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09/05/2006

Oh mães! Muitos animais são distintamente pouco maternais

The New York Times
Natalie Angier
Queridos defensores de progênie em toda a natureza -nobres, abnegados, doces e ferozes: o Dia das Mães se aproxima -será que você merece nossa admiração? E nós, será que de fato nossas fotos enfeitam os cartões que, como filhos econômicos, vamos mandar no lugar de um presente de verdade?

Uma porquinha-da-índia caminha, seguida por uma dúzia de filhotes. Uma mãe e um bebê panda dividem um pedaço de bambu. Uma águia negra carrega comida para seus filhotes que a aguardam. Nós te amamos, mãe, você é nosso porto na tempestade. Só você pode ajudar a cortar as unhas de sangue da Mãe Natureza.

Mas espere. Aquela porquinha-da índia está andando rápido demais. De fato, seus filhos não conseguem acompanhá-la e, no final do dia, opa, somente dois ainda restam. E a mãe panda, ela não deu à luz a gêmeos? Então por que apenas um pandinha emerge de seu esconderijo? E a águia negra africana? Seu ninho parece mais um verso de Edgar Allan Poe do que um poema da Hallmark. A mãe tem comida em abundância e carcaças de hyrax (dassie) sobrando. Mesmo assim, alimenta apenas um de seus dois filhotes e fica parada com cara de entediada enquanto o gordinho bica seu irmão esfomeado até a morte.

O que há de errado com essas mães sem coração, que dão a vida e depois a jogam fora? Serão loucas ou doentes ou pouco naturais? Desvairadas como Piper Laurie em "Carrie"?

Em uma palavra -imagine! Por mais que gostaríamos de acreditar que as mães são programadas para nutrir e proteger seus filhos, lutar até a morte, se necessário for, para manter suas crias vivas, de fato, abundam mães na natureza que desafiam esse comportamento maternal preconcebido em uma série de formas macabras. Existem mães que comem a prole com gosto e mães que bebem o sangue dos pequenos. Mães que fazem os filhotes brigarem até a morte e mães que alimentam uns com a carne dos outros.

Entre vários mamíferos, inclusive leões, camundongos e macacos, as fêmeas abortam espontaneamente os fetos ou abandonam os recém nascidos quando a situação está difícil ou um macho novo aparece na cidade.

Outras, como pandas, praticam uma forma de planejamento familiar pós-natal, parindo um filhote que pode ser chamado de herdeiro e um sobressalente. Depois, quando o herdeiro se sai bem, ela abandona o estepe sem nem um adeus.

"Os pandas freqüentemente parem gêmeos, mas nunca criam os dois filhotes. Este é o lado negro dos pandas: eles têm dois e jogam um fora", disse Scott Forbes, professor de biologia da Universidade de Winnipeg.

Também é algo que os zoológicos raramente explicam em suas mostras populares de pandas.

"Eles consideram isso má propaganda", disse Forbes.

Os pesquisadores há muito consideravam o infanticídio e atos similares de trapaça maternal como gestos patológicos, devido ao estresse extremo da mãe.Se por exemplo, o filho do fazendeiro enfiar um galho no ninho de um coelho, a mãe pode reagir consumindo metodicamente cada um de seus oito coelhinhos. Na visão tradicional, faria pouco sentido genético a mãe destruir seus filhos, e o cuidado materno era considerado um assunto fortemente estabelecido.

Mais recentemente, porém, os cientistas acumularam evidências abundantes de que é comum na natureza mães "más", que esse comportamento cruel freqüentemente é o centro de seu plano reprodutivo.

No filme de sucesso "A Marcha dos Pingüins", os pingüins imperadores foram retratados como pais de conto de fadas, amando cada ovo gerado e sofrendo com cada um que rachava antes do tempo. Entre os pingüins reais, menos famosos, a mãe coloca dois ovos em cada temporada. O segundo é 60% maior que o primeiro. Logo antes de ser colocado, a mãe joga o primeiro ovo para fora do ninho sem culpa.

Nos pingüins de Magellan, a mãe também coloca dois ovos e permite que os dois sejam chocados; somente então ela começa a discriminar. Dos peixes que traz ao ninho, dá 90% ao filhote maior, enquanto o menor grita por comida. No frio impiedoso da Antártica, o pássaro mal nutrido invariavelmente morre.

Como os pingüins, muitas espécies que habitualmente se desfazem de parte de sua progênie vivem em ambientes duros ou incertos, nos quais animais imaturos morrem facilmente e vale a pena ter um sobressalente. Ao mesmo tempo, a dureza e a incerteza tornam virtualmente impossível para a mãe criar vários filhotes. Então, se o primeiro sobrevive, o sobressalente precisa ir. Algumas vezes, a mãe faz o trabalho sujo ela mesma; freqüentemente, deixa seu preferido despachar o substituto.

Quando Douglas W. Mock, da Universidade de Oklahoma, começou a estudar garças no Texas, há três décadas, ele sabia que os filhotes maiores em uma ninhada bicariam os menores até a morte. Mesmo assim, Mock ficou chocado com o que viu -ou não conseguiu ver. Ele tinha imaginado que os ataques assassinos certamente ocorreriam enquanto a mãe e o pai estivessem pescando.

"Eu imaginei que, se os pais estivessem por perto, eles tentariam impedir essas coisas", disse ele. "Eu tenho três irmãos mais velhos e nunca teria sobrevivido se meus pais não intercedessem."

Em vez disso, Mock testemunhou uma indiferença parental extrema. A mãe ou pai ficavam por perto, ao lado do ninho, sem fazer nada enquanto um filhote surrava o irmão. "O pai bocejava ou se coçava e parecia completamente indiferente", disse Mock, autor de "More Than Kin and Less Than Kind: The Evolution of Family Conflict" (mais do que parentes e menos do que gentis: a evolução do conflito familiar). "Nos 3.000 ataques que testemunhei, nunca vi um pai tentar impedir. É como se esperassem que isso acontecesse."

Desde então, o fratricídio sob supervisão parental foi observado em muitas espécies de pássaros, inclusive pelicanos, grous e mergulhões de pata azul.

Um pesquisador observou um ninho de águias negras africanas por três dias, enquanto o filhote maior se alternava entre bicar seu irmão e tirar a comida do bico da mãe. Havia comida sobrando, mas a mãe não se preocupou em alimentar o segundo e maltratado filhote. Quando seu corpo foi jogado fora, o pesquisador contou 1.569 bicadas.

Os porcos também têm sua versão de rivalidade fraternal. Eles nascem com pequenos dentes visíveis no lado de sua mandíbula inferior, disse Mock, e usam-nos para cortar a cara do outro quando brigam pelas melhores tetas. O mais subdesenvolvido da ninhada é tantas vezes machucado que não consegue leite suficiente. Precisa passar o tempo todo lutando para se alimentar e pode ser esmagado pela mãe.

Em outros casos, as mães se tornam infanticidas porque sempre procriam na expectativa ensolarada de bons tempos. A cada ano, têm um número de filhos otimista, esperando um banquete, produzindo o máximo de filhotes que gritam por comida; quando há o suficiente, alimentam todos.

Se o banquete não se materializa, no entanto, minimizam as perdas. Cangurus têm um método elaborado para criar os filhos em anos gordos ou magros. Em uma boa temporada, a mãe pode cuidar de três filhotes simultaneamente, cada um em um estágio de desenvolvimento diferente: o mais velho, já pulando sozinho, ainda mama; o segundo, mora na bolsa e mama; e o mais jovem, ainda embrião, fica guardado internamente em um estado de animação suspensa.

Durante uma seca severa, a mãe primeiro se recusa a dar de mamar ao juvenil autônomo, deixando-o para se alimentar o melhor que puder. Se a seca continuar, seu leite seca e o segundo filhote morre e cai da bolsa. Nesta altura, o embrião mantido no frio começa a se desenvolver. Amanhã certamente será um dia melhor, mais chuvoso.

Algumas mães de corujas e gaviões são otimistas práticas: não só matam os filhotes quando necessário, mas também os comem.

"Canibalizar a vítima serve a função dupla de fornecer uma refeição em momento difícil e garantir que haja uma boca a menos para alimentar", escreve Forbes, biólogo da Universidade de Winnipeg, em seu novo livro, "A Natural History of Families" (uma história natural de famílias). Uma mãe esfomeada pode ser personagem de pesadelos -especialmente se for a mãe do vizinho. Os chimpanzés têm mães exemplares, disse a estudiosa de primatas Sarah Blaffer Hrdy, autora de "Mother Nature: A History of Mothers, Infants and Natural Selection" (mãe natureza: uma história de mães, filhotes e seleção natural).

Diferentemente dos humanos, os primatas nunca abandonam ou rejeitam os filhotes, mesmo que estiverem doentes ou malformados. No entanto, como a fêmea vive em bando com outras fêmeas não relacionadas, uma mãe esfomeada em lactação sente pouca compunção ao matar e comer o filho de uma colega. "É uma boa forma de obter lipídios", disse Hrdy.

Em termos de dieta, o canibalismo pode ser a única opção. A mãe tubarão tem dois úteros nos quais os filhotes se desenvolvem, seguros dos predadores do oceano. Mas o tubarão não é mamífero, então não tem placenta. Como alimentar seu filho fetal? Com a carne de outro feto.

A mãe incuba até 20 ovos em cada câmara uterina. Os ovos se abrem e os filhotes começam a crescer. Quando suas mandíbulas estão suficientemente maduras, eles começam a se alimentar uns dos outros. No final da gestação, apenas um tubarão emerge de cada câmara uterina.

A extração de nutrientes da própria prole não precisa ser fatal, porém.
Entre as formigas do gênero raro Adetomyrma, Forbes escreve: "As rainhas fazem um buraco nas larvas e consomem o fluido que sai", uma prática que explica porque os insetos encontrados em Madagascar são chamados de formigas Drácula. As larvas feridas se recuperam e amadurecem, mas guardam cicatrizes por toda a vida de sua tenra hemorragia.

Há mães vorazes e vampiras e há mães fantasmas. Nos anais mamíferos, a mãe mais minimalista deve ser a do coelho. Apenas recentemente os cientistas estudaram o comportamento do coelho de perto o suficiente para apreciar a eficiência de sua reprodução, disse Robyn Hudson da Univesridade Nacional do México.

Os coelhos vivem juntos em tocas complexas, onde uma fêmea prenha constrói um pequeno ninho, cobrindo-o de grama e de pelo que tira de seu dorso. Quando está pronta para parir, ela entra na câmara e, em menos de oito minutos, expele 10 filhotes, "como ervilhas", disse Hudson.

Sem dar ao menos uma única lambida de boas vindas, a mãe sai, fecha a entrada e deixa os recém nascidos impotentes, sem pelo, amontoados no escuro. Durante 25 dias, a mãe volta ao ninho por dois minutos por dia, durante os quais ela se agacha sobre os filhotes e eles mamam freneticamente.

"O leite é de alta pressão e quase esguicha na boca dos filhotes", disse Hudson. "Eles expandem visivelmente, como uvas."

Depois de dois minutos, ela parte. No 26º dia, ela os abandona completamente, e os filhotes devem sair do ninho e enfrentar o mundo sozinhos.

A coelha pode parecer terrivelmente fria para um animal de sangue quente, mas seu pouco caso faz sentido. Coelhos são uma presa muito popular, e muitos predadores perseguem-nos até a toca. Para manter as raposas longe do ninho, a coelha se afasta do lugar. Sua ausência talvez não aqueça os corações dos pequenos, mas pode mantê-los batendo por mais tempo. Deborah Weinberg

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