UOL Notícias Internacional
 

11/05/2006

Todos os livros do presidente

The New York Times
Michiko Kakutani
Nos últimos meses foi publicada uma enxurrada de livros sobre o presidente Bush, seu governo e a guerra no Iraque. A perspectiva deles varia enormemente: há livros de jornalistas, de pessoas de dentro do governo e de especialistas em economia e contraterrorismo; livros com pontos de vista conservadores, liberais e não partidários; livros que oferecem uma visão ampla do governo, livros que se concentram em aspectos particulares da guerra no Iraque.

Mas somados às publicações anteriores, eles criam um retrato cumulativo e, em muitos aspectos, surpreendentemente coerente da Casa Branca de Bush e seu estilo de governo. Autores tão díspares quanto Bruce Bartlett, o economista do governo Reagan; Seymour M. Hersh, o repórter investigativo da revista "New Yorker"; Fred Barnes, o editor do "Weekly Standard"; e James Risen, o repórter do "New York Times", apontam formas como este governo tem descartado antigos precedentes e iluminam sua queda por contornar os processos tradicionais de desenvolvimento e revisão de políticas.

É um tropismo, um reflexo instintivo que denuncia o processo de tomada de decisão da Casa Branca de Bush, assim como seu pensamento tático e estratégico, um tropismo que tem exercido um grande papel na abordagem cada vez mais ameada do governo para uma série de questões, da guerra no Iraque e reforma do Seguro Social à política do governo sobre tortura. Muitos livros que tratam do governo Bush e da guerra no Iraque -incluindo "The Assassins' Gate", de George Packer, da "New Yorker"; "The Next Attack", de Daniel Benjamin e Steven Simon, ex-funcionários do Conselho de Segurança Nacional do governo Bill Clinton; e "Squandered Victory", de Larry Diamond, um ex-alto conselheiro da Autoridade Provisória da Coalizão, em Bagdá- também ressaltam as predisposições relacionadas por parte desta Casa Branca: um apetite por grandes idéias visionárias, impostas de cima para baixo; uma ânsia em centralizar a tomada de decisão no poder Executivo; e uma tendência para ignorar o conselho de especialistas, seja em inteligência, economia ou forças armadas.

Em retrospecto, estes padrões fundamentam as recentes queixas de mais de meia dúzia de generais aposentados de que os autores de política civis no Pentágono ignoraram os conselhos de oficiais militares, assim como as novas acusações de dois veteranos da CIA de que o governo Bush ignorou seletivamente avaliações cruciais de inteligência sobre as armas de destruição em massa no Iraque.

A inclinação do governo à criação de política em linhas gerais, por fora dos canais habituais, até mesmo de forma improvisada, ocorre em parte em função das personalidades de figuras chaves do governo, começando por Bush, um pessoa que se autoproclama visceral e que preza "a coisa da visão" acima da análise detalhada e o debate contínuo. E é em parte um reflexo de um panorama ideológico: uma determinação, após 11 de setembro, de aumentar o poder presidencial, que muitos conservadores acreditam ter diminuído após o escândalo de Watergate; e uma visão relativista de especialistas como sendo burocratas subordinados ao establishment e status quo liberal, uma perspectiva associada à inclinação desta Casa Branca de caracterizar qualquer um, de repórteres e membros das forças armadas a cientistas que pesquisam o aquecimento global como grupos de interesse movidos por uma agenda.

Inflexibilidade ou uma nova abordagem?

Enquanto críticos do presidente vêem sua certeza como um sinal de inflexibilidade, isolamento intelectual e uma relutância em realizar correções de curso, os torcedores de Bush -que gostam de descrevê-lo como pró-ativo, criativo e resoluto- vêem sua disposição de desafiar a crença geral como um ativo. Para eles, a impaciência do governo com os canais tradicionais de autoria de política representa uma nova abordagem para antigos problemas e um desdém saudável pela burocracia arrastada, mantendo também sincronismo com a "persona" do presidente, traçada por Karl Rove em um boletim de campanha: "um "Líder Forte" com queda por "Ação Ousada" e "Grandes Idéias".

Em "The Right Man", o ex-redator de discursos de Bush, David Frum, se gaba de que as decisões do presidente pós-11 de setembro "descartaram 35 anos de política americana no Oriente Médio e repudiaram as políticas externas de pelo menos seis dos sete presidentes americanos anteriores".

E em "Rebel-in-Chief", seu recente hino em honra ao presidente, Fred Barnes descreve Bush como um líder inovador que "atua em Washington como um chefe de um pequeno exército de ocupação rebelde", um visionário que considera "fácil derrubar grandes políticas sem pensar duas vezes".

Barnes (que entrevistou Bush, assim como outros membros importantes do governo para seu livro) escreve que o presidente foi audacioso em sua decisão de "deixar de lado a política de segurança nacional de contenção", que estava em vigor desde a Segunda Guerra Mundial, e ousado em sua disposição de "desafiar o establishment da política externa e antigos aliados", apesar de reconhecer que Bush "não estava bem versado" na questão do Oriente Médio quando chegou ao governo, tendo concorrido para a presidência "quase que exclusivamente em assuntos domésticos". No Seguro Social, diz Barnes, o presidente escolheu ambiciosamente "a opção extrema, a mais controversa e a menos provável de ser aprovada".

Para os críticos de Bush, sua disposição de descartar precedentes e ir audaciosamente onde poucos foram antes cheira a arrogância e presunção, indicando um desprezo tanto pela história quanto pelas conseqüências a longo prazo.

Como Francis Fukuyama, o neoconservador apóstata, escreve em seu novo livro, "America at the Crossroads", grande liderança pode envolver "colocar de lado a própria dúvida" e "resistir à crença geral", mas "má liderança também pode fluir destas mesmas características: a determinação ferrenha pode se tornar teimosia; a disposição de ignorar a crença geral pode representar uma falta de bom senso".

Barnes pode considerar a aversão de Bush em administrar "um problema, uma disputa ou um relacionamento abalado" como um indício de que ele está firmemente concentrado no grande quadro, mas o ex-czar de contraterrorismo, Richard A. Clarke, escrevendo em "Contra Todos os Inimigos" (Francis), argumenta que Bush procura "a solução simples, a descrição de adesivo de pára-choque do problema". Questões como terrorismo e Iraque exigem análise substantiva, prossegue Clarke, mas "Bush e seu círculo interno não tinham interesse real em análises complicadas; nas questões pelas quais se importavam, eles já sabiam as respostas".

Os simpatizantes de Bush consideram seu estilo de administração "vou sozinho", como o unilateralismo de seu governo na política externa, um sinal de força. Bush "tem usado seus discursos presidenciais para promover políticas muito além do que seus assessores esperam que ele faça", escreve Barnes. "Em vez de refletir políticas, seus discursos ditam políticas." Sobre o segundo discurso de posse de Bush, no qual ele enunciou a meta de acabar com a tirania ao redor do mundo, Barnes diz que ele provocou Condoleezza Rice: "'Você não vai acreditar no que eu direi', ele disse a ela. 'Eu espero vê-lo antes que você o faça', respondeu Rice. O que ela e outros altos conselheiros de Bush viram posteriormente foi um esboço quase final, no qual apenas pequenas mudanças podiam ser feitas. O eixo impulsor do discurso -a nova direção, a declaração política- estava estabelecido".

Contornando os canais habituais

As conseqüências da inclinação do governo Bush por política fora dos canais habituais foram sentidas mais agudamente nos preparativos para a guerra no Iraque. James Risen -o repórter do "New York Times" que ganhou um prêmio Pulitzer juntamente com Eric Lichtblau pela exposição do programa secreto de vigilância doméstica- observa em seu novo livro, "State of War", que "a burocracia de segurança nacional é enlouquecedoramente lenta", mas suas salvaguardas fornecem uma importante "influência moderadora".

Bush e seus subordinados principais "realizaram reuniões quase constantes, em clima de crise, tomando decisões às pressas", após 11 de setembro, escreve Risen. "Em vez de propostas surgindo gradualmente pelas camadas normais de governo, elas foram apresentadas e impostas de cima. O debate foi podado."

Os canais habituais de avaliação de inteligência também foram deixados de lado, contribuindo para as afirmações incorretas pré-guerra de que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa. Em "Cadeia de Comando" (Ediouro), um livro baseado em sua reportagem inovadora para a "New Yorker", Seymour M. Hersh notou que uma operação de inteligência foi montada no Pentágono como uma espécie de alternativa à CIA. Ela foi criada, ele escreve, para encontrar evidência que apoiasse o que o vice-secretário de Defesa, Paul Wolfowitz, e seu chefe, Donald Rumsfeld, já "acreditavam ser verdade -que Saddam Hussein tinha laços estreitos com a Al Qaeda e que o Iraque tinha um enorme arsenal de armas químicas, biológicas e, possivelmente, até mesmo nucleares".

Grande parte do que a unidade do Pentágono analisou eram dados brutos, não examinados por profissionais de inteligência; escolhidos a dedo por sua utilidade em apoiar as idéias fixas dos falcões sobre o Iraque, diz Hersh, e então enviados "diretamente ao gabinete do vice-presidente e em seguida ao do presidente".

Vários livros sobre a guerra no Iraque também argumentam que devido ao enorme poder do vice-presidente Dick Cheney, devido à briga interna entre os departamentos de Defesa e Estado, e devido à relutância da ex-conselheira de segurança nacional, Rice, em ser mais firme, o papel do Conselho de Segurança Nacional -que supostamente deveria orientar o presidente e promover o consenso entre as agências- foi diminuído nos dias que antecederam a guerra.

Em "The Next Attack", Benjamin e Simon escrevem que o processo essencial de decisão e planejamento não transcorreu no que Larry Wilkerson, o então chefe de gabinete do secretário de Estado, Colin Powell, chama "de processo estatutário do Conselho de Segurança Nacional, mas no processo paralelo dirigido por Cheney", que formou sua própria equipe de segurança nacional de
14 pessoas e que mantinha laços diretos com o velho amigo Rumsfeld no Pentágono.

Para a guerra, a 'decisão aconteceu'

Segundo os livros publicados até o momento, mesmo a decisão final de ir à guerra contra o Iraque -uma guerra que já produziu, até terça-feira, a morte de 2.416 (e contando) militares americanos e uma estimativa de mais de 35 mil iraquianos mortos (segundo o Contagem de Corpos do Iraque, um grupo independente que monitora a mídia)- parece ter sido tomada de improviso. Em "The Assassins' Gate", Packer cita Richard Haass, o ex-diretor de planejamento de política no Departamento de Estado, dizendo que o verdadeiro pesar de prós e contras da guerra nunca ocorreu: "Foi uma somatório, um ponto de transbordamento", diz Haass. "Não foi tomada uma decisão -uma decisão aconteceu, mas você não sabe dizer quando e como." Bob Woodward escreve em "Plano de Ataque" (Globo) que "fora Rice, Bush disse que não precisava perguntar aos principais se achavam que ele deveria ir à guerra":
"Ele sabia o que Cheney achava e decidiu não perguntar a Powell ou Rumsfeld", porque ele diz que ele "podia dizer o que eles pensavam". Woodward, que está trabalhando em um terceiro livro sobre o governo Bush, também diz que o simples momento -incluindo o aumento de tropas na região- se tornou um fator no processo do presidente de decidir ir à guerra.

Os preparativos para a ocupação, segundo todos os relatos, foram ainda mais desorganizados. "Os esforços de planejamento foram realizados em várias partes diferentes da burocracia com pouca ou nenhuma coordenação", escreveram Steven Simon e Daniel Benjamin em "The Next Attack", acrescentando que muitos membros do governo estavam "trabalhando 'fora dos canais habituais', emitindo diretivas sem jamais terem seus planos analisados pelo processo tedioso, repetitivo, que o governo geralmente emprega para assegurar que está pronto para qualquer contingência".

Para piorar ainda mais as coisas, os argumentos que discordavam das histórias roseadas pós-guerra previstas pelos linhas-duras do governo tendiam a ser ignorados. Francis Fukuyama argumenta que os autores de política neoconservadores, que sentiam que tinham sido menosprezados pelo establishment da política externa por anos, "desconfiavam em excesso de qualquer um que não compartilhasse seus pontos de vista".

"O tribalismo burocrático existe em todos os governos, mas ele cresceu a níveis tóxicos no primeiro mandato de Bush", escreve Fukuyama. "A lealdade de equipe superava a discussão de mente aberta e foi diretamente responsável pelo fracasso do governo em planejar adequadamente o período pós fim do combate ativo."

Apesar do Departamento de Estado ter liderado os esforços pós-guerra no Afeganistão e nos Bálcãs, o Pentágono recebeu inicialmente do governo a autoridade para administrar e reconstruir o Iraque. Devido às batalhas territoriais e ideológicas, o Projeto Futuro do Iraque do Departamento de Estado -que, segundo Larry Diamond, tratava de "problemas chaves que confrontariam a ordem pós-guerra no Iraque"- foi praticamente ignorado.

Ignorando conselho de especialistas

Virtualmente todos os livros sobre a guerra no Iraque -seja por um repórter, militar, membro da inteligência ou pessoa de dentro da Autoridade Provisória da Coalizão- estão repletos de exemplos nos quais conselhos de especialistas foram ignorados ou contestados pelo governo. Em "The Assassins' Gate", Packer nos recorda que antes da invasão, o chefe do Estado-Maior do Exército, o general Eric K. Shinseki, testemunhou perante o Comitê de Serviços Armados do Senado que o Iraque pós-guerra necessitaria de "algo na ordem de várias centenas de milhares de soldados", sendo afastado dias depois por Wolfowitz, que declarou a estimativa dele "absurdamente equivocada".

Packer também relata que o general Anthony C. Zinni -que, como ex-comandante-em-chefe do Comando Central americano, tinha preparado um plano de contingência para o Iraque em caso da queda de Saddam- soube que seu plano tinha sido desprezado pelo Pentágono como "negativo demais". E o conselheiro econômico de Bush, Lawrence Lindsay, que previu que a guerra poderia custar até US$ 200 bilhões (algumas estimativas atuais já chegam até um trilhão de dólares) foi, nas palavras de Packer, "rapidamente repreendido e posteriormente demitido".

A Corporação Rand, o Colégio de Guerra do Exército, o Instituto da Paz dos Estados Unidos e o Instituto para Estudos Estratégicos Nacionais da Universidade Nacional de Defesa também produziram relatórios, nota Packer, que "eram notáveis por sua unanimidade de opinião": "A segurança e reconstrução no Iraque pós-guerra exigirão um grande número de soldados por um período prolongado e a cooperação internacional será essencial". Estes soldados seriam necessários para fechar as fronteiras do país, proteger depósitos de armas, conter as milícias locais e restaurar um senso de lei e ordem. No mês passado, Colin Powell deu uma entrevista na qual disse que ele também tinha recomendado antes da guerra o envio de um número maior de soldados ao Iraque.

Estes alertas não foram considerados pelo governo, escreve Diamond, porque tais números não se enquadravam nas suposições intencionalmente otimistas de que "os soldados americanos serão recebidos como libertadores pelo povo iraquiano, alegres por terem sido livrados das garras do regime de Saddam, que a resistência seria limitada e que o Estado iraquiano permaneceria intacto". Também não se enquadravam na determinação de Rumsfeld de transformar as forças armadas e conduzir a guerra com uma força mais leve e mais rápida.

Diamond, um importante estudioso americano da democracia e dos movimentos democráticos, foi a Bagdá como conselheiro da Autoridade Provisória da Coalizão por ordem de Rice, sua antiga colega da Universidade de Stanford. Ele partiu convencido de que os problemas pós-guerra no Iraque -uma insurreição cada vez mais virulenta, a criação de um novo terreno fértil para terroristas e a as crescentes tensões étnicas e religiosas- eram resultado de uma série de erros e julgamentos errados cometidos pelo Pentágono e pela Casa Branca de Bush.

Ao retornar para os Estados Unidos em 2004, Diamond diz que escreveu um longo memorando para Rice, recomendando que os Estados Unidos "rejeitassem qualquer aspiração militar de longo prazo no Iraque", estabelecessem uma data para a retirada das forças americanas, respondessem às preocupações em relação aos presos iraquianos e enviassem "um número significativo de mais soldados e equipamentos". Ele disse que nunca obteve resposta dela.

Bremer e o governo

L. Paul Bremer, o ex-procônsul americano no Iraque, foi igualmente ignorado pelo governo na questão do número de soldados. Em seu recente livro de memórias, "My Year in Iraq" (escrito com Malcolm McConnell), ele disse que antes de partir rumo ao Iraque, em maio de 2003, ele enviou a Rumsfeld uma cópia do relatório Rand estimando que 500 mil soldados seriam necessários para estabilizar o Iraque pós-guerra (mais de três vezes o número de soldados enviados); ele disse que nunca obteve resposta do secretário de Defesa.

Um ano depois Bremer enviou a Rumsfeld uma mensagem dizendo que "a deterioração da situação da segurança desde abril deixou claro que, ao menos para mim, estamos tentando cobrir frentes demais com muito poucos recursos" e recomendou que o Pentágono considerasse o envio de "uma ou duas divisões adicionais por até um ano". Novamente, ele diz, ele nunca obteve resposta do secretário de Defesa.

Bremer diz que seu próprio anúncio controverso, em maio de 2003, dissolvendo formalmente o exército iraquiano (uma medida que os críticos disseram que contribuiu para o vácuo de segurança, além de colocar várias centenas de milhares de iraquianos armados nas ruas, sem emprego e sem salário), foi feito em consulta a Wolfowitz e ao subsecretário de Defesa, Douglas Feith, e autorizado por Rumsfeld.

Mas como recontam os autores de "Cobra II", o general Bernard E. Trainor e Michael R. Gordon, o correspondente militar do "New York Times", esta decisão pegou "desprevenidos" os comandantes em solo no Iraque e autoridades em Washington. Eles escrevem que os generais de exército David McKiernan e John Abizaid consideraram "a decisão uma mudança abrupta e indesejável do planejamento anterior"; Peter Pace, o vice-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, "disse posteriormente que o Estado-Maior não foi consultado sobre a decisão" e Colin Powell "não foi previamente avisado".

Além do Iraque

O questionamento do estilo de administração do governo e sua postura em relação aos especialistas não se restringe à questão do Iraque, mas tem sido levantado por repórteres e pessoas de dentro do governo em várias áreas.

Em "Impostor", o economista conservador Bruce Bartlett argumenta que o fracasso da atual Casa Branca em "traçar ou articular uma política econômica consistente" deriva em grande parte do "desinteresse de Bush na análise séria de política" e da marginalização de pessoas com conhecimento genuíno. Ele escreve que o ex-secretário do Tesouro, Paul H. O'Neill, e seu sucessor, John W. Snow, foram tratados como "pouco mais que meninos de recado" e que o "principal trabalho" de R. Glenn Hubbard, o presidente da Conselho de Assessores Econômicos, "era não conceber políticas econômicas, mas apenas oferecer apoio às que Bush já tinha escolhido".

Estas são observações apoiadas por O'Neill e John DiIulio, o ex-chefe da iniciativa baseada em fé de Bush, que são citados longamente no livro de Ron Suskind, "The Price of Loyalty", e que se queixam da falta de um aparato de política no governo Bush e na subordinação das políticas a considerações político-partidárias.

Durante oito meses na Casa Branca, DiIulio disse que ouviu "sequer três discussões significativas de política" e se maravilhou com a "falta até mesmo de conhecimento básico e apenas um interesse casual em saber mais" por parte dos funcionários da Ala Oeste.

O'Neill, que travou e perdeu a batalha contra mais reduções de impostos antes de ser forçado a deixar o cargo de secretário do Tesouro, descreve a Suskind uma Casa Branca profundamente disfuncional, na qual ocorriam reuniões freqüentemente roteirizadas em torno de resultados predeterminados, a fidelidade pessoal ao presidente atrapalhava o espírito de questionamento honesto e os secretários de Gabinete eram freqüentemente contestados ou ignorados em importantes decisões em suas próprias áreas. O'Neill sugere que a política partidária, em vez de julgamentos sensatos, atuaram na decisão do presidente de sobretaxar o aço importado e em suas mudanças de opinião em relação ao meio ambiente. E como Richard A. Clarke, ele diz que o Iraque estava na agenda do governo muito antes de 11 de setembro.

O livro de Bill Minutaglio sobre o secretário de Justiça (e ex-conselheiro da Casa Branca), Alberto R. Gonzales, que será lançado nos próximos meses, também cita um número potencialmente alto de casos em que o governo parece ter contornado os canais tradicionais de política. Em provas de "The President's Counselor", Minutaglio relata que no assunto explosivo de como processar terroristas capturados, uma força-tarefa de advogados e promotores criminais do Departamento de Justiça, do Departamento de Estado, do Escritório de Consultoria Legal e das forças armadas foi formada após 11 de setembro, mas logo dispensada, à medida que Gonzales e sua equipe legal se impacientava com a conversa do Departamento de Justiça de julgamentos criminais.

O escritório de advocacia da Casa Branca, "com a ajuda de linhas-duras do Escritório de Consultoria Legal", escreve Minutaglio, "assumiu o planejamento de qualquer processo de prisioneiros estrangeiros capturados durante a nova guerra contra o terror" e, em novembro, "tinha formulado uma proposta que abriria o caminho para os tribunais militares mais agressivos desde a Segunda Guerra Mundial -tribunais que suspenderiam todos os tipos de direitos normalmente concedidos aos americanos no sistema judicial americano".

Estas formulações, prossegue Minutaglio, "foram concebidas e elaboradas em isolamento notável -em segredo e divorciadas de Condoleezza Rice e membros influentes do Departamento de Estado".

Poder e o Executivo

Outras manobras da Casa Branca na arena legal também provocaram controvérsia. Em dezembro, os repórteres James Risen e Eric Lichtblau do "New York Times" revelaram que após 11 de setembro, Bush autorizou secretamente a Agência de Segurança Nacional a grampear os americanos em busca de evidência de atividade terrorista, sem os mandados aprovados pelos tribunais normalmente exigidos para espionagem doméstica.

E, no mês passado, o "Boston Globe" relatou que Bush emitiu mais de 750 "declarações presidenciais" desde que assumiu o governo, afirmando que ele tem o direito de revogar qualquer estatuto aprovado pelo Congresso quando entrar em conflito com sua interpretação da Constituição.

Tais medidas da Casa Branca de Bush ressaltam o argumento feito por muitos livros sobre a inclinação de seu governo para recriar (alguns diriam subverter) a máquina política de Washington, uma tendência indicativa, dizem alguns críticos, de seus esforços alarmantes de expandir enormemente o poder do Executivo. Apesar de defensores de Bush como Fred Barnes e o ex-secretário de imprensa, Ari Fleischer ("Taking Heat") freqüentemente descreverem tais críticos como membros de uma vasta conspiração de esquerda, os leitores de muitos livros sobre a Casa Branca de Bush notarão que a visão do autor da criação de políticas fora dos canais habituais pelo governo não é necessariamente determinada pelas simpatias direita/esquerda, Estados republicanos/democratas; nem é determinada pelo autor apoiar ou não a decisão original de ir à guerra contra o Iraque.

Bruce Bartlett, o autor de "Impostor", uma desconstrução implacável das políticas econômicas do governo Bush, escreve como um reaganista ardoroso; e George Packer, o autor de um dos relatos mais devastadores da condução de Bush da guerra no Iraque, escreve como um "liberal ambivalentemente pró-guerra" que queria ver Saddam, "um ditador homicida, removido do poder antes que cometesse um novo assassinato em massa".

Em alguns cantos também há uma crescente ênfase não na ideologia do governo Bush, mas em sua capacidade prática de governar de forma eficaz. O historiador Douglas Brinkley, escrevendo sobre o furacão Katrina em seu novo livro, "The Great Deluge", usa repetidamente a palavra "incompetência" para descrever a resposta do presidente Bush e seu governo ao desastre na Costa do Golfo, o mesmo termo usado por conservadores como Max Boot e William Kristol para descrever a forma como o governo tem lidado com o Iraque e outras questões, e por Zinni e pelo aposentado general de divisão Paul D. Eaton para descrever a direção de Rumsfeld da guerra.

Com um coro cada vez maior de tais críticas, combinado com o despencar dos números nas pesquisas de popularidade, a Casa Branca poderá ser forçada a repensar a eficácia, se não as implicações filosóficas, de seu modus operandi.

Os crescentes problemas do governo sugerem que Bush pode ter feito bem em deixar de lado seu anseio, como nota Barnes, de ser um "líder criador de eventos" que, "sozinho, muda o curso da história", para se concentrar em uma tarefa que Barnes diz não estar nem mesmo no radar do presidente: "ser um 'líder notável', que apenas lida habilmente com as tribulações de sua era". George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,48
    3,144
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,53
    75.604,34
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host