UOL Notícias Internacional
 

19/05/2006

Camponeses da China apostam no futuro

The New York Times
Ullrich Fichtner
A cada dia, dezenas de milhares de camponeses chineses comunistas chegam a Macau, a Las Vegas da Ásia, para apostar o dinheiro poupado durante a vida inteira, na esperança de ter um futuro melhor. Sonham com bençãos monetárias do capitalismo, mas isso é muito ilusório.

Após passar cinco dias em Macau, e agora que sobraram apenas 230 yuan (equivalente a cerca de R$ 60) na bolsa, Chen Xi Mei se deu conta de que não agüenta mais ficar nessa ex-colônia portuguesa e Meca da jogatina asiática. Ela decide voltar para a sua vila rural empoeirada no interior da China, que fica a 16 horas de ônibus, fora mais uma hora de caminhada. Dentro da mala de rodinhas forrada de pano que ela carrega pelo terminal de ônibus com destino a Zhuhai, há algumas roupas, um telefone celular e lenços de papel - ou seja, tudo o que ela possui agora. Não há mais vestígios daquele dinheiro suado que ela economizou, e não deu em nada o sonho de ter uma vida melhor.

Chen anda por Macau como quem anda por um grande bazar em plena luz do dia, passando pelo Cassino Tsai Shen, onde camponeses jogam bacará 24 horas por dia sete dias por semana e também pelo obscuro templo do Cassino Lisboa, com seu portal iluminado por lâmpadas como se fosse um chapéu de coringa de baralho. Ela observa o novíssimo, reluzente e metálico Casssino Wynn e também observa as paredes espelhadas e douradas do Sands diante das barcaças que vão para Hong Kong. Há imitações de ruínas coloridas, imagens de relíquias e simulacros da pompa dos faraós - tudo a alcance de qualquer um, de qualquer um que tenha sorte, é claro.

A camponesa anda por ruas cheias de joalheiros e de lojas de penhores, onde os vencedores se exibem e os perdedores imploram, onde mulheres ucranianas de cabelo oxigenado circulam entre cafetões e meninas vindas de todas as partes da China exibem seus novos seios, recentemente turbinados por 4.500 yuan (cerca de R$ 1.200) cada um.

Chen está diante do prédio de apartamentos onde ela chegou a morar, pagando 100 yuan (cerca de R$ 26) a noite por um quarto sem janelas no centro de Macau, região onde os vestígios de 442 anos de domínio colonial português parecem tão deslocados como se estivessem em algum parque de diversões e onde o verdadeiro significado da expresão "casa de jogos" está totalmente visível. Mas não chega a ser um inferno, diz Chen. Apesar de tudo o que ela perdeu, ela ainda acredita que Macau é a melhor parte da China e a região que oferece o melhor padrão de vida. Ela tem certeza de que irá voltar a Macau assim que puder. E que na próxima vez, aí sim, fará uma fortuna.

Ela come um pequeno prato de macarrões numa casa de sopas taiwanesa, que fica sob o viaduto perimetral da cidade. As garçonetes servem as mesas gritando os pedidos para a cozinha, tão alto como se estivessem chamando a polícia para uma emergência. Chen veio aqui para se despedir de Wei Quihua, uma mulher baixinha e bem-humorada de quem se tornou amiga em poucos dias. Wei já apostou e perdeu 100 mil yuan (mais de R$ 25.000) - tudo o que havia arrecadado e lucrado da venda de sua loja de luminárias na província de Jiangxi.

Wei tem nas mãos uma ficha de 50 yuan do cassino Lisboa, sua última ficha de jogos, e rabisca caracteres na toalha de papel da mesa, até formar uma quadrinha com rima em chinês: "Quanto mais tempo você jogar, mais dinheiro irá perder." As duas mulheres riem. Chen Xi Mei, 30 anos, e Wei Quihua, nove anos mais velha, bebem água quente porque o chá, que custa o equivalente a quase 1 real, está caro demais para o orçamento delas.

Chen se diverte, apesar da situação que enfrenta. Quando ela sorri, fica fácil entender porque as duas palavras que formam o primeiro nome dela significam "boa" e "bonita". Ela é uma mulher esbelta com uma boca um tanto grosseira, e as expressões em seu pequeno rosto mudam rapidamente conforme seu ânimo. No dia em que sairá de Macau, ela veste uma jaquetinha de retalhos coloridos, leve demais para o inverno de janeiro, e enquanto ajeita a gola sob o queixo se protegendo do frio ela diz: "É claro que estou triste - e como poderia estar agora? Mas eu voltarei."

Ela está perto da mala com rodinhas que leva seus poucos pertences, e em sua pequena mochila de imitação de couro negro carrega os yuan que sobraram, a carteira de identidade, um passaporte e pequenos sacos plásticos - para serem usados caso ela passe mal na longa viagem que fará pelo país adentro. .

Detestando o lugar onde mora

A viagem será de mil quilômetros, indo das luzes feéricas do novo país à vetusta escuridão da velha China, onde a terra é arada por carros puxados por búfalos e onde há séculos os aldeões retiram as águas dos poços. São mil quilômetros de Macau a Zhuhai, depois seguindo para Guangzhou e de lá para Nanchang, Xishan e depois então finalmente para Zeran, a aldeia onde Chen Xi Mei cresceu - um lugar que ela odeia.

Ela se aproxima do imenso posto alfandegário na fronteira que separa o grande território comunista da China da região administrativa capitalista de Macau, onde a documentação dos viajantes é examinada 24 horas por dia, em até 40 balcões, onde os corpos dos viajantes são examinados por câmeras sensíveis ao calor que avaliam as temperaturas para detectar se há alguém infectado com a gripe das aves.

Chen desaparece na multidão, se juntando às fileiras de peregrinos que voltam de Macau e que partem para vários pontos da China. Lá estão policiais de Beijing, funcionários públicos de Hunan, gangsters de Shanghai, Guangdon e Hong Kong, anciões das aldeias, juízes, médicos e proprietários de fábricas vindos de todo o país. Atualmente Macau recebe 19 milhões de visitantes por ano ou cerca de 50 mil por dia - superando facilmente o movimento em Las Vegas. Macau se transformou na fábrica pan-chinesa de sonhos desde que os portugueses se retiraram, há seis anos. É o único lugar da China onde o funcionamento do jogo é autorizado dentro dos limites municipais, com cerca de duas dúzias de mega-cassinos. É uma engrenagem de ambição alimentada por multidões, formadas por gente simples como Chen Xi Mei, que derrama algumas lágrimas enquanto deixa Macau para trás.

Ela quer falar de sua vida. A vida de Chen é uma típica história que pode nos mostrar uma imensidão de fatos sobre a China de hoje. Chen começou a sonhar com um futuro melhor quando ainda era criança, no tempo em que uma de suas missões era a de retirar água do poço e o ombro ficava machucado pelo contato com a haste de madeira onde carregava os baldes tão pesados. Aos 17 anos, ela saiu da aldeia pela primeira vez, andando até Xishan, passando pelas choupanas onde mulheres torravam amendoins em moendas enormes, onde nas paredes estavam pintados lemas que proclamavam a vitória do comunismo.

Mas torrar amendoins numa cidadezinha da província nunca foi o maior objetivo na vida de Xi Mei. Ela sonhava era com a cidade, com as luzes mágicas, o amor e o dinheiro.

Há treze anos ela pegou o ônibus para Nanchang pela primeira vez, sem saber ao certo o que encontraria por lá. A cidade grande era estonteante e o barulho ensurdecedor para a menina da aldeia, para quem durante toda a infância o ruído mais alto havia sido o do vento soprando nos arrozais. As únicas qualificações dela eram a juventude e os três anos que havia passado na escola da aldeia. Ela encontrou trabalho numa fábrica de tapetes, onde trabalhava por turnos de 14 horas, sete dias por semana, e onde às noites dividia camas toscas e superlotadas com outras garotas, num prédio pertencente à fábrica.

Ela ganhava 300 yuan por mês (cerca de R$ 80), o que na época parecia muito dinheiro para ela. Mas, após seis meses, ela se tornou ansiosa por trabalhar com máquinas que giravam rapidamente e que às vezes devoravam o cabelo das operárias - resolveu largar o emprego. Ela poderia ter se transformado em mais uma formiguinha na multidão de milhões de trabalhadores migrantes chineses (uma dagongmei ou "irmã no trabalho") - idéia que a princípio não lhe parecia tão ruim assim.

Uma nova era

Quando ela nasceu, em novembro de 1975, Mao ainda era vivo, e o lendário Zhou Enlai ainda era o primeiro presidente da República Popular da China. Mas quando começou a frequentar a escola, numa espécie de barraco de tijolos num canto da aldeia que era dividido com o médico local, o velho estilo do comunismo já estava virando história. O premier Deng Xiaoping então proclamava a liberação das forças de mercado e encorajava os chineses a enriquecerem por conta própria. O nascimento de uma nova era - e de uma nova China - coincidia com o início da própria vida de Chen Xi Mei.

Ela via as novas palavras de ordem escritas nas paredes de sua aldeia, próximas à velha propaganda que proclamava a vitória do comunismo. O prefeito da aldeia mandou destacar a nova propaganda e, diferentemente do que acontecia na era de Mao, os novos slogans se referiam à mudança, e a uma nova era de prosperidade e empreendedorismo - Chen sentiu que estavam se referindo a vidas como a dela. Os velhos dias, o tempo de uma economia planificada, já haviam ficado para trás.

Um monumento que comemora os heróicos dias da revolução vermelha ainda está de pé em Nanchang - a primeira cidade grande que Chen pôde conhecer - uma fervilhante metrópole de 4,5 milhões de habitantes. Um enorme rifle de concreto emerge do solo no centro da cidade, com a bandeira vermelha da China tremulando da ponta de uma baioneta. É um monumento dedicado ao levante de agosto de 1927, que levou à formação do Exército de Libertação do Povo Chinês. Para os comunistas chineses, Nanchang é uma cidade de heróis - ou pelo menos era, num certo período cinzento e pré-histórico. Quando o visitante se aproxima da base do monumento (que Chen nunca visitou durante todos os anos que viveu em Nanchang), pode perceber também por perto as torres gêmeas espelhadas do Bank of Commerce e do Wanda Shopping Mall, com a super-loja de quatro andares do Wal-Mart e todas as suas paredes forradas de anúncios comerciais.

As ruas da região estão cheias de lojas sofisticadas que vendem a moda global e calçados para esportes, em alternância com farmácias chinesas onde ainda se vende bichos da seda desidratados servindo de complemento alimentar. A música pop de Hong Kong ruge estridente das entradas das lojas, enquanto garotas com penteados da moda e vestindo casacos de pele cor-de-rosa se encontram num restaurante da rede Kentucky Fried Chicken. Ali por perto há mendigos seminus arrastando seus corpos dilacerados, largados e de cara para a sarjeta.

Assim como Chen, os elegantes de Nanchang não têm idéia de quem foi o líder Zhou Enlai. Eles também só ouviram falar de Mao de passagem. Para eles, "comunismo" e "partido" não passam de duas palavras, e expressões como "economia socialista de mercado" são conceitos que consideram de difícil compreensão, ali sentados no Café C Straits, bebendo seus "latte macchiatos" e contemplando o lago da cidade, onde os cidadãos mais velhos ainda ficam perfilados todas as manhãs executando seus exercícios de Qi Gong, como sempre o fizeram.

Em busca de uma vida melhor

Chen tinha 18 anos quando foi pela segunda vez de sua pequena aldeia para Nanchang. Menos de seis meses depois de largar seu trabalho na fábrica de tapetes, ela decidiu tentar a vida mais uma vez, em busca de uma nova vida. Dessa vez encontrou trabalho como ajudante de cozinha no restuarante Xia Mi Fu, ganhando 40 yuan (equivalente a cerca de R$ 10), com direito a refeições e um lugar para dormir perto da cozinha - e de contrapeso aguentando todo o fedor de gordura frita entranhado nos colchões enquanto dormia.

Após oito semanas ela foi promovida a garçonete, ganhando 280 yuan (pouco mais de R$ 70) por mês, mas considerava o trabalho fácil e o chefe era boa gente. Chen trabalhou no restaurante pelos três anos seguintes, carregando pratos, servindo chá verde e conduzindo o carrinho com as opções do dim sum (rodízio de comida chinesa), mas persistia nos sonhos. Ela queria mais, queria uma vida melhor. Xi Mei, a boa e bela, pensava consigo mesma - merecia mais que a vida de uma escrava. E para atingir seus objetivos, há 13 anos ela partiu para uma jornada longa e árdua.

Ela levou dois dias para sair de Nanchang e chegar a Macau, uma viagem através de planícies, em torno do delta do Rio da Pérola e através de um mundo de fábricas, por uma interminável zona industrial e fumegante, um lugar que é a própria antítese da Europa envelhecida e de economia debilitada. Por aqui o que se discute é se o crescimento - tanto o econômico quanto o populacional - pode de alguma forma ser contido. Xi Mei viveu uma jornada através de uma terra que raramente vê o sol ou um céu azul, onde a umidade e a poluição se combinam para formar uma camada tão espessa como a formada pela fumaça de charutos.

Chen não está preocupada quantoàs perguntas que a família poderá fazer. "Eles não irão perguntar nada", ela diz, "na China ninguém faz perguntas". Mas será que eles não vão querer saber como é a vida em Macau? "Eles acreditam que eu fui para lá em busca de trabalho. E não é da conta de ninguém se eu fui para lá para jogar ou não."

A viagem de Nanchang até Xishan, numa minivan de oito lugares onde estão onze passageiros, leva cerca de uma hora. Nesse percurso observa-se uma paisagem que lembra aquelas típicas imagens de espaços abertos dos Estados Unidos, com os vastos domínios das lavouras da China oriental se estendendo por ambos os lados da estrada, com infinitas subdivisões de lotes coloridos conforme as cores dos arrozais.

Chen tentou começar vida nova nessa região umas três vezes, primeiro na fábrica de tapetes, depois como garçonete e finalmente como esposa. O marido era 17 anos mais velho, recebia dinheiro de origem polêmica e vivia num bom apartamento com quintal na rua Zhong Shan, no centro de Xishan.

Ela e o marido tiveram uma criança, Tsen Xin (Dois Corações), mas quando Chen estava no quinto mês de gravidez o marido, notório assaltante, foi detido e enviado a uma penitenciária. Ela tinha apenas 24 anos na época, e já havia falhado em sua terceira tentativa de emplacar uma vida nova fora da aldeia natal. Chen Xi Mei não estava pronta para a criança, que era considerada ilegal por não estar registrada nem ter sido aprovada por qualquer agência governamental. Na verdade, Chen e o assaltante nem estavam registrados como um casal, o que é um pré-requisito para adultos que formam casais na China. Ela se viu diante de um vazio existencial, amaldiçoando tanto a criança quanto o homem que não amava.

Mas havia algo sobre o pai da criança que fascinava Chen. Ele conseguiu enriquecer jogando dados e um pôquer proibido, e tudo isso basicamente sem levantar um dedo sequer. Na época - há uns cinco ou seis anos - Chen ficou fascinada com a idéia de que talvez houvesse um jeito mais fácil de ganhar a vida na China sem ser pelo trabalho pesado. Logo depois ela decidiu tentar seu atalho para felicidade.

Na última etapa de sua viagem para a aldeia natal, praticamente na hora final da jornada, Chen caminha conduzindo sua mala de rodinhas em direção a Zeren Zun. Vista a distância, a aldeia natal de Chen parece um ponto empoeirado no horizonte. Uma estrada cheia de curvas leva a Zeren Zun, pelas colinas rurais pontilhadas de pequenos sítios. Ao longo da estrada, homens jogam cartas sentados diante de rústicas mesas de madeira, ,agricultores vestindo bonés e velhas fardas do exército passam de bicicleta e pedaços de carne bovina secam em varais improvisados.

O partido publica seus lemas em todas as paredes mas, ao contrário do que se via na propaganda dos tempos em que Chen era criança, o enriquecimento pessoal não está mais no foco dos slogans, que agora comandam: "Honrem suas filhas! Estamos firmando uma nova tradição!" "O controle da natalidade é responsabilidade de cada um!" "Os tempos estão mudando - meninos e meninas são iguais!"

Mas nada disso está impressionando de verdade o povo chinês. A verdade é que meninas e mulheres que vieram ao mundo na China rural são verdadeiras sobreviventes. Chen se refere a uma amiga que foi obrigada a interromper três gestações porque a imagem do exame ultrassom não mostravam que ali estava o ansiado bebê masculino. Nascem apenas 87 meninas para cada 100 meninos nascidos na China. A proporção é ainda mais desequilibrada nas províncias do interior, onde vivem 800 milhões de pessoas, bem distantes da nova vida efervescente em Shanghai e Beijing. São pessoas que labutam em arrozais e vivem em choupanas, condenadas a um mundo semelhante ao passado, infinito e atemporal.

O último trecho do caminho atravessa arrozais e Chen de repente mergulha em seu silêncio. Ela parece nervosa ao entrar na aldeia natal, e no final das contas é quase como se estivesse mesmo esperando perguntas desconfortáveis. Na única rua do pequeno vilarejo, pouco mais que uma estrada de terra coberta por detritos, crianças brincam com porcos e galinhas, depois correndo num bando de 30 ou 40 que inclui apenas cinco ou seis garotas. Alguns dos meninos têm doenças na vista. A pequena multidão acompanha Chen até a casa da família dela, escondida atrás de outras casas. Para chegar na casa, que é pouco mais que uam grande choupana com um teto bem precário, é preciso atravessar áreas residenciais de outras duas casas e dois pequenos quintais. Mas quando Chen chega, é como se ela nunca tivesse saído dali.

O irmão dela está sentado sobre uma caixa e mal olha para Chen entrando em casa. A mãe rapidamente ergue a cabeça lá da cozinha onde está, um cômodo de paredes escurecidas onde um fogaréu esquenta um panelão "wok" do tamanho de uma banheira. Uma das sobrinhas de Chen dança pelo quarto, sorrindo porém mal prestando atenção na tia que acabou de chegar. Ninguém faz perguntas. Como foi por lá? Como é Macau? Como você está? Quem são esses estrangeiros com você? Mas Chen não parece surpesa com a recepção e mais tarde diria que as pessoas são assim mesmo na aldeia. "Você chega, você sai", ela dirá, "e é assim que as coisas funcionam na China há uns mil anos. E nesse tempo todo, todo mundo vive desse jeito."

O irmão arranja outras caixas para servirem de assento. Não há uma cadeira sequer na casa, nem mesmo um banco. Galinhas ciscam ao redor da mesa, acompanhadas por gatos e pequenos cães. O ambiente em parte é uma sala e em parte é um celeiro. Duas pequenas portas dão para os dormitórios. Nas placas pintadas sobre as portas está escrito: "Que a estrela da boa sorte brilhe sobre você."
O pai de Chen morreu há um ano de câncer na tireóide. O mausoléu que a família construiu em memória do patriarca - um altar do tamanho natural de um homem, aproveitando remendos de bonecos, papel laminado e colorido - ainda está num canto da casa. Chen ficou sentada por ali durante três meses, velando o pai que ela amava e orando para nebulosas divindades taoístas que conhecia dos programas de televisão.

Desconforto em casa

Ela parece se contentar com o fato de que pelo menos o filho dela a saúda com entusiasmo, se ajoelha diante dele e envolve a cabeça do menino com suas maõs. Depois ela corta as unhas dele com tesouras curtas e enferrujadas. O irmão dela fala sobre os dois acres e meio de terra onde cultiva arroz, que ele vende ao governo. Os rendimentos anuais totais da família são de cerca de 10.000 yuan (equivalente a R$ 2.600), quantia que deverá servir para sustentar seis ou sete pessoas. Chen, entediada pelas histórias do irmão, fica inquieta, de repente se levanta e diz: "Agora vou lhe mostrar o poço."

Fica a apenas 100 passos da casa, no final de uma trilha perfilada por esteiras para secar grãos de arroz e por canaletas entupidas com água verde parada. A aldeia não tem sistema de esgotos nem descarga nos banheiros nem coleta de lixo. Chen espreita o poço, local onde antigamente ela brincava com as duas irmãs e o irmão. Aquele canto também é o lugar onde ela jurou para si mesma que não ficaria em Zeren Zun e que deixaria tudo para trás, inclusive o próprio filho, para finalmente e de uma vez por todas encontrar a fortuna em Macau.

Mas ninguém na vila jamais saberá como ela se virou em Macau. Ninguém saberá como foi que ela perdeu o dinheiro que levou para a cidade, 9.800 yuan (quase R$ 2.500), quase tanto quanto o irmão dela fatura num ano inteiro em seu arrozal e na construção civil. Ela ganhou esse dinheiro durante seis meses que ficou em Zhuhai, primeiro num salão de manicures, depois em casas de massagem. Mas eram casas de massagem mesmo, ela insiste, não eram bordéis. Além disso, ela mesmo conclui que aos 30 anos estaria muito velha para o negócio sexual. Nenhum cafetão iria querê-la, porque os solteiros chineses preferem garotas a mulheres - e quanto mais jovens melhor para eles.

Chen entrou em Macau dia 5 de janeiro, com um visto de trânsito válido por 37 dias. Ela foi diretamente ao Lisboa, um grande prédio escuro com corredores estreitos formados por mesas de Black Jack. O cassino tem teto baixo e ambientes decorados em imitação barroca com paredes cobertas de papel de parede escuro, dando ao lugar a aparência de um templo subterrâneo. E ela foi apostar justamente nesse Lisboa, onde nos andares de cima uns VIPs meio suspeitos e apostadores da pesada balançam fichas valendo milhões.

Sorte passageira

No começo ela até foi bem. Nas mesas de dados foi jogar "Big Numbers, Little Numbers", um joguinho infantil na base do dobro-ou-nada. Foi se aproximando da mesa de jogo devagarinho, sabiamente fazendo as apostas para depois de uma hora coletar o que ganhou. Em seguida ela andou pelo cassino para pegar umas dicas, observando o jogo dos outros. Já pelo segundo dia ela havia dobrado o dinheiro para quase 20.000 yuan - quantia que um agricultor levaria dois anos para conquistar mas que ela faturou em poucas horas. Comandando o jogo e se sentindo com sorte, ela andava pelos corredores como se flutuasse, perguntando a si mesma como alguém poderia ser tão bobo a ponto de precisar trabalhar para viver.

Ela nem prestou atenção nos fumantes compulsivos com suas mãos nervosas, rostos aparvalhados de tanta falta de sono, e ignorou os perdedores e o jeito deles de andar desorientados pelo local de incessante atmosfera noturna. Em vez disso, ela ficou prestando atenção nos homens que desciam dos andares superiores. Eram homens que usavam ternos caros, entrando em limusines e apostando milhões - prefeitos apostando o dinheiro arrecadado por seus municípios e playboys da cidade arriscando fortunas suspeitas, ombro a ombro com vários tipos do submundo. Chen os admirava à distância, extasiada pelo sucesso deles, pelo aroma de dinheiro e de sorte - e ela então se sentia mais perto deles do que dos perdedores.

Mas a sorte dela virou lá pelo quarto dia. O dado indicava os números menores toda vez que ela apostava nos números maiores. E quando, num relance, ela conseguia prever pares de cinco e seis, os números saíam descombinados. Ela perdeu muito dinheiro no Sic Bo, um velho jogo de azar chinês, e perdeu tanto que decidiu mudar para as cartas, jogando bacará e "pontoon". Quando se deu conta de que estava perdendo dinheiro no Lisboa, Chen mudou para o Tsai Shen. Mesmo assim continuou perdendo.

Aí resolveu entrar no reluzente Sands, o primeiro cassino que um cidadão americano conseguiu construir na China sob autorização especial, estabelecimento que apresenta shows e com uma galeria na sobreloja apresentando restaurantes temáticos, que servem de tudo aos novos ricos chineses, de pizza a comida portuguesa. Enquanto isso, lá embaixo, Xi Mei apostava sua própria vida.

Quando já era a noite do quarto dia, 8 de janeiro, ela ainda tinha 2.300 yuan (equivalente a cerca de R$ 600). Ela reservou uns 300 yuan, como se já soubesse o que iria acontecer. Primeiro jogou com fichas de 200 yuan, ganhando um jogo para perder outro, num jogo de saldo zero. Num certo momento ela resolveu que já havia tido o bastante. Ela pegou seus últimos 2.000 yuan, o equivalente a quatro meses de salários de um trabalhador chinês, e jogou bacará e "pontoon", apostando tudo o que tinha numa só mão, na mão da banca. Mas a banca perdeu - e quem também perdeu foi a bela e bondosa Xi Mei, abandonada pela sorte e pelo bom senso. Assim foi a primeira experiência dela em Macau.

Gente que vai, gente que vem

É noite na aldeia e a mãe de Chen Xi Mei já vai servir o jantar - uma galinha cozida, aquele mesmo animal que agora há pouco ciscava pela sala da família. Essa é a refeição especial para a filha e para os estranhos que vieram com ela. Mas Chen decide sair. Ela diz que quer voltar para Xishan e depois viajar para Nanchang, diz que não pode ficar aqui, não nessa aldeia. Ela se levanta e se retira antes mesmo de a família se levantar da mesa. "A gente chega, a gente vai", diz Chen, arrastando a mala que segue atrás dela feito um cãozinho fiel. "E é assim que todo mundo vai vivendo."

No dia seguinte ela volta ao Café C Straits. Vestida para a ocasião, ela bebe água quente e come uma pizza Hawaii no café da manhã. Ela só consegue falar sobre Macau, sobre os planos que tem para conseguir dinheiro o bastante para comprar um visto de negócios, um visto que lhe permita ficar em Macau. Ela fala que irá fazer muito dinheiro da próxima vez, com trabalho e com os dados, e diz que irá encontrar sua fortuna por lá. Mas ela sai do café de maneira tão repentina como entrou. Chen se vira sem dizer nada e se afasta, desaparecendo rapidamente na multidão lá fora. A essa altura parece que será impossível reencontrá-la, mas o simbolismo de sua retirada é enganador - ela ainda contará seu próprio epílogo.

Dois meses depois, dia 15 de março, ela ligou de Macau. Diz que conseguiu triunfar. E no dia 28 de março, ela passa pela porta de vidro do restaurante taiwanês de sopas, sob o viaduto perto do Cassino Lisboa. Parece diferente. Seus lábios estão pintados de vermelho vivo e as sobrancelhas com sombra verde. Ela veste uma imitação de casaco de peles com listras, botas de cano alto e novos jeans, e tem tanto gel no cabelo que esse parece bem úmido. Sorri diante de uma insinuação e diz: "Não é o que você está pensando. É ainda melhor." Ela se curva toda coquete, como se fosse uma garota apaixonada, flertando e fazendo de tudo para adiar o relato de sua história verdadeira.

Ela não foi capaz de arrumar o dinheiro necessário para o visto de negócios. Ela diz até ter tentado fazer as pazes com o pessoal da aldeia natal em mais uma volta para casa, teria até ajudado no transporte da água do poço e no trabalho de secagem do arroz nas esteiras de pano. Mas o ódio que sempre sentiu pela vida antiga, o ódio pela sujeira e pela escuridão do lugar...tudo isso ficou martelando em sua mente. Após esse último retorno à aldeia, Xi Mei, a boa e bela, logo se viu sonhando novamente com uma vida melhor, uma vida sem sua criança mas também sem aflições, uma vida cheia de luzes, amor e dinheiro.

Conta que então novamente pegou o ônibus em Nanchang e que durante a viagem de 16 horas mais uma vez vomitou nos pequenos sacos de plástico que carregava. Mas dessa vez nem passou tão mal assim, porque encontrou um novo tipo de pasta dental com ervas para esfregar nas têmporas. Ela tinha apenas alguns poucos yuan nos bolsos, mas mesmo assim foi para Macau cheia de esperanças. Assim que voltou para Macau, encontrou um jovem casal de Jiangxi. O casal conhecia algumas pessoas de Hunan que estavam interessadas nas habilidades e na experiência de vida de Chen. Eles a convidaram para um jantar, onde viriam a encontrar muitas pessoas e onde todas as conversas giravam em torno de dinheiro, apostadores, cassinos e perdedores.

Feita em Macau

A tal turma de Hunan conseguiram um quarto para Chen num apartamento, onde ela tem vivido com outras pessoas. Como retribuição, ela só precisa desempenhar uma tarefa simples. Agora passa as noites andando pelos cassinos de Macau - o Lisboa, o Sands e o Tsai Shen - trabalhando das quatro da tarde até às três da manhã. Ela circula pelas mesas de olho nos perdedores, nos perdedores desesperados, pessoas que se encontram na mesma posição em que ela já se viu uma vez - necessitadas de dinheiro rápido.

Aí Chen leva essas pessoas para um encontro com a turma de Hunan, que decide então se irá ou não emprestar o dinheiro. Quando eles aprovam o empréstimo, Chen recebe dez por cento de comissão. Xi Mei, a boa e bela, que há quatro meses nem sabia o que era o jogo Black Jack e que já chegou a acreditar que 10.000 yuan era um bocado de dinheiro, agora é o menor peixinho no mar de tubarões agiotas de Macau. Ela nega que essas pessoas integrem a Máfia. Afinal de contas, os interessados estão necessitadas e querem o dinheiro. E se eles não conseguirem pagar seus empréstimos? Há outras pessoas que cuidam disso, ela diz, mas admite que não tem idéia sobre o que elas fazem exatamente. Ela cruza os braços, como se quisesse dar um basta nas perguntas, faz uma expressão irritada e olha pela janela.

"Agora eu estou bem", ela diz. Ela nunca mais terá que voltar à aldeia natal. "Agora eu estou em Macau, você compreende? Em Macau!" Ela bebe água quente. São quatro da tarde e é hora de ir para o trabalho. O turno de Chen Xi Mei já vai começar, entre as mesas de apostas, no Lisboa e no Sands. Marcelo Godoy

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