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18/05/2006

Com arsenal de equipamentos eletrônicos, estudantes encontram novas maneiras de colar

The New York Times
Jonathan D. Glater

em Los Angeles
Na Universidade da Califórnia em Los Angeles, um aluno armazenou as suas anotações de aula em um dispositivo portátil para envio e recebimento de e-mails, e tentou lê-las durante uma prova. Um colega de turma o denunciou. Na Escola de Jornalismo da Universidade Estadual San Jose, alunos tentaram usar um corretor ortográfico nos seus laptops, sendo que parte da prova fora elaborada exatamente para avaliar a sua capacidade de escrever corretamente.

E na Universidade de Nevada, em Las Vegas, depois que alunos fotografaram questões de uma prova com as câmeras de seus telefones celulares, transmitiram-nas aos colegas que estavam fora da sala de exame e receberam as respostas em mensagens de texto, a universidade colocou em vigor um novo sistema de vigilância.

"Se eles dedicassem tanto tempo aos estudos, seriam todos alunos com nota A", disse um exasperado Ron Yasbin, reitor da Faculdade de Ciências da Universidade de Nevada.

Com o seu arsenal de artefatos eletrônicos, os alunos de hoje têm facilidade em colar. E, assim, ao se depararem nos últimos anos com uma gama de técnicas criativas, professores e dirigentes das universidades se vêem como integrantes de um novo jogo de gato e rato, procurando neutralizar os prováveis coladores nesta temporada de provas com uma série de estratégias - cortando o acesso dos laptops à Internet, exigindo a entrega de telefones celulares antes das provas, ou simplesmente determinando que os exames sejam feitos à moda antiga, com canetas e papel.

"Isso é um incômodo", reclama Ryan M. Dapremont, 21, que acabou de concluir o seu terceiro ano na Faculdade Seaver, da Universidade Pepperdine, e que se vê obrigado a fazer as provas em papel.

"A minha caligrafia é muito ruim", diz ele. "Sempre que preciso escrever em um caderno de provas, tenho cãibras nas mãos, e não consigo redigir com rapidez".

Dapremont diz que a tecnologia fez com que ficasse mais fácil colar, mas acrescentou que o plágio nas redações e dissertações é provavelmente um problema maior, já que os alunos podem retirar facilmente os escritos de outras pessoas na Internet sem dar a estas o devido crédito.

Mesmo assim, alguns alunos dizem acreditar que atualmente a cola é mais um produto da mentalidade, e não das ferramentas à disposição dos estudantes.

"Certas pessoas ficam obcecadas por conseguir algo no futuro, e não
conseguem parar de pensar na pós-graduação e no próximo passo a ser dado", opina Lindsay Nicholas, estudante de terceiro ano da Universidade da Califórnia em Los Angeles. "Essa pressão para atingir o sucesso às vezes eclipsa tudo e leva as pessoas a fazer coisas que não deveriam ser feitas".

Em uma pesquisa realizada com quase 62 mil estudantes de graduação em 96 campi, durante quatro anos, dois terços dos estudantes admitiram colar. A pesquisa foi realizada por Don McCabe, professor da Universidade Rutgers especializado em má-conduta acadêmica, e contou com o auxílio do Centro de Integridade Acadêmica da Universidade Duke.

David Callahan, autor do livro "The Cheating Culture: Why More Americans Are Doing Wrong to Get Ahead" ("A Cultura da Trapaça: Por que Mais Americanos Estão Agindo Erradamente Para Obter Sucesso"), lançado em 2004, pela Editora Harcourt, sugeriu que os alunos de hoje em dia se sentem mais pressionados para obter sucesso a fim de ingressar em escolas de pós-graduação ou profissionais e garantir um emprego.

"Os incentivos racionais para que os estudantes universitários colem
aumentaram dramaticamente, e paralelamente a isso, a força de vontade
necessária para resistir a essas tentações sofreu um certo enfraquecimento", opina Callahan.

Quaisquer que sejam os motivos para a cola, as autoridades universitárias dizem que a batalha contra a trapaça os está desgastando.

Embora Brian Carlisle, vice-reitor da Universidade da Califórnia em Los
Angeles, diga que a maioria dos estudantes não cola, ele fala que está
cansado dos casos de desonestidade acadêmica.

Ele comentou o caso do aluno que armazenou as anotações de aula no seu
aparelho portátil de e-mail Sidekick no outono passado. Carlisle falou
também a respeito de estudantes que pediram cola a amigos por meio de tais aparelhos, e de outros que programaram as suas calculadoras com fórmulas que não poderiam ser consultadas durante as provas. Alguns alunos se dignaram até a usar a tradicional cola de papel, disse Carlisle.

"Uma das coisas nas quais estaremos prestando bastante atenção é o uso de iPods", acrescentou Carlisle, observando que com um dispositivo de audição sem fio, tais esquemas seriam difíceis de detectar.

Um denunciador fio do fone de ouvido de um iPod foi a desgraça de um aluno da Universidade Pepperdine há uns dois anos, depois que ele gravou as suas anotações em um reprodutor digital de música, e tentou ouvi-las durante uma prova.

"Faz 30 anos que leciono, e a cada ano algo de novo surge no cenário", diz Sonia Sorrel, a professora que pegou o aluno desonesto em flagrante.

Na Escola de Administração Anderson da Universidade da Califórnia em Los Angeles, o centro de transmissão sem fio é desativado durante as provas finais para impedir o acesso à Internet.

Richard Craig, professor da Escola de Jornalismo e de Comunicações de Massa da Universidade Estadual San Jose, e que pegou os estudantes usando o corretor ortográfico no ano passado, disse que, para as provas, posicionou as carteiras de tal forma que os alunos fiquem de costas para ele. O professor, no entanto, é capaz de ver as telas dos computadores dos alunos.

"Foi uma forma diabolicamente simples de lidar com o problema", disse Craig.

Na Universidade de Nevada, Yasbin, o reitor, não foi o único a ficar
incomodado com o episódio de cola por meio das câmeras de celulares ocorrido naquela instituição em 2003. Os alunos honestos também ficaram estarrecidos. Eles sugeriram que uns policiem os outros, atuando como supervisores de provas.

"Os alunos andam pela sala onde são realizadas as provas, e se virem algo de suspeito, relatam aos professores", disse Yasbin.

Amanda M. Souza, estudante de graduação do terceiro ano que lidera o
programa de vigilância, disse que os seus colegas têm reações diversas com relação aos estudantes monitores.

"Aqueles que não colam acham que esta é uma grande idéia", disse ela. "Você sempre vê alunos que estão realmente bem preparados cobrindo as suas provas para não serem vítimas dos coladores. Mas os que não estão preparados provavelmente não gostam de nós".

Na Faculdade Comunitária do Condado de Mercer, em West Windsor, Nova Jersey, os alunos precisam apagar a memória de suas calculadoras, e às vezes entregar os seus telefones celulares antes das provas. Na Universidade Brigham Young, as provas são administradas em um centro de testes no qual os equipamentos eletrônicos são geralmente proibidos.

Em algumas turmas da Universidade Butler, em Indianápolis, os professores utilizam um software que lhes permite observar os programas que rodam nos computadores dos alunos que fazem prova, de forma que possam ter certeza de que ninguém está procurando respostas na Internet. E algumas instituições chegaram a instalar câmeras nas salas em que as provas são administradas.

Para fazer uma prova final na semana passada, Alyssa Soares, estudante do terceiro ano de Direito na Universidade da Califórnia em Los Angeles, precisou ativar um software que cortou o acesso do seu laptop à Internet, retirou os recursos de comunicação sem fio da máquina e a impossibilitou até mesmo de ler os seus próprios arquivos gravados. O seu computador se transformou de fato em uma louvável máquina de datilografar. Soares, 28, disse não se importar. "Isso assegura que todos estão em pé de igualdade", afirmou a estudante.

Vários professores disseram ter tentado elaborar provas nas quais seja
difícil colar, formulando perguntas que fontes externas não ajudariam os alunos a responder. E em várias instituições os diretores afirmaram que confiam nos códigos de honra dos campi.

"Partimos do pressuposto de que qualquer estudante que tenha ingressado na nossa universidade seja um indivíduo do mais alto gabarito, que tenha demonstrado este fato repetidamente, e que possua aquilo que é necessário para realizar o seu próprio trabalho", diz Gila Reinstein, porta-voz da Universidade Yale.

Para desencorajar a desonestidade acadêmica, vários professores disseram que o mais importante é, desde o princípio, ensinar os alunos a não trapacear.

"A criação de uma 'dissuasão nuclear' contra a cola nas salas de aula, dando talvez a impressão de que tal conduta é aceitável em outros lugares, é algo contrário a tudo o que deveríamos estar fazendo como educadores", disse Timothy Dodd, diretor-executivo do Centro de Integridade Acadêmica.

Danilo Fonseca

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