UOL Notícias Internacional
 

10/05/2006

Pentágono invade espaços da CIA na atividade de inteligência

The New York Times
Eric Schmitt

em Washington
A escolha de general Michael V. Hayden, por parte do presidente Bush, para ser o próximo diretor da Agência Central de Inteligência (CIA) abre espaço para novas discórdias com o Pentágono, que está expandindo rapidamente as suas próprias operações globais de espionagem e de localização de terroristas, que há muito tempo são considerados papéis da CIA.

Stephen A. Cambone, o czar da inteligência do Pentágono e um dos assessores de maior confiança do secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, está supervisionando a iniciativa no sentido ampliar as missões militares clandestinas de reconhecimento e de caçada a elementos antagônicos,. A discrição demonstrada por Cambone em público oculta a sua condição de um dos mais poderosos oficiais de inteligência do país.

Desde que o seu departamento foi criado três anos atrás, Cambone e o seu vice, general William G. Boykin, um ex-comandante da Força Delta, uma unidade de elite do exército, implementaram uma ampla reestruturação da grande burocracia de inteligência do Pentágono.

A CIA tem o papel principal no gerenciamento da "inteligência humana", ou na espionagem, no âmbito da comunidade de inteligência do país. Porém, seja de forma planejada ou circunstancial, grande parte do incremento das missões militares de espionagem se deu no Comando de Operações Especiais, que responde a Rumsfeld e que está fora da esfera controlada por John D. Negroponte, o diretor de Inteligência Nacional.

Em uma das mais ousadas dentre as novas missões, o Pentágono ampliou drasticamente o número de equipes clandestinas formadas por membros da Agência de Inteligência de Defesa e pelas forças do Comando de Operações Especiais que realizam missões secretas de contra-terrorismo no Iraque, no Afeganistão e em outros países estrangeiros. Utilizando uma ampla definição da sua presente autoridade para realizar "atividades militares tradicionais" e "preparar o campo de batalha", o Pentágono enviou equipes clandestinas para coletar informações sobre inimigos potenciais bem antes que qualquer tiro fosse disparado.

Em um esforço no sentido de aumentar os interrogatórios militares, Cambone está também supervisionando a tarefa politicamente sensível de reescrever o manual de campo do exército. Na semana passada, Cambone e outros funcionários graduados do Pentágono falaram com senadores a respeito de um plano proposto pelo Pentágono no sentido de colocar em vigor um conjunto de técnicas de interrogatórios a serem aplicadas em prisioneiros de guerra inimigos, e um outro, supostamente mais coercitivo, para os suspeitos de serem terroristas que estão presos na base norte-americana na Baía de Guantánamo, em Cuba, afirmaram assessores do Senado.

Na terça-feira (09/05), no Pentágono, Rumsfeld expressou apoio à nomeação de Hayden, e disse que os relatos de supostas rivalidades com relação aos seus colegas da comunidade de inteligência não passam de "teorias conspiratórias" que "estão muito longe da verdade". Rumsfeld acrescentou: "Não existe nenhum jogo de poder em andamento em Washington".

Algumas das novas iniciativas do Pentágono foram divulgadas anteriormente. Mas, em entrevistas, mais de 20 funcionários de agências de inteligência, do Departamento de Defesa e do Congresso revelaram novos detalhes sobre aquilo que eles descreveram como sendo um esforço agressivo por parte do Pentágono no sentido de assumir um papel bem mais amplo no mundo clandestino da inteligência.

Cambone insistiu que o Pentágono está trabalhando em estreita colaboração com a CIA e o departamento de Negroponte, e observou que realiza uma reunião de 20 minutos com funcionários de doze diferentes agências de inteligência todas as terças e quintas-feiras pela manhã. Mas Cambone disse que a necessidade de informação por parte das forças armadas no sentido de auxiliar os soldados que estão em ação depois do 11 de setembro estimulou a expansão do sistema de coleta de inteligência do Pentágono, especialmente no que se refere à luta contra células terroristas ocultas.

"Atualmente existe bem mais a ser feito do que em 10 de setembro", disse Cambone em uma entrevista no seu escritório, na sexta-feira passada, um pouco antes do anúncio feito por Bush. "O departamento assumiu a responsabilidade por se preparar melhor e para ser preparado para operar nos ambientes com os quais nos deparamos. Isso é diferente do que ocorria no passado? Creio que a diferença reside mais no volume da atividade e não na atividade de inteligência em si".

O Pentágono sempre foi uma instituição de dimensões enormes na comunidade de inteligência, em grande parte porque controla agências como a Agência de Segurança Nacional (NSA) e o Departamento Nacional de Reconhecimento (NRO), que contam com orçamentos multibilionários, e que são responsáveis por interceptações de comunicações e por diversos satélites. A diferença agora é que o Pentágono está se adentrando mais profundamente no reino da inteligência operacional humana.

A CIA sempre foi uma organização muito menor do que o Pentágono, e tradicionalmente serviu tanto às forças armadas quanto aos principais elaboradores de políticas em Washington, incluindo o presidente. Mas, após os ataques do 11 de setembro, o Pentágono sentiu que precisava se mobilizar para atender a várias das suas próprias necessidades adicionais de inteligência, algo que a CIA era incapaz de fazer.

Essa iniciativa gerou críticas de alguns parlamentares, que expressaram preocupação quanto à possibilidade de o Pentágono estar criando uma rede paralela de coleta de informações, independente da CIA ou de outras autoridades dos Estados Unidos, invadindo assim o território da Agência Central de Inteligência.

"Ainda me preocupo com a possibilidade de que certas coisas estejam sendo feitas sob a justificativa da preparação do campo de batalha. Coisas que eu consideraria como atividades de coleta de inteligência. Temos que tais iniciativas estejam sendo administradas separadamente, e que alimentem um aparato de planejamento que não é bem compreendido pelo Congresso", criticou a deputada Jane Harman, da Califórnia, integrante democrata do Comitê de Inteligência da Câmara.

Embora procure minimizar qualquer rixa com o Pentágono, Hayden admite que existem algumas querelas com relação à questão dos funcionários. A nova lei que criou o cargo de Negroponte conferiu ao diretor a autoridade para transferir funcionários de agências individuais de inteligência para centros conjuntos ou outras agências, a fim de acelerar a integração das comunidades de

inteligência civil e militar. Mas Rumsfeld tornou o processo mais difícil, afirmam alguns parlamentares, ao assinar uma diretriz em novembro do ano passado que exige "a concordância" de Cambone antes que quaisquer transferências sejam efetivadas.

Em uma entrevista por telefone na última quinta-feira, Hayden afirmou que, embora o Pentágono tenha adotado todas as mudanças que ele sugeriu no documento de 11 páginas, o momento em que este foi divulgado, apenas alguns meses após a criação do departamento de Negroponte, "criou um panorama horrível". Com relação à questão dos funcionários, Hayden reconheceu que "existe uma genuína superposição" que terá que ser resolvida "passo a passo".

A senadora Susan Collins, republicana pelo Estado de Maine, que desempenhou um papel central na redação do projeto de reformulação da área de inteligência, criticou a diretriz , afirmando que ela é uma iniciativa do Departamento de Defesa para conquistar poder. "A publicação desta diretriz enviou exatamente o sinal errado", criticou Collins. "Ela implica em um questionamento da autoridade do diretor nacional de inteligência sobre as agências, e eu creio que isso é contrário à intenção da legislação. O Departamento de Defesa está tremendamente ansioso para preencher qualquer vácuo ou até mesmo para criar tal vácuo, caso isso seja necessário".

Uma figura central para a forma como esse debate se desenrola é Cambone, 53, um nativo de Highland, no Estado de Nova York, que como subsecretário de Defesa para Inteligência supervisiona 130 funcionários de tempo integral e mais de 100 empreiteiras no seu escritório, e cujas responsabilidades incluem contra-inteligência doméstica, planejamento sobre ameaças de longo prazo e orçamento para novas tecnologias.

Cambone enfatiza que o seu departamento não coleta nem analisa inteligência. O que ele faz é supervisionar aqueles que realizam tais tarefas, avaliando a qualidade daquilo que organizações como a NSA e a Agência Nacional de Inteligência Geoespacial coletam e analisam.

Os seus colegas dizem que Cambone, que possui doutorado em ciência política pela Escola de Pós-Graduação Claremont, é um burocrata hábil, capaz de dominar uma reunião com o seu conhecimento de assuntos complexos, mas ressaltam que ele pode também interagir com as pessoas da maneira errada. "Ele é dono de uma personalidade forte, é pode ser um pólo de atração para controvérsias", afirma Barry Blechman, amigo de longa data e membro do Comitê de Políticas de Defesa.

Cambone obtém grande parte da sua influência a partir da relação próxima de trabalho que desenvolveu com Rumsfeld, e que teve início no final da década de 1990, quando Cambone atuou como diretor das comissões independentes sobre ameaças espaciais e de mísseis balísticos, um setor chefiado por Rumsfeld quando os dois não integravam ainda o governo.

Cambone esteve ao lado de Rumsfeld no 11 de setembro, recebendo pedidos do seu chefe para avaliar o possível papel do Iraque nos ataques. Mais tarde, ele atuou em cargos importantes, elaborando políticas e decidindo quais sistemas bélicos deveriam ser adquiridos ou cancelados. "Ele é o camarada mais próximo de Rumsfeld", garante Dov S. Zakheim, diretor de contabilidade do Pentágono até maio de 2004.

Em uma indicação da importância dada por Rumsfeld à posição do czar da inteligência, em dezembro do ano passado o secretário reformulou discretamente a linha civil de sucessão na hierarquia do Pentágono, para a eventualidade de o secretário ou o seu vice morrerem ou ficarem incapacitados. Ele colocou o subsecretário de inteligência como o próximo na linha hierárquica. O secretário do Exército tradicionalmente era o número três.

Mas poucas questões acirraram mais os ânimos de parlamentares e oficiais de inteligência do que a expansão das missões clandestinas do Pentágono. "Me perguntei se, em se tratando de uma expansão tão pronunciada, algumas dessas pessoas estariam realmente qualificadas", diz W. Patrick Lang, ex-diretor do Serviço de Inteligência Operacional Humana de Defesa.

Desde a guerra do Afeganistão, forças de Operações Especiais de elite trabalhavam com equipes da CIA para capturar ou matar combatentes da Al Qaeda e outros extremistas. Mas Rumsfeld, frustrado com os recursos limitados da CIA para o fornecimento novos alvos, pressionou as forças armadas no sentido de que estas desenvolvessem mais as suas próprias capacidades de inteligência.

No ano passado, o Congresso deu ao Pentágono uma importante e nova autoridade para combater o terrorismo, ao autorizar que as forças de Operações Especiais, pela primeira vez, despendessem US$ 25 milhões por ano, até 2007, com o pagamento de informantes e o recrutamento de combatentes paramilitares estrangeiros.

O dinheiro foi solicitado pelo Pentágono e pelo comandante das forças de Operações Especiais como parte de uma iniciativa mais ampla para tornar as forças armadas menos dependentes da CIA. Durante a invasão do Afeganistão, em 2001, as tropas de Operações Especiais precisaram esperar até que a CIA pagasse informantes, e nem sempre puderam contar com apoio no momento certo, concluiu o Pentágono.

Oficiais militares de alta patente disseram que o dinheiro poderia ser utilizado para finalidades tão diversas quanto a compra de um caminhão para uma missão urgente, ou o pagamento em espécie a aliados irregulares, como a Aliança do Norte na guerra afegã contra o Taleban.

Hayden, que é vice de Negroponte e que já foi diretor da NSA, é tido por muitos oficiais de inteligência e parlamentares como suficientemente independente e forte para estabelecer limites para o Pentágono. Na entrevista, Hayden afirmou que ficou mais difícil distinguir entre as missões tradicionais de inteligência secreta realizadas pelas forças armadas e aquelas feitas pela CIA. "Existe uma sobreposição de funções", explicou Hayden. "A minha intenção é resolver esse problema caso a caso".

No Pentágono, Cambone disse que atualmente é mais do que provável que as tropas dos Estados Unidos atuem com as forças nativas em países como o Iraque e o Afeganistão para combaterem organizações terroristas sem pátria. Ele acrescentou que as forças norte-americanas necessitam do máximo de flexibilidade. "Temos fornecido um apoio de um tipo muito diferente daquele que éramos capazes de proporcionar no passado", disse Cambone. "Estamos operando em um mundo muito diferente". Danilo Fonseca

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