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14/05/2006

Thriller: o resgate de um popstar naufragado

The New York Times
Timothy L. O'Brien*
Instalado numa suíte de luxo com diária de US$ 9 mil no hotel em forma de vela Burj Al Arab, em Dubai, Michael Jackson fazia o papel de um rico astro pop reunindo-se com dois altos executivos da Sony Corp. em dezembro passado.

Pelo ambiente opulento e o séquito de assessores de Jackson, havia poucos indícios de que a visita das tropas da Sony era porque temiam que ele estivesse à beira de um processo de falência.

A Sony estava preocupada porque Jackson era sócio da companhia num lucrativo negócio de publicação de música que incluía canções dos Beatles e outros músicos. Se Jackson ficasse insolvente, sua participação de 50% naquela empresa de US$ 1 bilhão seria leiloada pela melhor oferta, deixando a Sony diante da desconfortável possibilidade de ganhar um sócio que não escolhera.

Com as águas do golfo Pérsico e o próspero emirado esparramando-se muito abaixo deles, o grupo passou aos negócios. Segundo participantes da reunião que pediram para manter o anonimato porque foram discutidas questões financeiras confidenciais, Jackson estava pensativo e cooperativo, parecendo muito consciente da gravidade de sua situação, apesar da imponência do ambiente. Ele apenas se manifestou para comentar que o catálogo foi um investimento maravilhoso.

Depois de escutar Jackson, Robert S. Wiesenthal, um executivo sênior da Sony, propôs finalmente que a empresa ajudasse o cantor a encontrar um banco para lhe emprestar mais US$ 300 milhões para saldar suas dívidas. Em troca, Jackson possivelmente lhes daria uma parte de sua metade do catálogo dos Beatles.

No mês passado, Jackson -ainda mergulhado em dívidas, com sua carreira musical estagnada e a vida pessoal manchada por escândalos- concordou com a reestruturação financeira. Ela deverá privá-lo de cerca da metade de sua parte restante no catálogo, que lhe serviu como salvação financeira durante cerca de uma década. Segundo executivos envolvidos nas negociações de reestruturação, Jackson usou o catálogo, assim como os direitos autorais de suas próprias canções, como garantia para cerca de US$ 270 milhões em empréstimos bancários que contraiu para manter seus enormes gastos, que incluem a manutenção de sua grande fazenda na Califórnia, Neverland, e outros luxos exóticos.

Diante da aparente precariedade da situação financeira do cantor, não está claro como ele conseguirá manter o resto de sua participação nesse cobiçado catálogo musical. Mas o acerto de contas parece próximo, e a capacidade de Jackson manter sua fortuna mostrou-se tão fugaz quanto o próprio estrelato.

O trajeto profissional de Jackson, e a administração de seus negócios financeiros, confirmam alguns velhos clichês sobre as realidades da indústria do entretenimento e aqueles que habitam suas camadas superiores: o astro mirim involuntariamente dependente de outros que controlam sua conta bancária; um adulto mais maduro que entende de embalagem e marketing, mas torna-se cada vez mais indisciplinado em seus gastos; e finalmente uma caricatura trancada numa terra de fantasias financeiras e emocionais fabricada por ele mesmo.

Para os que não têm acesso às contas pessoais de Jackson, é impossível avaliar exatamente quanto dinheiro passou por suas mãos durante uma carreira que durou décadas. As vendas de seus discos pela divisão musical da Sony geraram mais de US$ 300 milhões em direitos autorais para Jackson desde o início dos anos 80, segundo três indivíduos que conhecem diretamente os negócios do cantor. A renda de concertos e gravação de músicas -incluindo a sociedade com a Sony que controla o catálogo dos Beatles-, assim como patrocínios, merchandising e videoclipes, acrescentaram cerca de US$ 400 milhões àquela quantia, segundo essas pessoas.

Que parte desses rendimentos realmente acabou na carteira de Jackson também é difícil avaliar, porque seria preciso contabilizar custos elevados como os de gravação e produção, impostos etc., o que diminuiria a renda de seus empreendimentos comerciais. Jackson não foi encontrado para dar declarações.

"Acho que Michael nunca teve a menor idéia de responsabilidade fiscal, ou responsabilidade fiscal lógica. Ele foi um indivíduo excessivamente mimado pelos que o representaram ou trabalharam para ele durante toda a vida", disse Alvin Malnik, um ex-assessor financeiro de Jackson e ex-advogado de Meyer Lansky, o falecido chefão da máfia. "Não havia planejamento em termos de quanto ele podia gastar. Como empresário, você pode prever seus gastos nos próximos seis meses ou um ano. Para Michael era qualquer coisa que ele quisesse na hora em que quisesse."

"Milhões de dólares eram gastos por ano em fretamento de aviões, compra de antigüidades e quadros", continuou Lansky. "Se você quer viajar para Londres é uma coisa. Se você quer continuar essa viagem e levar junto seu círculo de 15 ou 20 pessoas, fica caro."

Outros próximos a Jackson dizem que as finanças do artista não se deterioraram simplesmente porque ele é um grande gastador. Segundo eles, até o início dos anos 90 Jackson deu uma atenção relativamente grande a sua contabilidade e manteve controle do dinheiro que fluía por suas empresas e negócios criativos. Depois disso, dizem eles, Jackson ficou excessivamente encantado por algo que ataca pessoas ricas de todos os tipos: maus conselheiros.

"Algumas pessoas podem chegar para uma pessoa como Michael e dizer: 'Olhe, isto não é possível'. Outras preferiam dizer: 'Como você quiser'. Elas não se importam", disse Frank Dileo, que foi empresário de Jackson de 1984 a 1989. "Acho que depois de mim houve muitas pessoas que não se importaram. Tudo o que lhes interessava era o que iam ganhar. E elas mataram a galinha dos ovos de ouro."

Michael Jackson passou a vida surpreendendo as pessoas, nos últimos anos principalmente por causa de sua vida pessoal surreal, escândalos lúbricos, cirurgias plásticas em série e um comportamento público errático que o transformaram -em seus melhores tempos- no alvo de piadas de programas de entrevistas e tablóides. Mas quando sua carreira começou a decolar, quase 40 anos atrás, como membro do grupo pop Jackson 5, os fãs e veteranos da indústria de entretenimento identificaram algo incomum naquele pequeno dínamo musical: ele possuía um talento enorme e hipnótico.

Deke Richards, um escritor e produtor que trabalhou estreitamente com Berry Gordy, co-fundador da Motown Records, na formulação da primeira fase da carreira de Jackson, lembra de assistir ao cantor em uma de suas primeiras apresentações em Los Angeles. Foi em 1969 no Daisy Club, uma casa na Rodeo Drive em Beverly Hills; embora todo o grupo Jackson tenha impressionado Richards, Michael era um astro.

"Era quase evidente que era algo especial, parecia a reencarnação de Frankie Lyman", disse Richards, referindo-se ao cantor adolescente dos anos 50 que fez sucesso com "Why Do Fools Fall in Love". "Ninguém tinha visto nada parecido desde Frankie, um garoto com aquela bossa, capaz de cantar daquele jeito. Era como se um homem de 30 anos estivesse dentro daquele menino."

Embora Gordy tivesse anunciado Jackson como um menino-prodígio de 8 anos antes da apresentação no Daisy Club, o cantor estava perto de fazer 11 anos quando se apresentou lá. Mesmo assim, já tinha passado anos em programas de calouros e se apresentando em clubes baratos do centro-oeste sob o comando de Joe Jackson, seu pai ditatorial e ambicioso. Joe Jackson e Gordy foram os mentores de Michael no início de sua carreira; nenhum deles foi encontrado para fazer comentários para esta reportagem.

Apesar da juventude de Michael Jackson, Gordy e outros reconheciam que além do talento de cantor ele também era um jovem observador e diligente, ávido para aprender tudo o que pudesse sobre o funcionamento do setor musical.
"Michael tinha uma sabedoria própria", lembrou Gordy em uma entrevista em 1994 à revista "Billboard". "Ele prestava muita atenção em tudo o que eu dizia. Mesmo quando eu estava de costas para ele, sabia que me observava como um gavião. Os outros garotos podiam estar brincando ou fazendo qualquer coisa, mas Michael era muito sério. E continuou assim."

Jackson registrou suas próprias lembranças desse tempo. "Quando você é uma criança no 'show business', realmente não tem maturidade para entender muito do que acontece ao seu redor. As pessoas tomam muitas decisões sobre sua vida quando você não está na sala", ele escreveu em "Moon Walk", sua autobiografia de 1988. "Berry insistia na perfeição e na atenção aos detalhes. Nunca esquecerei sua persistência. Era um gênio nisso. Na época e depois, observei todos os momentos das sessões em que Berry estava presente e nunca esqueci o que aprendi. Até hoje uso os mesmos princípios."

Gordy pagava a muitos dos artistas de sucesso da Motown, incluindo o Jackson 5, direitos autorais sobre seus discos muito menores do que eles ganhariam mais tarde, e certamente menores do que o próprio Jackson ganhou durante seu apogeu, de meados ao final dos anos 80. Segundo a biografia de J. Randy Taraborrelli, "Michael Jackson: The Magic and the Madness", de 1991, a Motown pagava ao Jackson 5 royalties que eram uma fração do que Jackson ganharia mais tarde em sua carreira solo.

"Havia muita pressão sobre Michael como jovem para trabalhar pela família", disse Shelly Finkel, um ex-promotor de rock'n'roll que atualmente gerencia lutadores de boxe profissionais e que periodicamente se encontrava com a família Jackson quando Michael era criança. "Você pega um garoto como Michael Jackson, que não é sofisticado com o dinheiro, e as pessoas aproveitam dele. Não é realmente uma boa educação. Ele não amadureceu como ser humano em todos os sentidos."

O Jackson 5 passou da Motown para a CBS Records em 1975, e a companhia o recompensou com contratos melhores. Eles também recebiam honorários garantidos de pelo menos US$ 350 mil por disco, segundo o livro de Taraborrelli, muito acima do que recebiam na Motown, mas ainda nem perto das quantias estratosféricas de milhões de dólares que Jackson passaria a receber nos anos 80. Os shows representavam outra fonte de renda, mas ainda era um dinheiro que Jackson dividia com seus irmãos e sobre o qual seu pai mantinham rédeas curtas.

Jackson acabou rompendo com o pai e o Jackson 5, uma medida em direção à independência criativa e financeira marcada por suas colaborações com Quincy Jones em três discos. O mais memorável destes é "Thriller", de 1982, que teve vendas globais de 51 milhões de unidades, segundo os Recordes Mundiais Guinness, o que faz dele o disco mais vendido na história. Mas "Thriller" cobrou um alto preço, segundo associados de Jackson, definindo um parâmetro de sucesso que o artista nunca deixou de perseguir.

A parte de Jackson na renda de "Thriller" -incluindo o disco, compactos e um popular videoclipe- ultrapassou US$ 125 milhões, segundo um ex-assessor que pediu para não ser identificado. Os que o aconselhavam na época atribuem ao astro pop uma visão financeira e uma astúcia comercial que se evidencia em sua compra por US$ 47,5 milhões do catálogo dos Beatles em 1985 (medida que serviu para afastá-lo de Paul McCartney, a lenda dos Beatles, que em uma conversa casual com Jackson lhe falou sobre a sabedoria financeira de comprar catálogos, para depois vê-lo comprar os direitos de muitas de suas próprias canções).

John Branca, um advogado que estruturou a aquisição para Jackson e o representou de 1980 a 1990 e esporadicamente depois de 1993, disse que não via sinais de um comportamento financeiro desordenado na época do lançamento de "Thriller". "Acho que Michael foi brilhante durante boa parte de sua carreira -esperto, participante, de olho em tudo", disse Branca. "Também acho que ele era um gênio de marketing."

No auge do fenômeno "Thriller", os apetites de Jackson ainda eram relativamente modestos pelos padrões das celebridades, e ele tinha apenas começado a experimentar as possibilidades da riqueza que não conhecera na infância. Amigos daquele período dizem que ele às vezes pedia dinheiro emprestado para a gasolina, e ainda morava na casa da família Jackson em Encino, um subúrbio de Los Angeles.

Apesar de ter feito uma tentativa mal sucedida em 1987 de comprar os ossos de Joseph Merrick, conhecido como o "Homem Elefante", por US$ 1 milhão, foi só no final dos anos 80 que ele começou a demonstrar tendências mais exageradas. Em 1988, adquiriu por US$ 17 milhões a propriedade perto de Santa Ynez, Califórnia, que se tornou Neverland (Terra do Nunca).

Ao mesmo tempo, Jackson estava redefinindo o conceito de espetáculo na música pop. Contratou o diretor de cinema Martin Scorsese para dirigir um videoclipe de seu disco "Bad", que segundo um assessor diretamente ligado à produção custou mais de US$ 1 milhão. O mesmo assessor disse que Jackson faturou "muito mais" de US$ 35 milhões em uma turnê de "Bad" durante um ano, que começou em 1987, e que no início dos anos 90 ele estava em sólida posição financeira.

Enquanto começava a trocar habitualmente equipes de assessores nos anos 90, e a despejar mais dinheiro em projetos caros como vídeos, pelo menos um de seus assessores da época afirma que Jackson controlou seus gastos até o final dos anos 90.

"Eu nunca o vi levar todo tipo de gente em viagens ao redor do mundo", disse James Morey, que trabalhou como um dos gerentes pessoais de Jackson de 1990 a 1997 (quando Jackson o demitiu e recorreu aos conselhos do xeque saudita príncipe Alwaleed Bin Talal). "Michael é muito inteligente, e sabia muito bem -mesmo quando era avisado de que algo era caro demais-, quando sentia que era certo para a arte, que tinha meios para pagar. Ele não era alienado dos orçamentos."

Outros fatos, porém, sugerem que as finanças de Jackson já estavam sendo pressionadas em meados dos anos 90. Ele deixou de trabalhar regularmente depois do lançamento de "Dangerous" em 1991 e fez um acordo de cerca de US$ 20 milhões no processo por abuso de criança. Mais significativo em termos de suas finanças, ele teve de vender à Sony 50% de sua parte no catálogo dos Beatles em 1995 por mais de US$ 100 milhões, que segundo um assessor ajudaram a pagar as contas crescentes do cantor.

Jackson só produziu outro disco de estúdio com material completamente novo em 2001, mas sempre que surgia com outros trabalhos contendo material já lançado ele ainda esperava promoções e espetáculos além de qualquer coisa já vista. Para seu disco de 1995, "HIStory", por exemplo, quis gravar um "teaser" extravagante para promovê-lo. Gravou um clipe na Hungria por milhões de dólares e contratou soldados húngaros para marchar nele.

"Quando estavam gravando essa coisa na Hungria, a produtora me ligou no meio da noite e disse: 'Michael quer mais soldados'", disse Dan Beck, um executivo de marketing que trabalhou no vídeo. "Ele sonhava o grande sonho. Era P.T. Barnum."

Jackson também esbanjou em outros projetos caros, incluindo o que um assessor acredita ser o mais caro de todos -um filme de 35 minutos chamado "Ghosts" que ele co-escreveu com o romancista Stephen King e filmou em 1997 com Stan Winston, um gênio dos efeitos especiais, e que custou bem mais de US$ 15 milhões. Uma pessoa familiarizada com a contabilidade de Jackson disse que o astro pagou uma parte substancial de até US$ 65 milhões em projetos de vídeos em meados dos anos 90 -que contribuíram significativamente para seus problemas financeiros.
Jackson também foi afetado por um rodízio de assessores que aparentemente o convenceram a apostar alto em investimentos arriscados que não deram certo.

No final de 1996, segundo documentos de tribunais, ele conheceu Myung Ho Lee, um assessor coreano que surgiu como uma figura central nas dívidas do artista.

Documentos indicam que no final de 1998 Jackson já havia recebido e gastado US$ 90 milhões de empréstimos bancários, e Lee conseguiu um novo empréstimo de US$ 140 milhões do Bank of America que foi garantido pelo catálogo dos Beatles e usado para saldar dívidas anteriores.
Vários meses depois, os US$ 140 milhões tinham evaporado e Jackson, que acabara de fazer um acordo de divórcio com Lisa Marie Presley, obteve mais uma linha de crédito de US$ 30 milhões do Bank of America. Lee disse em documentos de tribunais que no final de 2000 ele aumentou o empréstimo de US$ 140 milhões para US$ 200 milhões, usando parte dele para pagar a linha de crédito de US$ 30 milhões, que tinham sido totalmente gastos.

Embora documentos indiquem que Lee apresentou pelo menos dois investimentos arriscados para Jackson, Lee ainda conseguiu criticar o artista nos documentos jurídicos por falta de disciplina financeira em 1999 e 2001.

"Jackson estava fixado em obter posses caras e alimentar seu ego escutando os conselhos de trapaceiros e impostores", comentou Lee.
O tempo todo os gastos de Jackson aumentavam. Como descreveram vários ex-associados de Jackson, ele costumava emprestar grandes quantias para pagar por coisas que talvez não estivessem ao seu alcance. Marc Schaffel, que serviu anteriormente como assessor dos projetos de televisão de Jackson, alega em um processo que deverá ser julgado no mês que vem que Jackson deixou de lhe reembolsar despesas de mais de US$ 2,2 milhões, a maior parte em dinheiro.

Essas despesas incluíam US$ 46.075, em agosto de 2001, por avaliações e obras de arquitetura feitas quando Jackson estudava a compra de uma casa em Beverly Hills; honorários de US$ 1 milhão pagos a Marlon Brando em setembro de 2001 para que o astro do cinema aparecesse em um evento no Madison Square Garden e em um vídeo em homenagem a Jackson; mais de US$ 380 mil pela compra de um carro Bentley Arnage e um Lincoln Navigator personalizado; e US$ 250 mil em junho de 2003 por compras de antigüidades em Beverly Hills.

Malnik, que começou a assessorar Jackson alguns anos atrás, disse em uma entrevista que o artista havia gastado cerca de US$ 8 milhões por ano em frete de aviões, antigüidades, quadros, hotéis, viagens e outras despesas pessoais, e que a manutenção anual de Neverland e seus funcionários era de cerca de US$ 4 milhões. Um contador forense que depôs no julgamento criminal de Jackson no ano passado disse que o orçamento anual do cantor em 1999 incluía cerca de US$ 7,5 milhões em gastos pessoais e US$ 5 milhões para manter Neverland. Nada disso explica a escala dos empréstimos de Jackson, porém, ou a rapidez com que ele queimou esse dinheiro. O principal ralo para os amplos recursos de Jackson podem ter sido investimentos monumentais e desaconselháveis que aparentemente produziram prejuízos igualmente colossais. Malnik estima que alguns assessores de Jackson esbanjaram US$ 50 milhões em negócios que não deram certo -o que ele descreve como idéias de parque de diversões e "bizarros personagens de quadrinhos enormes e computadorizados". Malnik disse que ele havia emprestado a Jackson R$ 7 milhões, parte dos quais foram usados para acertar vários processos jurídicos relacionados a acordos descumpridos.

É possível que os maiores custos de Jackson tenham passado, no início de 2000, das compras para o simples pagamento dos enormes juros mensais de sua dívida. Segundo um executivo envolvido em seus negócios, Jackson fazia pagamentos mensais de cerca de US$ 4,5 milhões em 2005, sobre uma dívida de US$ 270 milhões. Isso vem a ser uma taxa de juros anual de cerca de 20%, um índice mais habitual no mundo dos cartões de crédito, empréstimos escusos e agiotas, e não encontrados comumente por pessoas ricas com ativos substanciais. Mas os gastos loucamente variados de Jackson o obrigaram a enfrentar realidades mais duras.

Quando ele finalmente se reuniu com os executivos da Sony em Dubai, em dezembro passado, seus onerosos pagamentos de juros o haviam deixado num impasse. O Fortress Investment Group, um grupo de investimentos de Nova York especializado em dívidas seqüestradas, comprou os passivos de Jackson do Bank of America em 2003, depois que o cantor deixou de pagar algumas parcelas. Então ele começou a cobrar altas taxas de juros. O Fortress, que não respondeu a um pedido de entrevista, ameaçou executar sua dívida em 20 de dezembro passado por causa da delinqüência de Jackson. O que preocupou especialmente o artista nisso, segundo uma pessoa ligada às negociações, foi o fato de ser apenas cinco dias antes do Natal.

Para manter Jackson à tona, a Sony conseguiu um adiamento com o Fortress e chamou o Citigroup e outros potenciais credores para arranjar um novo financiamento por uma taxa menor. Em uma reunião em Londres em fevereiro, o Citigroup ofereceu a Jackson um novo empréstimo por uma taxa de 6%. O Citigroup fechou o negócio porque Jackson concordou em dar à Sony o direito de comprar a metade de seus 50% no catálogo dos Beatles em data futura por cerca de US$ 250 milhões, fornecendo uma garantia para o Citigroup se Jackson não pagar.

Para surpresa dos outros envolvidos nas negociações, o Fortress então ofereceu a Jackson as mesmas condições -uma medida de como o catálogo dos Beatles era e continua sendo desejável para vários financistas e assessores que rodearam Jackson desde que ele o comprou, há 20 anos. Em abril um acordo final foi acertado. O Citigroup acabou fornecendo uma hipoteca de US$ 25 milhões sobre Neverland, a maior parte dos quais Jackson usou para comprar uma participação de 5% no catálogo de um de seus primeiros assessores, Branca.

De sua parte, Malnik disse que achava que Jackson poderia ter conseguido continuar levando seu estilo de vida e gastos desvairados se continuasse trabalhando, mas, é claro, Jackson decidiu trabalhar cada vez menos. "Para Michael, era tudo o que ele quisesse na hora em que quisesse", disse Malnik.

"Isso foi perpetuado durante muitos anos. Afinal, se você não muda o rumo das coisas, você chega ao fim."

Mesmo no fim, porém, alguns ainda se lembram do início. Enquanto esperam na linha para serem atendidas, as pessoas que ligam para o escritório de Gordy escutam a balada "Got to Be There", de 1971, o sucesso de Jackson em seu primeiro disco como artista solo para a Motown.

* Colaboraram Jeff Leeds e Andrew Ross Sorkin Capacidade de Michael Jackson manter sua fortuna mostrou-se tão fugaz quanto o próprio estrelato Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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