UOL Notícias Internacional
 

10/05/2006

Aumento da gasolina nos EUA é uma boa-nova ambiental e política

The New York Times
David Leonhardt
Antes que tivéssemos idade suficiente para conseguir um emprego, o meu companheiro de república da época da faculdade e eu nos preparamos para viajar de férias da forma mais barata possível. O nosso meio de transporte foi um Volkswagen que pegamos emprestado, e amigos espalhados pelo país nos acomodaram em camas e sofás extras. A diversão ficou por conta de uma agenda de jogos da segunda divisão de beisebol cuidadosamente planejada, e de qualquer outra coisa que chamasse a nossa atenção na estrada.

A primeira viagem, em 1992, transcorreu tão bem que se tornou uma tradição quase anual. Quando paramos de viajar, oito anos depois, tínhamos visitado as duas costas dos Estados Unidos, as Smoky Mountains, as Grandes Planícies, o Museu Herbert Hoover e talvez o local onde se encontra a melhor comida da nação, uma churrascaria em Stockton, Califórnia. Em um dia favorável, gastávamos US$ 50.

Naquele período não percebi este fato - na verdade, não o percebi até a semana passada -, mas a época em que fizemos essas viagens não poderia ser melhor. A partir do início da década de 1990, os norte-americanos passaram a desfrutar de uma década marcada pelos preços mais baixos da gasolina na história do país. Conforme Daniel Yergin, autor de uma história do petróleo que lhe rendeu um Prêmio Pulitzer, diz a respeito daqueles anos: "A gasolina era verdadeiramente uma das maiores pechinchas do mundo ocidental".

E, sem dúvida, o país tirou vantagem disso. Nos apaixonamos pelos passeios confortáveis nos veículos utilitários esportivos sem que tivéssemos que nos preocupar com a conta da gasolina, e compramos casas em exúrbios distantes, como Sugar Grope, em Illinois, ou Frederick, em Maryland, que exigiam que dirigíssemos por longos trajetos para chegarmos a qualquer lugar.

Agora, os bons tempos parecem ter acabado. O preço da gasolina está em torno de US$ 3 o galão (o equivalente a cerca de R$ 1,63 o litro), e os políticos estão lutando uns com os outros no sentido de tirar vantagem dos temores do eleitorado com relação à alta do combustível. Em uma recente pesquisa Gallup, 70% dos entrevistados disseram ser favoráveis a um controle dos preços, uma relíquia da época de Richard Nixon.

Mas é hora de respirar fundo e levar em conta um fato radical: a gasolina ainda não está tão cara assim. Não estou falando apenas da disparidade de preços entre os Estados Unidos e a Europa, onde os impostos sobre a gasolina são muito mais elevados. O que realmente importa para as pessoas é o custo da gasolina necessária para que dirijam por uma milha, o que é uma função ao mesmo tempo do preço do petróleo e da economia dos automóveis.

Segundo esse parâmetro, a gasolina para o norte-americano médio atualmente custa aproximadamente aquilo que custava nas décadas de 1960 e 1970, e muito menos do que no início da década de 1980. Em outras palavras, a década passada foi a grande exceção. E o fato de a gasolina ter ficado bem mais cara nos últimos anos é na verdade uma boa-nova.

A gasolina é o único produto cujo preço é exibido em placas de sete metros de altura em todas as cidades dos Estados Unidos, e este é o motivo pelo qual ficamos meio transtornados quando o preço dela sobe. Mas essas placas não se constituem em uma forma especialmente útil de pensar sobre o custo da gasolina, por dois grandes motivos.

O primeiro, e mais óbvio, é que as pessoas se esquecem da inflação geral. Com o passar do tempo, o preço de quase tudo - leite, calças jeans, entradas de cinema, plano de saúde, seguro de vida - sobe, assim como os rendimentos das pessoas, e esses aumentos de custos e salários em grande parte se neutralizam.

Existe um homem no Texas chamado Phil Stuart que alega ter registrado todas as suas compras de gasolina desde 1979, e ele publica esses registros na Internet no site www.randomuseless.info. Em 20 de maio de 1992, por exemplo, ele colocou 17 galões (64,2 litros) de gasolina super unleaded (gasolina de alta octanagem e sem chumbo) no seu Corvette, e pagou US$ 22, ou US$ 1,26 o galão (o equivalente a cerca de R$ 0,69 o litro).

Ele chegou a fazer um gráfico dos preços com o passar do tempo, tanto levando em conta a inflação quanto considerando os valores não corrigidos, e a diferença entre as duas curvas é surpreendente. Aquela que não leva em conta a inflação se coaduna com a nossa percepção: desde o final da década de 1970, a gasolina ficou cada vez mais cara.

A outra curva reflete a realidade: levando em conta a inflação, a gasolina atualmente é ainda mais barata do que no início da década de 1980.

Mas o preço da gasolina em si é apenas uma parte da história. A outra parte diz respeito a determinar até onde essa gasolina é capaz de nos levar. Se pensarmos a respeito disso, nos preocuparemos com o preço pago para dirigir por 100 milhas (161 quilômetros) e não com o quanto pagamos por um galão do combustível.

Nas décadas de 1960 e 1970, quando a população estava comprando automóveis Country Squire e El Camino, os carros consumiam em média 14 milhas por galão (cerca de seis quilômetros por litro). A gasolina era barata naquela época, mas com todos os carros beberrões que rodavam pelas ruas e estradas, os motoristas ainda gastavam em média 15 centavos de dólar por milha percorrida (o equivalente a cerca de 19 centavos de real por quilômetro). Todos estes números estão ajustados segundo a inflação acumulada até hoje.

Mas as pessoas não pareciam se importar. Quando muito, elas se preocupavam mais em comprar carros maiores e mais poderosos e, como resultado, a eficiência geral de consumo dos veículos do país na verdade diminuiu um pouco na década de 1960, observa Lee Schipper, diretor de pesquisas da Embarq, um grupo de consultoria sobre transportes.

Porém, a crise do petróleo da década de 1970 e do início da de 1980 mudou tudo. O preço da gasolina disparou, chegando a 20 centavos de dólar por milha percorrida (o equivalente a 25 centavos de real por quilômetro), e o governo decretou uma lei em 1975 obrigando os veículos a se tornarem mais eficientes em termos de consumo. Graças àquela lei e a 20 anos durante os quais os preços do petróleo em geral caíram, os norte-americanos gastavam com gasolina menos de sete centavos de dólar por milha percorrida (o equivalente a nove centavos de real por quilômetro) em 1998.

Se o petróleo fosse qualquer outro produto, isso seria apenas motivo para comemoração. Mas, sendo a lei da oferta e da procura aquilo que é, a gasolina barata também significa um maior consumo geral de gasolina. E usar muito mais gasolina é uma das piores coisas que podemos fazer neste momento. Atualmente sabemos que uma maior utilização de petróleo significa um planeta perigosamente mais aquecido. E também significa mais dinheiro para alguns dos piores governos do mundo. Parte desse dinheiro pode chegar às mãos da Al Qaeda e de outros terroristas.

Hoje em dia, a gasolina custa novamente 15 centavos de dólar por milha (R$0,19/km) para o motorista comum, o que faz com que haja um pouco mais de incentivo para consumir energia de forma mais eficiente. É possível reduzir o custo para dez centavos de dólar por milha (cerca de R$ 0,13/km), por exemplo, ao se dirigir um Honda Civic ou um Toyota Corolla.

Sei que o aumento do preço da gasolina tornou a vida mais difícil para as pessoas mais pobres que dirigem muito, e devemos criar políticas específicas para ajudá-las. Mas da próxima vez que você passar por uma placa que anuncie a gasolina a US$ 3 o galão, lembre-se de que é disso exatamente que o país necessita neste momento. A gasolina barata é algo que simplesmente não vale mais a pena. Danilo Fonseca

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