UOL Notícias Internacional
 

09/05/2006

Dois anos depois, mortes no Iraque e dinheiro perdido são mistérios

The New York Times
James Glanz

em Bagdá, Iraque
A morte de Fern Holland, uma jovem defensora de direitos humanos de Oklahoma, continua tão sem solução e misteriosa quanto no momento em que seu corpo foi encontrado crivado de balas, em um trecho desolado de estrada perto de uma das cidades sagradas do sul do Iraque, em março de 2004.

Agora, investigadores federais estão lidando com um segundo mistério: o que aconteceu com centenas de milhares de dólares em dinheiro, entregues pelas autoridades americanas a Holland e Robert J. Zangas, um assessor de imprensa que morreu no mesmo ataque perto de Karbala, nos dias que antecederam a morte dos dois?

Registros financeiros da instalação americana em Hilla, a cidade iraquiana na região centro-sul onde Holland e Zangas operavam, revelaram que grande parte ou todo o dinheiro -destinado a coisas como programas de treinamento de iraquianos em governo democrático e construção de centros de direitos da mulher, que estavam sendo estabelecidos por Holland- estava desaparecido ou com prestação de contas inadequada após as mortes.

Os investigadores americanos estão tentando determinar se o dinheiro foi roubado como parte de uma rede de suborno, roubo e conspiração, que foi exposta em uma série de indiciamentos e autos dos processos que descrevem a corrupção de autoridades americanas em Hilla, em 2003 e 2004, segundo autoridades envolvidas na investigação. Tal caso de corrupção, centrado nos esforços de reconstrução, levou a quatro prisões, com mais sendo esperadas.

O assassinato de Holland, uma advogada de 33 anos e ferrenha defensora dos direitos da mulher, e Zangas, 44 anos, um ex-tenente-coronel do Corpo de Marines de Pittsburgh, recebeu ampla atenção na época, em parte por terem sido os primeiros civis do governo de ocupação americano, chamado de Autoridade Provisória da Coalizão, a morrer no Iraque.

Um intérprete iraquiano, Salwa Oumashi, também morreu no ataque. A morte deles ocorreu antes do estouro de uma insurreição que tornou tais eventos tragicamente comuns. Acredita-se que um grupo de iraquianos vestindo uniformes policiais tenham sido os autores, mas nenhum suspeito foi publicamente acusado.

Nenhuma das acusações no caso de corrupção menciona Holland ou Zangas, e não há indicação de que qualquer um dos presos no caso sejam suspeitos na investigação de assassinato. Mas à medida que os investigadores seguem uma trilha tortuosa de recibos, vouchers, faturas e ordens de compra indicando que Holland e Zangas tinham recebido mais de US$ 320 mil em dinheiro para seu trabalho nas últimas duas semanas de suas vidas, eles descobriram que cada uma das quatro pessoas presas no caso de corrupção tinha algum papel no trato do dinheiro ou estava envolvida de alguma forma nos projetos de Holland.

Uma destas pessoas, Robert J. Stein Jr., um ex-funcionário da ocupação americana em Hilla, se declarou culpado em fevereiro de cinco acusações de suborno, conspiração e outras, e poderá cumprir até 30 anos de prisão. Stein desembolsou o dinheiro para Holland e Zangas e esteve envolvido na prestação de contas dele após a morte dos dois.

Outro americano preso no caso de corrupção, um empresário chamado Philip H. Bloom, que estava trabalhando no Iraque, aparecia em contratos envolvendo mudanças nos projetos de Holland após sua morte. Bloom se declarou culpado de três acusações de conspiração, suborno e lavagem de dinheiro no mês passado. Dois oficiais da Reserva do Exército, a tenente-coronel Debra Harrison e o tenente-coronel Michael Wheeler, que supervisionavam os projetos em Hilla, foram presos e acusados de aceitar suborno.

Um advogado de Bloom, John N. Nassikas III, se recusou a comentar. Os advogados de Stein, Harrison e Wheeler não retornaram os telefonemas que pediam comentário.

No centro do caso de corrupção, disseram os promotores, estava um esquema no qual Stein e outros oficiais desviaram pelo menos US$ 8,6 milhões dos contratos de reconstrução para empresas controladas por Bloom, em troca de milhões de dólares em suborno, jóias e outros favores. Stein também se declarou culpado das acusações federais de ter usado o dinheiro para comprar metralhadoras, lançadores de granadas e outras armas nos Estados Unidos.

Os investigadores que estão rastreando o fluxo de dinheiro para Holland e Zangas estão estudando a possibilidade de que Stein e outros se aproveitaram das mortes para roubar dinheiro adicional, segundo autoridades familiarizadas com a investigação.

O Inspetor Geral Especial para Reconstrução do Iraque, que está investigando a corrupção em Hilla, forneceu cópias de alguns dos documentos que rastreiam o dinheiro e descreveu outros, após um repórter do "The New York Times" ter perguntado sobre um parágrafo em um dos relatórios publicados de seu escritório, sobre a prestação de contas incorreta de dinheiro recuperado "do escritório de um agente pagador que foi morto em campo".

Tal agente não citado nominalmente era Holland e os documentos indicam que Stein e Harrison estavam encarregados de recuperar o dinheiro. Um dos documentos é um memorando assinado por Stein e Harrison, dizendo que US$ 71.099 estavam faltando no escritório de Holland após sua morte. Mas isto era apenas parte das centenas de milhares de dólares que ficaram sem prestação de contas.

"Não há nada que se some completamente ou remotamente perto", disse um membro do escritório do inspetor geral.

Por meio de assessores de imprensa tanto nos Estados Unidos quanto no
Iraque, o FBI se recusou a comentar o caso.

Nenhuma suspeita sobre o dinheiro desaparecido recaiu sobre Holland ou
Zangas. E aqueles que conheciam e trabalhavam com Holland, cujos esforços em prol das mulheres lhe valerem reconhecimento, disseram não acreditar que ela teria perdido o rastro de tanto dinheiro. Adly Hassanein, uma funcionária egípcio-americana da Autoridade Provisória da Coalizão que trabalhava rotineiramente com Holland em Hilla, disse também ser impensável que ela estaria carregando tamanha quantia com ela.

"Ela nunca faria isto, porque não havia necessidade", disse Hassanein, que lembrou que Stein dirigiu a recuperação do dinheiro do quarto e escritório de Holland após a morte dela.

Quanto ao memorando de Stein afirmando que o dinheiro tinha desaparecido, Hassanein disse: "Ele está tentando dizer: 'Sou uma vítima'. Algumas pessoas pegaram dinheiro e não tinham como justificá-lo, mas era fácil demais. Bastava culpar uma pessoa que estava morta".

Quatro pessoas próximas de Holland disseram que foram interrogadas pelos investigadores tanto do FBI quanto do escritório do inspetor geral especial.

Elas incluem Stephen Rodolf, um advogado de Tulsa, Oklahoma, que é amigo da família Holland; R. Richard Love III, um advogado da família; Rachel Roe, que conheceu Holland no Iraque e trabalhou em assuntos relacionados lá; e a irmã de Holland, Viola Holland.

Roe disse que um investigador lhe perguntou se Holland estaria carregando dezenas ou centenas de milhares de dólares em seu carro quando foi morta -possivelmente explicando o grande valor desaparecido. Roe disse que ter dito ao investigador: "De jeito nenhum -Fern não era tola".

Mas segundo documentos, ela recebeu uma alta quantia de dinheiro nas semanas que antecederam sua morte. Em 7 de fevereiro, Stein aprovou um pedido de Holland de US$ 200 mil para um programa de treinamento na Jordânia sobre democracia, governo e direitos humanos para 120 iraquianos. Documentos indicam que em 25 de fevereiro Holland tinha recebido o dinheiro -US$ 199.044 foi o valor preciso- apesar da assinatura dela nunca aparecer nos documentos, o que levantou ainda mais suspeitas entre os investigadores.

Stein controlava os gastos de quase todo o dinheiro do governo em Hilla. Tanto dinheiro estava freqüentemente disponível em pacotes embrulhados de notas de US$ 100 conhecidos como "tijolos", que ficavam empilhados por toda a instalação, disse o inspetor geral em relatórios anteriores. Milhões eram mantidos em gavetas de arquivos, em caixas, mesmo em um cofre em um banheiro, revelaram os investigadores.

Mas o principal ficava guardado em um cofre estreito no porão do Babylon Hotel, que serviu como sede do governo de ocupação americano em Hilla. Stein, que pagava pessoalmente o dinheiro pelo contratos, indicou nos documentos que deu o dinheiro para Holland em 25 de fevereiro para o programa de treinamento de democracia e direitos humanos. Enquanto isso, entre 3 e 7 de março, indicam os registros, Stein pagou a Zangas mais de US$ 120 mil por equipamento de televisão e treinamento para programas de jornalismo iraquianos que ele estava administrando. Todo o dinheiro parece ter desaparecido sem vestígios, já que nenhum dos documentos recuperados pelo escritório do inspetor geral indica que tenha sido gasto nestes programas antes dos assassinatos, no fim da tarde de 9 de março.

Outro documento que chamou a atenção dos investigadores é o memorando
assinado por Stein e Harrison. Escrito em 23 de junho de 2004, enquanto
ambos deixavam o Iraque no final de serviço na autoridade provisória, o
memorando traz na linha de assunto: "Fundos Recuperados de Fern Holland
(falecida)".

O memorando diz que Harrison e outra mulher entraram no escritório de
Holland um dia após a sua morte (que a coronel lembra incorretamente como sendo 11 de março). "No escritório dela nós recuperamos uma caixa cheia com o que parece ser uma grande soma em dinheiro, consistindo em grande parte em notas de US$ 100 e algumas notas menores", dizia o memorando.

O memorando disse que a caixa encontrada continha US$ 125.035. Mas ele
disse: "Segundo Robert Stein, Fern Holland assinou e retirou US$ 196.044", se referindo ao pagamento pelo qual Holland, na verdade, não assinou. O memorando sugere que o dinheiro desaparecido é a diferença entre o que foi encontrado e o que Stein disse ter pago. "Não é possível prestar contas deste valor (US$ 71.099)", concluiu o memorando.

Mas isto não foi o fim da história, como descobriu o inspetor geral. Stein fracassou em prestar contas do dinheiro em seus registros, segundo o relatório do inspetor geral, não deixando claro onde exatamente foram parar US$ 125.035. George El Khouri Andolfato

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