orquestrado de generosidade, esses colecionadores estão devolvendo as obras de arte à África do Sul, ajudando a restaurar uma parte importante do registro histórico do país.

O retorno das obras foram uma cortesia da Fundação Ifa Lethu, um grupo sem fins lucrativos criado em 2004 sob o nome Homecoming Foundation (Fundação Retorno a Casa) com o objetivo de recuperar obras de arte e objetos significantes da era do apartheid espalhados por todo o mundo. A organização recuperou cerca de 50 objetos, a maioria deles obras de arte, e espera trazer de volta centenas de outros, especialmente os que estão com diplomatas, jornalistas e empresários ocidentais que retiraram esse material da África do sul da década de 1960 à de 1980.

A Ifa Lethu --que na língua xhosa significa "herança"-- identificou cerca de 120 artistas cujos trabalhos a fundação deseja localizar e exibir, assim como vários objetos, de pinturas a histórias orais e filmes, disse em uma entrevista Narissa Ramdhani, diretora-executiva da instituição.

Alguns desses trabalhos serão inseridos em uma exibição móvel que viajará, juntamente com artistas da era do apartheid, até vilas remotas. Depois as obras de arte serão entregues a exibidores selecionados para torná-las amplamente acessíveis aos sul-africanos comuns.

"Nós sequer sabemos o que foi que saiu do país", diz Ramdhani. "As obras de arte foram levadas daqui em um período turbulento, no qual não havia nenhuma estrutura para identificar para onde elas seguiram. Parte desse material pode não ter um grande valor artístico. Mas ele possui um grande valor histórico, já que possibilita que saibamos como era a vida nas cidades sul-africanas nas décadas de 1970 e de 1980, e até mesmo na de 1960".

Tais retratos culturais da era do apartheid são menos comuns de serem vistos aqui do que se poderia pensar. As obras de artistas negros raramente eram exibidas durante o apartheid, e artistas politicamente conscientes, como Maapola, eram perseguidos. Grande parte da arte urbana e outros artefatos foram destruídos pelas forças de segurança, ou levados para fora do país por estrangeiros, criando aquilo que Ramdhani chama de uma lacuna sonolenta no legado cultural do país.

Tanto o governo da África do Sul quanto o seu partido político dominante, o Congresso Nacional Africano, contam com programas para a recuperação de objetos históricos. A Ifa Lethu, no entanto, é uma organização privada e depende inteiramente da generosidade de estrangeiros para doações de obras de arte e outros objetos. A única recompensa dos potenciais doadores é saber que, devido às suas doações, muitos sul-africanos terão contato pela primeira vez com as impressões dos negros e a vida urbana sob o apartheid.

Embora eles estejam sendo agora aclamados como salvadores de uma parcela crítica da história coletiva da África do Sul, alguns dos colecionadores estrangeiros afirmaram que os seus motivos à época eram menos altruísticos.

"Não levamos as obras de arte para salvá-las", disse em uma entrevista por telefone Bruce Haigh, escritor e diplomata australiano aposentado que serviu em Pretória depois de Johnstone. "Nós as compramos por acharmos que eram de boa qualidade. Se tivéssemos sido espertos, teríamos adquirido tudo em que conseguíssemos colocar as mãos. Eu não tinha idéia da quantidade de obras que a polícia estava destruindo".

A maneira como ele, Johnstone e um punhado de diplomatas norte-americanos ajudaram a salvar a arte urbana sul-africana na década de 1970 se constitui em uma história que conduz diretamente à Ifa Lethu.

Johnstone, terceira-secretária na Embaixada da Austrália, veio a saber sobre os artistas urbanos em 1973, por meio de Jock Covey, à época funcionário consular da Embaixada dos Estados Unidos. Covey e um adido cultural norte-americano, Frank Strovas, vinham trazendo músicos negros das cidades vizinhas para a embaixada a fim de que fizessem apresentações regulares de jazz.

"Muitos dos músicos eram também artistas plásticos, de forma que eles acabaram se oferecendo para exibir parte dos seus trabalhos durante os concertos", relembra Covey, atualmente um executivo da Bechtel Corporation, em São Francisco. Os trabalhos vendiam bem, e assim, ele e James Baker, o primeiro diplomata afro-americano da embaixada, organizaram uma mostra de arte na residência deste último.

A exibição foi um sucesso, e uma bênção para os artistas: uma pintura ou um desenho podiam ser vendidos por até US$ 70, o suficiente para sustentar a família dos artistas, possibilitando também para que estes comprassem tintas e pincéis.

Quando Covey partiu, em 1974, os norte-americanos tinham promovido várias exposições e os artistas haviam criado uma clientela ocidental. Ele pediu a Johnstone que continuasse organizando as exposições.

"Achei que era uma ótima oportunidade", conta Johnstone. "E como as pessoas confiavam em Jock, elas confiaram em mim". Assim, no seu apartamento em Sunnyside, um subúrbio de Pretória, ela organizou uma outra exposição, com uma diferença: foi exigida a promessa de que as obras de arte um dia seriam exibidas livremente no seu país de origem.

"Essas obras de arte seriam retiradas do país para nunca mais serem vistas: um conjunto artístico inteiro, trabalhos maravilhosos", diz ela. "Assim, eu disse aos artistas, ao fim da exposição, que desejava que eles assumissem a responsabilidade de garantir que os trabalhos seriam entregues no futuro a uma instituição pública, de forma que pudessem ser apreciados por todos os sul-africanos".

A exposição irritou os seus vizinhos e o aparato de segurança da África do Sul. O dono do apartamento de Johnstone a despejou, mas antes que ela pudesse se mudar, homens brancos não identificados saquearam a sua residência, dizendo à sua colega que dividia o aluguel que o local continha "algo muito perigoso".

Mesmo assim as vendas de obras de arte prosseguiram. Depois que Johnstone deixou o país em 1976, Haigh continuou atuando durante um dos períodos mais sinistros do apartheid. Maapola viveu e trabalhou em um anexo da casa de Haigh durante um ano.

Observando que 1978 e 1979 foram "anos muito duros" na África do Sul, Haigh afirmou: "Com freqüência nós não pedíamos aos artistas que viessem até a nossa casa. Nós os trazíamos de carro, já que os automóveis de diplomatas não podiam ser revistados".

"Com o fim do apartheid, em 1994, eu decidi que havia chegado o momento de cumprir o meu compromisso", disse Johnstone. Em 2003, após muita negociação, a sua coleção de 32 trabalhos foi doada ao Museu de Arte de Pretória. As 17 peças de Haigh foram doadas no ano passado.

As doações inspiraram a criação da Ifa Lethu, cuja diretora, Mamphela Ramphele, era a companheira de Steve Biko, o defensor dos direitos dos negros, assassinado pela polícia em 1977.

Desde então a fundação passou a ser financiada pelo governo da África do Sul, pela companhia australiana de mineração BHP Billiton e pela Companhia de Pneus e Borracha Goodyear, entre outros. Ela fez contato com ex-diplomatas e outros indivíduos nos Estados Unidos e na Europa para que eles fizessem um lobby pela devolução das obras de arte e objetos de valor histórico.

Em uma fábrica sul-africana, a Goodyear está construindo a exibição móvel de arte, e em vários países há um empenho pela devolução de outras coleções artísticas a Pretória.

Sobre o retorno das coleções de Johnstone e Haigh, que incluem trabalhos seus, Maapola disse apenas: "Formidável!". Devido aos problemas que enfrentaram durante o apartheid, muitos outros artistas negros tiveram menos sorte. Alguns sucumbiram ao alcoolismo, ou ao estresse motivado pela perseguição. Thami Mnyele, um artista de Alexandra, um subúrbio de Johannesburgo, cujos trabalhos documentaram os abusos da era do apartheid, teve um fim mais violento.

Mnyele seguiu para o exílio em Botsuana em 1978. Em junho de 1985, soldados sul-africanos invadiram a sua casa naquele país e o mataram a tiros. Depois, metralharam as suas obras de arte.

Ramdhani, que morou em Connecticut antes de retornar em 1993 e montar os arquivos do Congresso Nacional Africano, se recorda de ter visitado a sala da diretoria de um banco de Nova York no início da década de 1980 na qual havia "uma bela obra de arte", mostrando um protesto contra o apartheid. Era uma das obras de Mnyele.

"Eu lhes disse que um dia nós levaríamos o quadro de volta para a África do Sul", conta ela.

A Ifa Lethu espera em breve dar início às negociações para fazer exatamente isso. Danilo Fonseca

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