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18/05/2006

"O Código da Vinci" é recebido com frieza pela crítica

The New York Times
A.O. Scott

em Cannes, França
Parece que hoje em dia é impossível lançar um filme sem que se provoque uma espécie de guerra cultural, pelo menos na mídia que anda em busca de conflitos. A história recente - "A Paixão de Cristo" ("The Passion of the Christ", EUA, 2004), "As Crônicas de Narnia: o Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa" ("The Chronicles of Narnia: The Lion, the Witch and the Wardrobe", EUA, 2005) - sugere que tal controvérsia, especialmente quando há religião envolvida, pode se constituir em um negócio muito bom.

"O Código da Vinci" ("The Da Vinci Code", EUA/França, 2006), a adaptação de Ron Howard do best-seller de Dan Brown - que é um manual sobre como não escrever uma sentença em inglês - é lançado no rastro do que é mais do que a sua parcela de disputas teológicas e históricas.

As querelas sobre o filme e o livro que o inspirou não se arrastam há um milênio - apenas tem-se a impressão de que é isso o que ocorre -, mas parte da engenhosa estratégia de marketing da Columbia Pictures foi encorajar meses de debates e especulações e, ao mesmo tempo, não permitir que ninguém visse o filme até o último minuto. Assim, houve um verdadeiro dilúvio de análises e ensaios sobre as mais diversas questões vinculadas à obra, do acordo pré-nupcial entre Jesus e Maria Madalena às receitas secretas do Opus Dei, e perguntas urgentes e perturbadoras vieram à tona: O cristianismo é uma conspiração? "O Código da Vinci" é uma perigosa falsificação anticristã? O que aconteceu com o cabelo de Tom Hanks?

Por sorte, faltam-me conhecimentos para responder às duas primeiras perguntas. "O Código da Vinci", que abriu o Festival de Cinema de Cannes na quarta-feira (17/05), é uma dos poucos casos na história em que se pode levar mais tempo para assistir ao filme do que para ler o livro (curiosamente, Howard realizou uma façanha similar com "O Grinch" ("How the Grinch Stole Christmas", EUA, 2000), há alguns anos).

Em seu favor diga-se que o diretor e o seu roteirista, Akiva Goldsman (que colaborou com Howard em "A Luta Pela Esperança" ("Cinderella Man", EUA, 2005" e em "Uma Mente Brilhante", ("A Beautiful Mind, EUA, 2001)), enxugaram a história de Brown e se esquivaram de tentar capturar o seu estilo prosaico. "De forma quase inconcebível, a arma para qual ela agora olhava estava segura pela mão pálida de um enorme albino de cabelos longos".

Tal linguagem - observem o delicado "quase" e a inserção melindrosa de "qual" após a preposição - só é capaz de sobreviver nas páginas do livro.

Porém, para que sejamos honestos, Goldsman invoca alguns diálogos bem maduros por conta própria. "O seu Deus não perdoa assassinos", sibila Audrey Tautou para Paul Bettany (que faz o papel de um albino de cabelos curtos e que está longe de ser enorme). "Ele os queima!".

Teologia à parte, esta observação pode servir como um lembrete de que "O Código da Vinci" é acima de tudo um mistério sobre um assassinato. E, como tal, tão logo a trama começa a se desenrolar, o filme de Howard proporciona os seus prazeres. Ele e Goldsman rearranjaram habilmente alguns elementos do enredo (Tomarei cuidado para não estragar o prazer do expectador contando certos detalhes do filme), simplificando algumas passagens excessivamente elaboradas, e introduzindo outras, que mantém o filme em movimento.

A trilha musical de Hans Zimmer, trabalhada com esmero e de forma apropriada em um conjunto pop-romântico dotado de certa decoração litúrgica, paira sobre cenas que, se não fosse pelas melodias, seriam saturadas de falas e inertes. No entanto, o filme demora um pouco para sofrer uma aceleração, criando uma certa confusão enquanto procura estabelecer quem é quem, o que as pessoas estão fazendo e por que.

De forma resumida: Um velho (Jean-Pierre Marielle) é morto depois do horário de funcionamento do Louvre, com um tiro no estômago, de forma quase inconcebível, por um atacante encapuzado. Enquanto isso, Robert Langdon (Hanks), um professor de simbologia religiosa da Universidade Harvard, está dando uma palestra e autografando livros para fãs. Ele é chamado para comparecer à cena do crime por Bezu Fache (Jean Reno), um policial francês que parece muito irritadiço, talvez porque o seu departamento tenha cortado o seu orçamento para a aquisição de creme de barbear.

Logo, Sophie Neveu, uma criptóloga policial e também neta da vítima de assassinato, junta-se a Langdon. Ao que parece o vovô conhecia certos segredos muito importantes, que, caso fossem revelados, poderiam abalar as bases do cristianismo ocidental, especialmente as da Igreja Católica Apostólica Romana. Um bispo católico está, neste exato momento, viajando em um avião. Enquanto isso, o monge albino, cujo nome é Silas, que pode ser o primeiro personagem na história do cinema a falar latim em um telefone celular, se autoflagela, destrói o piso de uma igreja e mata uma freira.

A seguir, ocorre uma perseguição, conforme a cena seria definida pelos colegas norte-americanos de Bezu. Ela se desenrola pelas ruas da noite de Paris e acaba chegando a Londres na manhã seguinte, com viagens paralelas a um castelo romano e a um chateau no interior da França. Ao longo desta trajetória, o filme faz pausas para a apreciação de adereços e obras de arte, e para a exibição flash backs, em imagens descoloridas, de episódios traumáticos da infância de vários dos personagens (Langdon cai em um poço; os pais de Sophie morrem em um acidente de carro; Silas esfaqueia o pai abusador).

Há também cenas que retrocedem bastante na História, como a conversão de Constantino, a supressão dos cavaleiros templários e imagens de um período, em Londres, no qual a população usava perucas empoadas.

No decorrer de tudo isso Hanks e Tautou denotam estar confusos, deixando as suas reservas de charme escrupulosamente inexploradas. Hanks torce a boca naquilo que parece ser uma expressão de ceticismo acadêmico e, fora isso, se escora na sua genialidade fácil e suave. Tautou, determinada a garantir que o seu nome jamais surja de novo em uma busca na Internet com a palavra "gamine" (algo como "menino travesso"), traz uma expressão de fadiga preocupada.

Apesar de algumas conversas (bem menos do que no livro) sobre o divino feminino, cálices e espadas, e do poder espiritual da conexão sexual, não há uma única centelha de erotismo entre os dois astros. Talvez isto seja um fato positivo. Quando uma criptóloga e um especialista em simbologia se encontram, a coisa geralmente termina em lágrimas.

Mas agradeçam às divindades pela escolha de Ian McKellen, que aparece bem a tempo de conferir a "O Código da Vinci" um vigor maligno. Ele interpreta um rico e excêntrico intelectual britânico chamado Leigh Teabing (vou dar este crédito a Brown: em se tratando de nomes, ele é bom. Se eu algum dia tiver gêmeos ou poodles franceses, vou chamá-los com certeza de Bezu e Teabing).

Locomovendo-se com o auxílio de duas bengalas, resmungando com o seu criado, Remy (Jean-Yves Berteloot), em um momento Teabing é sorridente e a sua figura lembra a de um tio idoso. Mas, de repente, ele pode explodir como um louco vociferante. McKellen, falando sobre pinturas italianas e estátuas medievais, parece estar tendo o grande momento da sua vida, e o seu bom humor funciona como uma espécie de censura aos cineastas, que deveriam estar proporcionando um pouco mais de diversão (e também se divertindo um pouco).

Teabing, que parece sair de um romance policial inglês pela vereda obliqua de uma comédia de Tintim (título de uma série de histórias em quadrinhos criada pelo belga Hergé), é uma figura maravilhosamente absurda, e McKellen, na melhor tradição dos atores britânicos que perambulam pelos filmes norte-americanos, tem uma interpretação na qual a alta convicção parece ser indistinguível do kitsch. Um pouco mais dessa performance - um senso mais acurado do próprio ridículo - teriam conferido a "O Código da Vinci" alguma da leveza característica de um antiquado e elitizado suspense europeu.

Mas é claro que filmes de tal gênero dificilmente abordam questões como a divindade de Jesus ou a busca pelo Santo Cálice. No cinema, prefere-se deixar tais temas para o Monty Python (programa humorístico televisivo inglês). De qualquer maneira, Howard e Goldsman manuseiam o supostamente provocativo material contido no livro de Brown com luvas de pelica, escolhendo um conjunto de conclusões bastante seguro a respeito de fé e história, apresentado com a usual hipocrisia maçante.

Assim, eu certamente não posso apoiar qualquer apelo por boicotes ou protestos contra este filme movimentado, trivial e inofensivo. O que não quer dizer que eu recomende que as pessoas o assistam.

NOTAS DA PRODUÇÃO:

"O CÓDIGO DA VINCI"


Dirigido por Ron Howard; roteiro de Akiva Goldman, baseado no romance de Dan Brown, diretor de fotografia, Salvatore Totino; edição de Dan Hanley e Mike Hill; música por Hans Zimmer; desenhista de produção, Allan Cameron; produzido por Brian Grazer e John Calley; lançado pela Columbia Pictures.

Duração: 148 minutos.

Com: Tom Hanks (Robert Langdon), Audrey Tautou (Sophie Neveu), Ian McKellen (Sir Leigh Teabing), Juergen Prochnow (Vernet), Paul Bettany (Silas), Jean Reno (Bezu Fache) e Alfred Molina (bispo Aringarosa).

"O Código da Vinci" foi classificado nos Estados Unidos como PG-13 (isto significa que o conteúdo do filme pode ser inapropriado para menores de 13 anos). Ele possui algumas cenas de morte violenta e blasfêmias. Danilo Fonseca

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