UOL Notícias Internacional
 

17/05/2006

Força da União Africana trava uma batalha solitária contra a violência

The New York Times
Lydia Polgreen*

em Menawashei, Sudão
O major Essodina Kadangha perseguia freneticamente um bando de militantes árabes que assaltou moradores da vila quando estes seguiam para o mercado.

"Pare! Pare! Pare!", gritou Kadangha, um oficial do exército togolês, procurando ser ouvido do teto do veículo blindado de transporte de tropas que corria pelo deserto. "Você passou pela curva!".

Mas ele não conseguia se comunicar com o motorista nigeriano que conduzia o blindado canadense. Os rádios que lhes foram doados funcionam em freqüências diferentes, impossibilitando as comunicações entre eles. Os militantes, conhecidos como janjaweed, conseguiram fugir naquele dia, assim como fogem quase todos os dias no brutal conflito que devasta Darfur.

Estes são alguns dos problemas enfrentados pela força da União Africana que luta para debelar a violência nesta região desolada, na qual pelo menos 200 mil pessoas morreram e mais de dois milhões foram expulsas dos seus lares.

Desde que foi mobilizada para monitorar um cessar-fogo constantemente violado, a força composta por 7.000 soldados teve a sua eficiência reduzida devido ao equipamento inadequado, ao pequeno contingente que corresponde a uma média de apenas um soldado por cada 72 quilômetros quadrados e, acima de tudo, a uma autoridade de ação muito limitada, que com freqüência a impossibilita de enfrentar os combatentes e conter o derramamento de sangue.

O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou na terça-feira (16/05), por unanimidade, uma resolução que obriga a observância estrita de um frágil acordo de paz entre o governo e a maior facção rebelde, e também ordenou a aceleração dos planos para a criação de uma força de paz da ONU. Muitos diplomatas argumentam que tal força deveria ter pelo menos o dobro do tamanho das tropas da União Africana.

Mas mesmo se o governo de Cartum concordar com a presença de tropas de paz da ONU em solo sudanês, essas forças só poderão ser enviadas ao Sudão, na melhor das hipóteses, em setembro. Até lá, a força da União Africana é quase que a o único fator que determinará o sucesso ou o fracasso do novo acordo de paz.

"Precisamos fortalecer a nossa força da União Africana na área", disse na semana passada, após visitar Darfur, Jan Egeland, o principal funcionário do setor de auxílio das Nações Unidas. "A região está pendendo sobre o fio da navalha, entre uma paz há muito aguardada e um caos ainda maior, e o protagonista crítico será a União Africana".

"Esta é a nossa esperança", disse Egeland. "Esta é realmente a diferença atual entre o cenário bom e o ruim".

O esforço concentrado por parte de diplomatas africanos e ocidentais no sentido de chegar a um acordo de paz em 5 de maio poderá ser posto a perder caso a União Africana seja incapaz de proporcionar segurança nas semanas e nos meses que estão por vir. Questões delicadas como o desarmamento das milícias janjaweed pró-governo, cuja conclusão está agendada para outubro, ocorrerá sob os auspícios da União Africana, uma força mal equipada para lidar com as suas atuais atribuições, que são limitadas, e muito menos com novas funções potencialmente explosivas.

Cinco dias passados em patrulhas com as tropas da União Africana em Darfur demonstraram a disposição desta força, mas também as suas profundas limitações.

Odiada por várias das pessoas que deveria proteger e por aqueles que precisa monitorar, a Missão Africana no Sudão, conhecida pela sigla em inglês AMIS, até o momento demonstrou ter pouco poder para modificar a violenta dinâmica na região.

"À medida que a situação de segurança piora gradativamente, a credibilidade da AMIS em Darfur como uma força de proteção militar e civil atinge o seu patamar mais baixo", anuncia um relatório divulgado em março último pelo Grupo Internacional de Crise, uma organização de pesquisa que procura reduzir os conflitos violentos. "Os beligerantes demonstram ter pouco respeito, desafiando continuamente as tropas de paz sem enfrentarem uma resposta forte".

O coronel Muraina Raji, comandante de cerca de 800 soldados estacionados em Nyala, a capital da província de Darfur do Sul, disse que a missão de manutenção de paz na região é possível, mas não com os recursos dos quais ele atualmente dispõe.

"Caso eles nos tivessem fornecido os recursos, poderíamos realizar essa missão", afirmou o coronel. "O meu setor é muito amplo, mas só conto com um batalhão. Se eu tivesse três batalhões, estaria em situação confortável".

Atualmente, os seus oficiais precisam fazer o que podem com aquilo que têm.

Armado com apenas um espesso notebook, Kadangha, o observador militar togolês que está aqui há dez meses foi até a vila de Menawashei, em Darfur do Sul, a fim de avaliar a situação da segurança. Ele já esteve aqui diversas vezes, e a história é sempre a mesma - bandidos árabes montando camelos ou cavalos atacando as vilas não árabes. Às vezes eles apenas roubam. Em outras, eles estupram e matam. Nesse dia Kadangha recebeu um relatório sombrio, comprovando que ambas as ações foram perpetradas pelos árabes.

Kadangha ouviu e tomou notas cuidadosamente enquanto os moradores descreviam os ataques ferozes conduzidos pelos militantes árabes na última quinta-feira. Eles mataram uma mulher, balearam outras seis e estupraram 15, segundo as testemunhas.

O xeique da vila, Omar Muhammad Abakar, não ficou feliz em ver o major.

"Não quero falar com você", disse ele. "Eu lhe forneci diversos relatórios, mas você nada fez. Vários casos foram relatados e você realizou muitas patrulhas. Porém, não fez nada de concreto".

Isto é algo que Kadangha ouve todos os dias. Ele recolhe dezenas de relatórios e os envia à comissão de cessar-fogo, composta de representantes das facções beligerantes, mas nunca acontece nada aos violadores.

Coletar relatórios e realizar patrulhas é praticamente tudo o que a União Africana possui autorização para fazer. Desde que chegou, em 2004, a força da União Africana está aqui para monitorar - mas não para fazer cumprir - um acordo de cessar-fogo constantemente violado, assinado entre os rebeldes e o governo naquele ano em Ndjamena, a capital do Chade.

Este papel circunscrito foi um compromisso com o governo do Sudão, que nega que no país estejam ocorrendo limpeza étnica e genocídio, conforme o governo Bush classificou a matança em andamento no Sudão. Em vez disso, o governo tem dito constantemente que a crise de Darfur é um conflito tribal interno com o qual ele deveria lidar sem interferência externa.

Manietado devido à sua incapacidade de usar a força em vários casos, o contingente da União Africana foi rotulado de ineficiente no Ocidente e pelo povo que está encarregado de proteger. Desde que o novo acordo de paz foi assinado, levantes violentos contra a União Africana ocorreram nos vastos campos de refugiados em Darfur, acarretando a morte de diversas pessoas.

Devido a problemas financeiros, os soldados da União Africana são pagos de maneira irregular. Muitos deles não recebem o seu pagamento há dois ou três meses. Mas o seu trabalho é difícil - eles fazem patrulhas sob um sol inclemente de manhã até a noite, e cada um dos militares leva consigo apenas uma pequena garrafa d'água e nenhuma alimentação.

Darfur é muitas vezes descrito como tendo o tamanho aproximado da França ou do Texas, embora nenhuma das duas comparações possa dar conta da enormidade deste lugar. Tanto o Texas quanto a França são cortados por estradas e linhas telefônicas que fazem com que a movimentação e a comunicação entre longas distâncias sejam coisas simples.

Já o território de quase 520 mil quilômetros quadrados de Darfur é vasto e de difícil acesso, cortado por apenas uma grande estrada pavimentada. Uma jornada de umas poucas dezenas de quilômetros pode significar uma aventura capaz de consumir a metade do dia, em meio a buracos e poeira. Uma jornada de 120 quilômetros ou mais geralmente requer uma viagem durante toda a noite.

Em relação ao tamanho deste território, a força da União Africana é tão pequena que, caso fosse espalhada pela região, cada soldado ficaria encarregado de supervisionar uma área maior do que Manhattan. A título de comparação, a Libéria, que tem um pouco menos de um quarto do tamanho de Darfur e a metade da população desta região sudanesa, que é de seis milhões de habitantes, conta com uma força de paz da ONU de 15 mil soldados.

A União Africana possui apenas 25 helicópteros, que ela precisa manter nos aeroportos locais controlados pelas autoridades sudanesas. Os aeroportos são fechados à noite, de forma que as autoridades da União Africana são incapazes de utilizar facilmente as aeronaves após o pôr do sol. O governo canadense doou os helicópteros, mas paga apenas mil horas de vôo por mês, de maneira que o tempo das aeronaves no ar é altamente racionado.

As deficiências da União Africana afastaram os doadores, fazendo com que a missão ficasse praticamente sem dinheiro. O seu mau desempenho é causado em parte pela falta de verbas, mas os seus apoiadores financeiros insistem em dizer que a força atuava melhor antes que eles tivessem aumentado as contribuições financeiras, de forma que a missão tem lutado para conseguir dinheiro para prosseguir com a sua missão em 2006.

O governo Bush solicitou US$ 50 milhões para apoiar a força em 2005, mas o Congresso não aprovou o pedido. Em dezembro do ano passado a União Européia forneceu 70 milhões de euros, ou US$ 90 milhões, mais anunciou que não doaria mais dinheiro depois que a sua confiança na força foi abalada quando quatro soldados nigerianos da União Africana e dois empreiteiros foram mortos em outubro de 2005.

No entanto, a União Européia acabou demonstrando compaixão, e no mês passado forneceu outros US$ 50 milhões. Somente o Reino Unido doou US$ 35 milhões em fevereiro. Os Estados Unidos ainda aguardam a aprovação de uma legislação suplementar de gastos para determinar o quanto doará.

Este fluxo súbito de verbas tem como objetivo revigorar as tropas africanas até que as Nações Unidas possam chegar aqui.

Enquanto isso, a União Africana é acusada de ser responsável por parte das deficiências da missão. Quando o seu Conselho de Paz e Segurança se reuniu em março, ele rejeitou uma recomendação no sentido de que a força fosse ampliada para mais de 12 mil soldados, e em vez disso se concentrou em conquistar um acordo de paz nas negociações mantidas na Nigéria.

Agora que um tratado de paz foi assinado, embora seja um acordo parcial, que inclui apenas uma das três principais facções rebeldes que aqui atuam, a União Africana precisa gerenciar de alguma maneira a situação volátil até que as Nações Unidas cheguem. "Estamos aqui, prontos para dar o melhor de nós", disse Raji, o comandante que atua em Nyala. "Só precisamos de que o mundo venha e nos ajude a superar estas dificuldades".

*Joel Brinkley, em Washington, e Warren Hoge, na Organização das Nações Unidas, contribuíram para esta matéria Danilo Fonseca

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