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17/05/2006

Apesar dos problemas, CIA volta a crescer após cortes da década passada

The New York Times
Mark Mazzetti

em Washington
Apesar de todas as suas disfunções e fracassos recentes, a CIA que o general Michael V. Hayden se prepara para herdar está muito bem encaminhada na rota para a reconstrução da sua rede de bases no exterior, além de estar recompondo o seu quadro de pessoal, que foi arrasado nos anos que se seguiram ao fim da Guerra Fria.

Os turbulentos 19 meses da diretoria de Porter J. Goss foram marcados por lutas internas e pela saída amargurada de vários oficiais de inteligência experientes. Mas aquele foi também um período no qual uma enxurrada de novos funcionários ingressou na agência, e a CIA abriu ou reabriu mais de 20 escritórios ou bases no exterior.

Autoridades da CIA dizem que até o ano que vem a agência espera triplicar, em relação a 2001, o número de oficiais de inteligência operacional. A esperança é que uma rede de espionagem fortalecida permita que a agência comece pelo menos a fazer progressos na penetração de sociedades fechadas como a Coréia do Norte e o Irã.

Informações referentes ao notável aumento da quantidade de agentes operacionais e de estações no exterior, que não haviam sido divulgadas anteriormente, foram fornecidas como resposta aos questionamentos a respeito do esforço pela reconstrução da agência. Os oficiais de inteligência da ativa e aposentados que foram entrevistados para este artigo tiveram garantido o anonimato para falarem a respeito da contratação de novos funcionários e das operações no exterior, cujos detalhes são sigilosos. Porém, eles não falaram sobre os números precisos de agentes operacionais ou bases no estrangeiro.

A reconstrução no longo prazo da agência teve início sob o predecessor de Goss, George J. Tenet, que no final da década de 1990 persuadiu o Congresso a começar a reverter os cortes de orçamento e pessoal que foram implementados após a derrocada da União Soviética, período no qual a agência perdeu a missão para a qual foi criada, meio século antes.

Os oficiais de inteligência atuais e aposentados dizem que ainda demorará muitos anos até que a agência seja capaz de atender às metas de uma diretriz presidencial, anunciada em 2004, no sentido de aumentar o número de agentes operacionais e analistas de inteligência em 50%.

Há quem alegue que o simples fato de a agência ficar maior não implicará necessariamente em uma melhor inteligência. Na verdade, uma ênfase apenas no tamanho poderia desviar recursos destinados aos locais estratégicos nos quais eles são mais necessários - "roubando Pedro para pagar a Paulo", nas palavras do senador Pat Roberts, republicano do Kansas, e chefe do Comitê de Inteligência do Senado.

"Tenho certa preocupação quanto a isso", afirma Roberts. "Não se trata apenas de números. O fato é que a agência precisa ser mais agressiva".

Mas a reconstrução das operações de espionagem da CIA no exterior deve auxiliar a iniciativa de John D. Negroponte, diretor de inteligência nacional, no sentido de voltar a focar os esforços da agência nas suas missões centrais de combate ao terrorismo e roubo de segredos no exterior. Hayden, nomeado pelo presidente Bush na semana passada para suceder a Goss, é atualmente o principal subordinado de Negroponte, e é tido como um defensor do fortalecimento da área de inteligência humana da agência.

Na próxima quinta-feira Hayden será sabatinado pelo Comitê de Inteligência.

Quanto a Goss, ele tem falado pouco publicamente desde que foi obrigado a deixar o cargo, em 5 de maio, depois daquilo que o presidente Bush chamou de um "tempo de transição", um período turbulento durante o qual a CIA perdeu o seu status de principal agência de espionagem do país. Mas os seus colegas dizem que Goss, ele próprio um ex-agente operacional, fez do fortalecimento das redes de espionagem uma das prioridades da sua administração.

Embora os expurgos e renúncias de funcionários graduados que trabalharam com Goss tenham abalado a sede da agência, no norte do Estado de Virgínia, e contribuído para um acentuado declínio da moral dos funcionários, alguns oficiais de inteligência veteranos dizem não ser provável que a comoção lá ocorrida tenha resultado em algum grande efeito sobre os agentes operacionais no exterior.

"Os norte-americanos tendem a ter uma visão de cima para baixo do mundo, e acham que os diretores realmente fazem uma grande diferença", disse Reuel Marc Gerecht, um ex-membro do serviço clandestino da CIA, e atualmente pesquisador do American Enterprise Institute. "Isso certamente não é verdade na agência".

Além do mais, a agência ainda desfruta de uma multidão de candidatos que desejam ingressar em suas fileiras. Esta onda pouco diminuiu desde o período imediatamente após o 11 de setembro. No ano fiscal que terminou em 30 de setembro do ano passado, o número de candidatos a oficial de inteligência da CIA foi de 121 mil, comparado a 136 mil em 2002 e a 138 mil em 2003. Neste ano, as estatísticas da agência revelam que ela já recebeu 84 mil currículos, uma média de 2.000 a mais por mês do que no ano passado.

Um problema maior tem sido manter os novos funcionários na agência. O maior índice de evasão, de 5,9%, ocorre entre os funcionários que entraram mais recentemente, aqueles com menos de cinco anos de serviço. Alguns funcionários dizem que com a onda de contratações ocorrida após o 11 de setembro, tem sido difícil promover o treinamento dos novos oficiais de inteligência para que estes ocupem postos, um problema que contribui para que os novos contratados peçam exoneração.

Além desta evasão de novos funcionários, os oficiais de inteligência dizem que o chefe do Serviço Clandestino Nacional - um funcionário veterano que antes chefiava as operações da CIA na América Latina e que dirigiu o Centro de Contra-Terrorismo, mas cuja identidade permanece secreta - pretende se aposentar no próximo verão. Caso Hayden seja aprovado após a sabatina no Senado, ele nomeará o quarto diretor, em um período de dois anos, para o serviço clandestino, a antiga Diretoria de Operações de Inteligência.

Oficiais de inteligência da ativa e aposentados dizem que, em termos de número de funcionários, o pior momento para a CIA, especialmente para o serviço de operações clandestinas, ocorreu em 1999, quando o setor de inteligência humana da agência foi reduzido em 20% em relação aos patamares dos tempos da Guerra Fria.

Mas as críticas dos parlamentares às deficiências da agência no que diz respeito à sua capacidade de roubar segredos se intensificaram mais recentemente, especialmente à luz das avaliações errôneas relativas aos programas de armamentos do Iraque, e da constante dificuldade em determinar a situação de tais programas no Irã e na Coréia do Norte.

No seu relatório autorizando a legislação de inteligência de 2005, o Comitê de Inteligência da Câmara criticou aquilo que chamou de "negativa disfuncional de qualquer necessidade de ação corretiva" quanto à maneira como a CIA coleta inteligência humana, ou Humint, na sigla em inglês.

"Após um ano tentando convencer, sugerindo, rogando, espicaçando, cortejando e pressionando a CIA para que esta promovesse mudanças amplas na forma como realiza a sua missão Humint, a agência, segundo o ponto de vista do comitê, continua descendo pela estrada que leva ao penhasco proverbial", disse o relatório.

Após assumir a diretoria da agência, em outubro de 2004, Goss exerceu pressões pela reabertura de vários escritórios e bases que foram fechados na década de 1990. Mas ele nunca conseguiu estabelecer vínculos estreitos com a Casa Branca, era tido pelos seus subordinados como distante e colidiu com Negroponte no momento de determinar onde a CIA se encaixaria na nova rede de inteligência dos Estados Unidos.

Quaisquer que sejam os acréscimos ao potencial da agência na área de inteligência humana, Hayden será o primeiro diretor a iniciar o seu mandato sabendo que a CIA não é mais o centro da vasta burocracia de inteligência dos Estados Unidos. O seu papel histórico como principal agência para a coleta e análise da inteligência está sendo desafiado em frentes múltiplas. Por exemplo, o Pentágono tem ampliado a sua atuação na área de coleta de inteligência, enquanto Negroponte se empenha em colocar alguns analistas de inteligência da CIA diretamente sob o seu controle. Danilo Fonseca

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