UOL Notícias Internacional
 

11/05/2006

Cientistas vão reunir-se para discutir a segurança de pílula abortiva

The New York Times
Gardiner Harris

em Atlanta, Geórgia
Preocupados com uma infecção bacteriana que provocou mortes em ao menos cinco mulheres que tomaram a pílula abortiva RU-486, pesquisadores das principais agências de saúde pública do país farão a primeira reunião conjunta em 10 anos na quinta-feira (11/5) sobre a segurança da droga.

Os pesquisadores do Departamento de Alimentos e Drogas (FDA), dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças e dos Institutos Nacionais de Saúde vão considerar se os meios de administrar as drogas de aborto deixam as grávidas mais suscetíveis à bactéria Clostridium sordelii. Eles também vão discutir se as mortes podem ser sinal da emergência de uma variante mais virulenta da bactéria que ameace as mulheres grávidas em geral, não só as que usam RU-486.

As mortes de quatro mulheres na Califórnia, uma no Colorado e uma no Quebec foram confirmadas como resultantes de infecção por Clostridium sordelii, que pode induzir choque tóxico. A causa da sexta morte não foi anunciada, apesar de suspeitar-se da mesma bactéria.

As infecções por Clostridium sordelii são raras, mas a gravidez parece aumentar os riscos, disse Dr. David E. Soper, vice-presidente de obstetrícia e ginecologia da Universidade Médica da Carolina do Sul.

Especialistas em aborto não sabem explicar porque quatro das mortes ocorreram na Califórnia. Inicialmente, o FDA investigou se as pílulas na Califórnia estavam contaminadas, mas um membro do departamento disse que os resultados não apontaram evidências de contaminação.

Outra teoria é que o clima seco pode ter estimulado o crescimento de Clostridium sordelii, que vive no solo.

Alguns especialistas acreditam que as mulheres grávidas que tomam RU-486 com outra droga, o misoprostol, ficam mais vulneráveis à infecção. A RU-486 por si só acaba com a gravidez em estágios iniciais, mas é comumente dada junto com misoprostol, que causa contrações uterinas e expele o feto morto.

Depois de examinar muitos estudos em 2000, o FDA aprovou um protocolo recomendando que as mulheres tomem o misoprostol por via oral. Mas os médicos, em vez disso, recomendaram que as mulheres inserissem o misoprostol na vagina.

Alguns cientistas dizem que a inserção vaginal pode introduzir a bactéria junto com a droga.

"Os comprimidos são pequenos, e as mulheres não necessariamente sabem onde a vagina começa e onde termina", disse Phillip G. Stubblefield, professor de obstetrícia e ginecologia da Universidade de Boston.

Se as mulheres não tomarem cuidado, disse Stubblefield, podem facilmente arrastar o comprimido pelo períneo, entre o reto e a vagina, e contaminar a vagina com a bactéria.

Outros especialistas rejeitam essa idéia. "Ainda estou usando a via vaginal", disse Mitchell Creinin, diretor de planejamento familiar da Universidade de Pittsburgh.

Em 2004, o FDA acrescentou fortes advertências em relação aos riscos de infecção nos rótulos de RU-486.

Não houve indicações de que o FDA esteja considerando maiores restrições ao uso da droga.

Depois das mortes, a empresa seguradora da Federação Nacional de Aborto insistiu que suas clínicas sigam as recomendações do FDA ao receitarem as drogas de aborto ou poderão perder o seu seguro por erro médico.

Nos EUA, alguns médicos decidiram parar de usar o RU-486. Entre eles está Peter Bourse de Portland, Oregon, membro da Federação Nacional de Aborto.

"Não tenho certeza se quero estar em uma apólice conjunta com pessoas fazendo procedimentos médicos, porque você compartilha o risco", disse Bourse.

Até março, a Planned Parenthood, a maior fornecedora de aborto da nação, continuava a instruir seus médicos a dar misoprostol vaginalmente, disse Dr. Vanessa Cullins, vice-presidente de assuntos médicos. Mas com a sexta morte, em março, a organização agora usa a indicação oral.

As mortes ligadas ao RU-486 criaram uma divisão incomum no pequeno mundo de médicos que fazem abortos. Um número crescente deles diz que não receitará a droga.

O risco de morte em procedimentos com a pílula abortiva agora parece ser cerca de 10 vezes maior do que por aborto cirúrgico. James McGregor, professor visitante de obstetrícia e ginecologia da Universidade da Califórnia do Sul, disse que a RU-486 pode tornar as mulheres mais suscetíveis ao Clostridium sordelii porque a droga talvez iniba mecanismos que moderam a imunidade. Em casos de choque tóxico, a resposta imune do corpo torna-se letal.

"O corpo termina se atacando", e a RU-486 pode estimular esse ataque, disse McGregor.

Soper disse que, quando a infecção por Clostridium sordelii toma conta, há poucas esperanças.

"Nunca vou me esquecer de quando eu era residente em San Diego, e uma paciente pós-parto literalmente morreu diante de meus olhos", disse Soper.

Depois que seu filho nasceu, a mulher disse ao marido que se sentia extremamente cansada. Ele a levou de volta ao hospital e ela morreu rapidamente, disse Soper.

A administração oral do misoprostol é mais comum na Europa, mas o uso vaginal está crescendo. Ann Furedi, diretora executiva do Serviço de Aconselhamento de Gravidez Britânico, responsável por 25% de todos os abortos no Reino Unido, disse que sua agência contava com a inserção da droga vaginal. Clínicos na Suécia e Hong Kong fazem o mesmo, e o uso vaginal está crescendo na França, de acordo com a Gynuity Health Projects, grupo de Nova York que apóia o uso de RU-486 em todo o mundo.

No debate sobre RU-486 contra o aborto cirúrgico, as mulheres têm opiniões diversas. Uma mãe nova-iorquina de 43 anos com dois filhos disse que já tinha feito "todo tipo de aborto". Recentemente, disse a seu médico durante uma sessão de aconselhamento que só faria o procedimento por comprimido.

"Não gosto de médicos e hospitais. Meus dois filhos nasceram em casa sem nada", disse a mulher, que não queria divulgar seu nome. "E é assim que quero fazer meu aborto: em casa, na minha privacidade, no meu próprio ritmo e sem a pressão dos outros em cima de mim."

Depois de tomar as drogas, a mulher disse que se sentia bem. Ela planejava ir ao banco, à farmácia e à delicatéssen e dormir a maior parte do dia.

Anne Hawkins, 36, também de Nova York, disse que já fez os dois tipos de aborto. Mas tomar o RU-486 foi "a pior experiência, a coisa mais física e emocionalmente dolorosa" por que passou.

Hawkins fez outro aborto em março e escolheu a cirurgia.

O procedimento cirúrgico "demorou no máximo 10 minutos", disse Hawkins. "A pílula para mim foi como um parto. Contrações por 10 horas, suores, gritos, solidão. Foi emocionalmente traumático e fisicamente horrível." Deborah Weinberg

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