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15/05/2006

T Bone Burnett interrompe hiato na carreira e volta a produzir

The New York Times
Por Jon Pareles
T Bone Burnett observou a sua platéia convidada. "Todos nós estamos no show business", disse ele, com um sorriso triste, gerando um murmúrio de aprovação em umas poucas dezenas de ouvintes.

Ele se estava se apresentando no Magic Castle, o venerável clube de West Hollywood no qual a sentença "Abre-te Sésamo!" abre uma porta secreta para um complexo de bares e salas. Lá dentro, mágicos fazem truques com cartas, e exibições comemoram as comédias e ilusões cinematográficas. Em um dos pequenos palcos do clube, Burnett empunhou uma clássica guitarra Kay K 161 com uma placa protetora listrada e tocou algumas músicas do seu novo álbum, "The True False Identity", lançado pela Columbia, e de uma antologia que estréia simultaneamente, "Twenty Twenty: The Essential T Bone Burnett", lançado pela Columbia/DMZ/Legacy, que sintetiza a sua longa carreira em 40 músicas cheias de questionamentos, tribulações, humor dissimulado e bons e antigos ritmos de guitarra.

Em uma conversa antes de subir ao palco, ele hesitou ligeiramente ante a palavra "carreira". Um homem alto, mas sem arrogância, usando roupas simples, quase antiquadas, ele transmite aquela sensação reconfortante de um médico do interior em um faroeste em preto-e-branco.

"Nunca pensei nisto como sendo uma carreira", disse ele. "Eu sempre estive totalmente ocupado cuidando daquelas coisas que estão bem à minha frente. Eu não tinha nenhum roteiro, nenhuma rota, nenhum plano de aposentadoria. A coisa toda apenas surgiu, e me dediquei a ela de todo coração. Isso é que teria sido a minha carreira, se eu tivesse uma".

Ele tocava para um grupo de pessoas do círculo interno de Hollywood: os fabricantes de ilusões. Vários dos seus ouvintes eram supervisores de músicas para filmes e televisão, as pessoas que escolhem as músicas para trilhas sonoras e shows como "The O.C.". Burnett estava se promovendo, mas sem estrelismos. As músicas que interpretou foram denúncias melancólicas e irônicas sobre a natureza humana e as ilusões da mídia.

Da sua própria maneira, Burnett, 58, também faz parte do círculo interno de Hollywood. Ele mora em Los Angeles desde o início da década de 1970, e trabalha nos principais estúdios da cidade. Os sucessos que produziu - como a trilha sonora que vendeu milhões de cópias "O Brother, Where Art Thou" - possibilitaram que adquirisse uma casa confortável em Bel Air. Ele conta com um assistente pessoal.

Mas o artista está longe de ser um dos tipos ardilosos de Hollywood. Burnett é um leitor voraz, que de vez em quando cita passagens da Bíblia, de Andy Warhol e do filósofo chinês Lao Tse. Ele ainda se apresenta em clubes e concertos, lembrando a sua própria época de músico de turnês. Burnett procura não falar mal de nada exceto, quando pressionado, das clássicas práticas comerciais das gravadoras. "A honestidade é o mais subversivo dos disfarces", ele canta em "Hollywood, Mecca of the Movies", no seu novo álbum. "Eu disse adeus há muito tempo/Você não deve ter me ouvido".

Nos vários projetos nos quais Burnett trabalhou no decorrer dos anos - do apoio a Bob Dylan na turnê Rolling Thunder Revue, à produção de Elvis Costello, Los Lobos e Gillian Welch e à criação de trilhas sonoras para filmes - existe uma linha consistente com aquilo que pode ser chamado de realismo mágico norte-americano. A música que ele faz é fortemente enraizada, mas jamais se constitui simplesmente em um regresso. Ele preza a simplicidade e a audácia da cultura norte-americana clássica, das músicas bruscas e emotivas aos contos surrealistas. Mas ele não tem interesse em recriar o passado. Em vez disso, Burnett está mapeando uma integridade antiga e trazendo-a até o presente.

"Quero que a música seja autêntica, mas quero que seja autêntica no momento em que a compomos", disse ele. "Desejo ser honesto para com Deus no momento em que o fato está acontecendo. Assim, podemos brincar ou jogar com tal fato. Não se trata de replicar algo, mas sem de injetar vida nova nas coisas - ser fiel ao fenômeno sem tentar duplicá-lo".

Nem mesmo o som caseiro de "O Brother" é tradicional. "Esse disco e esse filme jamais foram elaborados com a intenção de serem um autêntico álbum tradicional", diz ele. A intenção era que fosse um disco de rock and roll. A sensação transmitida por 'Man of Constant Sorrow', por exemplo, é bem vinculada ao rock and roll. Uma versão empolgante e animada. Não importa se a marcação de fundo seja feita por guitarra ou percussão. A questão é onde este ritmo se encontra".

Em uma conversa telefônica, Costello descreveu a abordagem de Burnett da seguinte forma: "Ela transmite uma sensação de tempo e espaço, mas ao mesmo tempo desloca um pouco essas dimensões a fim de mostrar o estado de intranqüilidade no qual estamos vivendo".

Burnett manteve os modos afidalgados e a fala pausada que são características da sua criação no Texas. Ele cresceu em Forth Worth, onde T-Bone era o seu apelido de infância. Após ser ridicularizado pelos músicos texanos que acharam que ele estava se comparando ao grande guitarrista de blues T-Bone Walker, ele a princípio usou o seu nome de batismo, J. Henry, retornando a seguir a T Bone, sem o hífen. Burnett circulou entre as duas costas do país, tocando com Bob Dylan em clubes da Bleecker Street e a seguir com o Rolling Thunder Revue. Esta banda se transformou na Banda Alpha, e lançou três álbuns com músicas compostas por Burnett na década de 1970.

Na sua primeira visita a Los Angeles, Burnett se apresentou com o Taj Mahal e Delaney Bramlett, em um show que durou a noite toda. Lá, ele decidiu que Los Angeles era menos facciosa que Fort Worth, e um bom local para um músico. Ele está estabelecido na cidade, mas ainda se mostra ambivalente quanto a isso, três décadas depois.

"Eu absolutamente não consigo suportar a hierarquia do show business", admite ele. "Uma das coisas que ocorre nesta cidade é que todos os dias algum cara ruim consegue um grande contrato. Isso é frustrante, e existem artistas realmente ótimos que não podem trabalhar em Los Angeles porque todas essas pessoas devoram toda a atenção e o dinheiro. Isso é terrível. Mas, por outro lado, existe sempre um grande grupo de artistas incríveis na cidade. E há muitos músicos simples por aqui. Mas, ao mesmo tempo, este é um lugar perigoso, capaz de nos devorar".

"The True False Identity" é o primeiro álbum de Burnett com as suas próprias músicas desde 1992. "Eu esperava ouvir falar dele", disse Costello. "Me perguntava se o havíamos perdido como artista de gravações para o mundo da produção e do cinema". Para fazer o álbum, ele montou uma banda em torno de três bateristas e o afinado e agudo guitarrista Marc Ribot, que trabalhou regularmente com Tom Waits. Com os bateristas constantemente comandando o ritmo, as músicas seguem rumos assemelhados a improvisos, que aceleram e desaceleram, oscilando entre blues e reggae. A sua voz lembra a de Bob Dylan e a de John Lennon, quando Burnett canta rimas ilógicas, observações socio-políticas e sons assombrados por amores perdidos, não poupando nem a sim próprio, nem o mundo imperfeito ao seu redor.

Burnett é decididamente cristão, embora não seja fundamentalista. Em "Blinded by the Darkness", no novo álbum, Burnett declara, "Em sete dias Deus criou a evolução", pouco antes de a música explodir em uma improvisação vertiginosa.

A longa lacuna entre álbuns foi em parte o resultado dos seus vários outros projetos: não apenas filmes, mas o álbum ganhador do Grammy de Tony Bennet e K.D. Lang, e o novo álbum de Cassandra Wilson, "Thunderbird". Para "Cold Mountain", ele compôs a música ganhadora do Oscar "The Scarlet Tide", com Costello, e refez os sons de Johnny Cash e June Carter com Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon para "Walk the Line". Burnett atualmente trabalha em "Across the Universe", um filme de Julie Taymor marcado por músicas dos Beatles.

O atraso entre os álbuns foi também uma resposta aos tempos atuais, disse ele. "Havia uma revolução genuína na década de 1960, ou aquilo que era chamado de "os anos 60", embora tenha começado antes disso", disse ele. "O mundo era um local bem melhor para isso. E temos presenciado nos últimos 30 anos uma clássica contra-revolução maoísta, tentando desfazer o que foi feito e promover um retorno a algum lugar do passado. Mas esta contra-revolução literalmente perdeu o fôlego".

"Senti a parede de tijolos com a qual nos defrontávamos desmoronar, e percebi a liberdade circulando dentro de mim", acrescentou Burnett.
"Liberdade com o meus instrumento, com a minha voz e com as minhas palavras". Ele se isolou durante duas semanas no norte da Califórnia, próximo a Big Sur. "Escrevi 200 páginas. Sem esforço algum. Uma das coisas que aprendi é que se você coopera com o universo, este coopera com você".

Na manhã seguinte teve início um dia típico de T Bone em Hollywood: fazendo edições finais de rádio (versões mais curtas) para músicas como "The True False Identity", almoçando com o baixista virtuoso e polivalente Edgar Meyer, e mantendo uma reunião de negócios com Edge, do U2, e a seguir participando de uma reunião de gala da Associação de Escritores da América onde a namorada de Burnett, a roteirista e diretora Callie Khouri, receberia um prêmio por ter escrito "Thelma and Louise", que foi considerado uma dos 101 melhores roteiros pela associação.

O estúdio de Burnett, em uma das salas da sua casa, se centra no antigo painel de 24 trilhas que gravou os álbuns the The Doors e o quarto álbum do Led Zepellin (ou "Zoso"). Uma foto do artista de blues Jimmy Reed, empunhando uma guitarra K 161, está sempre à vista da cadeira do produtor. "Está faltando um botão no instrumento", observou Burnett.

Existe um gravador analógico de fita à direita e um velho controlador de operadora telefônica aos quais há fios conectados. Um computador Pro Tools está à esquerda. As estantes de livros trazem coleções de Shakespeare, Noel Coward, Hank Williams e Leonardo da Vinci, assim como LPs e fitas de rolo. Na parede há pedaços de fita adesiva branca, com as anotações "GTR", "BS" ou "Mandocello", que revelam que instrumento estava em qual trilha nas mais recentes produções de Burnett.

"É algo muito no estilo Rube Goldberg", afirma ele. "Penso neste lugar como aquele show, 'Monster Garage', como um estabelecimento no qual é possível transformar a música naquilo que se desejar. É claro que a melhor forma de transformá-la ocorre quando o músico realiza tal transformação quando a música está sendo tocada. Aqueles é que se constituem nos cálculos realmente profundos".

Burnett chama a si próprio de "uma pessoa não técnica", mas ele é quase místico na sua determinação de capturar aquilo que chama de "complexidade harmônica": a riqueza dos sons naturais. "Ele possui um entendimento bem amplo da ciência do som", observou Wilson em uma entrevista por telefone. Na turnê, ele está tocando em pequenos teatros escolhidos pelas suas qualidades acústicas, entre ele o Town Hall, em Nova York, em 1º de junho.

Nas suas produções, aquilo que soa como realismo sem adornos pode não ser nada disso. "Coloquei muitas coisas que não podem ser ouvidas nas gravações", diz ele. "No disco de Gillian Welch, usamos duas guitarras e um vocal, uma pequena orquestra que não era ouvida, e depois zumbidos, estalos e ruídos de fundo, e talvez até uma máquina, que também não seria ouvida. E quando aglutinamos tudo, o que se ouve são duas guitarras e uma voz, mas todos os elementos citados estão empurrando o som para fora dos alto-falantes".

Atualmente ele está se empenhando na sua produção, algo com o qual raramente se sentiu confortável. Nas semanas que antecederam o lançamento do álbum, ele tocou não apenas para os supervisores musicais, mas também nos escritórios da Amazon.com, Best Buy e estações de rádio. "Quando era um garoto, resisti a tudo isso visceralmente", conta Burnett. "E agora vejo tal coisa como um privilégio incrível. 'Ah, será que você me deixa ter um espaço de 30 minutos no rádio e falar o que desejar?' Não sinto que tenha que provar qualquer coisa a qualquer pessoa. Só estou dizendo a verdade. Creio que se alguém não gosta de mim, pelo menos não gosta de mim devido à verdade".

Naquela noite Burnett saiu da sua reunião com Edge bem a tempo de participar do evento da Associação de Escritores, e assistir ao discurso de aceitação de Khouri. Ela estava nervosa, e o telefone celular de George Lucas tocou nomeio do discurso. Mas Khouri fez com que os colegas escritores rissem ao fazer uma piada sobre como as pessoas estão dispostas a "ajudar" com um roteiro. A seguir, eles a aplaudiram por um toque final de humildade. "Ela é bem real", disse Burnett mais tarde, enquanto figurões o abordavam para falar sobre projetos cinematográficos. "Sempre percebi que se você estiver perdido, deve ser autêntico, e assim descobrirá uma saída para a situação". Danilo Fonseca

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