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13/05/2006

Na disputa em torno dos bispos da China, antigas divisões são renovadas

The New York Times
Jim Yardley e Keith Bradsher

em Shenyang, China
Desde o momento em 1978 quando a China se reabriu, de forma condicional, ao mundo exterior, a Igreja Católica Romana tem trabalhado arduamente para reentrar no país. Esperanças foram renovadas, então frustradas, mas neste ano Roma e Pequim finalmente pareciam próximas de fechar um acordo histórico de normalização das relações.

Então, inesperadamente, uma disputa pública na semana passada, em torno da consagração pela China de dois bispos sem a aprovação do Vaticano, mudou tudo. Agora, o debate é sobre qual foi o tamanho do estrago e por que esforços para colocar um fim a 55 anos de isolamento diplomático novamente deram errado.

"É potencialmente um enorme problema", disse o padre Jeroom Heyndrickx, um padre belga que, no passado, atuou como emissário entre os lados. "É um confronto. Havia um diálogo informal em andamento. Agora isto foi cortado. A pergunta é se é possível prosseguir daqui."

O Partido Comunista e a Igreja Católica, cujos últimos missionários foram expulsos da China no início dos anos 50, são adversários formidáveis, cada um com um traço autoritário e uma relutância em ceder autoridade. A atual disputa, em seu âmago, se trata de quanto cada lado está disposto a ceder no controle da hierarquia da Igreja Católica oficial da China.

Também é uma batalha entre dois velhos conhecidos, o cardeal Joseph Zen, que é bispo de Hong Kong, e Liu Bainian, uma autoridade do governo apelidada de "Papa da China". Eles são homens francos, ambos septuagenários, o primeiro um ardoroso defensor da democracia e o segundo a personificação do sistema chinês de religião aprovada pelo Estado. Eles até mesmo viveram brevemente no mesmo seminário em Pequim.

A disputa entre eles, que tem se desenrolado publicamente nos últimos meses, ameaça as conversações secretas de alto nível que tiveram início nos últimos meses da vida do papa João Paulo 2º e prosseguiram sob o papa Bento 16. O que não se sabe é se a disputa pública não foi planejada e interrompeu as negociações privadas, ou se as negociações privadas ruíram e provocaram a disputa pública.

"Eu acho que é xadrez", disse a irmã Janet Carroll, uma freira americana envolvida há muito tempo na China, que considera o mais recente impasse uma manobra tática, séria e preocupante, mas não necessariamente uma ruptura irreversível.

Sem dúvida há muitas peças móveis, jogadas em níveis diferentes e freqüentemente movidas em direções contraditórias. Os peões, na prática, são os bispos chineses. A China tem 97 dioceses católicas, das quais 42 não têm bispos. Quem quer que ocupe estes postos vagos, e outras posições atualmente ocupadas por bispos idosos, moldará o futuro da Igreja Católica da China.

A questão imediata é se haverá mais confrontos nos próximos meses. Apesar do Vaticano não manter relações formais com a China, os dois lados tinham uma acordo informal nos últimos meses, sob o qual Pequim não fazia objeção quando candidatos a bispo buscavam discretamente a aprovação de Roma. Heyndrickx disse que outros pedidos para novos bispos já estão pendentes.

Mas a China poderia inflamar a situação nomeando mais bispos sem aprovação papal. No domingo, as autoridades na província de Fujian deverão realizar a cerimônia de posse de um bispo consagrado vários anos atrás sem aprovação papal.

Na semana passada, Pei Junmin, o novo bispo auxiliar cuja consagração foi aprovada pelo Vaticano e pelo governo chinês meses antes, foi consagrado em uma elevada catedral gótica desta cidade industrial do nordeste do país.

A cerimônia foi uma exibição notável e jubilante em um país onde quase todos as missas são ilegais. Pelo menos 1.000 pessoas, incapazes de encontrar assentos na catedral lotada, assistiram em uma grande tela de vídeo no lado de fora. A polícia e agentes de segurança disfarçados observavam enquanto pessoas se ajoelhavam no pavimento para rezar e cantar os hinos tocados nos alto-falantes. Ao deixar a catedral, o recém-ordenado Pei foi cercado.

"A ordenação de hoje afirmou minha crença em servir o Senhor", disse uma freira de 34 anos que estava na praça do lado externo da catedral. Mas ela também sabe que dois outros bispos foram consagrados dias antes sem a bênção do papa. "O governo nomeia pessoas", disse a freira. "Isto viola as leis da Igreja."

A posse de Bento 16 provocou otimismo em relação a um possível acordo.
Apesar de João Paulo ter tornado a normalização das relações com a China uma prioridade, no final, disseram analistas, o governo chinês desconfiava de um homem que ajudou a derrubar o comunismo no Leste Europeu. Ele chegou perto de um avanço em 1999, mas no início de 2000 a China, como agora, consagrou inesperadamente um punhado de bispos sem consultar o Vaticano.

Bento 16 começou do zero e rapidamente se concentrou na China. A Igreja chinesa estava praticamente isolada desde que Mao ordenou que os católicos chineses cortassem os laços com o Vaticano em 1951. O país atualmente tem até 12 milhões de católicos, divididos entre as igrejas aprovadas pelo Estado a as igrejas "clandestinas". Os líderes da Igreja dizem que curar esta divisão interna seria uma prioridade imediata em caso de uma normalização das relações.

Em fevereiro, Bento 16 escolheu o antigo bispo de Hong Kong, Joseph Zen Ze-kiun, como um de seus 15 novos cardeais. Zen, que fazia pedidos públicos regulares por uma maior democracia em Hong Kong, era popular junto aos católicos do continente, mas o governo o considerava um inimigo.

Sempre franco e impetuoso, Zen rapidamente estabeleceu que pretendia ser uma voz forte nas negociações com Pequim. Quando foi anunciado em fevereiro que se tornaria cardeal, ele disse que a China não era um país "normal" e que precisava respeitar a liberdade religiosa. Pequim respondeu um mês depois com um ataque geral de Liu Bainian, cujo título oficial é secretário-geral da Associação Patriótica Católica Chinesa.

Liu condenou a escolha de Zen como "um ato hostil" em relação à China. Seu ataque atraiu uma resposta de Zen, que questionou se Liu realmente "ama seu país".

Na juventude, Liu perdeu sua oportunidade de se tornar padre quando o Partido Comunista fechou os seminários durante a Revolução Cultural. Ele acabou ingressando na Associação e agora é a força dominante na agência criada por Mao Tsé-tung para controlar a Igreja.

"Muitas pessoas o consideram o diabo, como o homem que causa todo o caos", disse Heyndrickx, diretor da Fundação Verbiest, que promove intercâmbio com a China. Ele conhece Liu há 20 anos e passou vários horas com ele na semana passada, em meio à controvérsia da consagração. "Eu acho que ele faz pela Igreja o que é possível dadas as circunstâncias. Ele também segue as instruções do governo."

Liu e Zen entraram em choque quando Liu tentou colocar Ma Yinglin, seu protegido, como bispo de Kunming. Ma, 40 anos, um padre que era secretário do Conselho dos Bispos da China, tem uma reputação de administrador afável, apesar de alguém considerado mais leal ao governo do que à Igreja. Seu pedido e o de outro candidato a bispo da província de Anhui foram enviados discretamente a Roma. As consagrações estavam planejadas para fevereiro, mas as cerimônias foram remarcadas quando Roma pediu um adiamento.

"A Igreja na China estava apenas aguardando pela aprovação de Roma", disse Heyndrickx. "Mas ela ainda não veio. Roma disse que leva tempo."

Roma aparentemente tinha dúvidas. Em uma entrevista, Zen disse que o
Vaticano recebeu os relatórios de que Ma planejava viver em Pequim, não em Kunming, e continuar ajudando Liu a dirigir a Associação Patriótica em vez de atender seus paroquianos no outro lado da China.

"Isto vai contra a lei canônica", disse o cardeal.

A consagração prosseguiu em 30 de abril, apesar dos alertas de que Roma
consideraria a ação uma violação séria, como a consagração em 3 de maio do novo bispo de Anhui.

Liu sugeriu que a China estava seguindo o protocolo padrão. "A China escolhe e consagra seus próprios bispos há 50 anos", ele disse em uma entrevista por telefone. "Nós estamos fazendo isto pelo bem da divulgação do Evangelho. Eu acredito que o papa não fará objeção."

Mas um dia depois, Bento 16 fez uma objeção veemente. Seu porta-voz chamou a consagração de "ferida grave na unidade da Igreja" e levantou a possibilidade de excomungar formalmente os bispos envolvidos. Heyndrickx disse que o Vaticano também ficou ofendido com as justificativas públicas da China, que ele disse que representavam um tapa sarcástico.

A dano foi significativo. O arranjo para consagrações, que surgiu após o colapso diplomático em 2000, reduziu as tensões na questão chave de quem controla a hierarquia. No ano passado, todos os três bispos consagrados na China obtiveram aprovação papal após seus pedidos terem sido enviados a Roma.

O colapso diplomático provocou críticas a Zen e Liu. Carroll, a ex-diretora do Birô Americano da China Católica, disse que muitos grupos católicos ativos na China sentiram que Zen estava provocativo e franco demais para ser eficaz na normalização das relações. Mas o cardeal disse não se arrepender de sua conduta porque sentiu que Liu tinha insultado o papa com seus comentários iniciais em março passado.

Os sinais imediatos são de que nenhum lado deseja que a ruptura aumente. Bento 16, por exemplo, não decretou nenhuma excomunhão, com seu porta-voz sugerindo apenas que eram possíveis. Nesta semana, a China apresentou um tom mais conciliador por meio de porta-vozes do governo. Mas ninguém espera um avanço tão cedo.

Quando e se ocorrer, Zen e Liu poderão não mais estar em cena. O cardeal chegará à idade habitual de aposentadoria quando completar 75 anos em janeiro próximo, apesar da possibilidade de receber um cargo no Vaticano. Liu, também septuagenário, estaria próximo da aposentadoria. Entre um punhado de sucessores potenciais, um é conhecido.

Ma Yinglin, o novo bispo de Kunming. George El Khouri Andolfato

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