UOL Notícias Internacional
 

10/05/2006

O pós-pós-Guerra Fria

The New York Times
Thomas L. Friedman

em Budapeste, Hungria
Foi revelador estar na Europa Oriental após a advertência de Dick Cheney à Rússia para que não usasse suas exportações de petróleo e gás como "instrumentos de intimidação e chantagem". O Financial Times observou que alguns membros da imprensa russa compararam as observações de Cheney com o discurso de Winston Churchill em Fulton, Montana, em 1946, quando disse que uma "Cortina de Ferro" estava descendo sobre a Europa.

De fato eu não acho que vamos voltar à Guerra Fria. Acho que vamos avançar.Estamos deixando o mundo em que estivemos -o mundo pós-Guerra Fria- e entrando no mundo pós-pós-Guerra Fria. Os americanos não vão gostar desse mundo, a não ser que levem a energia a sério.

O mundo da Guerra Fria era bipolar, estabilizado por um equilíbrio de dois superpoderes. O mundo pós-Guerra Fria foi, para os americanos, uma belle époque unipolar, na qual o Hiperpoder Americano, como chamaram os franceses, parecia dominar a cena mundial, econômica e estrategicamente -uma cena caracterizada por uma expansão constante de mercados livres e governos eleitos livremente.

O mundo pós-pós-Guerra Fria é um mundo multipolar, onde o poder dos EUA está sendo testado de todos os cantos. A China é uma potência crescente, graças ao trabalho duro e muita poupança. Além da China, porém, outros poderes estão crescendo apenas por causa da alta do petróleo -poderes que estavam em declínio no pós-Guerra Fria.

São eles: a Rússia de Vladimir Putin, que está indo contra os EUA em uma variedade de frentes; a Venezuela de Hugo Chavez, que, no mundo pós-pós-Guerra Fria, é a Cuba de Castro com esteróides e promove uma nova onda de nacionalizações e anti-americanismo na América Latina; e, é claro, o Irã -que está usando a renda do petróleo para tornar-se uma nação nuclear.Sim, o petróleo a US$ 70 o barril está tornando este mundo pós-pós-Guerra Fria multipolar.

"É o 'eixo do petróleo'", diz Michael Mandelbaum, autor de "The Case for Goliath" (o caso para Golias). "É mais duradouro e importante que o terrorismo -e não temos nenhuma política para ele."

Não só os outros estão se tornando mais assertivos, mas também os EUA estão menos intimidadores. Com americanos sangrando no Iraque, com George W. Bush altamente impopular na Europa e com o sistema de dois partidos nos EUA tão distorcido que nem consegue responder a uma crise como a energética, os EUA não são tão temidos quanto eram.

"Em 2002 e 2003, todo mundo falava do 'hiperpoder' americano. Hoje em dia, ninguém fala sobre um poder americano tão grande e isso até deu força ao anti-americanismo. Como antes você tinha ressentimento e respeito, agora você tem ressentimento e escárnio", disse Eric Frey, editor do jornal austríaco Der Standard.

Ao mesmo tempo, o ressurgimento da Rússia chamou a atenção da Europa Oriental. A Hungria recebe mais da metade de seu gás natural da Rússia.
Ultimamente, alguns húngaros começaram a lembrar de uma piada da Guerra
Fria: depois que um time de futebol húngaro derrotou a equipe soviética, o Kremlin enviou aos líderes da Hungria um breve telegrama: "Congratulações pela vitória. Ponto. Petróleo, ponto. Gás, ponto."

"Se você me perguntasse há cinco anos, eu teria dito que a história toda tinha terminado -nada mais de pressão russa. Eles têm tantos problemas que não teriam tempo de se preocupar com as dificuldades dos outros. Mas descobri que têm outras prioridades, e agora têm força", disse Pal Reti, editor da revista econômica húngara HVG. Sim, a Rússia não tem mais tantos exércitos ou ideologia, mas ainda tem muitos dos instintos primitivos e agora tem o dinheiro do petróleo para promovê-los.

No mundo pós-Guerra Fria, a integração e a reforma econômica européia pareciam irreversíveis. Certamente tornariam a Europa um poder democrático mundial. Mas no pós-pós-Guerra Fria, a Europa não consegue se unir para nada -nem mesmo para questões de política energética- então está sendo manipulada pela Rússia.

"Estou muito pessimista com a Europa Ocidental -e isso é novidade", observou Lajos Bokros, professor de economia na Universidade Européia Central em Budapeste. Muitos europeus "não são competitivos o suficiente" e "não querem implementar as reformas". A não ser que a Europa escolha o modelo irlandês de alto crescimento, em oposição aos modelos francês, italiano e alemão, disse Bokros. "Toda a região européia vai cair ainda mais e se tornar insignificante e irrelevante neste jogo global."

Por todas essas razões, não sinto falta da Guerra Fria, mas do pós-Guerra Fria. Porque este mundo do pós-pós-Guerra Fria parece infinitamente mais bagunçado, difícil de administrar e cheio de homens maus ficando ricos, não por terem construído sociedades decentes, mas simplesmente por furarem poços de petróleo. Deborah Weinberg

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