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15/05/2006

Neste verão, uma fórmula tamanho único

The New York Times
Por Christopher Noxon*
Em Los Angeles
Enquanto dá os retoques finais em "Superman ­­-O Retorno", o diretor Bryan Singer está pensando em banheiros.

Durante a exibição de um dos filmes de "O Senhor dos Anéis", Singer notou quantas crianças na platéia corriam aos banheiros durante trechos de maior volume de diálogo. "Era como um estouro de boiada", ele disse em uma recente entrevista por telefone. Pouco depois, durante umas das prolongadas seqüências de batalha do filme, ele notou um êxodo semelhante de adultos.

Singer prevê uma movimentação semelhante quando seu "Superman" chegar aos cinemas de 30 de junho.

"Eu gosto de pensar que este filme é universal", ele disse. "Mas eu sei que haverá momentos para banheiro para crianças e momentos para banheiro para adultos."

Esta é uma dinâmica estranha enfrentada pelos cineastas durante aquele que se tornou o período demograficamente mais desafiador do calendário anual de lançamentos: aqueles meses supostamente despreocupados do início de maio ao Dia do Trabalho (comemorado nos Estados Unidos na primeira segunda-feira de setembro).

No final do ano, filmes sérios voltados para o Oscar, os "Capotes" e
"Muniques", competem pela atenção dos adultos, enquanto os "Galinho Chicken Little" e os "Doze é Demais" disputam a atenção das crianças.

Nos primeiros meses do ano, igualmente, filmes adultos como "Vôo 93" coexistem nos cinemas com filmes jovens como "Hoot". Mas o verão, momento em que os grandes estúdios fazem suas apostas mais altas, se tornou a reserva de filmes feitos nem para velhos e nem para jovens, mas sim para a criança no adulto e o adulto na criança. Tal exercício é bem mais complexo, de certa forma, do que contar uma história de amor sobre caubóis gays, ou criar um filme de horror proibido para menores. Ele envolve encontrar um ponto específico capaz de atrair a todos, de casais saindo em um encontro a pais que raramente compartilham uma refeição caseira com seus filhos, para a mesma experiência.

Dentro de Hollywood, o atual jargão diz que o "blockbuster" de verão deve atrair "todos os quatro quadrantes": isto é, atrair todo o espectro etário. "É preciso haver algo para todos", explicou Jeff Blake, vice-presidente da Sony Pictures Entertainment, que conseguiu tal feito com seus filmes da série "Homem-Aranha".

Mais notável é o grau com que filmes de verão deste ano, como "X-Men 3" ou "Superman -O Retorno" de Singer, parecem cada vez mais definir um novo tipo de espaço cultural, no qual noções tradicionais sobre idade significam pouco.

Tais filmes parecem à vontade com a ascensão de adultos que agem e pensam mais como crianças do que como adultos convencionais. Estes não são adultos plenos -seria possível chamá-los de "rejuveniles" (rejuvenis)- que retardam o casamento e a paternidade, o melhor para manter vidas repletas de diversão e flexibilidade, depois interagindo e brincando com seus próprios filhos de formas que seus pais considerariam ridículas e cujas escolhas de consumo expandiram o mercado para tudo, de miniaturas a bolinhos.

Mas os filmes funcionam igualmente bem com as crianças de fato, que parecem impacientes para se livrarem de coisas infantis. (Pesquisas de mercado informam que as crianças que antes se identificavam como crianças até os 12 anos agora deixam a cultura infantil aos 8 ou 9 anos.)

Estes grupos se encontram cada vez mais, pelo menos por um período de duas horas, dentro do contexto de filmes como "Shrek 2", o sucesso de verão de 2004, que funcionou bem tanto como comédia sobre um ogro flatulento quanto uma parábola sobre o relacionamento problemático com os sogros, ou "Os Incríveis", que ofereceu uma história de crise de meia-idade envolta em uma história de aventura de super-heróis.

"Os super-heróis agora fazem parte de nossa psique adulta", disse Don Payne, o roteirista da comédia "My Super Ex-Girlfriend", um lançamento de julho que tenta casar o gênero super-herói com a sensibilidade romântica de Woody Allen do final dos anos 70. "Todos nós crescemos e mantivemos parte de nossas infâncias, mesmo quando as torcemos para encaixá-las nos novos contextos adultos."

Tudo isto transformou a produção de filmes de verão em um exercício
demográfico enlouquecedor, com os cineastas caçando um público que está no processo de redefinir a si mesmo. Os exemplos mais bem-sucedidos -"Piratas do Caribe", "Napoleon Dynamite" ou o filme que basicamente inventou o formato, "Guerra nas Estrelas"- atingem "um equilíbrio cada vez mais delicado", disse Singer. Um excesso de humor rasteiro ou ação frenética entedia os adultos; dedicar muito tempo a desenvolvimento de personagens ou temas amplos aliena as crianças.

Para tentar superar a divisão etária, alguns cineastas adotam a estratégia aperfeiçoada pelos criadores dos desenhos clássicos da Warner Brothers, enchendo seus filmes de piadas sutis e apartes que sabem que apenas os adultos entenderão. "Os anos 60 foram bons para você, não foram?" um jipe do Exército pergunta a um Volkswagen em uma pré-estréia de "Carros" da Pixar.

Mas outros rejeitam tal abordagem, como o diretor M. Night Shyamalan, que a chama de "bifurcação". Em vez de arremessar falas que apelem para um grupo ou outro, ele busca injetar temas profundamente adultos em histórias que caso contrário só interessariam a crianças. Assim, "A Dama na Água", de Shyamalan, que será lançado em 21 de julho e está rotulado como "história de ninar", está sendo posicionado como o tipo de versão infantil dos thrillers sombrios e sobrenaturais pelos quais é famoso.

E apesar do filme ser voltado para crianças -ele nasceu de histórias
contadas por Shyamalan para seus próprios filhos- ele é bem mais profundo e surreal do que a maioria do entretenimento do gênero, ele disse. O cineasta reconheceu ter se preocupado durante a produção de que poderia ser "assustador demais", mas disse que decidiu seguir o exemplo de autores infantis como J.M. Barrie e Roald Dahl, cujos maiores trabalhos conscientemente entram em choque com as regras do que é apropriado para a idade.

"Para mim tudo se trata de voltar à rebeldia pura e ao espírito livre da infância", disse Shyamalan, 35 anos, de forma verdadeiramente "rejuvenil". "Isto tem sido incrivelmente liberador. Desde que o fiz, sou uma pessoa completamente diferente."

De forma semelhante, "Lucas, Um Intruso no Formigueiro", que será lançado pela Warner Brothers no início de agosto, exibe um elenco de insetos com vozes de Julia Roberts, Nicolas Cage e Meryl Streep, no que o roteirista e diretor do filme, John A. Davis, disse que poderá ser interpretado como uma parábola sobre as relações mundiais e o uso e abuso de poder. "Eu queria que o filme representasse nosso tempo", disse ele. "É bom apertar certos botões morais, e se você puder fazer isto em uma história empolgante e com visual bonito, melhor."

Mas apesar das possibilidades criativas serem empolgantes, o que promove tais híbridos são interesses econômicos. Os executivos dos estúdios estão cientes que a diferença entre um filme infantil bem-sucedido e um filme infantil bem-sucedido que os adultos também gostam é a diferença entre um sucesso e um grande "blockbuster".

O apelo inicial de filmes como o primeiro "Homem-Aranha" pode ser para
crianças, mas segundo uma pesquisa da Sony, 52% do público tinha mais de 25 anos. De forma geral, as maiores bilheterias da era moderna -"Guerra nas Estrelas", "Shrek 2", "E.T., o Extraterrestre"- são um verdadeiro catálogo de híbridos criança-adulto, apesar de sucessos ocasionais como os de "Titanic" e "A Paixão de Cristo" (ou a decisão da Sony Pictures neste ano de explorar a tendência ao lançar "O Código Da Vinci" como filme de verão).

"Isto é o que todos estão buscando", disse Bonnie Arnold, produtor do novo desenho da DreamWorks, "Os Sem-Floresta", que mistura animais falantes com comentários sobre política de associações de moradores, consumismo e cuidados com o gramado. "Estes filmes precisam agradar o público infantil central, mas são realmente bem-sucedidos quando agradam além das crianças."

Mesmo se o resultado é um tipo estranho de filme Peter Pan que nunca deixa seu público crescer totalmente e nunca deixa as crianças serem totalmente crianças, um grande número de pais prezam o novo filme híbrido como uma chance de se conectarem com seus filhos. Os pais de meados do século 20 podiam se contentar em deixar seus filhos desfrutarem programas infantis de TV como "Hopalong Cassidy" ou "Howdy Doody" sozinhos, mas os pais de hoje querem compartilhar a experiência.

"Não há nada melhor do que estar no mesmo cinema que seu filho e rir das mesmas piadas", disse Julia Pistor, mãe de três e vice-presidente executiva da Nickelodeon Movies, que está lançando a comédia "Nacho Libre" com Jack Black.

Mas pais com maiores expectativas não são os únicos adultos que estão
promovendo a mudança; Blake disse que atualmente cerca de 25% do público para qualquer filme para família de sucesso corresponde a adultos desacompanhados de crianças. A produtora Suzanne Todd lembra de uma análise do público na exibição da recente refilmagem da Disney de "Soltando os Cachorros" e notou quantos adultos estavam presentes desacompanhados de crianças. "Eu consigo entender o motivo", disse Todd, especialmente em uma "era cínica onde perdemos nosso lastro moral. Os adultos precisam de entretenimento que seja divertido, fácil e que ofereça uma fuga por 90 minutos da vida real".

Por sua vez, Barry Sonnenfeld, diretor do filme para família "Férias no
Trailer", disse que a crescente presença de público adulto sacudiu gêneros anteriormente gastos, permitindo personagens mais complexos e material potencialmente censurável. "Isto permite que você faça filmes que não fiquem tanto no meio", ele disse. O pai interpretado por Robin Williams em "Férias no Trailer", por exemplo, é bem mais carente e voltado para si mesmo do que o pai típico da Disney, enquanto o elemento central do filme envolve um jorro de 30 metros de matéria fecal. ("E mesmo assim obtivemos liberação para menores", disse Sonnenfeld.)

Mesmo assim, os cineastas ainda agonizam para obter a combinação precisa de elementos infantis e adultos. Os produtores de "Os Sem-Floresta" se preocuparam, por exemplo, com um personagem chamado Hammy, um esquilo hiperativo que, eles pensaram, poderia chatear alguns adultos. Mas nas pré-estréias os produtores ficaram aliviados ao descobrir que Hammy foi aprovado por todas as faixas etárias. Hunt disse: "Você se pergunta: 'Isto está ficando infantil demais? Estamos ficando sofisticados demais para nosso próprio bem?'"

Payne disse que aprendeu como atingir o equilíbrio certo enquanto escrevia para "Os Simpsons", a série da Fox que se tornou uma mistura exemplar de comédia de apelo amplo e humor adulto transgressivo. O truque, ele disse, é recuar rapidamente do momento em que você vai muito longe em uma direção. "Quando você se vê falando demais de socialismo", ele disse, "você sabe que precisa rapidamente fazer com que as calças do Homer peguem fogo".

Mas tais divisões são cada vez mais irrelevantes, já que é mais fácil do nunca agradar o público mais jovem e mais velho com exatamente o mesmo material, agora que as crianças estão mais sofisticadas e os adultos mais infantilizados. Agora é possível, disse Sonnenfeld, permanecer fixo em uma espécie de meio termo psíquico.

"Agora você pode fazer um filme para o público de 20 anos, porque os
adolescentes virão porque querem se sentir mais velhos, e os adultos porque querem se sentir mais jovens", disse Sonnenfeld. "Se você fizer
corretamente, você pega a todos."

*Christopher Noxon é o autor de "Rejuvenile: Kickball, Cartoons, Cupcakes and the Reinvention of the American Grown-up", que será lançado em 20 de junho pela Crown/Random House. Cada vez mais filmes agradam o público mais jovem e mais velho com o mesmo conteúdo. Estariam as crianças mais sofisticadas e os adultos mais infantilizados? George El Khouri Andolfato

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